DINOSSAURIOLÂNDIA

O senhor primeiro-ministro, se por acaso ainda for o mesmo à data da publicação deste texto no blog, disse há uns meses que a crise tinha de ser encarada como uma espécie de nova oportunidade, isto é, como um desafio à criatividade de cada um de nós.
Por outro lado, a autarquia portalegrense, na sequência duma iniciativa da CIP, propõe-se fazer aqui acontecer a regeneração urbana.
Juntando estas duas interessantes sugestões numa só, lembrei-me duma iniciativa que há anos apresentei em primeira mão no Fonte Nova n.º 433, em Junho de 1993. Como já passaram quase vinte anos e a proposta infelizmente ficou esquecida, venho recuperá-la neste duplo pretexto.
Transcrevo-a tal como a escrevi então, porque as ligeiras desactualizações são, apenas, testemunhos da passagem do tempo. Em duas décadas, de facto, mudámos muito. Para bem pior.
A ficção, sobretudo quando carregada de ironia, pode ser uma resposta saudável às maciças doses de cretinice com que deparamos no mais vulgar quotidiano. Acredito nesta terapia ao serviço da manutenção de algum equilíbrio mental.

 DINOSSAURIOLÂNDIA

Aqui há dias solicitei uma entrevista ao responsável lo­cal por um departamento ofi­cial ligado às questões do ambiente e dei-lhe conta do meu projecto.
Atenciosamente, chamando um assessor de­pois de me ter ouvido, ambos discutiram comigo alguns pormenores do dito projecto. Devo confessar que, depois da entrevista, não fiquei muito convencido de que tivessem atingido plenamente o alcance da minha proposta. Por isso mesmo, lembrei-me de a di­vulgar sumariamente aqui no jornal, na esperança de que alguém mais perspicaz entenda as virtualidades do projecto, sobretudo numa altura em que as multinacionais descobriram, finalmente, Portalegre.
Quero desde já esclarecer que me satisfaço com o lugar de administrador-geral da fu­tura empresa, abdicando dos naturais direitos de autor ine­rentes ao projecto.
Este, em boa verdade, nem sequer é completamente inédito, atendendo a que no pacote inicial das acções con­templadas pela Operação In­tegrada de Desenvolvimento do Norte Alentejano se pro­punha a instalação duma espécie de jardim zoológico em miniatura, na Quinta da Saúde. Para que conste, está escrito…
Por outro lado, já que a nível nacional perdemos há anos para a França o EuroDisney pelo qual tanto nos batemos, a minha pro­posta serviria de compensação para minimizar tal derrota do Governo de todos nós.
Depois deste já longo preâmbulo, chegou a altura de revelar -no concreto- as bases do projecto que concebi: nem mais nem menos a criação, neste Norte Alentejano, da Dinossauriolândia! Tal como o próprio nome deixa antever, tratar-se-á de um parque de diversões cuja atracção prin­cipal serão os dinossauros (ou dinossáurios, pode escrever-se de ambas as formas) que estão francamente na moda.
Pelos meus cálculos, bas­tará -na 1.ª fase- uma meia dúzia de hectares de terreno quanto mais selvagem me­lhor, pedregoso q.b., para imi­tar lindamente o Jurássico, período da era Mesozóica que aconteceu há uma data de milhões de anos, não sei quan­tos ao certo nem isso vem a propósito. O que interessa é contratar um bom arquitecto paisagista que faça aquilo parecer o tal Jurássico, sem tirar nem pôr. Os bichos pro­priamente ditos, que são a atracção mais importante, terão de ser encomendados a uma oficina da especialidade. Por constituírem mão-de-obra nacional, podem ser consul­tadas aquelas casas do Norte onde fabricam os gigantones e os cabeçudos, só com a diferença de que estes bichos é para mexerem, portanto têm de ser articulados. Também imaginei que poderiam ser insufláveis, o pior são os furos que talvez obrigassem a maiores gastos de manutenção. Creio que uma dúzia e meia de animais sorti­dos deve chegar, entre Brontosaurus, Tyrannosaurus rex, Cetiosaurus, etc. Basta con­sultar um manual da especiali­dade para saber na perfeição as respectivas medidas, fei­tios e cores. O King Kong fi­cará a perder de vista, coita­dinho…
A animação dos bichos deverá ser eléctrica, desde que a EDP garanta não haver fa­lhanços frequentes no forneci­mento de energia. Caso con­trário, funcionarão a pilhas, daquelas que se anunciam na televisão e que nunca mais acabam. Tudo previsto no projecto, como se vê! Quanto aos barulhos, uns discos de efeitos sonoros resolverão o problema ou pedir-se-á a co­laboração dos Parodiantes de Lisboa, muito bons no género. Com uns holofotes colocados a preceito, concluir-se-á o cenário, onde poderá haver uns toquezinhos pirotécnicos, incluindo morteiros e fogo preso.

