RECORDAÇÕES LUNÁTICAS

AFINAL SEMPRE FOMOS À LUA…

Outra página de recordações.
Agora foi uma (quase) vulgar notícia de jornal, onde se dizia que três das bandeiras deixadas na Lua ainda resistem. Soube depois, pela leitura do texto, que os americanos das missões Apollo tinham espetado seis bandeiras no solo lunar, entre 1969 e 1973.
Da primeira, custosamente manipulada por Neil Armstrong e Buzz Aldrin, nenhum sinal persistirá, segundo a NASA. Só serão visíveis as cravadas pelos astronautas das missões Apollo 12, 16 e 17.
Em primeiro lugar, a lembrança foi para o último texto que escrevi na saudosa revista A Cidade, precisamente no número final da sua série regular, o onze. Esta aventura não foi tão complicada como ir à Lua mas as bandeiras que cravámos -o Bentes, o Ventura e eu- as bandeiras que cravámos na superfície desta cidade também caíram por terra. Todas.
O tal texto derradeiro, publicado em Junho de 1984, foi exactamente sobre o nosso satélite natural, e daí esta associação de ideias. Quase insolentemente denominei-o: Nunca fomos à Lua?
Cito(-me) a sua parte final: “No filme como na telenovela coexiste o denominador comum da ficção como suporte narrativo da mensagem, embora a força desta não raro faça diluir a inevitável inverosimilhança e se acabe por impor sob a capa de uma autenticidade aceitável, de uma lógica possível.
Em confronto com estas características, que dizer da reportagem em directo sobre a descida do primeiro homem na Lua? Que foi menos espectacular do que as proezas de ‘Buck Rogers no Século XXV’? Que possuiu menos ritmo do que ‘2001 – Odisseia no Espaço’? Que não teve a emoção das cenas do ‘E.T.’? Podemos concluir que portanto, nesse caso, a realidade ficou aquém da ficção?
Sou dos que acreditam, convictamente, que presenciei a autêntica descida do primeiro homem na Lua. Mas também acredito que tal convicção não me confere o menor direito de criticar (ou lamentar) aqueles que honestamente, disso continuam e continuarão a duvidar.
A verdade está, afinal, em cada um de nós.
E também a tolerância.”

Não sei se ainda haverá quem pense ter então assistido, apenas, a um embuste audiovisual, nesse distante dia 21 de Julho de 1969. Nem isso interessará por aí além. Há hoje outros argumentos mais “credíveis” e menos “desfocados” que os de então. Deixo aqui alguns, precisamente relativos à missão Apollo 15.
Então, chegou à Lua o primeiro carro espacial, conduzido pelo poderoso foguetão Saturno V. O lunar roving pesava um pouco mais de 200 quilos, era movido a electricidade e atingia a “estonteante” velocidade de  16 km por hora, suportando inclinações até 25 graus.
A propósito de efemérides, que por vezes têm piada, esta cena da bandeira aconteceu fez ontem -precisamente ontem- 41 exactos anos. Foi no dia 30 de Julho de 1971 que o módulo alunou e a bandeira foi implantada no solo lunar pelo comandante David Scott.
E, aqui para só nós, quero lá saber que esta também tenha caído!

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 

O LÓTUS AZUL – XVI

XVI – Incursões pelo vocabulário, e não só…

A criação dum contexto credível, genuinamente chinês, levou Hergé a certos exageros. Esta é a opinião, legítima e autorizada, de alguns estudiosos e críticos da sua obra. O filósofo e sinólogo Léon Vandermeersch, que já citámos, acha que o autor misturou traços das distintas paisagens do Norte e do Sul da China, que dotou os interiores das salas locais de enormes janelas, à moda ocidental, que povoou certos ambientes com indiscriminadas páginas de provérbios orientais, que mostrou os chineses sempre de boca fechada versus os japoneses com dentes à mostra e pernas arcadas…

Enfim, pormenores talvez, mas suficientemente significativos para terem interessado os especialistas.

Os ambientes, tanto interiores como exteriores, foram dotados dos elementos que Hergé e o seu “assessor principal” Tchang entenderam convenientes à verosimilhança e à narratividade desejadas. Continuemos a sua abordagem.

