Olhar com olhos de ver – sete

TESTE

Como vem sendo costume, ainda por algumas oportunidades, aqui fica mais um desafio da família que tem vindo a ser abordada, recuperando velhos passatempos de décadas. Ao contrário de encontrar algumas diferenças entre desenhos iguais, aqui a proposta é inversa: encontrar algumas semelhanças (exctamente sete) entre dois desenhos diferentes.

Aqui fica o desafio de hoje, se lhe apetecer resolvê-lo. Não há prémios, excepto a íntima satisfação de saber olhar com olhos de ver. Se não for capaz, daqui a dias terá a resposta à sua disposição.

teste 3

Mais grau menos grau…

juiz d

SENTENÇA COM UM GRÃO NA ASSINATURA
ou O GRAU ZERO DA JUSTIÇA

A notícia não faz parte dos conteúdos informativos do 1.º de Abril, mas parece.

O Tribunal da Relação do Porto obrigou uma empresa a reintegrar um trabalhador da recolha do lixo, seu funcionário, que tinha sido despedido por se encontrar alcoolizado em serviço.

Até aqui tudo poderia ser normal. Poderia.

Embora a questão tivesse envolvido um acidente de viação, com o camião conduzido por um colega do despedido, também alcoolizado, e a empresa tivesse considerado o comportamento do seu funcionário gravoso para a imagem pública da organização, poderia ter acontecido um qualquer erro processual que conduzissse à anulação da pena. Poderia. E até parece que houve.

Portanto poderia tudo continuar a ser normal. Poderia.

Onde a normalidade parece perder-se sem remédio, salvo um qualquer melhor entendimento, é nos termos verbais e nos conceitos “jurídicos” expressos pelos senhores desembargadores.

Cito expressamente as transcrições patentes na imprensa de ontem, com toda a reserva em relação à interpretação de frases retiradas do seu contexto. Mesmo assim, com esta atenuante, os termos e os conceitos baralham um pouco qualquer normal espírito curioso.

Os senhores juízes entenderam que os resultados das análises ao sangue nunca poderiam ter sido usados pela entidade patronal sem autorização do trabalhador. Por outro lado, alegam os magistrados, não existe na empresa qualquer norma que proiba o consumo de álcool em serviço. Por isso, pedagogicamente, antecipam-se à firma,  aconselhando-a a limitar esse consumo a 0,5 g/litro, “para evitar que os trabalhadores se despeçam todos em caso de tolerância zero“. Recorde-se que o grau de alcoolemia revelado pelo trabalhador despedido foi de 2,3 g/l e o do seu colega condutor de 1,79 g/l.

Recordemos as alterações ao Código da Estrada aprovadas pelo Conselho de Ministros em Fevereiro deste ano:  limitação da velocidade a 20 quilómetros por hora em algumas zonas residenciais e redução a taxa de álcool para condutores profissionais e recém-encartados. Segundo a proposta de lei, a taxa de álcool vai ser reduzida para 0,2 gramas por litro de sangue para os condutores em regime probatório e de veículos de socorro ou de serviço urgente, de transportes colectivos de crianças, táxis, automóveis pesados de passageiros e de mercadorias perigosas. Com tal alteração, os condutores vão passar a ser multados quando apresentarem uma taxa de álcool igual ou superior a 0,2 gramas por litro de sangue.

Registem-se, pois, estas flagrantes contradições…

Continuam os senhores desembargadores o seu judicioso veredicto: “Vamos convir que o trabalho não é agradável. Com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos“. E acrescentam que não houve qualquer indício de que o homem estivesse a recolher lixo “aos tombos e aos pontapés aos resíduos, murmurando palavras em língua incompreensível“. Fazem ainda notar que não há nas nossas leis laborais “nenhuma exigência que faça com que o trabalho não possa ser realizado com o trabalhador a pensar no que quiser, com ar mais satisfeito ou carrancudo, mais lúcido ou, pelo contrário, um pouco tonto“.

Juro que transcrevi, “ipsis verbis”, o que a imprensa de ontem revelou sobre a magna decisão dos senhores desembargadores portuenses.

Creio que daqui se podem retirar diversas conclusões, todas interessantes e altamente didácticas. A primeira, e bem a propósito, será a de restaurar a velha máxima dos tempos da outra senhora: beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.