 

O terreno será todo ve­dado, como nas reservas de caça, e instalar-se-á a bilheteira na entrada. As escolas, sindi­catos, lares da terceira idade e portadores do Cartão Jovem terão direito a descontos à semelhança do que sucede no Planetário ou nas Grutas de Mira d’Aire, desde que façam marcação prévia.
Provavelmente, desde que o contrato fosse vantajoso, o Spielberg dispensaria o seu recente filme em exclusivo. O pelouro da Cultura da C.M.P., com a experiência adquirida no Crisfal, poderia ser asso­ciado ao projecto, neste particular. Assim, num grande cinema de ar livre, tipo Drive In, e em sessões à meia-noite como convém neste género de fitas, teríamos “Jurassic Park”, num exclusivo pelo menos ibérico, para cá trazer­mos os nossos vizinhos de Valência, Fontañera, Marco, La Codosera e Badajoz.
Bem conversada, a cadeia Mc Donald’s instalar-se-ia com hamburgers próprios e quem sabe se o empório Coca-cola não criaria uma nova marca de refrigerantes adequada ao evento, no caso de ser abor­dado com técnicas agressivas de marketing. Isto para não falar na nova variedade –Dino– prevista para o efeito pelos Cafés Delta.
Em segredo, muito em segredo, seriam escavadas algumas pegadas autênticas de dinossauros em locais adequa­dos. Depois de ocasionalmente descobertas, discutir-se-ia com a Junta Autónoma das Estradas o desvio da nova auto-estrada Portalegre-Bruxelas, a fim de preservar tão importantes vestígios.
Na sequência da Rota dos Castelos, a Região de Turismo instituiria então a Rota dos Di­nossauros, com exposições de fotografias tridimensionais dos monstros, conferências do Pro­fessor Galopim de Carvalho sobre os mesmos, torneios de jogos paleolíticos tradicionais e provas de petiscos primitivos regionais, servidos por barbudos colabora­dores vestidos de peles de urso, grunhindo Ughs! de incitamento.
O apoio hoteleiro ao em­preendimento seria assegurado por unidades modelo incluindo suites instaladas em cavernas dotadas de todas as comodidades, desde águas correntes, quente e fria, até ao ar condicionado e à direcção assistida.
A vastíssima abrangência socioeconómica do meu original projecto envolveria a reformulação do artesanato regional, passando os pastores a esculpir figuras de Rhamphorhyncus em bunho e co­chos de cortiça em forma de pegadas de Plessiosauro infantil. Em Nisa, os oleiros aprenderiam a modelar Brontassauros em­pedrados e as bordadeiras dedi­cariam os seus alinhavados ao delicado tema dos Tyranosauros rex. Provavelmente, a própria Manufactura de Tapeçarias ocupar-se-ia na criação de pequenas peças alusivas ao Jurássico, segundo cartões de Maluda e de Cargaleiro.
O pessoal do Parque Natural da Serra de S. Mamede equipar-se-ia segundo o figurino dos Flintstones, quando em serviço na área da Dinossauriolândia.
Esta seria progressivamente ampliada à medida do inevitável êxito do projecto inicial, que se candidataria aos fundos comu­nitários e requereria o estatuto de Instituição de Utilidade Pública.
A instalação de um aeroporto, de um terminal TIR e, possivelmente, de um metropolitano de superfície fazem parte de fases sucessivas previstas no plano, de que aqui se deixaram apenas os traços gerais.
Espero que alguém acredite no projecto da Dinossauriolândia. O futuro passa por aí, pelo passado mais remoto. Caso contrário, estamos entregues aos bichos. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Os rebuçados com cromos da bola – 1