Por exemplo, a designação Restaurante, que abunda em qualquer localidade chinesa, encontra diversos pretextos de utilização nas páginas d’O Lótus Azul. Quase apetece propôr uma espécie de “Procurem o Wally” pelas páginas do álbum. Mesmo sem conhecer a escrita mandarim (chinês simplificado ou tradicional) é possível vasculhar as vinhetas para contabilizar a quantidade de vezes em que surge a designação em causa. Aqui ficam uns exemplos, a partir do “modelo” visível atrás de Tintin, quando este come…

O caso seguinte é muito interessante, porque mostra como O Lótus Azul significou, a diversos níveis da própria construção narrativa, um ponto de partida quase “histórico”. Já atrás se abordou a circunstância de ter aí começado a ser instalada a linha clara. O pormenor a seguir abordado mostra uma solução expedita que Hergé encontrou para resolver um problema que na época derivava, em parte, da necessidade de adaptação gráfico-narrativa das versões iniciais das histórias, contando estas com um maior número de páginas. Acresce a questão de se colocar a necessidade de dar resposta às diversas e sucessivas interrogações levantadas durante a narração. Estas duas questões, convergindo sobretudo no final das aventuras, produziram uma curiosa “fusão” entre o verbal e o icónico, pela qual se tornou possível fornecer informação bastante sob uma forma leve e agradável, sem ofender o equilíbrio anterior.

Em O Lótus Azul, quase todas as respostas em suspenso foram esclarecidas através da reprodução parcial d’O Jornal de  Xangai (pág. 60 do álbum). Aí, ficámos a saber onde estava sequestrado o Prof. Fan, o feliz final da luta entre os Maus e os Bons, o desmantelamento do salão Lótus Azul e as buscas feitas no domicílio do sr. Mitsuhirato, onde foram encontrados documentos confidenciais que provavam as acções terroristas (o Incidente de Muckden) e foram entregues à Sociedade das Nações, em Genebra. Como complemento, o jornal reproduzia uma entrevista com o herói do dia, o jovem repórter Tintin.

As únicas questões ali não respondidas foram-no logo a seguir: a cura de Didi, o suicídio de Mitsuhirato através do ritual hara-kiri (por um novo recorte de jornal!) e a adopção de Tchang pela família Wang.

Para melhor se conhecer a importância da solução “jornalística” encontrada por Hergé, devemos confrontá-la com uma falhada tentativa similar anterior (em Tintin na América, 1932, pág. 62), onde uma longa e pouco atraente locução radiofónica fornece as informações finais, assim como através da repetição posterior da reprodução duma página (em A Ilha Negra, 1938, pág. 62) ou, mais sofisticadamente, duma colecção de recortes de imprensa (em Carvão no Porão, 1956, pág. 60).

 Continua no próximo número.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

DESACORDO ORTOGRÁFICO – I

POEMA ANTI-LINCE

Madalena Homem Cardoso é médica e escritora mas é sobretudo uma apreciada activista cívica no mundo cultural. São conhecidas as suas acutilantes intervenções contra desmandos, de vária ordem, com que certas “autoridades” pretendem abalar os fundamentos essenciais da nossa condição de portugueses. Como é o caso da Língua. Li há dias um seu texto, no Público, com o qual qualquer normal português tem de concordar, a não ser que alguns preconceitos políticos o afectem.

Novos modos de não ser, assim se denomina o texto de Madalena Homem Cardoso, onde se desmonta, uma vez mais, a aberrante imbecilidade a que deram o pomposo nome de Acordo Ortográfico. E aí se denuncia, entre outras calamidades, o chamado “conversor Lince”.
O que é isto? Nada mais, nada menos (e vou citar os textos oficiais) que uma ferramenta de apoio à implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, a qual converte o conteúdo de ficheiros de texto para a grafia que está a ser introduzida em vários países do espaço da CLP. Foi produzida por uma equipa do Instituto de Linguística Teórica e Computacional e solenemente lançada pelo Ministério da Cultura, portanto ainda no reinado do anterior Governo.
Por outras palavras, e para faciltar o entendimento, o “conversor Lince” foi precisamente o dispositivo que Vasco Graça Moura mandou desligar em todos os computadores do Centro Cultural de Belém, logo que tomou posse do lugar de seu responsável. Lembram-se?
Por que se chamará Lince? Por estar em vias de extinção? Ou em homenagem ao “pai” do acordo, o prof. Malaca Casteleiro? Lince da Malcata e, agora, Lince do Malaca... Será por isso?

