QUE SE LIXEM OS MAL INTENCIONADOS

QUE SE LIXEM OS MAL INTENCIONADOS…
(que deles não é o reino dos Céus!)

Já não pode um homem ter um desabafo em público. Todos lhe caem em cima e lêem metáforas onde há a mais honesta sinceridade. Toda a gente pretende entender, e subentender, o que ninguém disse e nem sequer sonhou, porque existe uma manifesta má vontade contra tudo o que é político. Está mal!

Despe-se um homem e mostra-se na sua integral pureza e zás!, logo arranjam maneira de descobrir o que ele escondeu no seu âmago. Nem com raio X aquilo se desvenda…

Que se lixem, pois, os mal intencionados!

Percorri bibliotecas e esconsas estantes, algumas proibidas, na ânsia de encontrar as bases filosóficas daquela histórica frase. E, também, a sua justa interpretação.

Eureka! Depois de muito procurar, encontrei a resposta, num velho manual de ciência política, redigido na clandestinidade por um tipo, de seu nome Quino, dizem que argentino como o Maradona, reconhecido especialista na matéria.

Para se fazer entender, o tipo redigiu os seus tratados em tiras de quadradinhos e arranjou uma figura, acho que inspirada na figura da Dona Mafalda de Sabóia, excelsa esposa do nosso primeiro rei, pela qual Quino tinha uma profunda admiração. Por isso, chamou-lhe precisamente Mafalda. Mafalda, a Conquistadora, perdão!, Mafalda, a Contestatária, foi assim que ela ficou conhecida.

Pois é nessa precisa página, em que Mafalda conversa com a Liberdade (que bela interlocutora!), onde fica explicada a razão de ser pela qual o nosso primeiro disse: que se lixem as eleições!

Está tudo ali, muito clarinho, e basta ler e meditar profundamente sobre a filosofia subjacente. Tudo ficará entendido, sem mais razões para criticar tão inocente desabafo público. Ponto final. 

Largo dos Correios

APOIO PEDAGÓGICO III

Só é analfabeto quem quer…

Infelizmente, quando foi desencadeada a Campanha Nacional de Educação de Adultos, ainda não estava disponível a Cartilha Paternal. Teria sido uma excelente e oportuna proposta. Porém, nos actuais Cursos e Acções ditos de Formação Profissional, o seu uso talvez não seja de todo despropositado.

Por razões óbvias, não se defende o recurso à Cartilha Paternal por parte das criancinhas e seus respectivos educadores. Naturalmente, o destino que espera muitas delas, se as coisas não se alterarem para muito melhor na próxima geração, é previsível. As criancinhas de hoje arriscam-se a encontrar no seu futuro situações de marginalidade, riscos de desemprego e provável alojamento nas periferias. Oxalá esta tétrica previsão seja desmentida, e radicalmente.

Por outro lado, talvez seja mesmo dispensável toda e qualquer alfabetização prévia, uma vez que um bom currículo, constituído pela demonstração da aquisição de sólidas bases, como a de bem aplaudir o seu líder (de preferência na fila da frente), de bem colar cartazes à prova de chuva, de bem ser cavalgado pelos superiores e outras habilidades similares, um bom currículo dispensa livros únicos, manuais da especialidade e até, imagine-se, toda e qualquer cartilha, maternal, paternal, fraternal e outras do estilo.

Bem, é chegada a vez de travar conhecimento com as propostas pedagógicas de Pitum. Ao contrário de João de Deus, ele não precisa de gastar cerca de seis dezenas de páginas só com instruções de uso da Maternal, numa espécie de manual de posologia bem intencionado, mas indigesto e chato até dizer basta. No caso da Paternal está tudo ali, transparente, realista qb, directo, intuitivo, eficaz…

Revelam-se a seguir alguns conjuntos de páginas, com ambas as propostas para confronto, sem inúteis e supérfluos comentários.

 

Naturalmente, ressalva-se o facto de as reproduções das páginas da Cartilha Maternal serem fac-símiles da sua edição original, escriptas à antiga portugueza. No entanto, se fosse usado o actual achordo ortographico, o effeito não seria muito differente.

 

Portanto, as diversidades temáticas ficam patentes nestes exemplos. Apresentei o devido e atempado aviso prévio -recordo a propósito.

 

A “cúpula” da Cartilha Maternal é o celebérrimo Hino de Amor, que se recitava, noutros tempos, em tudo quanto era festinha escolar. João de Deus afirmou, nas Instruções com que fez religiosamente acompanhar as vinte e cinco Lições, mais a Nota, que uma cartilha sem alfabeto seria um escândalo, a evitar. Também, embora o não dissesse, um conjunto de prosas sem um poema seria igualmente reprovável. Daí o Hino de Amor. Pitum, coerente, subscreveu um outro amoroso poema, apenas ligeiramente mais periférico.