I – Os cromos atacam outra vez…

Pelos finais de 2008, escrevi para o “blog” A Voz Portalegrense, do meu amigo Mário Casa Nova Martins, uma série de cinco textos alusivos aos cromos da bola. Aí evoquei, sucessivamente, algumas memórias de infância a propósito das colecções que fazíamos com as imagens dos jogadores dos principais clubes de futebol da época, estampados nos papéis em que se embrulhavam rebuçados.

O sistema era simples e engenhoso. Uma editora imprimia as fotos dos futebolistas, que serviam depois, sortidos, de embalagem dos rebuçados. Ao mesmo tempo eram disponibilizadas as cadernetas, que comprávamos ou que nos eram oferecidas por meio de senhas que, à sorte, também embrulhavam o doce conteúdo. Como os cromos eram numerados, assim se facilitava a respectiva inserção, por colagem, no lugar certo. Íamos trocando o material repetido, riscando em listas numéricas personalizadas, que cada um de nós organizava, as novas aquisições.

De vez em quando, havia um brinde inesperado, uma carteira de “pele”, um canivete, um pente, um emblema desportivo (um distintivo, como ao tempo se dizia), um apito, um cinto, um pião, um espelho, enfim, uma parafernália de perfeitas inutilidades que nos enchiam de alegria.

Mas o objectivo supremo da tarefa consistia, muito mais do que reunir a colecção das equipas da primeira divisão (em menor número do que hoje!), era a dificílima obtenção do prémio máximo, um apenas por cada lata que continha largas centenas (talvez alguns milhares) de rebuçados. É que havia um determinado jogador, normalmente de uma equipa secundária, que era único, um exemplar apenas -carimbado para evitar falsificações!- no vasto e muito diversificado conteúdo que enchia a tal lata, mágico contentor daquele quase mítico segredo. Consta, sem que nenhum de nós alguma vez tivesse obtido uma segura confirmação do facto, que esse rebuçado estava mesmo colado no fundo da sua lata para que não fosse inadvertidamente vendido. E a nossa táctica consistia em conseguir reunir, colectivamente, a quantia necessária para adquirir esse “fundo da lata”, ou seja, todos os rebuçados ainda existentes, numa jogada de antecipação sobre outros grupos adversários…

O prémio -ainda não o descrevi- era uma bola de futebol, autêntica, de couro. Para os gaiatos que éramos, para quem uma pequena bola de borracha era um alto luxo, constituía um sonho poder dispor duma bola verdadeira, de “cautechumbo”, gíria que usávamos na sua designação, quando ainda nem sabíamos proferir palavras esquisitas, ou estrangeirismos, como cautchu.