Toca a arrancar pomares e a arrasar hortas, para plantar vinhas, mais vinhas. Para já, criam-se postos de trabalho e reduz-se o desemprego; a curto prazo, se todos bebermos de forma compatível com as expectativas, seremos capazes de dar de comer a uns milhões de portugueses que poderão, eventualmente, continuar desempregados, mas com a barriga cheia. Anote-se que convém começar desde já a praticar, pois, com álcool no bucho, não seremos bons apenas a remover alegremente os frigoríficos e outros electrodomésticos mas também os pomares e as hortas que importa destruir em nome dos bacelos a implantar. Além de que ninguém será visto a pontapear os troncos das árvores ou os tronchos das couves e muito menos praguejará em língua estrangeira. Mas estaremos, provavelmente, autorizados a berrar PORRA!, que é português e bem vernáculo…

A sequência lógica desta operação será a de criar uma nova imagem para o país. Talvez não seja necessário mudar de nome, apenas de bandeira e de hino. Quanto àquela, bastará substituir o vermelho e verde por branco e tinto, em vez de esfera armilar pode ser o fundo dum copo, que também é redondo, com uns garrafões por castelos e alguns bagos de uva por quinas. Sobre o novo hino, na actual panóplia, creio que entregar a sua redacção e interpretação a Mário Mata será adequado. Como moeda, pode ficar o neurológico.

Constituindo um pormenor significativo, registe-se que as brigadas de fiscalização de trânsito serão devidamente controladas. Cada agente só sairá para a estrada depois de ter sido comprovado que acusa, no mínimo, 0,5 g/l de álcool no sangue. Quanto aos bares e discotecas, serão isentas de direitos todas as bebidas espirituosas aí consumidas, sendo severamente agravada a taxa de IVA sobre a água e seus derivados, a fim de desincentivar a sua ingestão…

Outra conclusão -esta mais indirecta mas também legítima- é a que explica a produtividade dos nossos trabalhadores, incluindo na primeira linha os da função política, legislativa, governativa, autárquica, executiva, etc. O trabalho, como se ficou sabendo, pode ser realizado com o trabalhador a pensar no que quiser. Deve ser precisamente por isso que o nosso primeiro-ministro ou o nosso chefe-de-estado falam de um país que não é o nosso, se gabam de feitos que nunca executaram e prometem coisas que jamais cumprirão, mas tudo dito com um ar muito satisfeito e sempre um pouco tonto…

Está portanto tudo muito bem explicado.

E digam lá que a jurisprudência não é uma coisa boa e útil, sobretudo metendo o “bafómetro”, como lhe chamam os nossos irmãos brasileiros…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Nota complementar – Em homenagem a todos os protagonistas do etílico episódio, aqui se recorda uma adequada canção de arquivo, com Camilo de Oliveira e a inesquecível Ivone Silva..

 

 

Olhar com olhos de ver – quatro

TESTE

Aqui se apresenta a solução do problema (ou teste) de observação comparada proposto no dia 21.

Novamente se reproduz a resposta inserida na época, completando-a, para melhor esclarecimento, com a indicação gráfica das sete semelhanças. Daqui a dias, publicar-se-á outra charada.

Renovo o desafio: seja qual tenha sido o resultado obtido pelos leitores que enfrentaram (ou resolveram!) mais esta questão, aqui fica o incentivo para a próxima.

Verão é Verão!

teste 2 solução

Olhar com olhos de ver – três

TESTE

 

Continua o Verão, à espera de melhores dias, que confirmem a expectativa de um tempo seguro e próprio da época, à margem das partidas meteorológicas que quase fizeram carreira.

Como prometido, independentemente de ter despertado algum interesse a anterior proposta, como nesta página mando eu, aqui vai outra charada.

Relembro que o desafio consiste em encontrar sete semelhanças -semelhanças!- entre dois desenhos diferentes, portanto rigorosamente ao contrário da tradicional pesquisa de algumas diferenças em desenhos aparentemente iguais.

Vou hoje reproduzir mais uma proposta deste tipo, com umas décadas de vida em relação à publicação original…

 

teste 2

 

Daqui a dias, aqui estará a solução.

 

 

Olhar com olhos de ver – dois

TESTE

Aqui se apresenta a solução do problema (ou teste) de observação comparada proposto no dia 13.

