BICICLETAS EM PORTALEGRE – I

Procurei, em vão, imagens das chegadas das Voltas a Portugal em Bicicleta aqui referidas ultimamente. Os jornais da província, nessas épocas, devido aos complicados e dispendiosos processos gráficos que a impressão de fotografias implicava, raramente as usavam. Tentei junto de amigos e tive algum êxito, pois o Carlos Beto Eustáquio, que dispõe duma das melhores colecções locais de registos fotográficos antigos, gentilmente colocou à minha disposição uma série de imagens de provas velocipédicas, acontecidas em Portalegre, ainda que nenhuma delas corresponda às que, rigorosamente, eu procurava.

Mas o seu inegável interesse, acrescido do facto de quase todas estarem datadas, “obrigou-me” a pesquisas que permitissem um seu melhor enquadramento na realidade local, assim enriquecendo a sua divulgação, como verdadeiro serviço (cultural) público.

A mais antiga delas, sem qualquer referência, mostra um conjunto de ciclistas, devidamente equipados, aparentemente iniciando a sua marcha ou dispersando após a chegada, em local lagóia perfeitamente identificado, entre a Praça de Touros D. Luiz do Rego, existente sensivelmente onde hoje se encontra o Centro Comercial Fontedeira e as traseiras da fonte (cascata) sita no topo norte do Jardim Público. A meio da parte direita da fotografia, ao fundo, pode ver-se parte do pano da meta.

Tanto quanto julgo saber, as referências mais antigas a provas ciclistas em Portalegre remetem-nos para 1902, há 110 anos. O Distrito de Portalegre relata algumas corridas de bicicletas, organizadas pela União Velocipédica de Lisboa, que aqui dispunha de um delegado, o sr. José Mendes Gil. Há referências concretas a uma corrida entre Nisa e Portalegre, prova de 50 quilómetros, passando por Alpalhão, Flor da Rosa e Crato, realizada no dia 20 de Abril de 1902, e a uma outra, entre Castelo de Vide e Portalegre, esta em 22 de Outubro do mesmo ano.

As descrições constituem crónicas extremamente saborosas, carregadas de barroca adjectivação e narradas segundo uma pitoresca e colorida sucessão de episódios. Um pequeno exemplo. “Soube-se então que o sr. Joaquim Bragança, que se esperava fosse o primeiro a chegar, deu uma queda desastrosa, ficando muito maltratado e a máquina em péssimo estado. (…) Apesar do desastre sofrido, chegou em terceiro lugar o sr. Joaquim Bragança que ganhou assim o terceiro prémio, medalha de prata, sendo alvo duma grande manifestação de simpatia.”

Outro trecho: “Formoso dia de outono. Esplêndido sol e um calor vivificante. Concorrência enorme de todas as classes sociais, confundindo-se num misto encantador as toilettes claras de gentis senhoras com os fatos de passeio dos cavalheiros. O recinto profusamente embandeirado e a meta indicada por um arco de construção mística, mas elegante nas suas linhas gerais. Aos lados dois escudos com inscrições indicativas da festa e no topo a bandeira nacional.”

Um pormenor existe, nestas descrições, que confirma a hipótese de a fotografia em causa dizer respeito a uma destas provas, ou delas estar muito próxima: “A distribuição dos prémios é feita no próprio recinto da chegada, junto da fonte da Praça de Touros, cujo local está ornamentado caprichosamente e onde tocará do meio dia às 3 horas a banda Euterpe, que gentilmente acedeu ao convite que para esse fim lhe foi feito.

Como última alusão a estas provas, dir-se-á sobre as comissões que a elas presidiam serem constituídas por prestimosas e consideradas individualidades citadinas, como os srs. António José Lourinho, António de Matos, Eduardo Mata, Frederico Porto, Diogo Alvarrão, Fernando Costa, Álvaro Sampaio, Sebastião Bragança e outros.

As outras fotografias, todas datadas, são relativas a chegadas ou partidas da Volta a Portugal em Bicicleta na nossa cidade.

As duas seguintes mostram a chegada do ciclista vencedor da etapa aqui concluída na Volta V, precisamente no dia 23 de Agosto de 1934. O local da meta, como distintamente se pode observar, é a Corredoura de Cima, nome popular da Avenida George Robinson, em frente da casa do Dr. Mário Sampaio.

A etapa em causa foi Évora-Portalegre, num total de 119,7 km de extensão, destacadamente vencida por José Maria Nicolau, valoroso atleta do Benfica e lenda do nosso ciclismo. De registar que então, pela terceira vez, a nossa cidade foi termo de etapa. Antes, ambas com partida de Évora, tinham acontecido chegadas em 1927, na Volta I, com vitória de Quirino Oliveira (Campo de Ourique), e em 1933, na Volta IV, com triunfo de Alfredo Trindade (Sporting), o grande rival mítico de Nicolau.

