O LÓTUS AZUL – XIV

XIV – O Bem e o Mal

 O Lótus Azul tem sido por vezes analisado ou criticado dum ponto de vista ético ou moral. E são interessantes alguns destes estudos, sobretudo quando orientados numa via filosófico-religiosa oriental, sobretudo taoísta.

Hergé alimentou certas teorias a partir de algumas “confissões” deixadas nas suas declarações públicas ou publicadas.

Numa sua carta a Tchang, escrita em 1 de Novembro de 1977, ele escreveu: “É preciso que se diga que as minhas actuais preocupações (e as de Fanny [a mulher]) não são do tipo que se ‘passam’ facilmente para Tintin! De facto, estamos os dois completamente imersos nos filósofos orientais, com Fanny com uma apetência especial pelo hinduísmo e eu, naturalmente, com um maior interesse pelo budismo zen e pelo taoísmo…”

Um pouco mais tarde, numa entrevista concedida a Libelle-Rosita em 24 de Fevereiro de 1978, ele acrescentaria: “O que me seduz no taoísmo é o Chinês não ser levado pela sua linguagem, pela sua cultura, a cindir tudo. Nós separamos as partes do nosso ser como vulgares objectos. É assim com o polegar, pronunciado separadamente, deixa subitamente de fazer parte de nós mesmos. O pensamento chinês dá aos acontecimentos e aos objectos um valor similar que é o do movimento. O polegar continua ligado à mão, a mão faz parte do braço que por sua vez é uma parte do corpo e este corpo não perde o contacto com a terra. O Tao é a Via principal, ou a via pura e simplesmente, se preferir. É em qualquer caso o caminho a seguir para aquilo a que chamamos o absoluto. O Tao abarca todas as contradições porque permite a expressão completa sem alterar em nada a sua finalidade.”

O taoísmo é uma espécie de tradição filosófica e religiosa originária da China onde a vida é valorizada por uma permanente harmonia com o Tao, que significa basicamente o caminho, a via ou o princípio. Não sei muito mais do que isto, mas basta-me para tentar entender Hergé.

Este, por inalterável prática, sempre funcionou como uma espécie de “esponja”, absorvendo avidamente as opiniões do seu tempo. Assim aconteceu com as idas de Tintin à Rússia, ao Congo, aos Estados Unidos, à Arábia e Índia, à China e por aí fora. Quanto a este último destino, o que mudou radicalmente foi a “água” absorvida, em função do “filtro” usado, o qual expurgou o “líquido” das suas “impurezas” habituais…

Deveremos daqui concluir que, por influência directa de Tchang, O Lótus Azul tenha sido impregnado pelas doutrinas taoístas? De modo nenhum, creio. Por um lado, Tchang era proveniente dum família chinesa católica e, por outro, seria impossível traduzir instantaneamente no álbum os princípios duma ética, complexa, que exige um profundo contacto e um longo estudo apoiado.

Porém pode admitir-se, sem qualquer dificuldade, que alguns sinais da filosofia taoísta, pela qual Hergé sempre terá revelado uma clara simpatia, tenham informado passagens do álbum.

 

O Mal e o Bem, na trama narrativa, são assumidos colectivamente por duas associações secretas: no primeiro caso, inspirada no faraó Kih-Oskh, autêntica multinacional do crime com uma rede internacional; no segundo, mais singela mas não menos determinada, através dos Filhos da Dragão. Ambos as organizações assumem uma base mística, quase maçónica, utilizando os maus um símbolo, alguns instrumentos “diabólicos” -o hipnotismo, a magia, a droga- e uma hierarquia muito organizada, com um “grande mestre” na sua cúpula – Rastapopoulos.

Os bons são menos convencionais, reunidos sob a autoridade dum sábio homem, Wang Jen-ghié, “venerável”, organizando-se mais defensivamente como uma espécie de comité de resistência. Quando o líder destaca o próprio filho, Didi, com anjo-da-guarda de Tintin, este confunde tal atitude protectora com um acto de agressão…

 

Mas os conflitos entre o Bem e o Mal atingem o apogeu quando Didi, envenenado pelos inimigos, se torna ameaçador e perigoso para com os seus, enredado na confusão mística em que o seu espírito mergulha.

Didi, o “louco de Shanghaï”, torna-se -no universo místico da obra- a figura mais significativa. O seu desequílibrio psíquico leva-o ao desejo de decapitar toda as pessoas, para as conduzir à via. A interpretação taoísta deste facto levaria Didi a libertar cada decapitado, não lhe provocando a morte mas antes lhe abrindo a porta duma outra via, mais rica, a do espírito…

Releiam-se as declarações de Hergé sobre o polegar, a mão, o braço, o corpo, a terra. Para os não iniciados, a separação dum membro vital marcaria o fim da existência; para Didi, a cabeça não passava dum simples apêndice perfeitamente dispensável. Aliás, a sede das ideias, numa certa interpretação conjunta do taoismo, confucionismo e budismo, é o coração e não a cabeça.

 

Hergé, usando formas algo simplistas, onde a caricatura se repete, estaria assim -segundo algumas opiniões críticas- a “mascarar” um dos princípios fundamentais da filosofia taoísta: “É preciso despojarmo-nos de tudo o que é intelectual ou conceptual para encontrarmos a Verdade.” Por outro lado, não deixa de ser curioso que Wang, figura carismática do velho sábio chinês e pai do “louco” Didi, nunca fale de espiritualidade, transferindo o primado deste discurso para o próprio filho!

A cena capital d’O Lótus Azul, quando Didi se prepara para decapitar os pais e Tintin, acontece perante os representantes máximos do Bem e do Mal, Wang e Rastapopoulos, e é justificada por ser imperioso que as “vítimas” encontrem a via. Esse culminante episódio termina com a vitória da causa mais nobre apenas devida à  oportuna intervenção do jovem Tchang e dos Filhos do Dragão.

O Bem, finalmente, triunfou sobre o Mal. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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