 

Sem mais comentários -já bastaram os que ficaram para trás!- aqui deixei uma séria proposta de estilo didáctico-pedagógico-cultural. De vez em quando é bom e útil que nos debrucemos sobre os campos mais sérios da actividade humana.

Na mesma linha, um dia destes debruçar-me-ei sobre horóscopos e previsões astrológicas. Fica prometido.

Com as minhas homenagens aos pedagogos João de Deus e Pitum, despeço-me com amizade.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Construção é o título duma canção, e de um álbum, de Chico Buarque. Datada de 1971 e escrita no exílio, constitui uma obra adulta do consagrado cantautor brasileiro. Ao reproduzi-la aqui, apenas procuro complementar musical e poeticamente o espírito, e também a letra, da Cartilha Paternal.  

A TRADIÇÃO JÁ NÃO É O QUE ERA…

Não gosto de touradas. Não as frequento, nunca as frequentei e não tenciono frequentá-las. Isto não quer dizer que não admita que haja quem as frequente e as aprecie sobremaneira. A tolerância, em liberdade, é mesmo isto, o direito de escolher e de admitir aos outros o mesmo direito à escolha, ainda que esta não coincida com a nossa. Por isso, nem sequer vou aqui previamente filosofar sobre os argumentos, já clássicos, que colocam os amigos e os adversários da tourada uns contra os outros.
A razão deste escrito tem a ver com uma recente tomada de decisão, devidamente publicitada, por parte dum organismo pelo qual tenho o devido respeito. Na mesma linha acima exposta, vou publicamente comentar tal decisão.
A Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo (CIMAA), na reunião do seu Conselho Executivo acontecida a 17 de Julho no Instituto Politécnico de Portalegre, “congratulou oficialmente o Município de Elvas pela classificação de património mundial dada pela Unesco, na categoria de bens culturais ao sítio Cidade Fronteiriça e de Guarnição de Elvas e suas Fortificações”. Citei textualmente.
Nessa mesma reunião, “o Presidente da Câmara Municipal de Monforte agradeceu o apoio da CIMAA e munícipes à defesa da Tauromaquia como património cultural da nossa região”. Voltei a citar.
Na sua mesma página, oficial, a CIMAA revela a posição tomada relativamente à Tauromaquia. Volto a citar:
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), aprovou em Outubro de 2003 a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, entrando a mesma em vigor a 20 de Abril de 2006. Esta convenção promove a salvaguarda do património imaterial das comunidades, dos grupos e dos indivíduos em causa.
A Tauromaquia é uma das formas de expressão cultural mais enraízadas no Alto Alentejo. Muito antes de qualquer desporto coletivo praticado contemporaneamente, a arte de lutar com os touros tem evoluído um pouco por todo o território nacional, mantendo atualmente uma expressão muito forte na região.
Para grande parte deste povo, esta é uma forma de vida, desde tenra idade, onde é comum crianças brincarem ao toureio, como quem joga à bola, nos recreios das escolas.” (…)
Não podemos em caso algum renegar esta tradição, esta herança cultural, própria de um povo. É normal que muitos cidadãos não se identifiquem com a Tauromaquia. Seguramente que em cada português existem pontos de interesse convergentes e divergentes.
O que sabemos é que os usos e costumes não são iguais em todo o lado, o que é cultura numa região, pode não ter expressão noutra, mas jamais poderemos aceitar que existe um “certo” e um “errado” para definir cultura e identidade.
Mal de Portugal se considerarmos que deveremos seguir as mesmas tradições em todo o lado e pior, se por alguma decisão administrativa, matarmos um bocado da nossa cultura, deixando o nosso país mais pobre.
Face ao exposto, entende o Conselho Executivo da CIMAA, reunido no dia 17 de julho de 2012, o seguinte:

1.      Reiterar a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial do Alto Alentejo;
2.      Repudiar qualquer decisão administrativa que coloque em causa tão secular forma de expressão e identidade cultural;
3.      Dar conhecimento desta tomada de posição a Sua Excelência, o Presidente da República, à Assembleia da República, ao Governo, restantes Comunidades Intermunicipais e à comunicação social.”

 Naturalmente, fica bem ao colectivo intermunicipal a expressa solidariedade para com Monforte, a sede regional por excelência de legítimos interesses e valores tauromáquicos.