Voltaremos ao tema, porque tal se amplamente se justifica.
Por hoje, e relacionando Madalena Homem Cardoso com o Lince, evoco um seu poema alusivo, precisamente denominado O Mostrengo Lince, notável e inspirada paródia à conhecidíssima obra quase homónima, de Fernando Pessoa. Foi publicada há mais de seis meses (em 26 de Outubro de 2011) no facebook da autora, mas a sua qualidade e pertinência justificam a partilha com os leitores.

O Mostrengo Lince

O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: “Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?”
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
“Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

“De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?”
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
“Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?”
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
“Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

                                                               Madalena Homem Cardoso

Já agora, e porque se lembrou Fernando Pessoa, vem muito a propósito uma sua citação de obra menos divulgada, precisamente retirada de Pessoa Inédito, volume com orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes, editado em Lisboa pelos Livros Horizonte, em 1993:
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual.
O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite.
Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.”

Palavras premonitórias e quase proféticas, não acham?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

FERAS – As pequenas e as GRANDES

A agência de publicidade que desenvolveu a ideia criou algumas composições gráficas e de outras naturezas, destinadas a espalhar maciçamente o conceito. Este pouco tem de original, pois uma iniciativa similar foi há pouco desencadeada no Brasil a propósito da promoção de determinados hotéis. Então, a associação central foi o mito da Bela e o Monstro.

A ideia de trazer as pequenas feras às outras feras, consideradas grandes, tem piada, mas parece um pouco arriscada.

Acho que nenhuma criança que se preze gosta de passar por animal e que nenhum pai que como tal se considere apreciará levar uma sua criança dita animalesca de visita aos familiares. Isto, levado assim à letra, fica dotado dum sentido excessivamente zoológico, ainda que se trate de simples metáforas.

O mais curioso é que a ideia pode ser transplantada para outros universos, onde o estribilho funcionará de modo algo diverso. Ou algo perverso.

Experimentei construir algumas mensagens similares, apenas adaptando o conceito. Fiz desaparecer o chimpanzé, o tigre e o urso, assim como o logotipo do Jardim Zoológico. Mantive apenas o essencial, ou seja, a mensagem de apelo a que as pequenas feras visitem as grandes, ao nível de outras respeitáveis instituições. E para determinada finalidade…

Algumas das maquetas obtidas, embora sem terem sido aprovadas pelos seus legítimos destinatários -portanto ainda numa fase experimental- aqui ficam para apreciação prévia.

Provavelmente, porque não sou infalível, certas propostas podem merecer e até justificar uma ou outra pequena correcção de pormenor. Ninguém é perfeito…

Mas pode ser que mesmo assim ganhe alguma nova encomenda, já a sério.

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XV

XV – Mandarim sem mestre

Já atrás se abordou, de passagem, a questão linguística inerente à construção da história, em função da cumplicidade de Tchang.

Hergé sempre “escreveu” em língua francesa, isto é, as suas personagens “falam” e “pensam” em francês, e é nessa língua que são escritas as legendas e traduzidos os sons, na transcrição fonética das onomatopeias. Nas aventuras de Tintin, as suas relações com personagens de outras nacionalidades revelam as naturais situações de incomunicabilidade, sobretudo quando isso dá jeito à narração. De resto, o que acontece com a normalidade que o maravilhoso dos quadradinhos permite é que todos se entendam, como se dominassem na perfeição a totalidade dos códigos linguísticos em presença.

No caso das imagens -contexto geográfico ou “cenário” onde as personagens se movimentam- esta lógica bastante sumária e simplista revela-se mais discutível. As personagens aceitam e mantêm um certo grau caricatural, mas os seus locais de vivência, segundo Hergé, devem ser realistas. Esta preocupação do autor é muito nítida e basta para isso recordar as actualizações que O Lótus Azul sofreu na passagem da versão original, a preto e branco, para o álbum, através de alguns conjuntos de imagens aqui já reproduzidos.

O contexto chinês revelou-se particularmente rico, e mesmo propício, para que os cenários pudessem reflectir o respeito que Hergé procurou concretizar quanto à verdade histórica e geográfica do seu relato. E este é um dos grandes contributos que Tchang trouxe ao trabalho conjunto. O resultado traduziu-se num apreciável grau de rigor, embora os leitores habituais das histórias de Tintin, não tendo acesso à escrita mandarim, se mantivessem insensíveis perante esta melhoria, técnica e comunicacional, do relato. Para estes, e são gerações, a historicidade manteve-se impenetrável, pois aqueles cenários não lhes transmitiam nenhuma particular mensagem, para além de claramente denunciarem o facto de a história se passar na distante e enigmática Shanghaï e arredores…

Pouco a pouco, alguns estudiosos da obra abordaram esta questão e foram revelando mais esta faceta, interessantíssima, d’O Lótus Azul. Agora, a versão oficial chinesa do álbum não só confirma o facto como lhe vem trazer novas abordagens.

