Manuel do Carmo Peixeiro – 5

V – Nasce e cresce o sonho…

 A revista Turismo, num número especial dedicado ao distrito de Portalegre, com data de Março de 1947, inclui um texto do dr. Galiano Tavares sobre temática que este bem dominava: Roteiro Turístico de Portalegre. Aqui, num pequeno capítulo sobre Portalegre industrial, o articulista escreveu: “E quanto à fábrica de Sedas e de Tapetes, que só as consequências da guerra tem prejudicado na sua exuberância e progresso, continua em actividade.” A revista ostenta nas suas páginas um pequeno espaço publicitário à empresa Sedas de Portalegre, L.da, fábrica de tecidos de seda, com especialidade em artigos para roupa, dispondo do telefone 46.

 

É neste momento que Manuel do Carmo Peixeiro decide mostrar a Guy Fino o resultado das suas experiências, traduzidas num ponto original, completamente diferente do clássico ponto francês. As amostras que revelou ao sócio do filho impressionaram-no.
Guy Fino ficou contagiado pelo velho sonho do engenheiro têxtil. Mas era um industrial experimentado e sagaz, com os pés bem assentes no terreno. Teve exacta consciência da excepcional dimensão do projecto, tal como valia a pena concretizá-lo. Só uma manufactura com projecção nacional, e talvez mesmo internacional, justificaria o elevadíssimo investimento necessário. Os contactos prévios que fez não foram muito encorajadores. Mas Guy Fino não desistiu.
Os teares da Tapetes de Portalegre Ltd.ª serviram para retomar os ensaios e a adaptação à nova técnica, por intermédio de um grupo muito seleccionado de artesãs, que foram previamente sujeitas a um formação intensiva e específica, em que se empenhou o próprio Manuel Peixeiro. Três artistas, pintores, tinham sido sensibilizados para o arranque, em força, desta arte que se desejava inovadora: Guilherme Camarinha, Renato Torres e João Tavares. Os dois últimos eram professores em Portalegre, respectivamente na Escola Industrial e no Liceu, pertencendo ambos à célebre tertúlia de José Régio e Feliciano Falcão, no Café Central. A honra do primeiro cartão a ser executado pela novel empresa coube precisamente a João Tavares, um aguarelista galardoado. Chamou-se Diana a tapeçaria inaugural, datada de 1947, constituindo desde logo uma experiência bem conseguida tanto no plano técnico como no artístico. A manufactura dispunha então de dez teares e quarenta tecedeiras.

 

A expectativa de Manuel Peixeiro quanto à eficácia do seu ponto ficou assim amplamente confirmada.
É particularmente interessante conhecer o testemunho de Guy Fino sobre o episódio culminante desta aliança, tal como ele o deixou relatado no belo volume 50 Anos de Tapeçaria em Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996:

 

Quando com Manuel Celestino Peixeiro (filho) resolvemos recuperar os tapetes ponto de nó que Manuel do Carmo Peixeiro (pai) fizera em Portalegre, eu estava no meu meio: a lã. Quando Manuel do Carmo Peixeiro nos apareceu na fábrica dos tapetes com a sua amostra de tapeçaria, velha de vinte e cinco anos, nascida em Roubaix, três pensamentos me surgiram:
       Que a tapeçaria, que eu bem conhecia de museus e palácios históricos, é a expressão mais alta, a maior homenagem que eu podia fazer à Rainha de todas as fibras naturais;
       Que fazer uma tapeçaria com uma nova técnica era um desafio aliciante, que nada tinha com a facilidade de reprodução de uma técnica existente, tradicional e milenária;
       Que era um novo material à disposição dos artistas nacionis que teriam de estudar connosco as possibilidades técnicas da nova feitura de forma a podermos produzir belas peças de arte. Sem um bom desenho feito a pensar na finalidade, não pode haver uma bela tapeçaria.
E foi assim que de alma e coração me lancei na colaboração com Manuel do Carmo Peixeiro na escolha das lãs, na fiação delas, na escolha dos respectivos títulos (grossuras), torções adequadas, corantes a aplicar na tinturaria, protecção anti-traça e tantas pequenas coisas, mas necessárias. Mas tudo isto era possível por já ser sócio da Fábrica de Lanifícios de Portalegre.
Assim nasceram os primeiros ensaios práticos, com a ajuda do pintor portalegrense João Tavares. Trabalhos de maior volume vieram depois com a colaboração de Almada, Pomar, Manuel Lapa, Maria Keil, Ventura Porfírio, Lima de Freitas. E é nesta altura que chegam as desilusões com o desinteresse de alguns pintores convidados, com as opiniões manifestadas em alta voz, entre alguns pintores, arquitectos, decoradores que fui conhecendo em várias tertúlias de Lisboa e que diziam: uma tapeçaria portuguesa para quê? Quando se quer utilizar ou falar de tapeçaria, é a francesa. Então eu disse-lhes que ia continuar e no dia em que lhes provasse que havia uma tapeçaria portuguesa a Manufactura acabava.
Não desanimei e continuei a lutar por uma tapeçaria portuguesa com o ponto hoje conhecido de Portalegre. Meu Pai também se apaixonou pela tapeçaria e tapeçaria acabada tinha de ser vista por ele. Eram os tempos em que a manufactura acumulava prejuízos. Meu Pai comentava-me que lhe custava ver-me trabalhar na fábrica e o dinheiro que ganhava o ia perder nas tapeçarias, mas que não tinha coragem de me dizer para parar porque ele também gostava. Que teria de ser eu a decidir. A minha decisão estava tomada: provar a viabilidade duma nova técnica e acabar.”