No dia seguinte, 24 de Agosto de 1934, a caravana partiu em direcção à Covilhã. Também daqui há registo de imagens históricas.

O Rossio, uma das privilegiadas salas de visita da nossa cidade, foi o palco da partida dos ciclistas e da sua parafernália ambulante, embora menor que nos dias de hoje, sobretudo em função do acentuado crescimento do culto aos deuses publicitários. No seu vasto largo, de piso ainda térreo, juntaram-se os atletas para percorrerem os próximos 151,2 km, que seriam vencidos por Ildefonso Rodrigues (S.L. e Faro).

As fotografias anexas, de excelente qualidade, constituem um retrato fiel da carismática zona da cidade de Portalegre, naqueles meados da década de trinta do passado século.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Um crime contra a Humanidade

Esther Mucznik, filha de pais polacos, que viveu em Israel, onde estudou Língua e Cultura Hebraicas e em Paris, onde se formou em Sociologia, está fortemente comprometida com a comunidade israelita portuguesa. Acaba de publicar o estudo Portugueses no Holocausto, depois de ter divulgado a biografia de Grácia Nasi, uma judia de relevante importância no nosso século XVI.

A autora, que foi articulista do jornal Público, deixou aí crónicas que foram, em certos casos, alvo da crítica de reflectirem inclinações sionistas por parte de sectores palestinianos.

O Holocausto é um tema recorrente, que tem sido frequentemente abordado em recentes estudos, desvendando novos conhecimentos sobre uma das mais abomináveis páginas da História da Humanidade. Esther Mucznik, seguramente, investigou as ligações de personalidades judaicas ao nosso país nesses tenebrosos tempos da segunda Guerra Mundial. Todos conhecemos o caso do cônsul Aristides de Sousa Mendes com a sua esclarecida e arriscada intervenção a favor de judeus, em grave risco de perseguição e morte. A partir de Bordéus, ele terá contribuído decisivamente para salvar a vida de 10 000 seres humanos.

Segundo os registos já divulgados, cerca de 4 mil judeus holandeses, com origem portuguesa, terão sido exterminados nas câmaras de gás nazis, em diversos campos de concentração. Esther Mucznik descreve estes factos e relata alguns episódios de coragem e altruísmo que contribuíram para salvar muitos outros judeus.

Perante uma certa animosidade de Salazar no julgamento pessoal destas situações, a generosidade de alguns portugueses foi severamente castigada. A autora pretende agora eliminar o anonimato que tem coberto estes capítulos da nossa História, da História da própria Humanidade. A heróica resistência contra o nazismo não se efectuou apenas nos campos de batalha ou nas organizações clandestinas que sabotavam o avanço das tropas hitlerianas.

Como foi possível o Holocausto, será uma pergunta incómoda que Esther Mucznik coloca, ainda que provavelmente não possa dar-lhe uma resposta cabal.

Numa entrevista concedida a propósito desta temática, a autora disse: “Se nós queremos perceber a raiz do preconceito, da discriminação, até onde nos pode levar o racismo, o Holocausto é um manancial de informação e de ensinamentos. Conhecer e estudar o Holocausto não é só viajar para o passado, é também reflectir sobre o presente.”

Nas minhas deambulações pelo mundo, dois exemplos extremos, ambos comemorativos e situados nos lados opostos do acontecimento, levaram-me a reflectir sobre esta imensa tragédia. Refiro-me ao Yad Vashem ou Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto, memorial oficial de Israel, e o Neue Wache, memorial das Vítimas da Guerra e da Tirania, em Berlim.

Beno Kirschbaum, o guia, avisara-nos sobre a dureza e a simplicidade do memorial. Impressionou-nos a enorme quantidade de jovens soldados, de ambos os sexos, que o visitavam, assim como alunos de escolas, das elementares às universitárias, com as turmas devidamente enquadradas por professores sempre armados. O Yad Vashem começa com um espaço dedicado às crianças mortas, cerca de 1 milhão e meio. Espelhos multiplicam os seus rostos no meio dum universo envolvente negro, com luzes intermitentes e o som, pesado e interminável, dos seus nomes…

Só uma máquina poderosa e bem montada, servida por uma incompreensível cooperação, permitira aquele extermínio – balbuciou Beno. No meio da tragédia, há os vestígios do humanismo, os fortes sinais da esperança. Árvores com nomes lembram os que lutaram ou se sacrificaram pelos judeus. E está lá, bem evidente, a árvore Aristides de Sousa Mendes. Para nosso orgulho…

No sopé do Monte Herzl, junto a Jerusalém, a Sala da Memória, o Museu da História e o da Arte completam Yad Vashem, o impressionante memorial. À saída, um grupo escultórico resume, na sua sobriedade, todo o drama colectivo ali evocado.