É este novo capítulo que vamos procurar aqui desvendar. Comecemos pelas primeiras “lições práticas” de mandarim elementar…

A inicial, lógica e fácil -aliás já revelada- é a da própria designação da obra, inspirada ou não na sugestão implícita no filme O Expresso de Shanghaï.

A palavra lótus, escrita em perfeito mandarim, surge por diversas vezes, logo a partir da capa de todas as edições, desde a original, e sobretudo no lanternim que assinala a porta do salão de fumo.

O Lótus Azul surge, naturalmente na sua expressão completa, na capa e na folha de rosto da edição chinesa, como atrás foi divulgado.

 

Depois, surgem na história outras indicações meramente informativas, como a designação do Hotel ou do Club Ocidental,  a placa Entrada Proibida, ou a máxima universal Tempo é Dinheiro.

Aqui há alguns pormenores interesssantes neste jogo linguístico.

Por que são escritas em inglês as designações do Hotel e do Clube, quando a norma, acima descrita, privilegia o francês? Por uma óbvia e lógica razão, a de ficarem situados na Concessão Internacional, onde domina a língua inglesa.

 

Já nos casos das placas Entrada Proibida ou Tempo é Dinheiro, também se verifica uma distinção. A primeira surge redigida em mandarim desde a versão original e só a segunda foi traduzida na versão chinesa, pois estava escrita em inglês.

 

Estes exemplos iniciais constituem os mais vulgares.  

As relações seguintes acrescentarão redobrados motivos de interesse.

 António Martinó de Azevedo Coutinho  

V de Vocabulário

 Aqui há dias li num jornal a notícia dum plano nazi para assassinar Churchill por meio de explosivos disfarçados de barras de chocolate. Vem na mesma linha da conspiração urdida pela CIA para eliminar Fidel Castro com charutos envenenados.
O pior -ou o melhor- é que as lembranças, tal como as conversas, são como as cerejas. A gente agarra numa e vêm uma data delas agarradas. Com o chocolate explosivo, lembrei-me do gesto que marcou para sempre a imagem da Churchill. Para quem não seja desses tempos, fica aqui o “boneco”.
Viviam-se os dias terríveis da II Guerra Mundial e Londres era violentamente bombardeada pela aviação alemã. Winston Churchill, recentemente nomeado primeiro-ministro inglês, promete ao seu povo “sangue, suor e lágrimas”, mas garante a “vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz, porque sem a vitória não sobreviveremos”.
Aquilo que ficou como sinal dessa determinação foi o gesto simbólico, com os dedos indicador e médio da mão direita estendidos num V de Vitória, espécie de mágica sigla, antídoto ao braço estendido da saudação nazi-fascista, emblema contagiante da confiança transmitida aos soldados e ao povo. Depois, o marketing da época amplificou o gesto ligando-o, por exemplo, às quatro notas iniciais da 5.ª Sinfonia de Beethoven (três curtas e uma longa), sons que, em código Morse, significam precisamente a letra V.
Soube mais tarde que a verdadeira autoria do V de Vitória não se deveria  a Churchill mas aos arqueiros ingleses, no final da batalha de Azincourt, em 1415, durante a Guerra dos Cem Anos. Vitoriosos após a dura refrega, eles mostraram com orgulho os dois dedos com que tinham manejado os seus mortíferos arcos, dedos que os franceses tinham ameaçado decepar-lhes em caso de derrota…
Seja como for, Churchill e o V da Vitória ficaram para sempre associados no imaginário de muita, muita, gente. Milhões, onde me incluo. Foi ele, muito mais do que os valentes, mas anónimos, arqueiros de Azincourt, quem transformou o gesto num símbolo da luta determinada, e vitoriosa, contra a opressão.
Reconheço que as coisas mudaram, desde esses tempos.
A vulgaridade com que hoje se usa e abusa do gesto retirou-lhe todo o significado original. Acho que aquele V se tornou meramente vocabular, fonético, anedótico…
Utilizado a propósito e sobretudo a despropósito, vulgar, equívoco, deslocado, transfigurado, ganhou em universalidade o que perdeu em historicidade. A massificação retirou-lhe a excepcionalidade quase aritocrática que foi seu timbre de honra.  Usa-se num qualquer comício pelos políticos inflamados, num vulgar estádio pelos desportistas empolgados, num banal acampamento hippie pelos pacifistas apaixonados.
Por terras da Austrália, Nova Zelândia ou África do Sul, se exibido com a palma da mão voltada para dentro, constitui grave ofensa em calão popular…
Não vale a pena perder muito tempo com análises do gesto quotidiano onde o V de Vitória desceu do épico ao quase tétrico. Ficam aqui uns apontamentos gráficos, sem qualquer legenda, espécie de antologia breve do quotidiano, do V protocolar, rotular, intercalar…

