ELVAS PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

PARABÉNS, ELVAS !

A notícia é de agora mesmo. Os meios de comunicação espalham a boa nova de que, na reunião em São Petersburgo, o Comité do Património Mundial da UNESCO acaba de aprovar a candidatura da nossa vizinha cidade de Elvas relativa às suas fortificações.

Isto significa que todos os que, ao longo de muito tempo e com significativo esforço, foram capazes de compreender, respeitar e valorizar o raro património militar que Elvas ostenta, todos esses estão de parabéns.

No presente momento de êxito, são os que foram capazes de idealizar a candidatura, de a organizar e de a conseguir impor aos exigentes critérios internacionais, são igualmente esses que têm o direito de aceitar a sincera congratulação colectiva.

Elvas possui a maior fortificação abaluartada do mundo, um bem cultural construído e hoje reconhecido como valioso e merecedor de protecção e de admiração. Esse impressionante conjunto, cujo início remontará aos inícios da nacionalidade, possui um perímetro de oito a dez quilómetros e abarca uma área de 300 hectares. Todas as fortificações interiores da cidade, os dois fortes exteriores -Santa Luzia (séc. XVII) e Graça (séc. XVIII)-, mais três fortins do século XIX, as três muralhas medievais e a muralha, mais recente, do século XVII, são complementadas pelo imponente aqueduto da Amoreira.

Não deve admirar que os especialistas tenham reconhecido a este conjunto um símbolo do valor universal excepcional tal como é exigido para uma aprovação com tal importância. Não deve ser esquecida, em circunstância alguma, a competência e a persistência de todos os que fizeram conduzir o complexo e moroso processo a este feliz resultado.

Esperamos que, motivado por este merecido êxito elvense, também Marvão saiba encontrar o caminho certo para a justa promoção do seu próprio e valioso património.

UMA PONTE SOBRE O MAR

UMA  PONTE  SOBRE  O  MAR

A notícia, muito grata, chega do outro lado do Atlântico, do Brasil irmão.

Quem conhece os laços que ligam esta Portalegre de cá à Portalegre de lá, pequena, orgulhosa e progressiva cidade cravada nas altas serras potiguares, para além dos sertões do Rio Grande do Norte, quem conhece esses laços sabe bem o que significam as lições da História. Prolongamento para além do mar do nosso próprio ADN toponímico, foi um alentejano ali destacado ao serviço d’El Rey de Portugal, que concedeu à terra então nascente, por finais de 1761, o nome que levava no coração.

Em função, e no prolongamento, das surpreendentes coincidências que a História comum nos revela -esse Juiz de Fora era meu pentavô- sou hoje cidadão de ambas as Pátrias. Por isso, desse Brasil imenso do qual conheço fascinantes recantos, tudo o que lá me chega dispõe de uma carga onde os afectos contam de forma incontornável..

Agora, esse agradável peso supera o habitual. Traz como “sobretaxa” o mundo fascinante dos quadradinhos e, neste universo encantado, o seu máximo expoente: Tintin!

De há anos conheço, frequento e aprecio aquele que considero um dos mais completos, informados e apaixonados testemunhos públicos sobre a obra de Hergé – o blog brasileiro Tintim por Tintim (http://www.tintimportintim.com/), assinado por Pedro Britto, verdadeira autoridade no tema.

Agora, na página de facebook ligada a tal blog, foi noticiada, em termos lisonjeiros, a existência do Largo dos Correios, a propósito da publicação do corrente estudo sobre O Lótus Azul.

A Pedro Britto, companheiro de jornada nesta pacífica mas empenhada campanha na defesa do mundo mágico de Tintin, quero daqui enviar um abraço de gratidão e de homenagem, na certeza de que a sua iniciativa provocará uma desejável difusão desta presença portalegrense portuguesa no Brasil irmão.

Obrigado.

António Martinó de Azevedo Coutinho – Largo dos Correios

O LÓTUS AZUL – III

III – O Lótus visto por dentro

Pode começar-se a análise d’O Lótus Azul, desde já, pelos aspectos mais imediatos da obra: o título e a imagem de marca, depois transformada em capa.

A estratégia encetada por Hergé na construção desta aventura assenta na recolha e no tratamento de informação credível. Pois tanto o título como a imagem a este associada, referências emblemáticas, correspondem ao novo rumo seguido pelo autor. Foi no cinema da época que ele colheu inspiração e modelo, provavelmente antes do encontro com Tchang.