O Neue Wache (Nova Casa da Guarda) fica situado numa das principais avenidas de Berlim, a Unter den Linden, que liga a Porta de Brandeburgo a Alexander Platz. É um sóbrio e elegante edifício neoclássico datado de 1816. Foi adaptado em 1931, tendo a sua enorme sala memorial sido dotada duma clarabóia circular. Muito danificado pelos bombardeamentos aliados, o palácio foi reaberto em 1960 como um memorial às vítimas do fascismo e do militarismo. Após a reunificação alemã, já em 1993, o Neue Wache foi rededicado às vítimas da Guerra e da Tirania. Uma escultura, versão moderna da Pietá, colocada directamente sob o óculo aberto, fica sujeita à chuva, à neve e ao frio do duro clima berlinense, assim simbolizando o sofrimento das vítimas.

Mais recentemente, em 2005, um outro grande memorial foi construído em Berlim, dedicado expressamente aos 6 milhões de judeus exterminados pelo regime nazi, em local não muito distante. Não conheço este, pelo que o sentimento colhido, e foi intenso, se refere, apenas, ao Neue Wache.

Sirvo-me, nesta evocação, de outras palavras de Esther Mucznik: “Cada ser humano, mesmo que sujeito a terríveis condições, é minimamente capaz de distinguir o bem do mal. Tem liberdade de opção, mesmo que limitada – ou seja, é responsável pelos seus actos e como tal tem de responder por eles. É essa liberdade que faz a nossa humanidade.” E pergunto, portanto, onde estava a humanidade de cada cúmplice de Hitler, que permitiu -em todos e em cada um deles- que se perpetrasse tamanho e tão desumano genocídio. Por isso acredito, quero acreditar, que em cada alemão que visite Neue Wache ou o novo memorial dedicado às vítimas daquele crime monstruoso se agite e bem forte, lá no fundo da sua alma, algum resíduo de mal eliminada angústia.

Espero vivamente que assim aconteça com a senhora Angela Dorothea Merkel. E que isso a faça evitar um novo genocídio, desta vez pelas armas económicas e financeiras.

E, desta vez, não apenas aplicado aos judeus…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um atleta portalegrense de eleição – II

Pedro Polainas, nas suas épocas de glória ao serviço do ciclismo sportinguista visitou algumas vezes a sua e nossa terra, em diversas edições da Volta a Portugal em Bicicleta. Nem sempre Portalegre foi final de etapa, durante esses anos, na década de 50 do passado século, e acontece que Pedro Polainas nunca conseguiu aqui vencer, como certamente tanto teria desejado.
Será que dele ficaram alguns ecos nos jornais portalegrenses da época? O desporto, especialmente o futebol, constituiu matéria jornalística a que os três semanários então existentes –O Distrito do Portalegre, A Rabeca e A Voz Portalegrense– dedicaram uma certa atenção, embora um pouco inconsequente. Com efeito, ao longo dos seus respectivos e ricos historiais, o lugar atribuído às crónicas desportivas dependeu sempre da “inclinação” do elenco de jornalistas disponíveis. Este caso das Voltas a Portugal é disso bem demonstrativo, uma vez que praticamente se reduzem às páginas d’A Rabeca as crónicas alusivas com interesse.
O primeiro artigo com interesse, A “Volta”, encontra-se n’A Rabeca de 24 de Agosto de 1955, onde se pode ler uma crítica à forma atrabiliária e desordenada como decorreu a XVIII Volta a Portugal em Bicicleta. Mas encontra-se aqui uma excepção, que se transcreve: “É de registar o comportamento do nosso conterrâneo Pedro Polainas na prova. Demonstrou ser um corredor valoroso, com que há que contar no futuro. Inscrito sob o número 38 e na equipa do Sporting, Polainas venceu, em primeiro lugar, as etapas seguintes: quinta, Vila Real – Covilhã; sétima, Estremoz – Beja; décima sétima, a última, Viseu – Porto. Na classificação geral por pontos, Camisola Verde, ficou em 2.º lugar; na classificação final em 8.º lugar, à distância de 15 minutos e 23 segundos do primeiro classificado, recebendo o prémio de mil escudos; na classificação final do Prémio da Montanha em 5.º lugar, com 3 pontos; na Camisola Rosa, como vencedor de etapas, obteve o 2.º lugar. Na última etapa, instalada no Estádio do Lima, no Porto, Pedro Polainas entrou em 1.º lugar. A Rabeca felicita o corredor portalegrense pela sua actuação na Volta a Portugal em Bicicleta e faz votos para que em futuras provas continue a merecer boas classificações.”
Alguns outros artigos integram várias páginas dos jornais portalegrenses. No entanto, no relativo a Pedro Polainas, será em 14 de Agosto de 1957 que voltaremos a encontrar nova referência, ainda em A Rabeca, no texto Volta a Portugal em Bicicleta – Em Portalegre triunfou Raul Motos (Espanha): “A etapa de Beja a Portalegre despertou, como se previa, assinalado interesse na região, dando à cidade movimento desusado, especialmente se atendermos à hora da chegada dos ciclistas, pouco depois das 14. Raul Motos, de Espanha, venceu no sprint, à frente de numeroso pelotão, postando-se nos 2.º e 3.º lugares, respectivamente, João Marcelino, do Benfica, e Pedro Polainas, o portalegrense do Sporting. Na classificação da etapa, por equipes, saiu vencedor o conjunto do Sporting Club de Portugal, mercê das posições de Polainas (3.º), Américo Raposo (4.º) e Calquinhas (10º).”

Uma semana depois, na edição seguinte, o mesmo jornal publicava uma pequena mas significativa nota, sob o título Um portalegrense no desporto: “Não queremos deixar de registar o comportamento do ciclista do ‘Sporting’: Pedro Polainas. Ele foi de molde a honrar e alicerçar o nome desportista como um dos bons ciclistas nacionais. E, porque Pedro Polainas é natural desta cidade, aqui ficam os nossos cumprimentos ao modesto cidadão, mas valioso ciclista.
Em 9 de Agosto de 1958, é a vez d’O Distrito de Portalegre relatar nas suas páginas a chegada da etapa da XXI Volta a Portugal em Bicicleta aqui verificada. E escreveu: “Como já é do conhecimento geral, o vencedor da etapa foi o corredor Alberto Carvalho, do Académico, um jovem de 18 anos que suportou os inconvenientes de ter que fazer o percurso de 90 quilómetros sozinho. Com 4 03 minutos de diferença chegou numeroso pelotão entre os quais Pedro Polainas, segundo classificado, José Carvalho, António Pedro Júnior, Sousa Cardoso, Alves Barbosa, José Firmino, etc.”
Mas A Rabeca não deixa os seus créditos desportivos por mãos alheias. Na edição de 13 de Agosto, no artigo Portalegre na Volta a Portugal, acrescenta: “Alberto Carvalho, do ‘Académico’ do Porto, cortou a meta com cerca de 3m e 30s de avanço sobre o segundo corredor, Pedro Polainas, que ganhou ao sprint este posto, na recta final, muito merecidamente.” Nesta mesma edição, em Últimas, o jornal comunica sobre a etapa Évora-Moura: “Ganhou a tirada, depois de uma fuga a perto de 50 km da meta, o corredor do Benfica, João Marcelino que, com Américo Raposo e Carlos Pinheiro, fizeram o tempo de 3h 28m e 27s. O pelotão veio com cerca de 5m de atraso, sendo comandado por Pedro Polainas e Sousa Cardoso, e onde se encontrava Alves Barbosa, que conserva a camisola amarela.”
25 de Julho de 1959 é a data que assinala a última referência local a Pedro Polainas. Encontrámo-la n’O Distrito de Portalegre de 25 de Julho de 1959, no artigo A Volta a Portugal em Bicicleta: “Ontem a cidade de Portalegre teve o prazer de ver passar a corrida da ‘Volta a Portugal’. (…) Alves Barbosa, à frente, como era de esperar. Corre também um outro, que está fazendo ‘boa figura’ e é natural desta cidade – Pedro Polainas. Que Deus o ajude na arte de pedalar!

Julgo não errar, considerando que, após esta curta nota, nada de significativo os jornais de Portalegre alinharam sobre o nosso conterrâneo Pedro Polainas. É, pois, quase total o desconhecimento que dele têm os portalegrenses, sobretudo os das mais recentes gerações.
Deixo pois aqui uma sugestão. Atendendo à boa prática de sucessivos elencos autárquicos de homenagearem toponimicamente os não-portalegrenses que aqui se distinguiram e de, embora em menor escala, lembrarem de igual modo os portalegrenses com relevo conseguido fora-de-portas, eis aqui uma excelente oportunidade para retomar esse salutar costume. Lembro, entre estes últimos, os casos de Benvindo Ceia, Emílio Costa, Beatriz Rente, Jorge de Avilez, Filipe Folque, Sousa Larcher ou Lucília do Carmo, por exemplo, personalidades aqui nascidas com evidência ganha por outros sítios. Não citei, propositadamente, Carlos Canário (outro desportista e, por coincidência, também sportinguista) para lembrar, com o merecido destaque, um notável precedente.
Um acto de homenagem e de público reconhecimento portalegrense para com Pedro Polainas seria correcto e digno. Mas, como comunidade, não somos nisto muito hábeis nem sequer justos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um atleta portalegrense de eleição – I

Foi um dos maiores ciclistas portugueses de todos os tempos. Embora muito generoso e intuitivo, era tacticamente pouco disciplinado, pelo que a sua carreira desportiva foi curta.
Tem hoje 80 anos e vive em Torres Vedras, que sempre foi a sua segunda terra.
Mas é portalegrense.
Pedro António Cereijo Polainas nasceu na freguesia de São Lourenço, em Portalegre, no dia 20 de Outubro de 1931.
Hoje, quando termina mais uma edição da Volta a Portugal em Bicicleta, que ele correu por cinco vezes, passando aqui, na sua e nossa terra, é oportuno recordar um notável atleta portalegrense, há muito entre nós esquecido.