 

Este V nasceu nos domínios da política e forjou-se nos campos da batalha. Mesmo na paz, a sua essência interventiva mantêm-se, transferível do gesto para uma mais vocabular (ou parlamentar) vocação. Numa elementar relação, contida em três dúzias de meros vocábulos, aqui se deixa um modesto contributo, como prática sugestão para uso de políticos e governantes na sua relação oral ou epistolar com o povo, complementada por um simétrico rol. 

– Vocabulário básico, em V, para uso de políticos e governantes na sua relação com o povo: 

VAGA                       VALENTE                VALOR                    VASSALAGEM
VENCEDOR             VÉNIA                      VENIAL                   VENTRE
VERACIDADE          VERBAL                  VEREAÇÃO            VEREDICTO
VERNIZ                    VERSÁTIL               VERTEBRADO        VERTICAL
VEZEIRO                  VICE                        VIDA                        VIÉS
VIGOR                      VIRTUAL                 VIRTUDE                 VISÃO
VISIBILIDADE          VISUAL                   VITALÍCIO               VITÓRIA
VIVER                       VOLUMOSO           VOLUNTÁRIO         VONTADE
VOTAÇÃO                VOTAR                    VOZ                         VULTO

 – Vocabulário básico, em V, para uso do povo na sua relação com os políticos e governantes:

VACILAR               VADIO                      VAGAROSO             VAIDADE
VAIA                      VAMPIRO                 VARAPAU                VASSOURA
VEGETAR             VELHACO                 VENAL                     VENDILHÃO
VENENOSO          VERBORREIA          VENTOSA                VERGONHA
VESGO                  VEXAME                  VIA-SACRA              VÍBORA
VICE-VERSA         VICIAR                     VIGILÂNCIA             VIGARISTA
VILANAGEM         VILIPENDIAR           VINGANÇA               VIOLAR
VIOLÊNCIA           VIRA-CASACA         VIROTE                    VISCOSO
VÍTIMA                   VOLÚVEL                 VÓMITO                   VULGAR

As lembranças não são mesmo como as cerejas?
Com caroço e tudo…

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

O LÓTUS AZUL – XIV

XIV – O Bem e o Mal

 O Lótus Azul tem sido por vezes analisado ou criticado dum ponto de vista ético ou moral. E são interessantes alguns destes estudos, sobretudo quando orientados numa via filosófico-religiosa oriental, sobretudo taoísta.

Hergé alimentou certas teorias a partir de algumas “confissões” deixadas nas suas declarações públicas ou publicadas.

Numa sua carta a Tchang, escrita em 1 de Novembro de 1977, ele escreveu: “É preciso que se diga que as minhas actuais preocupações (e as de Fanny [a mulher]) não são do tipo que se ‘passam’ facilmente para Tintin! De facto, estamos os dois completamente imersos nos filósofos orientais, com Fanny com uma apetência especial pelo hinduísmo e eu, naturalmente, com um maior interesse pelo budismo zen e pelo taoísmo…”

Um pouco mais tarde, numa entrevista concedida a Libelle-Rosita em 24 de Fevereiro de 1978, ele acrescentaria: “O que me seduz no taoísmo é o Chinês não ser levado pela sua linguagem, pela sua cultura, a cindir tudo. Nós separamos as partes do nosso ser como vulgares objectos. É assim com o polegar, pronunciado separadamente, deixa subitamente de fazer parte de nós mesmos. O pensamento chinês dá aos acontecimentos e aos objectos um valor similar que é o do movimento. O polegar continua ligado à mão, a mão faz parte do braço que por sua vez é uma parte do corpo e este corpo não perde o contacto com a terra. O Tao é a Via principal, ou a via pura e simplesmente, se preferir. É em qualquer caso o caminho a seguir para aquilo a que chamamos o absoluto. O Tao abarca todas as contradições porque permite a expressão completa sem alterar em nada a sua finalidade.”