Dois filmes norte-americanos com forte conotação chinesa forneceram os tópicos adequados: A Filha do Dragão (1931), realizado por Lloyd Corrigan e interpretado por Anna May Wong e Warner Oland, e O Expresso de Shanghai (1932), de Josep von Sternberg, com Marlène Dietrich, Anna May Wong, Clive Brook e Warner Oland. As imagens projectadas, ainda a preto e branco, revelaram um dragão ameaçador e simbólico assim como a designação dum bar, clandestino local de encontros, trocas e outros negócios: Blue Lotus

 

O dragão, usado no ocidente como uma espécie de emblema nacional da China, não dispõe aí deste uso. No entanto, a partir da dinastia Qing, apareceu em bandeiras nacionais, pelo que a conotação é suficientemente forte para justificar a escolha de Hergé, que também usa o dragão como frequente motivo decorativo. Quanto à expressão Lótus Azul, referindo uma flor sagrada dos rios, desde a civilização egípcia, que até dispõe de efeitos considerados narcóticos e mesmo alucinogénicos, que mais adequada designação poderia Hergé encontrar para a sua nova história?

Resolvidas com êxito as questões do título e da imagem de marca, entregou-se o autor a uma sistemática pesquisa sobre os conteúdos relativos ao contexto geográfico, histórico, humano e cultural do país onde ia situar a trama do seu trabalho. Já então o escultor Tchang lhe prestaria um inestimável serviço a que hoje chamaríamos de assessoria técnica, onde uma viva inteligência, uma vasta cultura e uma rara sensibilidade estética lhe permitiram a comunhão dos interesses e objectivos em causa, numa crescente cumplicidade recíproca. Consta que Hergé, reconhecido, terá mesmo admitido que o seu amigo chinês co-assinasse o produto final do trabalho, em função da justa avaliação pessoal do contributo de Tchang. Tal não chegou a acontecer, mas a inclusão duma personagem, um jovem chinês de nome Tchang Tchong-Yen (que coincidência!) com decisiva influência no relato, revela de forma indiscutível os gratos sentimentos de Hergé.

Parte significativa dos arquivos do autor estão hoje disponíveis, pelo que se tornou possível apreciar a documentação pesquisada e a sua transcrição (ou adaptação) para as vinhetas da história. Eis alguns interessantes exemplos desta relação:

 

Tornar-se-ia exaustivo prolongar por hoje a descrição, embora sumária, de alguns dos exemplos patentes na obra de Hergé. Continuaremos esta interessante referência ao respeito pelo rigor documental, que até então desprezara ou confundira no seu labor, sem no entanto esgotarmos toda a abundante panóplia colocada à nossa disposição. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

Anexo 3 – Fica hoje concluída a apresentação de O Lótus Azul, numa sua adpatação para cinema de animação, em versão dobrada no português do Brasil.

IN MEMORIAM – ERNESTO DE OLIVEIRA

 O facto de ter há pouco aqui lembrado um cidadão notável, que conheci, com quem privei ea quem admirava -o Dr. Ernesto de Carvalho Oliveira- levou-me a solicitar a um dos seus maiores amigos, o Dr. Florindo Sajara Madeira, que elaborasse um texto que melhor o pudesse recordar. Ele, com naturalidade, respondeu-me que não seria capaz de o fazer com mais autenticidade do que quando, pouco depois da sua morte, sobre ele escreveu um sentido testemunho de lembrança e homenagem. Com a natural amizade que nos une, o Florindo autorizou-me a que aqui reproduzisse tal texto. O Largo dos Correios sente-se assim duplamente honrado, por evocar um homem invulgar pela pena de um ilustre portalegrense.