O Distrito de Portalegre de 5 de Julho de 1947 ostenta na sua capa uma interessante e oportuna reportagem:

CINCO MINUTOS DE CONVERSA…

PORTALEGRE INDUSTRIAL

A antiga Fábrica de tapetes entrou em nova fase de desenvolvimento e expansão.

 Data de 1922 e deve-se à iniciativa do conceituado industrial, Sr. Manuel do Carmo Peixeiro, o estabelecimento, nesta cidade, da indústria de tapetes. Passou por várias fases, até que em Setembro de 1946 um grupo de novos cheios de iniciativa e de vontade decidiu dar autonomia e novo incremento àquela indústria, desconjuntando-a da Fábrica das Sedas onde funcionava. São seus sócios os Srs. Guy, Manuel e Francisco Roseta Fino e o Sr. Manuel Celestino Peixeiro que é o gerente da fábrica.
Esta está presentemente instalada na chamada Fábrica Real, antigo Colégio dos Jesuítas e hoje pertença do Sr. Nunes Sequeira.
Lá estivemos, na missão jornalística que nos impusemos, de engrandecer e exaltar o nome desta nossa querida cidade. Recebeu-nos o Sr. Manuel Peixeiro que amavelmente nos atendeu.
– Quais os motivos que o lançaram nesta empresa?
– Além dos mais, acho que uma indústria com nome feito, e há tanto tempo lançada, merece todo o desenvolvimento.

 

– Tem assegurado o funcionamento da fábrica?
– Para início, não falta freguesia, e falhas, se as há, ocupamo-las na confecção de artísticos tapetes para exposições que temos em vista. Pensamos em expor, em Setembro, na Covilhã, seguindo-se depois Viseu, etc. Temos conversações entaboladas com algumas casas estrangeiras, nomeadamente no Brasil e Suiça.
– Quantas operárias ocupa a indústria?
– Para 10 teares, temos cerca de 40 operárias.
– Encontra algumas dificuldades?
– Além das dificuldades inerentes a estes trabalhos, como a morosidade na confecção dos tapetes e do escasso movimento no mercado, pressentimos obstáculos no plano nacional, pela facilidade com que as autoridades competentes autorizam as fábricas de tapetes. Mas esperamos vencer todas as adversidades e conquistar lugar condigno no mercado.
– Tem algumas vantagens sobre os demais concorrentes?
– Tenho. A lã é-nos fornecida pela Fábrica de Lanifícios, o que nos permite fazer uma cuidada e perfeita selecção de qualidade. Conseguimos, pelo mesmo motivo, cores mais sólidas e mais homogeneidade na preparação. São vantagens que o mercado não oferece. Podemos portanto garantir a qualidade dos nossos tapetes.
– Alimenta algumas aspirações?
– A única aspiração que nos domina é o aperfeiçoamento dos nossos serviços e a melhoria das suas instalações. Se tudo
nos correr bem, esperamos mais tarde construir um edifício próprio.
Por deferência do Sr. Peixeiro foi-nos mostrado o ‘stok’ de tapetes destinados a exposições, todos belos na cor, no desenho e na qualidade da lã.
Para serem expostos vai ser adaptado um compartimento contíguo à sala onde se confeccionam os tapetes.
Estava terminada a entrevista que mais nos convenceu do valor industrial de Portalegre.”

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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