Reproduz-se a resposta inserida na época, completando-se, para melhor esclarecimento, com a indicação gráfica das sete semelhanças. Daqui a dias, publicar-se-á nova charada, tal como foi prometido.

Seja qual tenha sido o resultado obtido pelos leitores que enfrentaram (ou resolveram!) a questão, aqui fica o incentivo para nova tentativa.

Verão é Verão!

teste 1 solução

Olhar com olhos de ver – um

TESTE

 

Nestes tempos de Verão, não apetece investir muita energia em coisas sérias.

Já basta o que basta com as desgraças que nos cairam em cima por causa da manifesta falta de qualidade da gente que desde há anos nos tem vindo a desgovernar, com os resultados já à vista fora os que podemos adivinhar nos próximos episódios.

Por isso, e porque tristezas não pagam dívidas (se pagassem já não devíamos nada a ninguém!), deixo aqui uma proposta para ver coisas com outros olhos.

Todos conhecemos uns passatempos do género “encontre as diferenças“, a partir do confronto entre duas imagens (desenhos ou fotografias) aparentemente iguais, apenas se distinguindo em sete ou oito pequenos pormenores. As páginas de alguns jornais e revistas apresentam regularmente propostas deste tipo.

O que hoje aqui se propõe é exactamente o inverso: a partir da observação de duas imagens diferentes, o desafio consiste em achar os pormenores iguais. À primeira vista tudo parece mais ou menos idêntico à proposta tradicional, mas não acontece exactamente assim. Bem pelo contrário.

Agora não existem imagens globalmente idênticas, quase iguais salvo nesses tais pequenos detalhes, surgindo como palco ou terreno de partida (e pesquisa) dois desenhos radicalmente distintos, onde apenas sete pormenores se assemelham. É portanto tudo, ou quase tudo, ao contrário.

Portanto não existem análises parcelares, pesquisas ordenadas por faixas ou zonas, aspectos parciais que saltam por vezes à vista “desarmada”… A lógica terá de ser bem diversa, com tácticas de procura diferentes. Enfim, creio, pela própria experiência, que encontrar sete semelhanças entre dois desenhos diferentes é bem mais difícil e exigente do que achar sete diferenças entre dois desenhos semelhantes.

Vale a pena comprová-lo, concordando ou discordando desta convicção pessoal.

Este tipo de passatempo, que não tenho encontrado recentemente nas páginas da imprensa (não consumo tipos de publicações especializadas em charadas), foi muito divulgado pelos inícios dos já distantes anos 70. A Flama e O Século Ilustrado, os dois semanários generalistas mais populares desses tempos, publicaram desafios gráficos deste tipo, de que aqui decalcarei alguns exemplos.

Eram apresentados como testes à argúcia e ao poder de observação dos leitores interessados e apresentavam mesmo uma espécie de grelha de avaliação dos resultados obtidos, contando cada descoberta como um ponto:

 

7 pontos       – excepcional poder de observação
5 a 6 pontos – bom poder de observação
3 a 4 pontos – razoável poder de observação
1 a 2 pontos – mau poder de observação

0 pontos       – péssimo poder de observação

Estas conclusões valem o que valem e tanto os testes como a grelha estão muito longe de qualquer validação científica. Podemos, prudentemente, deixar as coisas nos domínios da pura diversão e curiosidade como passatempos de Verão…

Vou aqui reproduzir regularmente algumas propostas com mais de quarenta anos. Dois ou três dias depois revelarei a respectiva solução. Tanto os “testes” como as “soluções” são reproduzidos directamente dos respectivos originais publicados nas revistas atrás citadas, pelo que não me cabe qualquer reponsablidade em eventuais “erratas”.

Aqui fica o primeiro.

 

teste 1

 

 

Aos benfiquistas amigos

Ao Mário Casa Nova Martins e a outros benfiquistas amigos

Aqui vai um vídeo, dos muitos que povoam o espaço da Net, sobre o recente desaire do Benfica no Porto.

Escolhi este, porque me parece o mais inofensivo de todos os disponíveis e isto é uma brincadeira. Se escolhesse o de Hitler a comentar o caso ou, pior ainda, aquele onde surgem dois inefáveis locutores do canal Benfica TV “apanhados” no momento fatal do minuto 92, então sim, isso poderia ser entendido como uma provocação, que não é. Para mais partindo dum sportinguista que acabou de viver umas das mais deploráveis épocas na história gloriosa do seu clube, que se arrasta agora pelas ruas da amargura.