O meu amigo Ernesto 

Em 24 de Setembro de 1998, faleceu, após implacável doença, em Lisboa  onde residia e exercia a sua actividade profissional, o meu amigo Dr. Ernesto  de Carvalho Oliveira. Nascido em 10 do Julho de 1927, em Póvoa-e-Meadas, concelho de Castelo de Vide, distrito de Portalegre, frequentou nesta cidade   o Liceu e posteriormente veio a licenciar-se em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa.
Após ter exercido diversas actividades profissionais ligadas ao  Direito (foi Magistrado do Ministério Público, exerceu funções profissionais ligadas ao trabalho prisional no âmbito do Ministério da Justiça e foi Conservador do Registo Civil em Nisa), veio a fixar-se em Portalegre,   exercendo nesta Comarca durante vários anos a advocacia, até à sua saída para   Lisboa, em 1968, onde à data do seu falecimento vivia e trabalhava.
Manteve, contudo, durante toda a sua vida uma profunda ligação ao  Alentejo, à sua terra natal e às suas gentes.
E em Póvoa-e-Meadas veio a ser sepultado no dia 25 de Setembro de 1998, acompanhado pelos seus inúmeros amigos e conterrâneos, num dia  cinzento em que a chuva – associando-se à dor de todos nós – nos acompanhou todo o tempo.
Embora tivesse sido colega e amigo, no Liceu de Portalegre, de seus irmãos Américo e Amílcar (este também prematuramente desaparecido), só conheci pessoalmente o Ernesto quando, em 1961, regressei a Portalegre para   iniciar a minha actividade profissional, então como subdelegado do Procurador da República e posteriormente como advogado.
Exercendo já há alguns anos o Ernesto de Oliveira a advocacia em   Portalegre, era considerado – como sempre o foi – um grande advogado, de  elevada craveira,  competência e   reconhecidos méritos jurídicos.
Espírito inteligente, aberto, crítico e perspicaz, com hábitos de trabalho de grande rigor, ouvindo-o quer no seu escritório, quer na barra do Tribunal, ficávamos imediatamente com a exacta dimensão da sua elevada  estatura de jurista rigoroso e competente, sempre disponível para ajudar e  esclarecer com os seus conselhos e as suas críticas pertinentes os demais  colegas.
Aliava, a estas suas capacidades profissionais, invulgares qualidades  humanas de justiça social e de empenhamento cultural e político.
O Ernesto era uma pessoa simples, afável, simpática, de fácil   convívio, bom conversador, com sentido de humor e gosto de viver e que   privilegiava, acima de tudo, a amizade.
Observador atento ao que se passava à sua volta, sempre defendeu  intransigentemente a democracia e a liberdade vivendo com emoção e alegria o  25 de Abril, sem nunca os ventos contraditórios soprados dos vários  quadrantes o terem conseguido vergar ou modificar.
Não fugia, nunca, aos desafios fosse em que campo fosse.
Estava sempre disponível para ajudar os outros e todos nós, os seus  amigos, sabíamos que podíamos sempre contar – em todas e quaisquer  circunstâncias – com seus conselhos, a sua ajuda, a sua solidariedade.
Nunca vi o Ernesto recusar a sua ajuda a quem quer que fosse.
Soube, portanto, o Ernesto estar da maneira certa na vida.
E esta sua atitude perante a vida, aliada às suas qualidades pessoais e humanas, granjeou-lhe a estima, a admiração e a amizade de todos quantos com ele privaram e que, com a sua morte, se sentiram – e ficaram – mais sós.
Foi, pois, em Portalegre que a nossa amizade nasceu e se consolidou e  que nunca o afastamento físico e as vicissitudes a que a vida nos obriga fez diminuir ou esquecer.
Tive assim, nesta cidade, a felicidade e o privilégio de com ele  conviver na década de 1960, quer profissional quer pessoalmente.
E, por isso, é-me difícil e doloroso escrever sobre um grande amigo e  um grande Homem – como o Ernesto -, quando ainda pungentemente sentimos a sua   ausência e somos assaltados pelas lembranças e recordações do tempo de   Portalegre, onde, como por diversas vezes o Ernesto o afirmou, viveu “os anos mais felizes da sua vida”. Perpassam  com saudade pela minha memória os tempos idos deste nosso convívio   profissional e pessoal.
Profissionalmente tivemos conjuntamente um escritório de advocacia em Ponte de Sor e, já   em Lisboa, após o meu regresso da guerra de Angola e o retomar da vida profissional, em Cascais, colaborei com o Ernesto em alguns processos  judiciais.
Rara era a semana em que não nos falávamos pelo telefone e raro o mês  em que não nos encontrávamos no seu escritório em Lisboa, na Rua Defensores  de Chaves.