O taoísmo é uma espécie de tradição filosófica e religiosa originária da China onde a vida é valorizada por uma permanente harmonia com o Tao, que significa basicamente o caminho, a via ou o princípio. Não sei muito mais do que isto, mas basta-me para tentar entender Hergé.

Este, por inalterável prática, sempre funcionou como uma espécie de “esponja”, absorvendo avidamente as opiniões do seu tempo. Assim aconteceu com as idas de Tintin à Rússia, ao Congo, aos Estados Unidos, à Arábia e Índia, à China e por aí fora. Quanto a este último destino, o que mudou radicalmente foi a “água” absorvida, em função do “filtro” usado, o qual expurgou o “líquido” das suas “impurezas” habituais…

Deveremos daqui concluir que, por influência directa de Tchang, O Lótus Azul tenha sido impregnado pelas doutrinas taoístas? De modo nenhum, creio. Por um lado, Tchang era proveniente dum família chinesa católica e, por outro, seria impossível traduzir instantaneamente no álbum os princípios duma ética, complexa, que exige um profundo contacto e um longo estudo apoiado.

Porém pode admitir-se, sem qualquer dificuldade, que alguns sinais da filosofia taoísta, pela qual Hergé sempre terá revelado uma clara simpatia, tenham informado passagens do álbum.

 

O Mal e o Bem, na trama narrativa, são assumidos colectivamente por duas associações secretas: no primeiro caso, inspirada no faraó Kih-Oskh, autêntica multinacional do crime com uma rede internacional; no segundo, mais singela mas não menos determinada, através dos Filhos da Dragão. Ambos as organizações assumem uma base mística, quase maçónica, utilizando os maus um símbolo, alguns instrumentos “diabólicos” -o hipnotismo, a magia, a droga- e uma hierarquia muito organizada, com um “grande mestre” na sua cúpula – Rastapopoulos.

Os bons são menos convencionais, reunidos sob a autoridade dum sábio homem, Wang Jen-ghié, “venerável”, organizando-se mais defensivamente como uma espécie de comité de resistência. Quando o líder destaca o próprio filho, Didi, com anjo-da-guarda de Tintin, este confunde tal atitude protectora com um acto de agressão…

 

Mas os conflitos entre o Bem e o Mal atingem o apogeu quando Didi, envenenado pelos inimigos, se torna ameaçador e perigoso para com os seus, enredado na confusão mística em que o seu espírito mergulha.

Didi, o “louco de Shanghaï”, torna-se -no universo místico da obra- a figura mais significativa. O seu desequílibrio psíquico leva-o ao desejo de decapitar toda as pessoas, para as conduzir à via. A interpretação taoísta deste facto levaria Didi a libertar cada decapitado, não lhe provocando a morte mas antes lhe abrindo a porta duma outra via, mais rica, a do espírito…

Releiam-se as declarações de Hergé sobre o polegar, a mão, o braço, o corpo, a terra. Para os não iniciados, a separação dum membro vital marcaria o fim da existência; para Didi, a cabeça não passava dum simples apêndice perfeitamente dispensável. Aliás, a sede das ideias, numa certa interpretação conjunta do taoismo, confucionismo e budismo, é o coração e não a cabeça.

 

Hergé, usando formas algo simplistas, onde a caricatura se repete, estaria assim -segundo algumas opiniões críticas- a “mascarar” um dos princípios fundamentais da filosofia taoísta: “É preciso despojarmo-nos de tudo o que é intelectual ou conceptual para encontrarmos a Verdade.” Por outro lado, não deixa de ser curioso que Wang, figura carismática do velho sábio chinês e pai do “louco” Didi, nunca fale de espiritualidade, transferindo o primado deste discurso para o próprio filho!

A cena capital d’O Lótus Azul, quando Didi se prepara para decapitar os pais e Tintin, acontece perante os representantes máximos do Bem e do Mal, Wang e Rastapopoulos, e é justificada por ser imperioso que as “vítimas” encontrem a via. Esse culminante episódio termina com a vitória da causa mais nobre apenas devida à  oportuna intervenção do jovem Tchang e dos Filhos do Dragão.

O Bem, finalmente, triunfou sobre o Mal. 

António Martinó de Azevedo Coutinho