Depois da lógica e natural congratulação para com a honraria concedida a Elvas, a CIMAA evoca a UNESCO e o estabelecimento, por esta consagrada entidade internacional, do estatuto de Património Cultural Imaterial. Até aqui tudo normal…
A partir daqui é que as coisas se baralham um pouco. Após um curioso preâmbulo, a CIMAA garante que as crianças norte-alentejanas brincam ao toureio como quem joga à bola, nos recreios das escolas. Confesso humildemente a minha profunda distracção profissional (sou do tempo em que os professores acompanhavam os alunos no recreio!) pois nunca, nunca, dera por tal, nem sequer dessa lúdica ocupação tinha ouvido falar… Aprender até morrer!
Também achei originais certos conceitos tecidos em torno daquilo que é ou não é cultura, aqui sim mas ali ao lado talvez não, assim como a introspectiva contradição íntima, de convergirmos ou divergirmos de nós próprios. É o que lá está escrito, embora não fosse seguramente o que o redactor queria dizer, baralhando o individual e o colectivo.
Questões de tradição não abordo aqui, em Portalegre, sem remeter o tema para o Outeiro da Forca, por exemplo, herança cultural de locais execuções públicas, rigorosamente tradicionais e populares.

Relacionar cultura e tradição é justo e pertinente. Mas a cultura, tradicional ou não, deve ser entendida como mais um instrumento ao serviço do Homem para aumentar os seus graus de sensibilidade, de inteligência e de civilização. Podem a violência gratuita, o sangue derramado ou a mal disfarçada crueldade ser considerados cultura ou tradição?  Deveria a CIMAA, pedagogicamente, revelar-nos o que entende sobre isto, em vez de utilizar fáceis lugares comuns.
Gostaria de conhecer os seus mais profundos e convincentes argumentos, aquilo que motiva as suas conclusões.
É claro que não existe um “certo” ou um “errado”, e que não temos de seguir as mesmas tradições em todo o lado, mas -atenção!- desde que os outros, assassinos por decreto, não se atrevam a matar a nossa cultura…
E, depois de tudo isto, assumindo a CIMAA o papel de uma UNESCO caseira, toca a reiterar a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial do Alto Alentejo. Com que legitimidade? Com que autoridade? Fez algum referendo? Pelo menos, fez uma sondagem? Apoiou-se em doutos pareceres? Obteve uma absoluta unanimidade interna?
Ora, reiterar significa: repetir, fazer de novo, renovar. Quem, antes da CIMAA, proclamou tal estatuto? Será interessante, e oportuno, sabê-lo, pelo que se justifica e impõe o devido esclarecimento, que se fica a aguardar.
Repudia-se depois qualquer decisão administrativa que coloque em causa tão nobre e secular forma de expressão e identidade cultural. Ou seja, não se reconhece aos outros o direito de emitir uma decisão administrativa. Então a posição da própria CIMAA é de que natureza: legislativa, executiva, opinativa, obrigatória, facultativa, opcional, imperativa, consultiva, moderadora ou quê?
Mas percebe-se a oculta preocupação, quando se sabe das imparáveis posições críticas que, com absoluta segurança e determinação, vão extinguindo as touradas por tudo quanto é sítio civilizado e culto. Até na vizinha “pátria dos touros”, onde a Catalunha deu um claro exemplo de proibição, legal e imperativo.
A CIMAA foi hábil na sua citação da UNESCO, mas esqueceu-se de que a mesmíssima organização aprovara em Bruxelas, no dia 27 de Janeiro de 1978, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais. E está aí consignado, no seu artigo 10.º:

1. Nenhum animal deve ser explorado para divertimento do homem.
2. As exibições de animais e os espectáculos que utilizem animais são incompatíveis com a dignidade do animal.

 Será possível compatibilizar, sem flagrantes incoerências, todos os interesses em causa? A UNESCO serve de inspiração aqui e despreza-se ali, conforme dá jeito?
O comunicado da CIMAA  significa uma legítima e solidária tomada de posição institucional.  Neste sentido compreendo-a, mas não estou seguro de que seja representativa do Alto Alentejo e, sobretudo, de que constitua um eficaz instrumento em defesa da chamada “festa brava”.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XIII

XIII – O hábito faz o monge
ou Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele

 As características atribuídas às diferentes personagens afiguram-se, por vezes, algo maniqueístas. No entanto, fazem parte do imaginário ou maravilhoso de qualquer forma e modalidade de comunicação, portanto também da BD.