Pouco a pouco, o Ernesto foi abandonando, por iniciativa e opção   próprias, a advocacia, para se dedicar, em exclusivo, à edição das suas   publicações jurídicas de jurisprudência, doutrina e legislação – “Sumários jurídicos” e “Informações das Leis”.
Acompanhando sempre a evolução dos processos tecnológicos e  informáticos, ligados ao tratamento da documentação e informação jurídicas, foi pioneiro na criação de base de dados jurídicos – “Ecolegis” (compilação de toda a legislação publicada desde   2-01-1985, com mais de 8.000 diplomas) e “Ecojuris”, (que contém mais de 6.000 pareceres, estudos e decisões jurisprudenciais   sobre todos os ramos de Direito).
E, pouco antes do seu falecimento, lançou com êxito estas suas criações jurídicas em CD-ROM,   deixando atrás de si uma equipa de juristas, a quem deu formação e que então   coordenava.
Todas estas suas obras tiveram excelente aceitação e acolhimento,  constituindo um inestimável serviço na difusão e conhecimento do Direito  junto dos meios forenses, do ensino e investigação do Direito e do mundo  empresarial.
Integrava, ainda, a  Comissão de Redacção da Revista da Ordem dos Advogados,  onde manteve, até à sua morte, numa secção de legislação.
Pessoalmente, convivemos, em Portalegre, quase diariamente, quer no  seu escritório de advocacia que partilhava com o António Teixeira,  quer nas reuniões no Café Facha – então o único sem televisão -, com os   saudosos José Régio, Dr. Feliciano Falcão e Eng.º Ventura Reis.
Vivendo-se, então, em plena ditadura, esta tertúlia concitava os ódios da polícia política e dos poderes locais nomeados.
Foi, então, distribuído em Portalegre um panfleto anónimo que  denunciava estes e o João  Silva como elementos subversivos, tendo sido o Ernesto  quem, como advogado, patrocinou a queixa-crime contra incertos.
Sabe-se hoje que tudo partiu de responsáveis da Câmara Municipal e da  União Nacional de Portalegre, (vide António Ventura, em “Ponto”, de 15/4/82, p. 24 – “História de um Panfleto Anónimo” – e   em “As Ideias Políticas e a Intervenção   Crítica de José Régio” – Separata da Revista de Histórias das Ideias –   Volume 16, 1994, p. 276).
Era, pois, necessária coragem cívica para se fazer parte desta   tertúlia, a que se associavam, por vezes, o António Teixeira, o João Silva, o António José Forte  e o Manoel de Oliveira, quando este vinha visitar José Régio, a Portalegre.
Nas acaloradas discussões destas reuniões, participavam, com a sua  irreverência, os membros do AMICITIA   – Grupo Cultural de Portalegre: eu, o Fernando Martinho, o Álvaro Luz e Silva, o  João Louro, o José Bizarro, o Augusto Pita, o Fernando Ceia, o Tito Costa Santos, o  Joaquim Portilheiro, o João  José Ribeiro e outros.
Como é óbvio, este convívio era evitado por alguns dos democratas que  apareceram após o 25 de Abril.
Outra das suas grandes paixões foi o Cinema.
Realizou o Ernesto alguns filmes em 8mm, como amador, que  montava, sonorizava e exibia para nós no seu escritório de advogado.
E, como não podia deixa de ser, foi co-fundador do Cine-Clube de  Portalegre, com o José   Régio, o Eng.º Ventura Reis, o Dr. Feliciano Falcão e o Padre  António Baltazar Marcelino – hoje Bispo de Aveiro – e outros.
Na altura da constituição deste Cine-Clube, foi o Ernesto considerado  como não defensor ou simpatizante da ideologia do Estado Novo, como consta do ofício confidencial de 21/10/1960 do então Governador Civil de Portalegre, Dr. Martinho de França   Azevedo Coutinho (citado por António Ventura, na obra já acima referida, “As Ideias Políticas e a Intervenção   Crítica de José Régio”.
Veio a ser naturalmente Presidente do Cine-Clube de Portalegre (de  que fui Vice- Presidente não homologado pelo S.N.I. a que presidia César Moreira Batista, com relações   familiares nesta cidade).
Este Cine-Clube resistiu quanto pôde, com os esforços   conjugados quer do Ernesto de Oliveira, quer meus, quer do Fernando do Rosário   e poucos mais, ao aumento dos preços de aluguer da sala do Cine-Teatro   Crisfal e dos filmes a exibir, às dificuldades de escolha e disponibilidade   dos filmes e à diminuição progressiva de sócios, devido ao incremento da   televisão.
No seu interesse pelo Cinema, cedeu o Ernesto uma quinta da família,  sita em   Póvoa-e-Meadas para a realização de cenas do filme de  Claude Faraldo, “La Jeune Morte”, que  acompanhou de perto e que, segundo se julga, nunca foi exibido em Portugal.
E, apaixonando-se pelos habitantes da Casa de José Régio (que  visitávamos quase todos os dias ao fim da tarde), quis fazer um filme sobre   eles.
