O LÓTUS AZUL – XV

XV – Mandarim sem mestre

Já atrás se abordou, de passagem, a questão linguística inerente à construção da história, em função da cumplicidade de Tchang.

Hergé sempre “escreveu” em língua francesa, isto é, as suas personagens “falam” e “pensam” em francês, e é nessa língua que são escritas as legendas e traduzidos os sons, na transcrição fonética das onomatopeias. Nas aventuras de Tintin, as suas relações com personagens de outras nacionalidades revelam as naturais situações de incomunicabilidade, sobretudo quando isso dá jeito à narração. De resto, o que acontece com a normalidade que o maravilhoso dos quadradinhos permite é que todos se entendam, como se dominassem na perfeição a totalidade dos códigos linguísticos em presença.

No caso das imagens -contexto geográfico ou “cenário” onde as personagens se movimentam- esta lógica bastante sumária e simplista revela-se mais discutível. As personagens aceitam e mantêm um certo grau caricatural, mas os seus locais de vivência, segundo Hergé, devem ser realistas. Esta preocupação do autor é muito nítida e basta para isso recordar as actualizações que O Lótus Azul sofreu na passagem da versão original, a preto e branco, para o álbum, através de alguns conjuntos de imagens aqui já reproduzidos.

O contexto chinês revelou-se particularmente rico, e mesmo propício, para que os cenários pudessem reflectir o respeito que Hergé procurou concretizar quanto à verdade histórica e geográfica do seu relato. E este é um dos grandes contributos que Tchang trouxe ao trabalho conjunto. O resultado traduziu-se num apreciável grau de rigor, embora os leitores habituais das histórias de Tintin, não tendo acesso à escrita mandarim, se mantivessem insensíveis perante esta melhoria, técnica e comunicacional, do relato. Para estes, e são gerações, a historicidade manteve-se impenetrável, pois aqueles cenários não lhes transmitiam nenhuma particular mensagem, para além de claramente denunciarem o facto de a história se passar na distante e enigmática Shanghaï e arredores…

Pouco a pouco, alguns estudiosos da obra abordaram esta questão e foram revelando mais esta faceta, interessantíssima, d’O Lótus Azul. Agora, a versão oficial chinesa do álbum não só confirma o facto como lhe vem trazer novas abordagens.

É este novo capítulo que vamos procurar aqui desvendar. Comecemos pelas primeiras “lições práticas” de mandarim elementar…

A inicial, lógica e fácil -aliás já revelada- é a da própria designação da obra, inspirada ou não na sugestão implícita no filme O Expresso de Shanghaï.

A palavra lótus, escrita em perfeito mandarim, surge por diversas vezes, logo a partir da capa de todas as edições, desde a original, e sobretudo no lanternim que assinala a porta do salão de fumo.

O Lótus Azul surge, naturalmente na sua expressão completa, na capa e na folha de rosto da edição chinesa, como atrás foi divulgado.

 

Depois, surgem na história outras indicações meramente informativas, como a designação do Hotel ou do Club Ocidental,  a placa Entrada Proibida, ou a máxima universal Tempo é Dinheiro.

Aqui há alguns pormenores interesssantes neste jogo linguístico.

Por que são escritas em inglês as designações do Hotel e do Clube, quando a norma, acima descrita, privilegia o francês? Por uma óbvia e lógica razão, a de ficarem situados na Concessão Internacional, onde domina a língua inglesa.

 

Já nos casos das placas Entrada Proibida ou Tempo é Dinheiro, também se verifica uma distinção. A primeira surge redigida em mandarim desde a versão original e só a segunda foi traduzida na versão chinesa, pois estava escrita em inglês.

 

Estes exemplos iniciais constituem os mais vulgares.  

As relações seguintes acrescentarão redobrados motivos de interesse.

 António Martinó de Azevedo Coutinho  

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