Tintin é o herói central das suas aventuras, acompanhado do autêntico alter-ego Milou, um cão que vai evoluindo ao longo dos anos, pela experiência e pela filosofia de vida. Por alturas d’O Lótus Azul, a panóplia dos habituais intervenientes na sucessão das histórias de Tintin é reduzida. Algumas das figuras centrais ainda não tinham feito a sua aparição, como é o caso do capitão Haddock, do professor Tournesol ou da cantora Bianca Castafiore, para citar apenas as mais emblemáticas.

Dos comparsas do herói, contamos aqui, entre os “bons” com o incontornável Tchang e com Dupond & Dupont; entre os “maus”, com Dawson e, sobretudo, com Roberto Rastapopoulos.

Comecemos por estes. Dawson é aqui o chefe da polícia da Concessão Internacional de Shanghaï, um figurão secundário que apenas regressará na aventura Carvão no Porão (em 1956), como traficante de armas. Mas Rastapoupolos é um vilão a sério.

Já surgira no caminho de Tintin em Os Cigarros (ou Charutos) do Faraó, sem se ter ainda definido como “mau”, e irá meter-se novamente no caminho do herói em Carvão no Porão e em Voo 714 para Sydney (1966).

É muito engenhosa a ligação que Hergé cria, na passagem do relacionamento entre as duas personagens, de Cigarros para Lótus, através do cinema, uma arte pela qual Tintin revela uma particular admiração. A cena das filmagens onde o herói intervém nos Cigarros prolonga-se na respectiva imagem, projectada na sala de cinema do Lótus.

E só no final desta aventura, em situação dramática, surgirá a surpreendente revelação da identidade do chefe máximo da organização criminosa que Tintin combate, precisamente o sinistro Rastapopoulos.

 

Tchang, como já foi referido anteriormente, vai reaparecer em Tintin no Tibet (1958), em circunstâncias curiosas, quase premonitórias, numa outra obra “especial” de Hergé.

Abordemos agora o caso, muito particular, do par de detectives que constitui uma dupla essencial na vasta galeria das personagens fundamentais destas aventuras.

Surgem em 1934, precisamente na versão inicial -a preto e branco- dos Cigarros. Aí, as suas designações são X 33 e X 33 bis, e desempenham o papel de polícias quase completamente broncos, radicais, incapazes de entender outra coisa que não seja o cego cumprimento de ordens, por mais imbecis que sejam. A continuação das suas intervenções nas sucessivas aventuras de Tintin vai adoçar-lhes a rudeza inicial, embora nunca sejam dotados de um normal grau de inteligência e sensatez.

Possuem diversas características no seu código (pouco) profissional de conduta como, por exemplo, a de quase sempre seguirem pistas falsas e a de quase sempre acusarem falsos culpados. Tintin, por diversas vezes, será vítima destas confusões.

Mas o mais interessante comportamento dos Dupond/t é a sua permanente e quase doentia intenção de passarem despercebidos nos meios onde actuam.

Ao esconderem a sua identidade sob exóticos e barrocos disfarces, eles apenas conseguem dar exuberantemente nas vistas pelo vistoso folclore das vestimentas exibidas.

Contabilizei sete distintas situações deste tipo (falsos árabes, ou marinheiros, ou gregos, ou tiroleses…). A que agora nos interessa diz respeito ao disfarce chinês escolhido pelos Dupond/t, precisa reprodução de ricos quimonos imperiais, peças de museu em rigoroso desuso, exibidas pelas ruas de Shanghaï.

O ridículo traduz-se no escândalo público (pág. 45) desencadeado pela cidade fora…

 

No entanto, o mais curioso desta questão reside no seu confronto com o comportamento de Tintin. Naturalmente, também Hergé o sujeita ao lógico uso de vestuários compatíveis com os locais onde ele vive os seus episódios –à colonial, no Congo; de cowboy nas pradarias norte-americanas; com casacão de peles na Rússia; com kilt na Escócia; de túnica e turbante na Índia, etc.

Além disso, Tintin também se disfarça, deliberadamente, para melhor contrariar as tácticas dos seus adversários. E fá-lo n’O Lótus Azul, quando finge ser um general japonês (pág. 30). Este truque confunde mais tarde os seus adversários, no salão de fumo, quando o julgam novamente disfarçado (pág. 54).

A verdadeira curiosidade situa-se no facto de Tintin se vestir à maneira chinesa, com um quimono azul, que lhe é enviado com tal propósito de discrição (pág. 12). Ao contrário do que acontece com os Dupond/t, a sua movimentação pelas ruas da cidade, pelas estradas e campos ou pelo interior das residências, passa perfeitamente despercebida. Hergé garante essa rigorosa normalidade durante 46 das restantes 50 páginas do álbum…

 

No entanto parecem verficar-se, quanto a este particular, uma “distracção” de Hergé e uma séria objecção.

