BICICLETAS EM PORTALEGRE – III

O Distrito de Portalegre, na sua edição de 13 de Agosto de 1938, publicou uma espécie de balanço crítico à recente etapa da Volta, aqui acabadinha de disputar.

Sob o título geral CICLISMO e o subtítulo A VII volta e Portugal, o articulista que se subscrevia Ruy de Portugal, após curta reportagem, teceu os seguintes comentários:

 “Chama-se a isto Sport!… Não contradizemos, mas aquilo, salvo melhor opinião, deve servir às mil maravilhas para levar os pobres sportistas às portas da tuberculose, às camas dos hospitais e à sombra dos cemitérios.
Se os médicos quisessem falar…
Ouvimos a um homem do povo à chegada dos corredores e ao notar o estado lastimoso em que todos eles vinham:
Deus me livre de uma tal vida!
Tinha razão o observador judicioso, porque aquilo não é vida… que preste.
O
sport deve ser divertimento, alegria, e exercício moderado, estímulo da saúde e do vigor físico. Assim, está bem, compreendemo-lo e aprovamo-lo. Mas aquilo?!… não, porque é extenuante; é criminoso suicídio.
Depois há mais, com que não concordamos.
Em volta de um caso vulgaríssimo, de nula importância (uns poucos de indivíduos a correr, a correr… pelas estradas fora, sem utilidade para ninguém e com perda da saúde dos próprios corredores…) tanta gente em alvoroço, tanto tempo perdido e tanto dinheiro mal gasto!…
Porquê? – e para quê? – Frivolidades dos homens…
A avaliar pelas aparências, dir-se-ia estar estar naquelas corridas doidas pelas estradas do país algum negócio de uma transcendência ou a solução desejada de problemas difíceis, que perturbam a sociedade nos dias de hoje.
Perdeu-se a noção das realidades e o sentido das proporções.
Não está certo isto.
Tanta indiferença pelas coisas da vida e tanta atenção prestada a infantilidades, a ninharias ridículas. Não está certo, repetimos. Vemos os grandes a actuarem como crianças, cuja única preocupação é o divertimento pueril. Mais uma vez: não está certo.
Desculpem os que não gostam, mas é assim que pensa e julga

Ruy de Portugal

Pode entender-se esta crítica, a que não se pode negar uma certa frontalidade, na sequência directa da tal pequena nota que o mesmo jornal -e seguramente da mesma autoria- tinha publicado uma semana antes. 

Jornal católico e então bastante conservador, poderá neste aceitar-se a linha moralista que ressalta de um texto em tudo diverso do conjunto de crónicas similares publicadas nos restantes semanários locais.

Registe-se a insólita curiosidade, datada -não o esqueçamos!- de 1938.

Como súmula final destas pequenas crónicas citadinas dedicadas a imagens e textos produzidos a propósito de provas velocipédicas em Portalegre, juntam-se dois quadros reproduzidos com base na exaustiva informação patente na página oficial da Federação Portuguesa de Ciclismo.

Com a devida vénia e reconhecimento pelo excelente trabalho de investigação e tratamento de informação ali revelado, reproduzem-se a relação das chegadas a Portalegre, como finais de etapa, nas diversas Voltas a Portugal aqui terminadas, assim como a relação das partidas daqui efectuadas.

Um aviso prévio: nem sempre a cada chegada corresponde depois uma partida, embora tal se verifique na maioria dos casos. Houve uns contra-relógios, devidamente assinalados, a que convém prestar atenção. Por mero acaso, não sofremos aqui as chamadas “neutralizações”, criando hiatos nos traçados que deveriam ser lineares e sequenciais. Antigamente era assim, mas veja-se o que sucede com quase todas as mais recentes edições da Volta; este ano nem desceu abaixo do Tejo  e deu “saltos de canguru”… Chamar-lhes Meia Volta, Quarto de Volta, Voltinha ou Faz-de-conta-que-é-uma-Volta seria mais honesto.

Parece que se trata duma imposição da Troika dos Pedais. Pois…

De qualquer modo, aqui ficam os resumos da nossa participação mais ou menos directa, como cenário ou contexto, em Voltas de outros tempos. Arquivos de memória, registos de saudade, provavelmente irrepetíveis nas próximas décadas…


Agora, irei pedalar por outras bandas.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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