Tendo evocado este fenómeno do quotidiano de gerações inteiras de malta nova (e até de muitos adultos), revelei então algumas páginas de cadernetas que religiosamente guardei, completas com a ligeira excepção do respectivo número da bola, o tal…

 

Reproduzi certas páginas com as principais equipas dos campeonatos de 1944/45 e de 1949/50 e outros exemplares soltos, com interesse, como os relativos a alguns futebolistas de algum modo ligados a Portalegre, como Manuel Martelo, guarda-redes do Grupo Desportivo Portalegrense que depois se notabilizaria no Lusitano de Évora, cidade onde com ele convivi; Carlos Canário, também portalegrense, jogador no Estrela de Portalegre, no Sporting e na selecção nacional, que entrevistei para a saudosa revista A Cidade; António Bentes, que ainda me lembro de ter visto jogar aqui, pelo Liceu de Portalegre, depois famoso e internacional pela Académica de Coimbra; e Domingos Demétrio “Patalino”, temível ponta-de-lança que ainda chegou a jogar pelo Laníficios de Portalegre, e que admirei ao serviço do Elvas e do Lusitano.

O pretexto dos cromos da bola serviu-me, há quatro anos, para evocar gratos registos de memória, os mais antigos relativos à minha própria prática enquanto coleccionador, os mais recentes tecidos em torno de futebolistas locais (ou regionais) que conheci ao vivo, para além das respectivas imagens coleccionadas.

Se agora retomo o tema é porque algo de inesperado sucedeu a tal propósito. Há dias, rebuscando em gavetas esquecidas, encontrei novas preciosidades cujo paradeiro em absoluto desconhecia, embora da memória não se tivessem varrido. As três preciosas peças que agora recuperei são outras tantas cadernetas, mais antigas que as anteriores e também todas completas, fora a tal insignificante excepção. Aliás, se alguma vez tivessem atingido a sua integralidade, deixaria de contar com elas, pois tê-las-ia obrigatoriamente entregado em troca da… bola de futebol.

Por hoje, ficam aqui os registos digitais das suas capas e contracapas e a promessa de, sucessivamente, divulgar na íntegra todo o seu conteúdo. Sei, pela experiência adquirida a quando da publicação dos textos e imagens há quatro anos, do apaixonado interesse que muitos cidadãos pelo país fora dedicam a estes testemunhos, quase perdidos e mesmo raros, dos tempos heróicos do futebol indígena e do coleccionismo ainda inocente. Por eles e para eles, aqui serão apresentados, sucessivamente, os integrais conteúdos destas três cadernetas, acompanhados pelos comentários pessoais que achar oportunos.

Aqui ficam os “invólucros” das três cadernetas:

  • Campeões   de  Futebol –  Fotografias Coloridas (88 cromos), Campeonato Nacional da 1.ª Divisão  1940-1941, da Confeitaria Universo (Rua da Alegria, 22, Tel. 25628, Lisboa);

 

  • Caramelos    Futebolistas –    Campeonato Nacional da 1.ª Divisão 1943-1944 (110 cromos), da Fábrica  Universal (a mesma morada);

 

  • Caramelos Emblemas  Desportivos –   presumivelmente 1945-1946? (180 cromos), da Fábrica Universal (idem).

 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

A rua

Ao contrário do que se diz, acredito que a rua pode decidir. Sobretudo se, para além de rua, se constituir estrutura capaz de questionar um sistema e propuser alternativa credível e estruturante. Que a rua não sirva agora para sufragar o governo nas autárquicas é o que muitos desejam: isso seria manter certa linha melódica. Vira o disco…

Se tive alguma percepção do que foi o 15 de Setembro – e aqui, diga-se, ne sutor ultra crepidam (não suba o sapateiro além da chinela) –, foi a de que a rua castigou todo o sistema político e não poupou os agentes partidários que dela quiseram apropriar-se (Catarina Martins teve, aliás, um episódio tão infeliz como caricato, para estreante dirigente).

A rua, diria, descredibiliza o sistema eleitoral que não lhe permite escolhas directas, senão presentes envenenados pelas mediações partidárias. A rua, em síntese, está cansada de partidos e de políticos indigitados pelas cúpulas. E não serve apenas para medir a temperatura do ar, como também terá sido dito. Quer mesmo aquecê-lo.

Nas escolas, fora dos rituais oficiais, as conversas oficiosas não rejeitam a teoria escabrosa da bomba e da pistola e de todo o tipo de argumentum baculinum. Imagino as obscenidades que se digam por aí.