A “distracção” -colocamos o termo entre aspas, pelo sincero respeito pessoal para com o rigor do autor- consiste em Tintin ostentar, numa breve passagem pela casa do prof. Wang (apenas duas tiras na pág. 29), uma túnica comprida, quando o seu quimono azul (antes e depois de tal momento) dispõe sempre dum casaco curto.

A objecção é mais séria, porque vinda de quem vem. Na revista Philosophie Magazine (Hors-Série) dedicada a Tintin au Pays des Philosophes, Paris – Setembro de 2010, um especialista em estudos chineses e professor na École Pratique des Hautes Études, Léon Vandermeersch, escreve: “A própria vestimenta azul de Tintin em Shanghaï não é mais autêntica do que o grotesco disfarce imperial dos Dupondt”.

Este autorizado depoimento contraria um pouco da competente assessoria técnica de Tchang junto de Hergé. Acrescente-se, em abono do exposto no álbum, que mais ou menos uma dezena e meia de outras personagens (quase todas simples “figurantes”) se apresenta vestida de igual modo, com quimono azul… 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

OESTE: S.O.S.!

Por razões familiares, frequento muito, e de há muito, o Oeste. Acho que é uma das mais equilibradas e atraentes regiões do nosso país, em diversos níveis de apreciação.
A promessa de um considerável desenvolvimento regional esfumou-se ali no burlesco episódio do aeroporto na Ota, bem vivo ainda na memória de todos.
Há uns meses estive tentado a escrever um texto a propósito da morte duma criança, acontecida num simulacro de estrada sita no Oeste. Agora, com novo pretexto, recordo brevemente o que então silenciei.
O cenário de ambos os episódios é idêntico, ainda que os pormenores sejam radicalmente distintos. Mas vão dar ao mesmo…
A Praia del Rey (ou o Béltico) é um empreendimento turístico como muitos outros, naquela zona. Fica situado junto ao mar, como o nome indica, entre Peniche e Óbidos. O lugar só não é mais conhecido porque algumas razões “estratégicas” produzem o habitual escamoteamento público do seu nome, em benefício da sede do concelho, precisamente Óbidos. Mas, se acrescentarmos que se trata do preciso lugar onde a selecção nacional de futebol estagia, todos ficarão devidamente esclarecidos quanto à importância do sítio. Aliás, vai para lá agora, pelas mesmas razões, o Manchester United, tal como muitas outras equipas desportivas (e não só!) fizeram e farão.
Apresentado o local, vamos aos factos.
A ligação mais vulgar e mais utilizada como acesso à Praia del Rey é um caminho mais ou menos florestal, a que dão o nome de estrada. Tem uns banais cinco ou seis quilómetros de extensão, um piso apenas sofrível e cheio de remendos, exígua largura sem qualquer marcação visível, bermas (se isso se lhes podemos chamar!) desniveladas e irregulares, sendo bordejada por pinheiros e eucaliptos a meio metro dos irregulares limites da sua faixa de “rodagem”… Descrevi com manifesta simpatia um caminho onde, sobretudo quando chove, são assinalados frequentes despistes. Alguns, para além das chapas amolgadas, com vítimas, e até mortais.
Foi precisamente o que sucedeu com a Matilde. Aconteceu em Março deste ano quando ela seguia no banco traseiro do automóvel conduzido pela mãe, que perdeu o controle da viatura, precisamente porque chovia. O brutal embate com um pinheiro causou a morte da Matilde, com quatro anos ali interrompidos. Para sempre.
Essa vulgar e curta estrada, com um movimento intenso, continua num estado onde a segurança é pior do que precária. Sempre assim a conheci. Porquê? Provavelmente, porque se situa num concelho e os chorudos rendimentos associados ao seu destino enchem os cofres doutro concelho. Será? Para quê investir num projecto de que outros beneficiarão? Não quero nem devo especular mais sobre matéria cujos meandros ignoro em pormenor…
