V de Vocabulário

 Aqui há dias li num jornal a notícia dum plano nazi para assassinar Churchill por meio de explosivos disfarçados de barras de chocolate. Vem na mesma linha da conspiração urdida pela CIA para eliminar Fidel Castro com charutos envenenados.
O pior -ou o melhor- é que as lembranças, tal como as conversas, são como as cerejas. A gente agarra numa e vêm uma data delas agarradas. Com o chocolate explosivo, lembrei-me do gesto que marcou para sempre a imagem da Churchill. Para quem não seja desses tempos, fica aqui o “boneco”.
Viviam-se os dias terríveis da II Guerra Mundial e Londres era violentamente bombardeada pela aviação alemã. Winston Churchill, recentemente nomeado primeiro-ministro inglês, promete ao seu povo “sangue, suor e lágrimas”, mas garante a “vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz, porque sem a vitória não sobreviveremos”.
Aquilo que ficou como sinal dessa determinação foi o gesto simbólico, com os dedos indicador e médio da mão direita estendidos num V de Vitória, espécie de mágica sigla, antídoto ao braço estendido da saudação nazi-fascista, emblema contagiante da confiança transmitida aos soldados e ao povo. Depois, o marketing da época amplificou o gesto ligando-o, por exemplo, às quatro notas iniciais da 5.ª Sinfonia de Beethoven (três curtas e uma longa), sons que, em código Morse, significam precisamente a letra V.
Soube mais tarde que a verdadeira autoria do V de Vitória não se deveria  a Churchill mas aos arqueiros ingleses, no final da batalha de Azincourt, em 1415, durante a Guerra dos Cem Anos. Vitoriosos após a dura refrega, eles mostraram com orgulho os dois dedos com que tinham manejado os seus mortíferos arcos, dedos que os franceses tinham ameaçado decepar-lhes em caso de derrota…
Seja como for, Churchill e o V da Vitória ficaram para sempre associados no imaginário de muita, muita, gente. Milhões, onde me incluo. Foi ele, muito mais do que os valentes, mas anónimos, arqueiros de Azincourt, quem transformou o gesto num símbolo da luta determinada, e vitoriosa, contra a opressão.
Reconheço que as coisas mudaram, desde esses tempos.
A vulgaridade com que hoje se usa e abusa do gesto retirou-lhe todo o significado original. Acho que aquele V se tornou meramente vocabular, fonético, anedótico…
Utilizado a propósito e sobretudo a despropósito, vulgar, equívoco, deslocado, transfigurado, ganhou em universalidade o que perdeu em historicidade. A massificação retirou-lhe a excepcionalidade quase aritocrática que foi seu timbre de honra.  Usa-se num qualquer comício pelos políticos inflamados, num vulgar estádio pelos desportistas empolgados, num banal acampamento hippie pelos pacifistas apaixonados.
Por terras da Austrália, Nova Zelândia ou África do Sul, se exibido com a palma da mão voltada para dentro, constitui grave ofensa em calão popular…
Não vale a pena perder muito tempo com análises do gesto quotidiano onde o V de Vitória desceu do épico ao quase tétrico. Ficam aqui uns apontamentos gráficos, sem qualquer legenda, espécie de antologia breve do quotidiano, do V protocolar, rotular, intercalar…

 

Este V nasceu nos domínios da política e forjou-se nos campos da batalha. Mesmo na paz, a sua essência interventiva mantêm-se, transferível do gesto para uma mais vocabular (ou parlamentar) vocação. Numa elementar relação, contida em três dúzias de meros vocábulos, aqui se deixa um modesto contributo, como prática sugestão para uso de políticos e governantes na sua relação oral ou epistolar com o povo, complementada por um simétrico rol. 

– Vocabulário básico, em V, para uso de políticos e governantes na sua relação com o povo: 

VAGA                       VALENTE                VALOR                    VASSALAGEM
VENCEDOR             VÉNIA                      VENIAL                   VENTRE
VERACIDADE          VERBAL                  VEREAÇÃO            VEREDICTO
VERNIZ                    VERSÁTIL               VERTEBRADO        VERTICAL
VEZEIRO                  VICE                        VIDA                        VIÉS
VIGOR                      VIRTUAL                 VIRTUDE                 VISÃO
VISIBILIDADE          VISUAL                   VITALÍCIO               VITÓRIA
VIVER                       VOLUMOSO           VOLUNTÁRIO         VONTADE
VOTAÇÃO                VOTAR                    VOZ                         VULTO

 – Vocabulário básico, em V, para uso do povo na sua relação com os políticos e governantes:

VACILAR               VADIO                      VAGAROSO             VAIDADE
VAIA                      VAMPIRO                 VARAPAU                VASSOURA
VEGETAR             VELHACO                 VENAL                     VENDILHÃO
VENENOSO          VERBORREIA          VENTOSA                VERGONHA
VESGO                  VEXAME                  VIA-SACRA              VÍBORA
VICE-VERSA         VICIAR                     VIGILÂNCIA             VIGARISTA
VILANAGEM         VILIPENDIAR           VINGANÇA               VIOLAR
VIOLÊNCIA           VIRA-CASACA         VIROTE                    VISCOSO
VÍTIMA                   VOLÚVEL                 VÓMITO                   VULGAR

As lembranças não são mesmo como as cerejas?
Com caroço e tudo…

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

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