Relembro as filmagens iniciais de um filme em 16mm que,   posteriormente, veio a dar origem ao único filme de 35mm que   realizou e a que chamou “Os Habitantes  de Aquela Casa” e cujo original foi cedido à Cinemateca Portuguesa.
Entendia o Ernesto de Oliveira, como o escreveu em 6/10/1966 no jornal   “A Rabeca”, de Portalegre, que “o movimento, o progresso, só são possíveis   se uma democracia generalizada a todo o campo social imprimir à vida  colectiva uma juventude constantemente renovada” e que era necessário,  avivar “o interesse dos negócios   públicos – nacionais e regionais -, levando-nos a renunciar à cadeira onde à   porta nos sentamos para aguardar que nos tragam soluções a todos os   problemas, mesmo os que quase só a nós dizem respeito”.
Por isso, não se escusou em Portalegre a intervir cultural e   politicamente.
Defendendo, como defendia, os ideais da democracia e da liberdade, o   Ernesto fez parte, comigo, e com   o Dr. Feliciano Falcão, da Delegação, em Portalegre, da Acção   Democrático-Social, que a nível nacional era presidida pelo Eng.° Cunha Leal.
Era, então, o Ernesto de Oliveira o elo de ligação entre as   estruturas nacionais e a local.
Ajudou, ainda, a sair clandestinamente de Portugal para Espanha com   auxílio de uma contrabandista que conhecia, um membro português da equipa  técnica do realizador Claude Faraldo que, recolhido em Espanha, seguiu com  esta para França, onde se refugiou em virtude dos problemas que tinha com a  polícia política em Portugal.
Colaborou também activamente com o AMICITIA – Grupo Cultural de Portalegre em várias das suas   realizações e, nomeadamente na Exposição de Divulgação Cinematográfica,  realização conjunta do AMICITIA e  dos Cine-Clubes de Portalegre e  Coimbra (de que era então Vice-Presidente o Álvaro Luz e Silva).
Sobre esta exposição rodou o Ernesto um filme a 8mm que   foi exibido algumas vezes mas cujo paradeiro hoje se desconhece.
Concorreu, ainda, com várias fotografias à Exposição de Fotografia   realizada pelo AMICITIA (de cujo júri fez parte o realizador Manoel de Oliveira) e interveio por diversas  vezes nas sessões culturais sobre Cinema e música organizadas por este Grupo   Cultural.
Conhecedor como eu era da sua vasta experiência profissional e da sua  integridade moral, convenci-o (aliás, não foi difícil) a vir, em 26 de Março   de 1998, a  Cascais, à Delegação da Comarca da Ordem dos Advogados, manter conversa   informal com os jovens e os menos jovens advogados da Comarca sobre a sua  vida e a sua experiência do foro, que prendeu e cativou todos quantos a ela  assistiram.
Nós nunca mais ouviremos a sua voz amiga, os seus conselhos, as suas críticas.
Mas fica connosco o seu exemplo, exemplo do seu carácter, da sua   vontade, do seu gosto pelo trabalho, do seu rigor intelectual, da sua amizade e solidariedade.
E, quando a vida lhe pregou a grande partida o Ernesto aceitou com  coragem a doença que, minando-o, o ia, pouco a pouco, roubando ao nosso   convívio.
E, não se deixando abater, viveu os últimos tempos da sua vida da  mesma forma como sempre viveu, interessando-se por tudo o que se passava à  sua volta, imprimindo aos seus actos a humanidade de que era portador.
E só na última vez em que o visitei em sua casa, poucos dias antes da  sua morte, quando lhe perguntei como estava, me disse, com as dificuldades na  fala que já o afectavam, “muito mal”   e, com resignação, remeteu-se ao silêncio a que a doença o obrigava.
Nunca lhe ouvi uma palavra contra a crueldade do destino que, bruscamente, lhe coarctava a possibilidade de conviver com a família e com os amigos, como gostava.
O Ernesto mostrou sempre uma coragem única, conhecendo como conhecia   as consequências irreversíveis da sua doença.
Depois da primeira visita, ultrapassado o choque causado pela sua  magreza e palidez, depressa se tornava sensível a grandeza que dissimulava,  pelo que nos sentíamos, embora compungidos, orgulhosos de sermos amigos de um  Homem tão corajoso.
Mas, contra a proliferação maligna da doença, a coragem não chega.
E o Ernesto deixou-nos e ficámos sós com a nossa saudade.
Já não pode mais dizer, como o poeta, “Estou Vivo e Escrevo Sol”.
Mas, tal como o Sol nos acompanha todos os dias, assim o Ernesto   continuará vivo na nossa memória, na nossa saudade.
E só morre definitivamente quem não merece ser lembrado.
E o Ernesto merece-o.
Até sempre, meu amigo antigo,