O que sei, e isso é óbvio, é que outras Matildes esperam ali o seu destino. Até quando? Alimento uma secreta, embora quase obscena, expectativa: a de que um dia destes o Cristiano Ronaldo ou qualquer outra vedeta estampem, sem a mínima consequência corporal, um dos seus bólides numa daquelas traiçoeiras curvas ou rectas, tanto faz. Também poderia isso acontecer, nas mesmas condições de salvaguarda pessoal, com um daqueles jornalistas, alguns implacáveis, ali frequentes. Gostaria de verificar como ficaria chamuscada a impecável imagem mediática da qual os autarcas de Peniche e de Óbidos cuidam com imenso zelo, cada um à sua maneira. É claro que então poderiam ser esclarecidas as respectivas responsabilidades, provavelmente de diverso grau.
O outro episódio aconteceu comigo, na sequência de um ligeiro acidente desportivo, ontem mesmo. Levaram-me ao Hospital de Peniche, onde fui primorosamente atendido, radiografado, sujeito a uma intervenção de pequena cirurgia e remetido à continuidade da recuperação física, já em Portalegre. Nas talvez duas horas de permanência no Serviço de Urgência dei pela passagem, por lá, de um miúdo que rasgara o queixo num trambolhão, de um rapaz que fracturara um pé numa banal corrida pela praia e de um motard das redondezas que caíra da sua mecânica montada. Houve muito mais gente, mas não posso citar-lhes as maleitas ou as razões da presença.
Todos sabemos, pela comunicação social, das movimentações oficiais e civis que por Peniche, pelas Caldas da Raínha ou por Torres Vedras têm sido o sinal visível da legítima resistência das populações perante as persistentes ameaças de encerramento ou reformulação dos seus respectivos serviços hospitalares.
Quando estamos fora das coisas, quando estas não nos tocam de perto nem sequer de raspão, mantemos sobre elas uma prudente ou distraída distância. São problemas dos outros.
Quando, mesmo de relance, nos tornamos protagonistas, indirectos, como quando assistimos ao baldado esforço de salvar vidas gravemente acidentadas, contando com o impressionante aparato dos mais sofisticados meios, incluindo o helicóptero, e foi este o caso da pobre Matilde; ou directos, como quando poderíamos ter hesitado sobre o endereço exacto do socorro urgente, entre Peniche, Caldas ou Torres, no caso quase insignificante do meu simples e banal acidente; quando somos testemunhas ou vítimas, então percebemos por dentro o valor e o alcance das tais coisas.
O caso dos hospitais do Oeste data, tanto quanto sei, dos inícios de 2007, precisamente quando os órgãos de comunicação social alertaram as incautas populações para a existência dum relatório oficial que apontava para o encerramento da Urgência no Hospital de Peniche. Portanto, nem sequer se pode acusar o actual ministro da Saúde, ou o Governo que integra, de serem os autores da iniciativa. Mas podem ser os executores da mesma…Porém, se formos ao fundo da questão, apetece perguntar se, para os governos centrais ou locais, as pessoas são apenas números estatísticos ou potenciais votantes.
Nestes casos, distintos mas complementares, apetece até afinar o putativo questionário. Por exemplo: quantas pranchas de surf, quantas chávenas de chocolate ou quantos elogios da troika valem a vida, a saúde ou a segurança dum simples cidadão, com os impostos em dia e os seus direitos cívicos, aparentemente, também?
Quantas Matildes terão de ser sacrificadas, quantos cidadãos do Oeste (ou seus visitantes, incluindo os turistas que duplicam a habitual população) terão de sofrer (ou de morrer!), para que uma simples estrada seja digna desse nome, para que os hospitais da região sejam actualizados e não abatidos?
O Oeste merece continuar a ser um local adequado para viver e um destino atractivo para visitar. Mas assim, perturbado por estas políticas governativas -tanto as próximas como as remotas- não vai manter por muito tempo as condições que justificam o seu antigo e justo merecimento.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