Que os políticos persistam na ilusão de que, mudando modos e cadeiras, mantêm o essencial é uma coisa. Outra é a rua ir nessa cantiga.

Porque se sente – e aí está o perigo de o monstro voltar à vida – que o aparelho político português procura reorganizar-se, nem que proponha a mascarada dos governos de salvação nacional ou de entendimentos com a oposição. No fim de contas, os políticos – é preciso que se incluam aqueles que querem agora ficar de fora, como Mário Soares –, que estão metidos nisto até ao pescoço e não conseguem sobreviver fora deste paradigma institucional sem a sensação de que o chão lhes foge, não conseguem perceber como se tornaram execráveis e dignos de ódio generalizado. E não lhes basta verem-se ao espelho, porque continuam a ver ilusões, como a da sua inevitabilidade. A rua grita-lhes, para que oiçam, que não há imagem mais deplorável do que a sua.

É preciso reconstruir a política nacional. Provavelmente, aceitar-se-á recrutar meia dúzia de políticos de todos os quadrantes (os cinco suspeitos do costume) – porque não? Mas é preciso muito mais. Gente instruída, honesta, capaz e sem pretensão de ter nos cargos um ponto de apoio (aquilo a que se chama o período pós-político). Gente capaz de dizer, como agora me ocorreu: sou comunista, mas o partido é neste momento a última coisa que me interessa.

Porque a rua (“que é isso de rua?”, podemos perguntar), que encontrou vários denominadores comuns, fartou-se da fé sem obras. Essa é a questão.

 António Jacinto Pascoal
Professor

Não há mais pachorra!

Não, não há mais pachorra!

O Estado português, obrigado por decreto a respeitar o Acordo Ortográfico, não o cumpre. Isto é, dá o exemplo da contradição.

Os jornais, felizmente contendo ainda algum espaço de liberdade, abundam em exemplos de cronistas e comentadores, residentes ou eventuais, inteligentes, cultos e autónomos, que fazem gala em fazer ostentar, como desafio, a sua expressa repulsa para com a violência, a cretinice, o absurdo linguístico que é o Acordo.

Os senhores ministros, como festeiros provincianos, ganharam o hábito de ostentar um nacional emblema de lata na lapela, provavelmente para significarem um patriotismo que de facto não sentem nem praticam. Assim é também nos anúncios oficiais patentes todos os dias nos jornais. Ostentando o símbolo do governo de Portugal, deveriam ser portadores das suas próprias regras, embora absurdas. Nada mais falso. Todos os dias, cada oficial publicação é o sinal da contradição, onde os diretores falam dos directores, onde a seleção é bem pouco selectiva, onde o erro se mistura ostensivamente com o correto (ou correcto, ou corretco, ou cocrreto, ou ccorreto?), enfim num espectáculo (ou é espetáculo, ou espetácuclo, ou é ecpestaculo?) deprimente. Sejam honestos, pelo menos uma vez, e acabem com tão pública palhaçada!

Por mim, declaro acabar hoje e aqui com a revelação da vergonha ortográfica publicada no quotidiano. Vou deixar de me preocupar com as páginas dos anúncios oficiais.

Por uma questão de pudor, por uma questão de higiene, por uma questão de patriotismo. Do autêntico, por dentro, sem ser de lata…

 Largo dos Correios

o tempora! o mores!

Infelizmente, todos por aqui sabemos das difíceis condições em que funciona o nosso Instituto Politécnico e, por tabela, todas as Escolas nele integradas. Recentes declarações do seu principal responsável (em Ensino Magazine, Setembro 2012) não deixam dúvidas sobre a discriminação negativa que sofremos, traduzida num corte orçamental muito superior à média nacional.

