O LÓTUS AZUL – XX

XX – No grande mundo das políticas

Com a indispensável cooperação de Cheng Hao, concluímos a análise dos diversos pretextos, apresentados em mandarim e susceptíveis de conter material com interesse narrativo, sócio-cultural, histórico ou mesmo político. É este o caso, essencial, dos exemplos hoje aqui patentes.

O primeiro, disponível na página 6, está inserido numa vinheta que já foi analisada do ponto de vista do aviso/desculpa proferido pelo condutor do riquexó onde Tintin é transportado. O cartaz situado do lado direito, na rectaguarda de Gibbons, significa: “Abaixo os tratados desiguais!” Provavelmente, não é inocente a ligação estabelecida por Hergé, juntando “causa e consequência” nesta aliança gráfica, entre um protesto político e um símbolo (ou beneficiário) da situação criada pelo facto. Com efeito, já atrás se abordou a questão diplomática das Concessões Internacionais impostas à China na sequência de diversos incidentes da sua própria História, através dos denominados Tratados Desiguais (ou Iníquos).

Se poucos, raros, leitores do álbum terão podido fazer esta leitura pela descodificação do cartaz, sobretudo na época, podemos hoje dispor da absoluta certeza de que o facto se tornou irrelevante. Nos anos trinta do século XX, a questão era pertinente, pelo que a verdade histórica foi respeitada.

Na sequência da cena, e perante a agressão perpetrada por Gibbons na pessoa do inocente coolie (condutor do riquexó), acontece a pronta intervenção punitiva de Tintin. A vinheta da esquerda (na página 7) revela outro escrito, sobre fundo vermelho,  cravado na parede fronteira. E este declara: “Abaixo o imperialismo!

Concluindo: lado a lado, portanto, surgem duas inscrições políticas, denunciadoras do protesto popular perante a dominação estrangeira. O mesmo acontece no exemplo à direita, na gravura junta, relativo à página 32 do álbum, numa cena bastante mais adiantada da narrativa. O mesmo “slogan” –Abaixo o imperialismo!-, agora na forma duma faixa amarela, surge “estampado” sobre um vulgar anúncio publicitário.

A dúvida que pode colocar-se -lógica embora contraditória!- tem a a ver com a possibilidade de a cena do riquexó, aparentemente, se passar no interior duma Concessão, pois Gibbons vai lendo tranquilamente um jornal pela rua e logo, logo a seguir, entra no Occidental Private Club, onde denunciará a intervenção de Tintin. Não faria sentido a ostensiva exibição destes cartazes naquele local…

Por fim, e este parece-me o caso mais interessante, acontece que foram espalhados por diversos cenários da narrativa alguns pequenos mas significativos cartazes, apelando ao boicote dos produtos japoneses.

Assim aconteceu logo na versão original, a publicada nas páginas do Le Petit Vingtième ainda a preto e branco, em 1934 e 1935, e manteve-se na versão redesenhada e colorida de 1946.

No entanto, estes pequenos mas significativos cartazes foram profundamente remodelados na recente edição chinesa!

Pode compreender-se a diplomática (e económica) razão que terá fundamentado esta alteração. Hoje em dia, após o restabelecimento de normais relações entre os dois poderosos vizinhos asiáticos -China e Japão-  não faria mais sentido aquele apelo, apenas aceitável durante a ocupação nipónica, nos anos trinta do século XX.

Na gravura junta apresenta-se uma breve “antologia” destes casos, relativos às páginas 9, 26 e 45 do álbum. Na tira superior mostram-se as vinhetas relativas à versão ocidental e na inferior as devidamente “corrigidas” na tradução em mandarim. Ao centro, fica uma ampliação, com o pormenor dos cartazes, das duas versões.

Resta saber o que substituiu os apelos “Abaixo os produtos japoneses” ou “Boicote aos géneros japoneses”… Nada mais, nada menos, do que umas banais… placas toponímicas! Rua tal, porta tal ou praça tal, eis a engenhosa solução -verdadeiramente digna de Monsieur de la Palisse, ou dos Dupond/t- pela qual se resolveu o que poderia constituir-se, nos dias de hoje, como um embaraçoso caso diplomático, logo político.

Não devemos encerrar esta análise sem lembrar uma das críticas que alguns estudioso lançaram sobre Hergé: a de que ele deixou inscrita a sua “profissão de fé” nas paredes da antiga Shanghaï, aceitando por intermédio de Tchang os pontos de vista do governo chinês da época. Concedo a aceitação ou a rejeição desta teoria à responsabilidade de cada um dos leitores…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo dez – Conclui-se hoje a apresentação do documentário “Sur les Traces de Tintin – Le Lotus Bleu”, com a visualização da sua terceira parte. Através dos diversos contributos aqui reunidos e devidamente organizados, julgo que terá sido lançada uma nova luz sobre a construção do álbum. Afinal, há sempre qualquer pormenor a acrescentar ao que sabemos, ou julgamos saber, sobre determinado tema. A empresa produtora desta série prometeu continuá-la, no caso de ter obtido êxito com estes cinco documentários iniciais. Ao que parece, até terá contactado a base russa de Baikonur, com o objectivo de, eventualmente, ali desenvolver parte da trama narrativa correspondente aos dois álbuns de Hergé com a aventura lunar de Tintin e seus companheiros. Oxalá este desígnio se venha a concretizar.

Com este Anexo concluiu-se também a série de produções audiovisuais e multimédia propositadamente preparada para acompanhar a sucessão de “episódios” d’O Lótus Azul”.  

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