O LÓTUS AZUL – XVI

XVI – Incursões pelo vocabulário, e não só…

A criação dum contexto credível, genuinamente chinês, levou Hergé a certos exageros. Esta é a opinião, legítima e autorizada, de alguns estudiosos e críticos da sua obra. O filósofo e sinólogo Léon Vandermeersch, que já citámos, acha que o autor misturou traços das distintas paisagens do Norte e do Sul da China, que dotou os interiores das salas locais de enormes janelas, à moda ocidental, que povoou certos ambientes com indiscriminadas páginas de provérbios orientais, que mostrou os chineses sempre de boca fechada versus os japoneses com dentes à mostra e pernas arcadas…

Enfim, pormenores talvez, mas suficientemente significativos para terem interessado os especialistas.

Os ambientes, tanto interiores como exteriores, foram dotados dos elementos que Hergé e o seu “assessor principal” Tchang entenderam convenientes à verosimilhança e à narratividade desejadas. Continuemos a sua abordagem.

Por exemplo, a designação Restaurante, que abunda em qualquer localidade chinesa, encontra diversos pretextos de utilização nas páginas d’O Lótus Azul. Quase apetece propôr uma espécie de “Procurem o Wally” pelas páginas do álbum. Mesmo sem conhecer a escrita mandarim (chinês simplificado ou tradicional) é possível vasculhar as vinhetas para contabilizar a quantidade de vezes em que surge a designação em causa. Aqui ficam uns exemplos, a partir do “modelo” visível atrás de Tintin, quando este come…

O caso seguinte é muito interessante, porque mostra como O Lótus Azul significou, a diversos níveis da própria construção narrativa, um ponto de partida quase “histórico”. Já atrás se abordou a circunstância de ter aí começado a ser instalada a linha clara. O pormenor a seguir abordado mostra uma solução expedita que Hergé encontrou para resolver um problema que na época derivava, em parte, da necessidade de adaptação gráfico-narrativa das versões iniciais das histórias, contando estas com um maior número de páginas. Acresce a questão de se colocar a necessidade de dar resposta às diversas e sucessivas interrogações levantadas durante a narração. Estas duas questões, convergindo sobretudo no final das aventuras, produziram uma curiosa “fusão” entre o verbal e o icónico, pela qual se tornou possível fornecer informação bastante sob uma forma leve e agradável, sem ofender o equilíbrio anterior.

Em O Lótus Azul, quase todas as respostas em suspenso foram esclarecidas através da reprodução parcial d’O Jornal de  Xangai (pág. 60 do álbum). Aí, ficámos a saber onde estava sequestrado o Prof. Fan, o feliz final da luta entre os Maus e os Bons, o desmantelamento do salão Lótus Azul e as buscas feitas no domicílio do sr. Mitsuhirato, onde foram encontrados documentos confidenciais que provavam as acções terroristas (o Incidente de Muckden) e foram entregues à Sociedade das Nações, em Genebra. Como complemento, o jornal reproduzia uma entrevista com o herói do dia, o jovem repórter Tintin.

As únicas questões ali não respondidas foram-no logo a seguir: a cura de Didi, o suicídio de Mitsuhirato através do ritual hara-kiri (por um novo recorte de jornal!) e a adopção de Tchang pela família Wang.

Para melhor se conhecer a importância da solução “jornalística” encontrada por Hergé, devemos confrontá-la com uma falhada tentativa similar anterior (em Tintin na América, 1932, pág. 62), onde uma longa e pouco atraente locução radiofónica fornece as informações finais, assim como através da repetição posterior da reprodução duma página (em A Ilha Negra, 1938, pág. 62) ou, mais sofisticadamente, duma colecção de recortes de imprensa (em Carvão no Porão, 1956, pág. 60).

 Continua no próximo número.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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