Florindo Madeira
Cascais, Março de 1999

O LÓTUS AZUL – II

II – O álbum O Lótus Azul

O Lótus Azul foi a quinta das aventuras de Tintin que Hergé criou e fez publicar. Antes da China, tinham sido principais destinos do herói a Rússia dos sovietes, o Congo colonial, a América dos capitalistas e dos gangsters, assim como a Índia dos faquires e dos marajás. 

Quando, na directa sequência de Os Charutos do Faraó, o autor anuncia a ida do jornalista até à distante China, recebe um sério aviso prévio da parte do padre Léon Gosset, capelão dos muitos estudantes chineses na Universidade belga de Louvaina. O conselho era bem claro, no imperioso sentido de que Hergé tivesse o cuidado de antecipamente se informar sobre a vida na China, evitando repetir preconceitos e estereotipias abundantes nas anteriores obras.

De facto, uma Rússia cheia de camponeses famintos e de brutais comissários políticos, um Congo exclusivamente recheado de indígenas atrasados, simplórios e supersticiosos, uma América dominada pelos bandos armados urbanos, por rurais cowboys carnavalescos e por ingénuos e folclóricos peles-vermelhas, ou uma Índia povoada por elefantes e por encantadores de serpentes, todo esse conjunto romanesco e tosco teria de ser corrigido através duma alteração na colheita de informação, através duma pesquisa honesta e inteligente que permitisse a aproximação realista a um país misterioso aos olhos do europeu médio, portanto mal informado, nos anos 30 do passado século.

Para mais, dois pequenos mas significativos exemplos, recolhidos das idas à Rússia e à América do Norte, tinham revelado a opinião de Hergé sobre os naturais do país que agora ele iria visitar em profundidade.

 

Dois chineses que Tintin encontrou na Rússia usavam tranças e trajos folcóricos,  desempenhando a função de carrascos, encarregados do exercício da tortura, enquanto os incluídos na aventura americana eram meros esbirros do bando de gangsters, também vestindo “a rigor”, infundindo em Milou o pesadelo de acabar num prato típico da culinária oriental e tendo como principal função o trabalho sujo de eliminar radicalmente as vítimas do grupo.

Hergé, como se pode concluir pela actualização desta história, substituiu-os por brancos e americanos…

O desenhador aceitou a sugestão do padre Gosset, que levou mais longe o seu conselho quando, em Maio de 1934, apresentou a Hergé um jovem escultor chinês, estudante de Belas Artes, chamado Tchang Tchong-Jen.

Este episódio terá uma decisiva importância para o trabalho de Hergé, não apenas no que respeita à história então em curso mas quanto ao futuro de toda a obra.

 

Podemos afirmar que O Lótus Azul é, analisado a esta luz, um álbum-chave no conjunto de toda a produção do autor, e por diversos motivos complementares.

Antes de tudo o mais, e no confronto com as aventuras anteriores, esta é pioneira pois assume a forma dum folhetim sequencial, onde o relato é construído como um todo lógico e coerente em vez de integrar uma série justaposta de episódios mais ou menos anedóticos. A construção realista do enredo, a séria documentação estudada e para aqui transposta com rigor, o grafismo onde a “linha clara” começa a ganhar estatuto estético-narrativo, a descrição quase romanesca dos sentimentos e das emoções, o louvor do humanismo e da amizade como valores universais são outros tantos marcos do pioneirismo desta história.

O contexto histórico, inserido no conflito sino-japonês da época, permitiu a Hergé conferir um explícito sentido de autenticidade ao seu trabalho, tornando-o de certo modo único, quase mítico, no domínio ficcional das sucessivas aventuras de Tintin.

A Shanghai desse tempo, cidade cosmopolita, repartida entre as concessões internacionais e a ocupação japonesa, revela pelo traço de Hergé e pela recordação de Tchang atmosferas nocturnas ou luminosas dos bairros por onde perpassa a acção, quase verosímil…

Mas é na riqueza dos cenários, que a cor mais tarde viria realçar, no rigor das inscrições e no pormenor da decoração, tanto nas ruas como nos interiores, que reside um dos maiores atractivos da história, impregnada de um inspirado espírito que soprou do Extremo Oriente…

O Lótus Azul é, sem dúvida, uma obra emblemática. E Hergé, em entrevista concedida a La Libre Belgique em 1975, explicou os porquês: – “Tchang fez-me penetrar na realidade da China. Com ele, compreendi que devia documentar-me seriamente. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

Anexo 2 – Como prometido, aqui fica hoje a segunda parte da adaptação videográfica de O Lótus Azul 

FORÇA, SELECÇÃO !

FORÇA, SELECÇÃO !

Já desisti de explicar a um amigo próximo que não mudei. Ele acha que é incompatível e contraditório o que aqui tenho exposto sobre a selecção portuguesa de futebol.

Quem mudou não fui eu, foi a selecção. Naturalmente, não tenho a veleidade de pensar que as minhas críticas chegaram aos futebolistas ou aos seus responsáveis, técnicos e dirigentes. Mas eles ouviram -e de que maneira!- algumas verdades bem mais duras e contundentes do que as aqui esboçadas. E reagiram bem.

O que agora a selecção tem mostrado nada tem a ver com a banal e vil tristeza revelada durante os ensaios e na estreia do campeonato europeu. Esta é uma realidade indesmentível que confere toda a razão aos críticos. Porque foi assim, bem, isso só eles próprios -os elementos da selecção- poderão explicar.

