JOSÉ HERMANO SARAIVA – II

No seu curto documentário sobre José Hermano Saraiva,  ontem recordado, Júlio Isidro citava-o como considerando-se -a si próprio- um “ingrediente” da História de Portugal. Em termos culinários, um ingrediente é um componente essencial, uma substância que faz parte de uma mistura, num sentido mais amplo. Ora isto não é verdade: José Hermano Saraiva não faz parte da História de Portugal. Foi ministro, é certo, foi embaixador, é certo, foi professor, é certo, mas não ficará na História por isso.
Como ingrediente -e a auto-classificação será sua- talvez seja mais um aditivo, um fármaco, que dá melhor gosto, sabor ou efeito ao produto. E isso soube ele fazer como poucos em relação à História, tornando-a um produto acessível, desejado e querido dos portugueses em geral.  Este mérito é justo e não deve ser desprezado.
Depressa vão passar os ecos da morte de José Hermano Saraiva. O que vai sobrar é a sua imagem audiovisual e os seus escritos. A sua herança, como comunicador, está portanto salvaguardada e isso é o mais importante.
Concluo o texto de há mais de um quarto de século, com a segunda parte, publicada originalmente no Porta-Vós – Quinzenário da Formação em Exercício da ESEP, n.o 4, em 10 de Dezembro de 1986, sobre o testemunho de José Hermano Saraiva a pretexto das nossas tapeçarias.

 O PROGRAMA DA OPORTUNIDADE PERDIDA
2- QUANDO QUEM CONTA UM CONTO LHE AUMENTA UM PONTO…

 Tem continuado o Dr. Hermano Saraiva a sua semanal crónica televisiva, prendendo cada telespectador à fluência das suas palavras e à magia dos seus relatos.
A lista das cidades contempladas com as suas histórias vai aumentando, ainda que muitas vezes não se possa avaliar com rigor até onde a história é da cidade ou é, apenas, o fruto de uma fértil imaginação. E isto nada tem a ver com a distinção entre a crónica e a lenda, entre a tradição e o testemunho, entre a ficção e a realidade.
É que, não o esqueçamos, meia verdade é também meia mentira. Ou não?!
Há quinze dias preocupei-me com alguns dos aspectos formais do programa dedicado a Portalegre. Deixei para outra oportunidade -esta- a análise sucinta do seu conteúdo, através de um episódio dele retirado.
Hermano Saraiva considera-se um historiador ou, pelo menos, é tido como tal. Assim, é-lhe exigível um rigoroso respeito pela verdade histórica, uma clara e inequívoca descrição dos factos, nomeadamente quando a audiência se pode contar pela grandeza dos milhões e é maioritariamente constituída por pessoas predispostas à receptividade acrítica.
Ao escolher como subtítulo para as Histórias da nossa terra a expressão “A inteligência das mãos”, o Dr. Hermano Saraiva não só privilegiou um dos temas desenvolvidos como autorizou, implicitamente, que qualquer crítica se possa fundamentar nele. E precisamente o que farei, começando por transcrever o texto do seu roteiro (TV Guia n.º 405, 8/14 Novembro 1986) na parte relativa ao episódio “Jean Lurçat” e, a seguir, o texto da versão do jornalista Augusto de Carvalho, baseado no testemunho de Guy Fino, sobre o mesmo caso (“Tapeçarias de Portalegre”, in Expresso Regiões, 21/Julho 1987):  

TV GUIA

Tudo começou quando se fez em Lisboa uma exposição de tapeçarias francesas, apresentadas como a quinta-essência da arte do tear. Um industrial de Portalegreviu e disse para si: Daquilo também nós somos capazes.
Fez as primeiras tapeçarias e trouxe aqui um mestre francês, Lurçat, nome célebre neste ramo da arte de tecer. Lurçat gostou do que viu e quis assinalar a visita com a oferta de uma bela tapeçaria francesa feita sobre um cartão seu.
Não há prenda sem resposta e aqui resolveram prestar uma homenagem a Lurçat: Copiaram, com toda a perfeição que a nossa técnica incipiente permitia, a peça oferecida.
Tempo depois Lurçat voltou a Portugal, e mostraram-lhe as duas peças, original e cópia. Ele quis ser elogioso: Excelente, excelente. Um defeito ou outro (e ia-os apontando), mas já é um belo trabalho. Os portugueses estavam constrangidos, mas acabaram por explicar: Mestre, há um lapso. Esse que tem os defeitos não é a nossa cópia, é o original. 

EXPRESSO

Jean Lurçat revelar-se-ia, aliás, um verdadeiro entusiasta pelas tapeçarias de Portalegre. Mas não foi assim do pé para a mão. Guy Fino gastou tempo a tentar convencer Lurçat da validade do seu trabalho.
Visitou-o mais que uma vez e de uma delas acompanhado pela sua mulher, Mercedes, precisamente no Castelo Medieval de Saint-Ceré. Na despedida, o grande artista francês ofereceu à senhora de Guy Fino a almofada que lhe servira de assento com o famoso galo da sua autoria.
No ano seguinte conseguiria que Lurçat viesse a Portugal a fim de visitar a manufactura. Guy Fino tinha, entretanto, feito reproduzir a pequena tapeçaria que Lurçat oferecera a sua mulher e apresentou-lha juntamente com o original.
“Veja se descobre qual é a sua”, perguntou-lhe. Lurçat mirou e remirou a certa distância -de perto seria fácil aperceber-se, dada a técnica diversa de cada uma delas- e pronunciou-se pela realizada em Portalegre. A partir daí, nasceu uma grande amizade e colaboração entre os dois homens.

 Do elementar confronto entre as duas versões do episódio ressaltam flagrantes diferenças. No entanto, estas são ainda mais profundas. Senão, vejamos:
l – “Quando se fez em Lisboa uma exposição de tapeçarias francesas” (1952), Guy Fino (“um industrial de Portalegre”) não poderia ter dito para si que daquilo também nós éramos capazes, porque na mesmíssima altura teve a audácia de expor, noutro local da mesmíssima Lisboa, duas tapeçarias da sua manufactura.
2 – Não foi nessa altura que aqui se fizeram “as primeiras tapeçarias” nem era então “a nossa técnica incipiente”. A firma “Tapetes de Portalegre, Limitada” constituíra-se por escritura pública de 22 de Dezembro de 1946! Também não foi aqui (nem sequer em Portugal) que Lurçat ofereceu a célebre tapeçaria, mas sim na sua casa de França.
3 – Apenas por absoluta ignorância se pode imaginar Lurçat apontando defeitos de pormenor numa tapeçaria que necessariamente teria de apreciar de perto, confundindo a sua origem. É que a técnica francesa (Aubusson) se baseia num fio de teia horizontal, enquanto a técnica portalegrense assenta num cruzamento distinto e original que privilegia a verticalidade. Lurçat sabia isto, como poucos, pelo que é inadmissível a grosseira versão televisiva do episódio.
Teremos, talvez, “a inteligência nas mãos”. Seremos, talvez, “um povo com o futuro nas mãos”. Nada tendo, basicamente, a opor a tais conclusões de Hermano Saraiva, acho-as parcelares e incompletas.
Sem pretender aqui ressuscitar a eterna dialéctica trabalho manual/trabalho intelectual, creio que o nosso futuro também passa pela inteligência propriamente dita e pelo coração. A própria História, mesmo a das cidades, também se faz assim. Neste campo, Hermano Saraiva não precisa de lições; dá-las.
 E tenho muito gosto em estar entre os seus alunos, ainda que de quando em vez me assalte a preocupação de não saber distinguir os pontos dos contos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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