VERGONHA DE MIM

Um conhecido e apreciado declamador brasileiro, Rolando Boldrin, recitou publicamente um poema atribuído a Ruy Barbosa, jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador baiano de prestígio internacional.
Depois, verificou-se que, excepto a última estrofe -espécie de mote- tinha sido Cleide Canton, outra intelectual brasileira, a criadora da obra. Portanto, Ruy Barbosa concedera à poetisa apenas inspiração e nome para a obra Sinto Vergonha de Mim. Reposta a verdade, logo Rolando Boldrin voltou a declamar o poema, já devidamente asssinado.
“Transcrevi-o” acima com a devida vénia e, sobretudo, assumindo total concordância pessoal com o seu conteúdo. Atrevo-me mesmo a propôr a substituição do adjectivo “brasileiro” pelo adjectivo “português”, no terceto final, antes da inserção do mote original de Ruy Barbosa (abaixo entre aspas), que Cleide Canton desenvolveu e aprofundou.
A seguir, aqui fica o poema, integral, na corajosa denúncia da sua implacável letra e da sua inspirada criatividade.
Desgraçadamente, a actualidade do tema revela-se rigorosa e pertinente, quando aplicada à generalidade da situação concreta deste pobre e maltratado Portugal, conduzido pelas incompetentes e arrogantes mãos dos que praticam hoje precisamente aquilo que ontem condenavam aos outros. Muitas vezes ultrapassam-nos mesmo, no impudor e na desfaçatez. Não vale a pena entrar agora em pormenores, porque todos os conhecemos…
E o que se verifica no país, pode -na devida proporção- aplicar-se à nossa cidade, onde presentemente assistimos a autênticas e vergonhosas “cambalhotas” cívicas e políticas.
Todos, no íntimo, temos sobejas razões para sentirmos vergonha de nós próprios, porque fomos usados na nossa ingenuidade, na nossa boa-fé. E não tenho a absoluta certeza de que nos sirva a lição, em termos de futuro.
Quero pessoalmente penitenciar-me pelas oportunidades, que tenho perdido ou deixado passar em silêncio, de denunciar os descaminhos a que têm vindo a ser conduzidas tanto a minha Pátria como a minha Terra natal. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios”
para justificar actos criminosos,
a tanta relutância em esquecer
a antiga posição de sempre “contestar”,
voltar atrás e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo
que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer… 

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir o meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar o meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto.”

Cleide Canton e Ruy Barbosa

JOSÉ HERMANO SARAIVA – II

No seu curto documentário sobre José Hermano Saraiva,  ontem recordado, Júlio Isidro citava-o como considerando-se -a si próprio- um “ingrediente” da História de Portugal. Em termos culinários, um ingrediente é um componente essencial, uma substância que faz parte de uma mistura, num sentido mais amplo. Ora isto não é verdade: José Hermano Saraiva não faz parte da História de Portugal. Foi ministro, é certo, foi embaixador, é certo, foi professor, é certo, mas não ficará na História por isso.
Como ingrediente -e a auto-classificação será sua- talvez seja mais um aditivo, um fármaco, que dá melhor gosto, sabor ou efeito ao produto. E isso soube ele fazer como poucos em relação à História, tornando-a um produto acessível, desejado e querido dos portugueses em geral.  Este mérito é justo e não deve ser desprezado.
Depressa vão passar os ecos da morte de José Hermano Saraiva. O que vai sobrar é a sua imagem audiovisual e os seus escritos. A sua herança, como comunicador, está portanto salvaguardada e isso é o mais importante.
Concluo o texto de há mais de um quarto de século, com a segunda parte, publicada originalmente no Porta-Vós – Quinzenário da Formação em Exercício da ESEP, n.o 4, em 10 de Dezembro de 1986, sobre o testemunho de José Hermano Saraiva a pretexto das nossas tapeçarias.

 O PROGRAMA DA OPORTUNIDADE PERDIDA
2- QUANDO QUEM CONTA UM CONTO LHE AUMENTA UM PONTO…

 Tem continuado o Dr. Hermano Saraiva a sua semanal crónica televisiva, prendendo cada telespectador à fluência das suas palavras e à magia dos seus relatos.
A lista das cidades contempladas com as suas histórias vai aumentando, ainda que muitas vezes não se possa avaliar com rigor até onde a história é da cidade ou é, apenas, o fruto de uma fértil imaginação. E isto nada tem a ver com a distinção entre a crónica e a lenda, entre a tradição e o testemunho, entre a ficção e a realidade.
É que, não o esqueçamos, meia verdade é também meia mentira. Ou não?!
Há quinze dias preocupei-me com alguns dos aspectos formais do programa dedicado a Portalegre. Deixei para outra oportunidade -esta- a análise sucinta do seu conteúdo, através de um episódio dele retirado.
Hermano Saraiva considera-se um historiador ou, pelo menos, é tido como tal. Assim, é-lhe exigível um rigoroso respeito pela verdade histórica, uma clara e inequívoca descrição dos factos, nomeadamente quando a audiência se pode contar pela grandeza dos milhões e é maioritariamente constituída por pessoas predispostas à receptividade acrítica.
Ao escolher como subtítulo para as Histórias da nossa terra a expressão “A inteligência das mãos”, o Dr. Hermano Saraiva não só privilegiou um dos temas desenvolvidos como autorizou, implicitamente, que qualquer crítica se possa fundamentar nele. E precisamente o que farei, começando por transcrever o texto do seu roteiro (TV Guia n.º 405, 8/14 Novembro 1986) na parte relativa ao episódio “Jean Lurçat” e, a seguir, o texto da versão do jornalista Augusto de Carvalho, baseado no testemunho de Guy Fino, sobre o mesmo caso (“Tapeçarias de Portalegre”, in Expresso Regiões, 21/Julho 1987):  