Se alguém se deu ao trabalho de dizer o que disse, foi porque tinha a certeza de que tudo deveria ser bem diverso, o que ficou amplamente confirmado quando os seleccionados decidiram provar o seu real valor.

Só os invejosos ou os mal-formados poderiam deliciar-se com o modesto comportamento da “equipa de todos nós”; agora, pelo contrário, nem os mais optimistas têm o direito de exigir que a selecção traga de Leste a ambicionada taça. Logo, pelo fim da tarde, vai acontecer mais uma etapa, e decisiva, no difícil percurso para a vitória final. Esperemos que tudo possa acontecer a contento, mantendo a esperança.

Ontem, numa torre das nossas muralhas citadinas, surgiram algumas bandeiras nacionais. A campanha que Scolari lançou deixou resíduos e a semente ainda desabrocha, a espaços, segundo o ritmo dos calendários desportivos. Só lamento que outros combates, bem mais decisivos para o nosso futuro como Nação, não tenham suficiente força para assim nos mobilizarem colectivamente.

Vamos jogar com a Espanha, não contra a Espanha, daqui a algumas horas. Há uns séculos, isso sim, jogámos contra ela e então era mesmo o nosso futuro que estava em jogo. Vencemos em Aljubarrota, perdemos em Alcântara, empatámos em Tordesilhas, com direito a prolongamento. No mais recente Torneio das Laranjas, quero dizer, na Guerra das Laranjas, as coisas ficaram tremidas e o jogo, com algumas penalidades à mistura, nem sequer foi homologado em condições…

Há aqui um ligeiro equívoco. O verdadeiro campeonato que envolve Portugal e Espanha não se trava na Polónia nem na Ucrânia. Os jogos decisivos, esses sim, os de vida ou de morte, são discutidos em Berlim. Será que voltaremos a perder com a Alemanha? Espero que não.

A nossa selecção, a deste verdadeiro campeonato, não tem nenhum Cristiano Ronaldo, nenhum Pepe, nenhum Paulo Bento. É tudo gente vulgar, pouco dada a grandes rasgos. Enfim, cada povo terá o que merece, mas isto não é selecção que nos represente em condições, tipos em que possam ser depositadas grandes esperanças…

E que logo ganhemos -é o meu desejo, é o meu voto. Se ganharmos, no entanto, não ostentarei bandeiras nem soprarei vuvuzelas. Aliás não as tenho, nem umas nem outras.

Mas posso garantir que, se perdermos, ninguém me verá de luto.

E, quando me perguntarem se prefiro que Portugal ganhe a Vicente del Bosque ou à senhora Angela Dorothea Merkel, também já sabem qual é a minha resposta: – A ambos! 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – I

I –  Prólogo

Convém explicar a razão de ser desta série de artigos dedicados a uma história com mais de setenta e cinco anos de existência.

Sou um apaixonado pelas histórias aos quadradinhos, designação que entre nós, lusitanos, servia para nomear o fenómeno comunicacional depois crismado de bandes dessinées pelos eruditos francófonos. Já relatei, vezes quase sem conta, o como e o porquê dos meus contactos pioneiros com as antigas revistas ilustradas no tempo descuidado da infância. Ainda nem sabia ler e o Papagaio foi o meu manual das primeiras letras, juntamente com o Diabrete e o Faísca, antes até do “livro único”. Nessas inolvidáveis páginas conheci o meu herói preferido, o jovem jornalista Tintin, que me acompanharia ao longo da vida sem nunca ter envelhecido nem sequer ter perdido o fulgor dos tempos originais.

Através do Papagaio, em cujas páginas me evadia no sótão da velha casa da família Maldonado, ao Rossio portalegrense, nos altos do Café Luso, acompanhei-o então pelo mundo, da Escócia à América do Norte, dos desertos africanos ou asiáticos e da Índia até ao Extremo Oriente, eu sei lá por onde andei…

Um desses sítios encantados foi a China, país distante e misterioso, então mergulhado em guerra e nas garras do ópio, povoado por gente de estranhos costumes onde o colonialismo tinha ainda um peso decisivo nos destinos colectivos daquela grande nação. Então, o que me interessava era, sobretudo, a dinâmica duma história recheada de agitadas peripécias, mais uma aventura fascinante que Tintin vivia, semana a semana, ao sucessivo ritmo das páginas coloridas desse arrebatador relato.

Olho hoje para isso com saudade e uma certa nostalgia. Porém, tantas décadas depois, não cessou o meu interesse pessoal por tal história, ainda que os anos seguramente tenham mudado a perspectiva desse íntimo e distante olhar, acrescentando hoje dimensão analítica e profundidade à epidérmica paixão emocional dos primeiros encontros.