Impõe-se que a comunidade local e também a regional cerrem fileiras ao lado dum dos raros instrumentos de afirmação que nos restam. Não estamos muito habituados a semelhantes exercícios de cidadania, mas é chegada a altura de os praticarmos. Amanhã será tarde.

Esta crítica situação é, apenas, a confirmação dum certo desprezo que as autoridades nacionais persistem em manter quanto a Portalegre, seja qual for a notação partidária das mesmas.

Trata-se duma espécie de sina que nos persegue e não há maneira de irmos à bruxa, à bruxa certa, acrescente-se…

Acho que isto vem do princípio. Para confirmar esta convicção vou citar-me, isto é, recordar aqui um velho texto que publiquei no Fonte Nova n.º 17, era ainda o jornal bem novinho, em 23 de Fevereiro de 1989. Vão passados mais de vinte e dois anos sobre esses tempos.

O senhor primeiro-ministro de então, professor Cavaco Silva, tinha acabado de vir a Portalegre, em visita oficial. O proveito, para nós, foi o habitual: zero, vírgula zero.

Tinha-lhe escrito previamente uma carta aberta, na anterior edição do jornal, coisa que ele nunca leu, como é óbvio. Sabemos, por declarações do próprio, que o senhor nem sequer  lê jornais. A continuação -sou muito teimoso!- foi o desabafo a seguir transcrito. Lido hoje parece quase uma profecia.

Mas não sou profeta…

 NÃO MUITO GRATO

Que os meus amigos sociais-democratas -tenho-os e dos bons!- me perdoem, mas não consigo apreciar devidamente o nosso primeiro-ministro.

É certo ser minha a responsabilidade, por não entender bem o seu discurso, por não compreender claramente o alcance de algumas das suas medidas.

Escrevi-lhe há dias uma carta aberta que ele, seguramente, nunca leu nem lerá. Mas, afinal, eu cá tinha as minhas razões…

Passo a explicar-me melhor.

No “Diário de Notícias” do passado Domingo, o jornalista que acompanhou a visita primo-ministerial encimava a reportagem do acontecido aqui, na véspera, com o seguinte título: “CAVACO PROMETE SOLUÇÃO ‘NÃO MUITO CARA’ PARA ENSINO SUPERIOR EM PORTALEGRE”.

Logo a abrir o texto, o jornalista transcrevia afirmações do primeiro-ministro: “Fui educado numa escola técnica e cheguei a primeiro-ministro, embora com muito trabalho, é certo”.

Mais abaixo, encontra-se outra citação: “É tempo de o Governo encontrar uma solução que não seja muito cara para satisfazer essa velha aspiração dos Portalegrenses, objecto de muitas promessas nunca cumpridas”.

A propósito, o jornalista esclarece logo a seguir que “a futura Escola Superior de Tecnologia e Gestão ficará instalada em edifícios que estão desaproveitados e terá como suporte o laboratório e oficinas do Centro de Formação Profissional, quase concluído, que o primeiro-ministro acaba de visitar”.

Como disse atrás, trata-se de uma reportagem inserida no “Diário de Notícias”, talvez o nosso jornal de maior aceitação pública, isento e insuspeito, precisamente o mesmo que em duas edições recentíssimas divulgou uma extensa e interessante entrevista com o Prof. Cavaco Silva.

Daí que mereça todo o crédito o relato e as citações que o jornalista faz das declarações do senhor primeiro-ministro.

Perante elas, restam-me algumas sérias perplexidades e não descubro a interpretação exacta que merecem.

Por exemplo, acerca da escola que educou o declarante, que devo concluir?

  • O ensino técnico não era tão mau como o pintaram.
  • Quando os alunos são bons, qualquer escola serve.
  • Em Portugal, quem trabalha muito arrisca-se a ser primeiro-ministro.

Quanto à concretização da futura Escola Superior de Tecnologia e Gestão, qual das suposições é legítima?

  • Vale mais um pássaro na mão do que muitos a voar.
  • A cavalo dado não se olha o dente.
  • Cada um tem o que merece.