TV GUIA

Tudo começou quando se fez em Lisboa uma exposição de tapeçarias francesas, apresentadas como a quinta-essência da arte do tear. Um industrial de Portalegreviu e disse para si: Daquilo também nós somos capazes.
Fez as primeiras tapeçarias e trouxe aqui um mestre francês, Lurçat, nome célebre neste ramo da arte de tecer. Lurçat gostou do que viu e quis assinalar a visita com a oferta de uma bela tapeçaria francesa feita sobre um cartão seu.
Não há prenda sem resposta e aqui resolveram prestar uma homenagem a Lurçat: Copiaram, com toda a perfeição que a nossa técnica incipiente permitia, a peça oferecida.
Tempo depois Lurçat voltou a Portugal, e mostraram-lhe as duas peças, original e cópia. Ele quis ser elogioso: Excelente, excelente. Um defeito ou outro (e ia-os apontando), mas já é um belo trabalho. Os portugueses estavam constrangidos, mas acabaram por explicar: Mestre, há um lapso. Esse que tem os defeitos não é a nossa cópia, é o original. 

EXPRESSO

Jean Lurçat revelar-se-ia, aliás, um verdadeiro entusiasta pelas tapeçarias de Portalegre. Mas não foi assim do pé para a mão. Guy Fino gastou tempo a tentar convencer Lurçat da validade do seu trabalho.
Visitou-o mais que uma vez e de uma delas acompanhado pela sua mulher, Mercedes, precisamente no Castelo Medieval de Saint-Ceré. Na despedida, o grande artista francês ofereceu à senhora de Guy Fino a almofada que lhe servira de assento com o famoso galo da sua autoria.
No ano seguinte conseguiria que Lurçat viesse a Portugal a fim de visitar a manufactura. Guy Fino tinha, entretanto, feito reproduzir a pequena tapeçaria que Lurçat oferecera a sua mulher e apresentou-lha juntamente com o original.
“Veja se descobre qual é a sua”, perguntou-lhe. Lurçat mirou e remirou a certa distância -de perto seria fácil aperceber-se, dada a técnica diversa de cada uma delas- e pronunciou-se pela realizada em Portalegre. A partir daí, nasceu uma grande amizade e colaboração entre os dois homens.

 Do elementar confronto entre as duas versões do episódio ressaltam flagrantes diferenças. No entanto, estas são ainda mais profundas. Senão, vejamos:
l – “Quando se fez em Lisboa uma exposição de tapeçarias francesas” (1952), Guy Fino (“um industrial de Portalegre”) não poderia ter dito para si que daquilo também nós éramos capazes, porque na mesmíssima altura teve a audácia de expor, noutro local da mesmíssima Lisboa, duas tapeçarias da sua manufactura.
2 – Não foi nessa altura que aqui se fizeram “as primeiras tapeçarias” nem era então “a nossa técnica incipiente”. A firma “Tapetes de Portalegre, Limitada” constituíra-se por escritura pública de 22 de Dezembro de 1946! Também não foi aqui (nem sequer em Portugal) que Lurçat ofereceu a célebre tapeçaria, mas sim na sua casa de França.
3 – Apenas por absoluta ignorância se pode imaginar Lurçat apontando defeitos de pormenor numa tapeçaria que necessariamente teria de apreciar de perto, confundindo a sua origem. É que a técnica francesa (Aubusson) se baseia num fio de teia horizontal, enquanto a técnica portalegrense assenta num cruzamento distinto e original que privilegia a verticalidade. Lurçat sabia isto, como poucos, pelo que é inadmissível a grosseira versão televisiva do episódio.
Teremos, talvez, “a inteligência nas mãos”. Seremos, talvez, “um povo com o futuro nas mãos”. Nada tendo, basicamente, a opor a tais conclusões de Hermano Saraiva, acho-as parcelares e incompletas.
Sem pretender aqui ressuscitar a eterna dialéctica trabalho manual/trabalho intelectual, creio que o nosso futuro também passa pela inteligência propriamente dita e pelo coração. A própria História, mesmo a das cidades, também se faz assim. Neste campo, Hermano Saraiva não precisa de lições; dá-las.
 E tenho muito gosto em estar entre os seus alunos, ainda que de quando em vez me assalte a preocupação de não saber distinguir os pontos dos contos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho