O LÓTUS AZUL – XVII

XVII – O quotidiano de Shanghaï, segundo Hergé

Alguns analistas d’O Lótus Azul destacam dois temas fundamentais na trama da obra: o tráfico do ópio e o Incidente de Muckden, de 1931. O resto seria romance…

Não é tanto assim, porque a aventura protagonizada por Tintin paira sobre estes acontecimentos e, vivendo deles e sendo por eles influenciada, constitui a principal atracção popular da obra. A cidade de Shanghaï e os seus arredores, nesse complicado e sombrio clima criado pelos compromissos entre a ocupação japonesa e as partilhadas soberanias ocidentais em vigor nas concessões internacionais, essa cidade era a terra natal de Tchang.

Certos estereótipos, ou convenções, encontrados nas páginas do álbum devem-se, portanto, à influência do amigo chinês de Hergé. A proposta de hoje consiste numa sumária abordagem ao quotidiano de Shanghaï, e não só, a partir de algumas das inscrições originariamente escritas em mandarim e assim mantidas em todas as versões e edições posteriores, incluindo a chinesa.

O grito – Logo na página 3, ainda na Índia, Tintin recebe um mensageiro enviado pelos seus inimigos, os traficantes de ópio, com a intenção de o atrair a Shanghaï, onde mais facilmente aqueles se desembaraçarão do jovem jornalista. Os traços fisionómicos do enviado parecem mais próprios de um japonês que de um chinês, até pelo pormenor gráfico/racial usado por Hergé – a boca aberta… Atingido por um dardo, o enviado grita uma interjeição de surpresa e dor.

A desculpa – Passando à página 6, acontece aí o choque entre o condutor do riquexó e o vilão Gibbons que, completamente distraído, atravessa a rua de Shanghaï. O condutor, ainda que rigorosamente isento de culpa no acidente, antecipa e balbucia um aviso e uma desculpa pelo facto…

A informação – Na página 12, Tintin -devidamente travestido de chinês- interroga o agente policial sobre a localização da rua T’ai P’in Lou, ao que este responde que é a segunda, a seguir. O gesto, aliás, é um complemento esclarecedor. Sobre este episódio já atrás salientámos a facto de, na versão chinesa, o próprio Tintin se exprimir num correcto mandarim. Efeitos do tal romanesco e mágico maravilhoso da banda desenhada…

A sentença oficial – Aprisionado pelas forças japonesas controladas pelos seus inimigos traficantes, Tintin é condenado à morte. Assim, tal como preceitua a sentença devidamente afixada (com tradução simultânea), ele será passeado pela cidade, transportando uma tradicional canga, com a devida inscrição, em mandarim. O seu explícito significado é: “Condenado à morte por se ter oposto ao exército japonês”. No entanto, como é sabido através da mesmíssima página 37, é bastante mais amplo o rol das gravosas acusações.

A publicidade de rua – Nas páginas 5 e 40 surgem dois troços de ruas onde se vêem cartazes publicitários alusivos a uma marca credenciada, e antiga (desde 1847!), com implantação mundial já nos anos trinta, em plena China. Os cartazes referem as fábricas de material eléctrico Siemens (passe a presente e involuntária amplificação publicitária!).

A inscrição identitária – Numa última e quase insignificante vinheta da página 55 encontramos o único sinal concreto da profunda influência de Tchang na construção da história. A sua assinatura, discretamente inscrita na parede dum armazém, no cais de Shanghaï, é a presença simbólica que o amigo de Hergé quis deixar como registo da sua considerável participação pessoal.

Ao rejeitar que o seu nome expressamente figurasse na co-autoria da história, Tchang trocou tal celebridade pela voluntária modéstia -quase o anonimato- que, afinal, foi timbre geral da sua própria vida.

Estes seis breves mas significativos exemplos, que derivam da escrita original -e permanente- em mandarim, encerram a componente dita elementar da curiosa e interessante problemática linguística contida no álbum.

Aqui, a ciência pessoal esgotou-se, no apoio daquilo que se encontrou descrito ou referenciado em obras de consulta possível, a que tenho acesso. Por outras palavras, o “mandarim sem mestre” cumpriu a sua função. A partir de agora, manifesto -humilde e realisticamente- a fundamental necessidade da cooperação de um assessor especializado, do “tipo” Tchang Tchong-Jen…

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

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