Finalmente, sobre a implantação da referida escola, que poderei depreender?

  • Quem não tem cão caça com gato.
  • Em casa de ferreiro, espeto de pau.
  • Do velho se faz novo.

Enquanto somos pequeninos, todos brincamos às escolas. Quando crescemos, estas coisas costumam levar-se mais a sério.

Embora não seja capaz de apreciar devidamente o nosso primeiro-ministro, distingo-o claramente de um outro que, no passado, também evidenciou certas formas de desprezo pela Escola-instituição, talvez porque o seu professor das primeiras letras foi o barbeiro (ou o sapateiro?) lá da terra.

O profundíssimo abismo que os separa tem obrigatoriamente que traduzir-se numa prática diferente. Uma Escola Superior não pode compadecer-se com soluções de emergência, com declarações de circunstância. Ou é mesmo a sério ou parece preferível que continue tudo como uma promessa. Pelo menos não transforma a esperança em decepção.

Ou será que, num golpe de omnisciência, o Prof. Cavaco Silva consegue perscrutar insondáveis desígnios da Providência e saber que é assim, em escolas não muito caras, que se continuarão a formar os futuros primeiros-ministros de Portugal?

Por tudo isto, o meu sentimento é confuso. Ainda não decidi muito bem como devo manifestar-me.

Talvez não muito grato. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

as redacções da ritinha – 12

hoje vim da escola muito preocupada porque a setôra esteve a ler umas metas que o governo mandou para usarmos no nosso quarto ano e então parece que é assim a gente no fim das aulas tem de saber ler pelo menos 95 palavras por minuto num texto que nos ponham em frente dos olhos ou então 125 palavras muito bem lidas com entoação se for num texto que a gente conhece e eu até já tinha ouvido falar numa coisa parecida que é a gente tem de andar a 90 quilómetros por hora numa estrada aqui perto da reboleira ou da amadora mas tem de andar a 120 quilómetros por hora se for numa autoestrada para lisboa se não é a mesma coisa não faz mal desde que não apareçam os tipos da guarda republicana para multar quem não andar com aquelas velocidades e então pensei que isto aplicado à leitura deve ser mais uma golpada do passos coelho que vai mandar algum tipo da asae cá à escola para ver se a gente lê menos palavras do que a lei manda e multar quem não cumpra a lei e também já estou a ver que qualquer dia vem estampada na capa dos livros a velocidade máxima que a gente deve usar para o ler por exemplo não é permitido ler mais de quatro páginas por dia ou dez por semana ou então a dose máxima é de duas páginas ao pequeno almoço duas ao almoço e outras duas ao jantar e não deve ser ultrapassada a dose recomendada porque provoca dores de cabeça e inchaços nos tornozelos ou então é como nos maços de cigarros com uma tira em volta onde diz que ler pode matar e sinto que já fugi um pouco do tema mas vou voltar e fico a pensar se a gente tem de treinar aquilo de ler 95 palavras por minuto já estou a ver nos intervalos da escola a gente a ir ter com o treinador da leitura e depois vamos para a pista e ele apita para começarmos com o cronómetro na mão e então apita outra vez e vai ver onde ficámos e quem não tenha chegado à meta fica sem recreio e tem de voltar logo para dentro da sala e depois se calhar também há provas com obstáculos onde a gente tem de ler enquanto atravessa a rua fora das passadeiras por exemplo ou provas de maratona da leitura onde nos entregam um livro grande como por exemplo a lista velha dos telefones e a gente vai estrada fora a ler até chegar ao fim do calhamaço ou até ser atropelada e depois fiquei a pensar se a gente chega ao fim do ano e por exemplo só conseguimos ler 90 palavras por minuto se a gente tem direito a uma prova de recuperação ou a uma segunda época ou a qualquer nova oportunidade a propósito de novas oportunidades já sei como fazer vou telefonar ao senhor ministro relvas porque deve saber como isto se faz e pode dar-me algum bom conselho porque ele deve saber ler depressa ou qualquer coisa equivalente a essa pois ao meu pai não posso pedir conselho porque ele só lê a bola e lê aquilo tão devagar que ainda lhe tiram o diploma da quarta classe dos adultos que ele ganhou num curso da noite na associação aqui do bairro e agora desculpem mas tenho que ir treinar leitura no almanaque do borda dágua o pior é que sempre que chego ao que deve ser plantado em cada mês e diz nabos batatas beldroegas nabiça e couves de bruxelas fico chateada com aquela conversa que já sei de cor e salteada e desisto assim nunca mais leio com velocidade vou passar a ler mas é os relatos da bola dos jogos do benfica que é outra conversa e outra velocidade com o luisão ou mesmo sem o luisão porque toda a gente viu que ele foi agredido pelo árbitro e ainda por cima foi castigado não está certo já não há justiça nem sequer no futebol e por isso hoje não me apetece terminar a redacção com um beijinho prefiro mandar um pontapé que tem muito mais velocidade e se bem calhar até serve para treinar a leitura