A história entre nós publicada, de Junho de 1938 a Abril de 1939, utilizou a versão original, a preto e branco, que Hergé fizera surgir nas páginas do Petit Vingtième em 1934/35, embora tivesse sido aqui “embelezada” com cores artesanais que o próprio autor ainda lhe não tinha aplicado…

Com efeito, a versão colorida (e retocada) pelo criador apenas seria editada em álbum no ano de 1946.

Por que surgiu agora esta intenção (ou capricho!?) de abordar O Lótus Azul? Em boa verdade, há uma explicação lógica e oportuna.

Quando em 1996 visitei Macau (ainda portuguesa) e a República da China envolvente, incluindo Hong-Kong, na companhia do saudoso Padre José Patrão, bem procurei adquirir um exemplar de uma eventual edição chinesa deste álbum. Vã diligência, porque Tintin apenas por ali circulava em raras edições pirata, de fraca qualidade e escassa divulgação. Soube muito mais tarde que as autoridades não manifestavam então grande interesse em tal “importação”. Só em circunstâncias especiais foi autorizada a edição oficial das histórias de Tintin, mesmo assim com certos condicionalismos e algumas contradições. Esse primeiro,  tímido e restrito ensaio verificou-se apenas em 2001 através da China Children Publishing House. Agora, bem mais a sério, renovou-se em 2010, com edição para a República Popular da China, pela China Children’s Press & Publication Group

O meu filho, que regularmente corre o mundo, sabe como poucos do meu gosto por estas coisas dos quadradinhos. Há uns anos, por exemplo, trouxe-me de Paris o fabuloso catálogo da mais completa exposição organizada sobre Hergé, na passagem dos 100 anos da sua vida e obra, um “cubo” densamente recheado de imagens e textos únicos que reflectem o que foi a mostra patente no Centre George Pompidou, entre Dezembro de 2006 e Fevereiro de 2007.

Nas primeiras vezes em que ele se deslocou ao Japão, ainda lhe pedi que me procurasse por lá a versão nipónica dessa aventura de Tintin, até ter a absoluta certeza de que jamais ali se editara ou editará tal obra, “maldita” no país.

Agora foi à República Popular da China e, aí, satisfez este meu antigo sonho. Em Pequim foi-lhe facílimo obter a edição oficial chinesa d’O Lótus Azul. Entregou-me agora mesmo o desejado álbum, no último fim-de-semana, culminando toda uma empenhada recapitulação da “matéria dos sumários anteriores” e que entretanto eu procedera, como se de um académico, urgente e decisivo exame se tratasse…

Eis portanto aqui definida a súmula do que pretendo com os textos que sucessivamente vou elaborar e aqui divulgarei: partilhar com os leitores do blog as razões profundas e distantes do interesse por esta aventura de Tintin que me enfeitiçou há mais de setenta anos, bem contados. Naturalmente, não são a emoção e o sentimento pessoal desses tempos que agora estão em causa, mas uma análise mais profunda da obra, construída a partir dessas memórias, depois acrescentadas e enriquecidas pela acumulação lógica e devidamente organizada de mil contributos de diversa ordem. E este objectivo contém um desafio que procurarei vencer: o de tornar a exposição igualmente interessante, ou no mínimo atraente, quer para os “especialistas” destas coisas da BD quer para os não iniciados no género, isto é, a maioria dos habituais frequentadores desta página.

 

Termino o “prólogo” com uma dedicatória, exactamente dirigida a um pequeno grupo dos tais “especialistas” nacionais, escolhidos entre aqueles que há mais de três décadas me introduziram, e “apadrinharam”, no pequeno grande mundo dos quadradinhos lusos: António Dias de Deus, Carlos Gonçalves, Leonardo De Sá e Geraldes Lino. Lembro em particular este último amigo porque ainda há dias, ao saudar a aparição do Largo dos Correios e conhecendo-me como conhece, me interpelava sobre a possibilidade de a banda desenhada também nele marcar presença.

Aqui fica, com um abraço de apreço e de amizade, a minha resposta a tal “provocação”. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

Anexo 1 – Na impossibilidade de aqui reproduzir toda a história O Lótus Azul, e partindo do lógico princípio de que nem todos os leitores, sobretudo os menos familiarizados com a BD, conhecerão o seu conteúdo, decidi compensar tal desconhecimento disponibilizando uma sua adaptação, em suporte videográfico. A versão mais adequada é dobrada em português do Brasil e dividida em três partes, que aqui serão sucessivamente apresentadas. Hoje é a primeira…