O LÓTUS AZUL – XIX

XIX – No pequeno mundo dos provérbios

Cheng Hao continua a desvendar-nos os pequenos segredos do Lótus, sobretudo aqueles que tínhamos recenseado como enigmáticos ou “ilegíveis”.

Progressivamente, vamos avançando por entre as complexidades que a edição chinesa veio revelar, aprofundando na maior parte das vezes a criação original.

A proposta de hoje contempla, sobretudo, frases mais elaboradas que as “decifradas” na anterior abordagem.

Entremos aqui pelos provérbios, em primeiro lugar pelos “interiores”…

Provérbios particulares – Trata-se de verdadeiras divisas e máximas familiares, normas ou objectivos de vida, timbre ou herança de honra, que Hergé coloca nas paredes das casas dos “bons”. Estes painéis, quase sempre incluindo pinturas tradicionais, encontram-se, sobretudo, na residência do Prof. Wang. São parcialmente visíveis em diversas vinhetas, o que permite a sua descodificação total: “Indulgência é a máxima pessoal” e “Diligência é a divisa familiar”.

A milenar sabedoria chinesa, patente nas diversas facetas da vida quotidiana, oferece aqui uma vocação expressiva, onde a oportuna intervenção de Tchang se exerceu em excelente campo de aplicação prática.

Provérbios gerais – Naturalmente, também surge no plano social, ou colectivo, o uso dos provérbios. Mesmo sem constituirem um atributo personalizado, os princípios religiosos e filosóficos servem a generalizada  expressão de conceitos elevados, onde a intervenção das formas literárias e, sobretudo, poéticas, ganha considerável importância e significado.

É o caso do que surge no exemplo da esquerda (pág. 16). Também diversas vinhetas permitem uma leitura integral da mensagem: “Logo que as nuvens descem e escondem o Monte Taï, é também este o momento em que o Sol se ergue sobre o mar”.

A vinheta da direita mostra um outro exemplo, aliás à imagem dos que se encontram profusamente distribuídos pelo álbum, concedendo porventura certa razão aos críticos d’O Lótus Azul que o consideram uma espécie de “catálogo” ou livro de provérbios espalhados pelas páginas. Creio que há aqui algum exagero…

 “Provérbios perversos” – Há nesta classificação, muito pessoal, um manifesto sentido crítico ou, no mínimo, metafórico.

Aliás seria interessante conhecer, neste particular, a posição de Hergé, se alguma porventura tiver existido, deliberada e reflectida. É que, nas sedes dos “maus”, nomeadamente nos escritórios de Gibbons e Mitsuhirato, nada, rigorosamente nada, se pode observar quanto a presenças similares aos provérbios atrás descritos.

Será por mero acaso, simples coincidência, ou por qualquer voluntária intenção da parte do desenhador e do seu aliado? Esta pergunta ficará, provavelmente, sem uma resposta definitiva.

Porém, o que é observável -portanto objectivo- é o facto de no escritório de Mitsuhirato (pág. 18) estar afixado um quadro onde constam o nome do navio, a natueza da carga (ópio) e o porto de destino. Este quadro foi “traduzido” em mandarim na versão chinesa. Quanto ao escritório de Gibbons (pág. 35), a única decoração mural existente é a fotografia duma instalação fabril.

Logo, o conteúdo dos “provérbios” aqui patentes é o crime organizado e o capitalismo…

 Provérbios impertinentes – No interior do Lótus Azul, antro do consumo do ópio, existem diversas inscrições chinesas. No entanto, também neste caso a opção de Hergé é significativa. O teor do painéis mais frequentes, aqueles que surgem em quase todas as vinhetas onde se mostram as salas, são esclarecedores na sua fina ironia: “Bons sonhos” ou “Votos de felicidades”. Isto não merece outros comentários, para além do que obviamente se impõe: a impertinência de semelhantes mensagens naquele contexto…

Depois desta breve passagem pelos provérbios ditos “interiores”, passemos aos “exteriores”…

Provérbios didácticos – É menos variada a colectânea dos provérbios visíveis nas paredes da cidade. Naturalmente, e isso já foi atrás destacado, existe uma profusão de outros escritos, os mais diversos. Mas aqui apenas nos interessam aqueles que pertencem à “família” dos conceitos tradicionais, populares, individualizados ou colectivos, que encerram um fundo moral ou cívico.

Um destes pode ser observado, com ligeiras diferenças, sob a forma dum painel (em fundo verde) junto a um dos grandes anúncios publicitários à fábrica Siemens (pág. 5)  ou dum mural da gare ferroviária (pág. 51). O seu sentido é: “Possuir mil hectares de terreno não vale mais do que o exercício dum modesto trabalho” ou “É errado possuir uma grande quantidade de bens em vez de adquirir algumas capacidades”.

Este princípio parece arrancado às páginas do Livro Vermelho de Mao. Porém, como já sabemos, nos tempos originais de construção d’O Lótus Azul apenas estava em curso a Longa Marcha…

Provérbios patrióticos – É outro interessante provérbio, este com uma única interpretação, sem variantes, o que se pode ler nma parede, sempre escrito em mandarim e tendo sobrevivido sem qualquer alteração desde a versão original do álbum, ainda a preto e branco. Pode observar-se na página 8 e significa: “Cheio de talento mas doente, que posso fazer pelo meu país?” Quase faz lembrar algumas célebres frases do presidente Kennedy…

Como metáfora, terá uma infinidade de interpretações possíveis. Logo a seguir às ameaçadoras insinuações de Mitsuhirato sobre os perigos de morte que pendem sobre Tintin e os seus amigos, constituirá um suplementar aviso? Poderá aludir aos dominados pelo vício do ópio, incapazes de ser úteis seja a quem for?

Uma hipótese sempre admissível é a da absoluta descontextualidade desta utilização. Aliás, esta possibilidade informará alguns outros casos e exemplos, aparentemente desmotivados ou alheios à própria lógica narrativa.

De qualquer forma, nunca deve ser perdida de vista uma circunstância fundamental, já aqui referida: a de que as inscrições em mandarim que temos vindo a analisar e a tentar interpretar, sem qualquer excepção além das que foram dotadas da anexa “tradução simultânea”, todas elas nada significaram, significam ou significarão, para o normal leitor da obra. São apenas parcelas inóquas ou simples pormenores decorativos do cenário, dando uma agradável e lógica tonalidade local à aventura…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo nove –  “Sur les Traces de Tintin – Le Lotus Bleu”, parte dois. É este o conteúdo do presente Anexo. O documentário do realizador Marc Temmerman foi produzido pela Gédéon em cooperação com a Moulinsart.
Durou dois anos o tempo de preparação, reflexão e ensaios que antecedeu a realização. E pode compreender-se porquê, dado o ambicioso projecto depois meticulosamente concretizado.
É notável o ritmo conseguido em trabalho tão elaborado como este. Por seu efeito, somos remetidos para os tempos e os espaços históricos, na recriação dum contexto onde nada parece ter sido desprezado. Por outro lado, somos convidados a penetrar na própria crónica pessoal de Hergé, procurando assim entender as suas tomadas de posição e os seus estados de alma, por vezes complexos.
No próximo “episódio” ficará completa a “trilogia” em que houve necessidade técnica de dividir o documentário.

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