Cedo deixou Portalegre, indo com a família para Torres Vedras, para ganharem a vida, difícil nesses tempos. No Oeste, pátria lusitana do ciclismo, as bicicletas entusiasmaram o jovem Pedro, que depressa se notabilizou pela sua vocação para essa modalidade desportiva.
A região era um autêntico viveiro, onde os grandes clubes que tinham então equipas profissionais de ciclismo recrutavam muitos dos seus atletas. Assim aconteceu com Pedro Polainas que, em 1949, tinha então 18 anos, ingressou no Sporting Clube de Portugal, pela mão de Inácio Bardalino, que também mais tarde levaria o grande João Roque para Alvalade.
Ainda como ciclista amador, já com as cores do SCP, ele venceu a Rampa do Vale de St.º António, um “clássico” da época. Depois, em 1951, foi Campeão Regional de Fundo de Amadores Seniores. Nesse mesmo ano, em Outubro, seria Campeão Nacional de Amadores, em velocidade.
Continuou a sua carreira vitoriosa, em Fevereiro de 1952, como Campeão Regional de Corta-Mato Ciclo-Pedestre em Amadores Seniores. Em Abril, repetiu o título do ano anterior, no Regional de Fundo e cometeu igual proeza no relativo ao Campeonato Nacional de Velocidade, no seu escalão.
Entretanto, nos intervalos dessas competições, venceu algumas provas “clássicas” regionais, como os Circuitos de Moscavide ou de Lourel.
Em 1953, voltou ao triunfo na Rampa do Vale de St.º António.
No mês de Novembro de 1953, perdeu para Américo Raposo o Campeonato Nacional de Velocidade, em luta “fratricida” até ao fim…
Na “clássica” Porto-Lisboa de 1954 ficou em 2.º lugar, apenas vencido, mais uma vez,  pelo seu amigo e companheiro de equipa Américo Raposo.
Foi em 16 de Julho de 1955 que obteria a sua mais mediática vitória, no Campeonato Nacional de Fundo, quando venceu num fantástico sprint, que ficaria registado nas crónicas do ciclismo desses tempos, os seus seis companheiros de fuga.
Em Novembro deste ano seria novamente Campeão Regional de Velocidade.

A 1 de Setembro de 1957, fez parte da equipa leonina que se sagrou Campeã Nacional de Fundo, na companhia de Américo Raposo e Manuel Graça, dois outros ciclistas de eleição. Esta prova tem uma notável crónica. Fui disputada em sistema de contra-relógio no percurso Porto-Caminha-Porto, numa distância total de 185 km. Na ida, os leões obtiveram apenas o terceiro lugar, mas na volta revelaram-se de tal modo imparáveis que deixaram o Académico do Porto a 11 minutos e o  Futebol Clube do Porto a 17 minutos de diferença!
Em Outubro desse ano, no Estádio do Lima, também no Porto, Pedro Polainas formou equipa com Américo Raposo, vencendo pela 4.ª vez tal competição.
Em 1958, ganhou a Volta a Lisboa, prova que sempre dispôs de uma extraordinária adesão popular, e ajudou o seu clube a nela triunfar por equipas. Também venceu o “clássico” Circuito da Malveira.
Em Fevereiro de 1959, ganhou a Prova de Abertura, mas agravou o litígio com o Sporting que já vinha travando desde há algum tempo. Assim, deixou Lisboa e ingressou na Secção de Ciclismo do Futebol Clube do Porto, após curta passagem pelo Pinheiro de Loures.
Em 1960, obteve um dos mais significativos triunfos da curta carreira, ao vencer a “clássica” corrida Porto-Lisboa, no tempo de 9h 47m 23s.
Em 1961, voltaria ao SCP, o seu clube do coração. Mas a sua carreira terminou ao fim de escassos seis meses de permanência, retirando-se do ciclismo aos 30 anos de idade, quando muito haveria ainda a esperar das suas excepcionais qualidades atléticas.
Participou em 5 Voltas a Portugal em Bicicleta, onde conquistou 9 etapas, mas nunca tendo ultrapassado um 9.º e um 8.º lugares na classificação geral.
Os seus triunfos aconteceram nas Voltas de 1955, com três vitórias em finais de etapas; 1956, com duas; 1957, com uma;  1958, com duas; e 1959, com uma.
Chegou no entanto a envergar a camisola amarela durante três dias.
Na prova de 1955, obteve o 2.º lugar na classificação por pontos, atrás de Alves Barbosa e à frente de Ribeiro da Silva.
O Overall Ranking of Contemporary Riders, organização ciclista internacional, atribuiu a Pedro Polainas um total de 103 pontos acumulados em função do seu palmarés, colocando-o no 647.º lugar entre 1128 ciclistas.