O Benfica ainda pode ganhar dois troféus e salvar, nos mínimos, uma época que chegou a ser prometedora e que levou alguns dos seus responsáveis a festejar antes do tempo. Naturalmente, com excepção de um improvável milagre em Paços de Ferreira, o principal objectivo benfiquista esvaiu-se…

A especial dedicatória ao Mário é devida ao facto de ele próprio, no blog que assina, ter assumido a saudável capacidade de ironizar, sucessivamente, a derrota do seu clube, o nacional, já que esta paixão é partilhada com o Desportivo Portalegrense.

Não sei se a cozinheira húngara do filme pertence ao elenco dalguma tasca no Bairro Alto. Provavelmente será mais lógico que trabalhe numa casa de pasto da Ribeira…

Um abraço do António Martinó

PS – Já agora, boa sorte para logo!

É a cultura, estúpido!

É a cultura, estúpido!

A frase que ficou historicamente famosa não é exactamente esta, mas a verdade é que assim, tal como está escrita no título acima, é que costuma funcionar. A autêntica, que lhe deu origem, deve-se a um assessor do ex-presidente Bill Clinton, James Carville, que gritou num comício perante o povo americano “It´s the economy, stupid!“, para apelar ao voto no seu candidato, retirando-o a Bush (pai). E o esquema resultou em pleno.burro

 

Lembrei-me da frase, porque me parece ter sido concebida de propósito para comentar a notícia, recente, de que apenas 44 dos mais de 2300 candidatos a diplomatas passaram à segunda fase do concurso, após uma prova eliminatória de cultura geral, prestada a 20 de Abril. Portanto, matematicamente falando, chumbaram 98% dos examinandos. Noventa e oito por cento, repito por extenso…

Os jornais deram conta de algumas das questões, do tipo teste “americano” de escolha entre respostas múltiplas (4 hipóteses): qual o rei da batalha do Salado; qual o rio não  internacional; qual a nacionalidade do pintor Malangantana; qual a obra não pintada por Leonardo da Vinci, qual o avanço medicinal ligado a Egas Moniz, qual a autora de determinado verso, qual o país não localizado no Corno de África, qual o prémio ganho por Siza Vieira em 1992, qual a localização do Palácio das Carrancas, qual o país de que Schuman foi ministro dos Estrangeiros…

Alguns dos candidatos, certamente pertencentes ao lote dos 98%, divulgaram publicamente a propósito um interessante comentário/desabafo intitulado “As necessidades do Trivial Pursuit“. Aí desvendam e criticam mais algumas questões, sobre “o ADN, a batalha de Alfarrobeira sob estranhos pontos de interesse, as acções familiares de Filipa de Vilhena, qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto, o que é um amigo do alheio, o que significa ser uma pessoa prognata, o que foi o ‘estilo chão’, o que é um cefalópode, quem é que não tem ascendência portuguesa conhecida, quem realizou o ‘Pai Tirano’, qual é a raiz quadrada de 3.141, o que eram os Guelfos e, ainda, uma pergunta sobre Rousseau que envolvia averiguar um romance conhecido deste autor…” Citei.

Um antigo e respeitado diplomata, Francisco Seixas da Costa, emitiu também uma opinião sobre o candente tema. Em suma, ele declara ser óbvio que qualquer diplomata nacional tem de possuir conhecimentos de natureza cultural fora da sua área específica de intervenção. E, depois duma exposição muito bem articulada, e prática, deixa uma interrogação: a de sabermos, de ciência certa, se é através de testes “americanos” e, mais especificamente, dos que foram agora aplicados que se avalia a cultura geral dos futuros diplomatas.

Por mim, serei ainda mais sintético. Tenho aqui ao lado, numa estante, uma colecção completa de “provas de exame de admissão aos Liceus” da década de 40 do passado século. A proposta pessoal consistiria em aplicar tais provas -ditado, redacção, desenho, história e geografia, aritmética e geometria, português e gramática- aos actuais e futuros candidatos à diplomacia.

Tenho a certeza de que as chancelarias, os consulados e outras representações diplomáticas nacionais ficariam vazias por longos anos (à elevada consideração do senhor ministro das Finanças, para efeito de eventuais e consideráveis poupanças nas despesas do Estado).

 

António Martinó de Azevedo Coutinho