DESACORDO ORTOGRÁFICO – I

POEMA ANTI-LINCE

Madalena Homem Cardoso é médica e escritora mas é sobretudo uma apreciada activista cívica no mundo cultural. São conhecidas as suas acutilantes intervenções contra desmandos, de vária ordem, com que certas “autoridades” pretendem abalar os fundamentos essenciais da nossa condição de portugueses. Como é o caso da Língua. Li há dias um seu texto, no Público, com o qual qualquer normal português tem de concordar, a não ser que alguns preconceitos políticos o afectem.

Novos modos de não ser, assim se denomina o texto de Madalena Homem Cardoso, onde se desmonta, uma vez mais, a aberrante imbecilidade a que deram o pomposo nome de Acordo Ortográfico. E aí se denuncia, entre outras calamidades, o chamado “conversor Lince”.
O que é isto? Nada mais, nada menos (e vou citar os textos oficiais) que uma ferramenta de apoio à implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, a qual converte o conteúdo de ficheiros de texto para a grafia que está a ser introduzida em vários países do espaço da CLP. Foi produzida por uma equipa do Instituto de Linguística Teórica e Computacional e solenemente lançada pelo Ministério da Cultura, portanto ainda no reinado do anterior Governo.
Por outras palavras, e para faciltar o entendimento, o “conversor Lince” foi precisamente o dispositivo que Vasco Graça Moura mandou desligar em todos os computadores do Centro Cultural de Belém, logo que tomou posse do lugar de seu responsável. Lembram-se?
Por que se chamará Lince? Por estar em vias de extinção? Ou em homenagem ao “pai” do acordo, o prof. Malaca Casteleiro? Lince da Malcata e, agora, Lince do Malaca... Será por isso?

Voltaremos ao tema, porque tal se amplamente se justifica.
Por hoje, e relacionando Madalena Homem Cardoso com o Lince, evoco um seu poema alusivo, precisamente denominado O Mostrengo Lince, notável e inspirada paródia à conhecidíssima obra quase homónima, de Fernando Pessoa. Foi publicada há mais de seis meses (em 26 de Outubro de 2011) no facebook da autora, mas a sua qualidade e pertinência justificam a partilha com os leitores.

O Mostrengo Lince

O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: “Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?”
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
“Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

“De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?”
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
“Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?”
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
“Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!”

                                                               Madalena Homem Cardoso

Já agora, e porque se lembrou Fernando Pessoa, vem muito a propósito uma sua citação de obra menos divulgada, precisamente retirada de Pessoa Inédito, volume com orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes, editado em Lisboa pelos Livros Horizonte, em 1993:
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual.
O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite.
Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.”

Palavras premonitórias e quase proféticas, não acham?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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