Fez parte do elenco do filme O Homem do Dia, realizado em 1957 por Henrique Campos, filmado em “cinemascope”, protagonizado por Alves Barbosa, Maria Dulce, Armando Cortez, Costinha, Camilo de Oliveira, Elita Martos, Mário Pereira, Rosinda Rosa, Alina Vaz e outros. Pedro Polainas, na companhia de outros grandes ciclistas do seu tempo, como João Marcelino, José Firmino, Fernando Maltez, António Catela, Júlio Ferreira, Arlindo Carvalho ou Manuel Graça integrou o elenco secundário. O filme começa com um Porto-Lisboa e termina com um longo sprint entre Pedro Polainas e Alves Barbosa, numa chegada ao Porto. O filme foi estreado nos cinemas Éden e Roma, em Lisboa, no dia 21 de Fevereiro de 1958.
O Núcleo Sportinguista de Torres Vedras, onde reside, atribuiu-lhe o Troféu Agostinho, criado como homenagem ao malogrado grande ciclista do Sporting e entregue a personalidades consideradas merecedores de tal distinção.

O Alcobaça Clube de Ciclismo, em Novembro de 2008, levou a efeito a II Semana do Ciclismo em Alcobaça, onde realizou algumas interessantes iniciativas, incluindo um concurso de montras alusivas, feira do livro, passeio ciclista, projecção do filme O Homem do Dia, tertúlias, colóquios-debate, evocação de ciclistas como Gil Moreira, Nicolau e Trindade, Ribeiro da Silva e outros, jantar de homenagem e convívio, com ciclistas ainda vivos, vencedores do Porto-Lisboa, entre os quais Pedro Polainas.

(conclui amanhã, neste blog)

 António Martinó de Azevedo Coutinho

SMOKING – NO SMOKING – I

NELSON RODRIGUES, JOSÉ RÉGIO E OS OUTROS…

Há dias, no interessante suplemento cultural que o Diário de Notícias põe à disposição dos leitores em cada sábado, li algumas crónicas sobre dois consagrados autores brasileiros cujo centenário se comemorou em Agosto. Se sobre Jorge Amado conheço razoavelmente fama e obra, confesso uma quase total ignorância acerca de Nelson Rodrigues. Provavelmente, não deveria acontecer assim, mas acontece.
Prometo dedicar a esta falha o melhor do meu interesse, quando surgir a devida oportunidade, até porque o que agora li sobre a sua fascinante personalidade e sobre a original qualidade da sua produção literária constituiu um suplementar incentivo.
O que me despertou curiosidade, talvez formal, foi o facto de as fotos e outras representações, desenhadas, de Nelson Rodrigues o mostrarem -sempre- com um cigarro na boca ou lá perto…

Os artigos a ele alusivos nada acrescentaram sobre este pormenor, que me interessou. Procurei, portanto, saber mais sobre os hábitos de fumo do escritor. E o que me foi possível conhecer confirmou as minhas suspeitas. Por exemplo, aprendi que ele morreu precocemente, aos 68 anos, devido a complicações cardíacas e respiratórias. Aliás, logo pelo início dos anos 70, ele começara a acusar sérios problemas gastroentereológicos e cardíacos. Operado a um aneurisma da aorta, em 1974, foi então terminantemente proibido de fumar, pelos médicos assistentes. Nelson esteve-se simplesmente borrifando para tal proibição, continuando a consumir cigarros sobre cigarros. Em 1977, sofreu uma grave arritmia ventricular e nova insuficiência respiratória. Porém, mal se restabeleceu, voltou à sua amada nicotina e seus anexos. Em 1980, já não houve remédio para outra crise…

A ironia com que comento estes episódios nada tem de fundamentalista, da minha parte; com efeito, acho que cada suicida tem o pleno direito de escolher a sua arma, como nos românticos duelos de antanho.
Aliás, estou convencido de que muitos dos grandes vultos da cultura, da ciência ou da política de todos os tempos, desde a invenção do cigarro, fazem do seu uso uma espécie de pública imagem de marca. Quem diz cigarro, diz charuto ou diz cachimbo, tanto faz.
Quase de certeza, nenhum deles ficou privado dos seus invulgares recursos intelectuais, ou reduzido em tal uso, por efeitos da nicotina. Quase de certeza, a imensa maioria deles morreu de causas que nada terão a ver com o seu excessivo consumo. Obviamente.
Para recordar alguns deles, aqui vai uma pequena selecção, que não obedece a qualquer critério que não seja o de serem os que estavam mais à mão.