António Botto e José Régio

O Diário de Notícias, que teima sem sucesso público em ser o melhor de todos os jornais que sobrevivem em Portugal, traz sempre uma pequena nota efeméride sobre a data da edição, dedicada, precisamente, à História no DN.

No passado dia 19 de Setembro, essa nota lembrava Botto e Régio. Aí se evocava o facto de a José Régio ter chegado a página perdida de um jornal brasileiro que tratava de António Botto. A notícia aí inserida dizia que este poeta estava doente, internado numa casa de saúde. E Régio, em artigo publicado no DN a 19 de Setembro de 1957, evocou o seu amigo distante. Aí escreveria: “Não sei se é ou não, como afirma a gazeta [brasileira], ‘um dos seis maiores poetas portugueses’. O que sei é que é um poeta que a inveja, a mediocridade e a incompreensão -mesmo provisoriamente triunfantes- não podem fazer esquecido.”

Ora convém lembrar que José Régio dedicara a António Botto uma das suas obras de crítica literária, elaborada em Portalegre, precisamente o ensaio António Botto e o Amor, datado de 1938.

Esta obra não figura entre as mais conhecidas ou estudadas do autor da Toada, o que é manifestamente injusto a diversos títulos.

Eugénio Lisboa, o maior regiano actual, considera-a uma obra-prima da crítica compreensiva, onde o autor coloca com finura o problema da moral em arte.

Será oportuno lembrar que António Botto (1897-1959) foi um homossexual assumido e que a sua obra reflecte muito dessa orientação sexual. Acabou por ser demitido do seu emprego como funcionário público, sofrendo perseguições homofóbicas que o levaram a um voluntário exílio no Brasil, onde morreu, atropelado, na mais dolorosa miséria social.

Quando os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, de Lisboa, em 1966, José Régio foi um dos raros amigos e admiradores presentes na cerimónia, conjuntamente com Ferreira de Castro, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Dórdio Guimarães.

Pode compreender-se, portanto, que a atenção dedicada por Régio ao inspirado poeta António Botto significou um permanente acto público nunca isento de algum escândalo por parte de certos meios e de tertúlias intelectuais conservadoras.

Mas José Régio foi sempre um homem coerente, corajosamente comprometido com as suas convicções cívicas e culturais.

Outro motivo de interesse suplementar que podemos colher no seu ensaio sobre António Botto reside na desenvolvida abordagem aí apresentada a propósito do fado, como sina, destino, canção, mito ou símbolo.

Poeta maldito e marginalizado, o autor das polémicas Canções encontrou em José Régio um crítico esclarecido que soube valorizar o seu génio intelectual, psicológico, estético e também narcisista.

Ter lembrado estas circunstâncias foi um útil e oportuno serviço do Diário de Notícias.

António Martinó de Azevedo Coutinho