BICICLETAS EM PORTALEGRE – II

Os semanários locais deram conta de alguns pormenores interessantes sobre esta visita da V Volta a Portugal em Bicicleta a Portalegre, em 1934. No entanto, acontece que A Rabeca nada noticiou sobre o momentoso assunto. A causa é alheia à sua própria vontade. Em tempos de férrea censura política, o semanário portalegrense estava… suspenso. Portanto, sobre este episódio desportivo, limitamo-nos aos outros dois jornais: A Voz Portalegrense e O Distrito de Portalegre.

O que de interessante se pode aí colher tem a ver com as comissões de recepção organizadas para o efeito e com a panóplia dos prémios instituídos, para além dos oficiais, naturalmente. Quanto à primeira, foi liderada por João do Monte Empina, em representação da Comissão de Iniciativa e Turismo local, acompanhado por António B. Ceia, Guilherme Soares, António Cardoso, Severino da Silva, Celestino Aires, Manuel Mourato, José Calado, René Gual, Lúcio Pereira e José do Rosário, representantes de várias instituições, jornais e clubes desportivos. A tarefa de coordenação de todos estes trabalhos coube a Jorge Macedo, como representante em Portalegre do Diário de Notícias, organizador da Volta.

Pel’O Distrito de Portalegre de 26 de Agosto podemos colher a informação de que o vencedor da etapa, José Maria Nicolau, conseguiu uma vantagem de 32 segundos sobre o corredor Ezequiel Lino. Depois chegaram Marquez, Filipe de Melo, Mealha, César Luiz, Castelão Romão, Domingos Dias, etc.

A Voz Portalegrense dessa mesma data dá-nos conta da recepção a alguns ciclistas na Câmara Municipal, pela noite, assim como da distribuição de prémios levada a efeito no Cine-Parque. Houve taças da Câmara Municipal e da comissão de recepção, troféus para os benfiquistas, sportinguistas e belenenses, também medalhas, um relógio de secretária e até um tinteiro, este oferecido pelos barbeiros de Portalegre…

Quanto ao ano seguinte, 1935, no respeitante à VI Volta a Portugal, existe apenas uma fotografia, relativa ao dia 31 de Agosto, o da partida da caravana. Aparentemente, alguns atletas estarão a abastecer-se, por conta própria, numa tenda ambulante de venda de bananas…

Contando novamente com A Rabeca, que já cumprira a suspensão, e com os outros semanários locais, podemos reconstituir o que aconteceu. Desta vez, foram Carlos Madeira Curvelo, António Bernardo Ceia e João Alves Martins os principais elementos da comissão de recepção. Gerou-se alguma polémica quanto à escolha do local mais adequado para instalação da meta, entre o Jardim Público, a Rua 1.º de Maio ou o sítio do ano anterior. Acabaria por ser o Jardim Público o local eleito.

Os ciclistas tomaram duche no quartel de Caçadores 1, cujos balneários foram postos à disposição da comissão de recepção pelo ilustre comandante, segundo a Voz.

A classificação da etapa, Beja-Portalegre (239 km) seria: 1.º – Ildefonso Rodrigues (já no Sporting); 2.º – Filipe de Melo (Carcavelos); 3.º – César Luiz (Os Leões); 4.º José Marquez (Campo de Ourique), todos com o mesmo tempo, 8h 24m 47s.

Os prémios locais foram entregues no Cine-Parque, salientando-se as taças da Câmara, do Governo Civil, da Associação de Foot-Ball, dos belenenses de Portalegre e do Crato, do Alentejo F. Club, do Cine-Parque, uma caixa de tabaco, relógios de mesa e uma medalha de prata, do Alentejo.

Resta acrescentar que a etapa imediata, cuja partida fica documentada, terminaria no Fundão (132,1 km) e seria vencida por César Luiz, d’Os Leões.

Não houve Volta a Portugal nos dois anos seguintes. A edição seguinte, a VII, seria realizada em 1938, novamente integrando uma etapa com conclusão em Portalegre, desde Estremoz (52 km).

As fotografias, postas à minha disposição pela generosa colaboração de Carlos Beto Eustáquio, documentam a chegada (9 de Agosto) e um momento de descontracção dos ciclistas, à sombra do plátano do Rossio, antecedendo a partida (10 de Agosto) para a Covilhã.

A Voz Portalegrense da véspera da chegada informa que “é a meta colocada na Avenida Dr. António José de Almeida, no Parque Miguel Bombarda, magnífico local que se proporciona perfeitamente para milhares de pessoas poderem assistir à chegada dos ciclistas.” Com efeito, pela fotografia, podemos perceber que a meta foi instalada na álea central da Corredoura.

O Distrito de Portalegre, no dia 6, inserira uma pequena nota sobre o tema, donde se transcreve o “crítico” final: “Correr, correr… É isto a vida de hoje… Corre-se e muitas vezes sem se saber para onde, e é pena, porque a vida deve ter e tem um fim mais racional. Não acham os leitores? E tantos o ignoram!

Pela Voz podemos conhecer os membros da incontornável comissão de recepção. Nesse 1938, eis os seus nomes: António Bernardo Ceia, José Fernando Paiva Dias, António Bengala Reis e José Maria Cabecinha, representando, respectivamente, o Sport Club Estrela, o Alentejo Foot-Ball Club, o Grupo Desportivo Portalegrense e o Sport Lisboa e Portalegre. Entre os prémios oferecidos contavam-se as habituais taças (Governo Civil e Câmara Municipal), um calendário artístico, dois prémios em dinheiro (100$00 cada), uma lata de salpicões, um relógio de mesa, mais uma taça e uma medalha, etc.

A Voz acrescenta que “À chegada foram os corredores obsequiados com refrigerantes oferecidos pelas firmas Caroço & Silva e Joaquim Correia.”

Para a história, ficou a classificação da etapa: 1.º – Ildefonso Rodrigues (repetente!); 2.º – Filipe de Melo (idem!); 3.º – Aguiar Martins; 4.º – José de Albuquerque…

Informa-nos O Distrito de Portalegre (13 de Agosto) que “A saída de Portalegre para a Covilhã efectuou-se no dia 10 à uma e meia da tarde, envergando o ciclista José de Albuquerque pela primeira vez a camisola amarela (o cobiçado estandarte da vitória ciclista).” Pela hora indicada, bem pode perceber-se a razão pela qual a sombra do plátano foi tão rijamente disputada, como se vê na gravura junta…

Na Covilhã ganharia novamente Ildefonso Rodrigues, um especialista dessas coisas…

Balanço final, segundo a Voz: “O Director da corrida, Sr. Raul de Oliveira, (…) manifestou a sua grande satisfação pela impressionante manifestação de simpatia feita por Portalegre aos corredores, que classificou como sendo a melhor registada desde que se iniciou a VII Volta a Portugal em Bicicleta.”

António Martinó de Azevedo Coutinho

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