Mas é interessante esta questão, que pode ser abordada de mil e uma maneiras. De vez em quando, precisamente quando me apetecer, ou porque o assunto esteja mais à mão, voltarei a ele.
Mas não abalo, por hoje, sem uma referência mais próxima, mesmo lagóia, a um vulto das nossas letras, o maior que entre nós viveu, que não é de todo distante destes sinais exteriores de lazer que me chamaram a atenção em Nelson Rodrigues. Falo, obviamente, de José Régio. Numa razoável percentagem, de entre as imagens dele mais divulgadas, uma boa quantidade mostram-no de cigarro em punho.

Ele também foi fraco de pulmões, tal como o escritor brasileiro, também esteve internado em sanatórios, também sofreu problemas cardíacos e respiratórios graves. Morreu, como se sabe, na sequência duma crise cardíaca e tinha então, precisamente como Nelson Rodrigues, 68 anos de idade. Coincidências, obviamente.

Para tranquilizar os leitores, presumivelmente um pouco fartos destas nicotínicas divagações, quero afirmar -peremptoriamente- que se aqui apresentasse painéis com a imagem de escritores e outros vultos não-fumadores, então haveria material para os próximos anos, com exclusão de qualquer outra temática E isto tornar-se-ia ainda mais monótono…
Portanto, como prometido e sem fundamentalismos, um dia destes volto à secção smoking – no smoking.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 PS – O meu interesse por José Régio teve, como primeira evidência pública, o artigo Régio ou o Discreto Amigo, que escrevi para o número especial de A Cidade, em Outubro de 1984, quase há trinta anos. Como curiosidade, daí cito um excerto, onde refiro a permanente ligação do dr. José Maria dos Reis Pereira aos cigarros, sempre manual e habilmente confeccionados:
Algumas vezes escolhido, com outros colegas, pelo nosso professor de Português, éramos entregues aos cuidados de Reis Pereira que seleccionava textos e poemas e nos ensaiava.
Recordo, como se ontem tivessem acontecido, esses momentos raros em que Régio estranhamente vibrava, quase crescendo nos bicos dos pés, os óculos redondos sobre a testa, laivos brancos de saliva franjando os cantos da boca cerrada, voz modulando as inflexões, ritmos e volumes que desejava imitados por nós. Parecia-me, por vezes, quase humano.
Quando nos escutava, olhos fixados no cigarro fino que construía, enrolando-o entre os dedos treinados e, de relance, no livro ou no papel escrito, então parecia ausente e misterioso ou, pelo menos, eu continuava a senti-lo como tal.

as redacções da ritinha – 3

oje a minha redação é diferente não sei se já repararam provavelmente já deram por isso estou a escrever à moderna portugesa e estou a escrever assim porqe a setôra é fã do novo acordo ortográfico e ontem disse assim de agora em diante já ningém escreve as letras qe ningém lê ó setôra disse eu como é qe isso se faz e ela disse qe era assim e pronto mas depois até explicou qe com a poupança só em tinteiros dos computadores com as letras qe desaparecem e não gastam tinta o governo pode empregar mais umas dúzias de assessores qe á muito fazem falta nos gabinetes dos ministros sobretudo no da educação por isso por ação desta alteração a minha redação oje vai à moderna mas o meu pai quando soube desta modernice deu urros qe até abanaram o teto da nossa abitação e disse logo qe era por esta e por outras qe o relvas tinha tantos cursos e era um belo ator neste excecional espetáculo da política não percebi o qe ele qeria dizer mas não perguntei porqe ele podia chatear-se e mandar-me de castigo para o magalhães qe é das piores coisas qe me podem fazer bom a verdade é qe estou a fazer um grande esforço por causa destas correções qe tenho qe estar sempre a fazer e se calhar até vou dar algum erro e peço desculpa mas espero qe todos compreendam qe o progresso é difícil senão toda a gente era progressista e não é ora a minha redação de oje era para ser sobre uma ação para proteção do ambiente mas pus logo uma objeção à diretora por causa da correção das redações à moderna e ela deu-me razão e mandou escrever na ata que isto assim não ata nem desata porqe ouve meninas qe não concordaram e fizeram uma reação coletiva pois de fato não é exatamente assim qe se leciona fiqei contente com esta correta solução da direção e por agora me vou despedir desta redação qe foi muito difícil mesmo sem ter falado das ações de proteção do ambiente mas a verdade é qe isto de a gente tirar as letras qe não lê nem lembrava ao diabo acho qe é mais fácil escrever letras a mais do qe letras a menos tal como faz a elena qe é alentejana e o pai dela é trolha já me esqecia o meu pai também disse qe era por estas e por outras qe á tantas letras protestadas também não percebi mas já vou estando abituada adeus

Acordo ortográfico? NÃO, obrigado!

No passado dia 18 de Agosto, o jornal Público divulgou um notável texto de António Fernando Nabais, professor de Português. Conheço os seus escritos, informados, inteligentes e acutilantes, do seu próprio “blog” os dias do pisco. Aliás, este texto da sua autoria que, com a devida vénia, aqui partilho hoje com os leitores do largo dos correios já fora publicado nesse mesmo “blog” pessoal no dia 23 de Abril passado. Sendo para mim o combate contra o Acordo Ortográfico uma obrigação ética e moral, talvez mesmo um caso de saúde pública (pelo menos a da Língua Portuguesa), é nesta linha de coerência que assim contribuo para esta urgente campanha.

                                                                          António Martinó de Azevedo Coutinho

Acordo Ortográfico: esquisso do acordista

Tenho pouco jeito para o desenho e não gosto de generalizações. Evito dedicar-me a ambas as actividades pela mesma razão: a forte possibilidade de falsear a realidade. No entanto, o tempo que tenho passado na polémica acerca do Acordo Ortográfico tem-me permitido reunir alguns traços que, com maior ou menor frequência, surgem no retrato daqueles que defendem o Acordo.
O primeiro aspecto a considerar reside no facto de que raramente um acordista cita o Acordo, tentando demonstrar a sua validade. Na maior parte dos casos, fica-se com a estranha impressão de que o acordista não terá, sequer, lido o Acordo. Noutros casos, o acordista acaba por reconhecer a existência de incongruências, mas prefere desvalorizá-las, com o argumento de que qualquer acordo é melhor do que a inexistência de um acordo.
A importância do Acordo, aliás, é defendida por se considerar que é a tábua de salvação da língua. Sem o Acordo, e, portanto, sem o peso do Brasil, o português europeu passaria a ser uma língua rapidamente extinta. O acordista considera esta asserção tão evidente que se dispensa de a demonstrar, como se dispensa de demonstrar como é que a sobrevivência de uma língua depende tão completamente do sistema ortográfico.
O acordista sabe que o Acordo Ortográfico não trouxe acordo ortográfico, mas finge, ainda, ignorar que, para além da ortografia, não existem outras diferenças insanáveis, que só poderiam desaparecer se, para além de um acordo ortográfico, se realizassem, ainda, um acordo sintáctico, um acordo fonético e um acordo semântico. Nada disso impede o acordista de afirmar, por exemplo, que “qualquer livro editado em Português possa ser impresso em qualquer país lusófono”.
O acordista insiste, ainda, em classificar como perniciosa “a circunstância de a língua portuguesa ser a única no mundo ocidental falada por mais de 100 milhões de pessoas com duas ortografias ocidentais”,  o que, mesmo que não fosse mentira, não chegaria para provar coisa nenhuma, pois não passa do típico argumento provinciano que se limita a considerar negativo o que for uma característica única.
É, ainda, vulgar, ouvir o acordista criticar os críticos do Acordo Ortográfico por se julgarem “donos da língua”. Tal crítica faria sentido se esses mesmos críticos defendessem a imposição da ortografia europeia a todos os outros países lusófonos. A língua pertence, evidentemente, a quem a usa, o que quer dizer que o português pertence a todos os países lusófonos e é, portanto, enriquecedor que esse facto provoque todo o género de aproximações e admita as inevitáveis diferenças, que podem ser fonéticas, semânticas ou ortográficas.
É nesta altura que o acordista deixa escapar a sua veia empreendedora, defendendo que o Acordo Ortográfico será uma oportunidade de negócio, com amanhãs comercialmente risonhos. Diante dessa certeza, o acordista desvaloriza, aliás, o contributo dos linguistas, seres estranhos, ratos de biblioteca que se alimentam de etimologias bafientas e querem impedir a evolução da língua.
Para o acordista, mesmo sendo um leigo ou exactamente por ser um leigo, o linguista é uma espécie que vai contra um século democrático em que a língua é do povo. Não será estranho, amanhã, encontrar o acordista a defender, noutros campos do conhecimento, a autoridade dos especialistas. Na língua, o especialista deve ser ignorado, é uma antiguidade sem sentido. Aliás, o acordista, tal como não leu o Acordo Ortográfico, também não se dá ao trabalho de ler os especialistas.
A recusa dessa leitura, no entanto, não impede o acordista de sustentar a sua opinião, que considera esmagadora, com argumentos tão vagos como “já havia palavras homógrafas” (o que não deveria ser razão para aumentar o seu número), “há palavras que se pronunciam com a vogal fechada, apesar de terem consoantes mudas” (o que, sendo inegável, constitui excepção) ou “a grafia não afecta a oralidade” (como se não existissem relações complexas entre a leitura, a oralidade e a escrita).
Não é fácil ser-se crítico do Acordo Ortográfico, num país em que tudo se discute pela rama e tudo se decide com leviandade. Ser acordista é mais fácil: basta não conhecer o Acordo Ortográfico e não estar na disposição de ler o que se escreve sobre ele.

António Fernando Nabais