Manuel do Carmo Peixeiro – 6

VI – A descoberta

Com data de 24 de Janeiro de 1949, em Lisboa, numa longa e pormenorizada descrição técnica, é solicitado ao Serviço de Invenções o registo da patente do processo de fabricação de tapeçarias murais decorativas. Tal é concedido a Manuel do Carmo Peixeiro, sob o n.º 27/16. O preâmbulo é bastante esclarecedor sobre o grau de inovação atingido. Daí se transcreve, parcialmente:
Na tapeçaria mural decorativa, procura-se obter um tecido em que uma das faces apresente uma superfície lisa constituída pela trama empregada e, dando a esta colorido variado, obter desenhos e efeitos decorativos. Em todos os tecidos até hoje conhecidos, incluindo os de gaze e com excepção de alguns aveludados, desde os mais simples aos mais complexos, os fios da trama e da teia evolucionam entre si por meio de cruzamento ou encadeamento. Do mesmo modo, todas as tapeçarias murais decorativas até hoje fabricadas não têm saído dessa regra e geralmente são em ponto de tafetá. Segundo a presente invenção, obtém-se um tecido semelhante ao ‘cannelé’, com um carácter absolutamente original, graças ao emprego de duas tramas, sendo uma que se designará ‘de ligação’, em ponto de tafetá, e outra que se designará ‘decorativa’, cujos fios contornam e envolvem os fios da teia, em vez de se cruzarem com eles.
Os sublinhados pertencem ao próprio requerimento original e definem a profunda diferença em relação aos processos tradicionais, que o texto depois pormenorizadamente descreve, através de minuciosas figuras alusivas. As reivindicações finais, igualmente exaustivas, completam o processo pelo qual Manuel Peixeiro obteve o reconhecimento oficial da sua invenção.

 

A crónica seguinte é uma história convergente entre o sonho e a realidade. As tapeçarias portalegrenses começaram a ganhar estatuto de qualidade e de individualidade própria. A sua divulgação pública, embora ainda não em exclusivo, aconteceu em Maio e Junho de 1949, com uma exposição realizada na Sociedade Nacional de Belas-Artes, onde figuraram três peças criadas em Portalegre.
Neste contexto, não deixa de ser curioso que num alargado artigo de nove páginas, da autoria do jornalista local Casimiro Mourato, inserido na revista Portugal Turístico – Cidades e Vila do Império n.º 3, volume 1.º, dedicada a Portalegre, em Setembro de 1948, apenas exista uma insignificante referência à nascente manufactura. Descrevendo a indústria local, o articulista escreveu:
A indústria portalegrense é notável: rolhas e cortiça comprimida, e lanifícios (duas velhas e acreditadas indústrias locais), tapetes e tapeçarias, sedas, refrigerantes, mosaicos, canastras e cestas, cantaria, cimento armado, pimentão, moagem, reparação de automóveis, carpintaria e marcenaria, malas, serralharia, azeite, tijolos, sapataria, alfaiataria, modista, torrefacção de café, etc. Existem também duas indústrias de grande fama e sabor retintamente regional: a dos doces, sobretudo de amêndoa, recordação adorável das freiras dos conventos da cidade, e a de salsicharia.”
Com efeito, seria difícil prognosticar, naqueles tempos, a excepcional dimensão que a recente empresa iria atingir…

 

Em compensação, José Régio, amigo de todos os principais intervenientes no processo, publicou em 20 de Agosto de 1952 um primeiro artigo alusivo à nossa tapeçaria. Foi no jornal O Primeiro de Janeiro, do Porto, que ele escreveu:
Muito me regozijo eu em verificar o interesse que a Tapeçaria portuguesa está despertando. Até particularmente me regozijo com o ter nascido em Portalegre, cidade a que já me sinto ligado por muitos anos de convivência. (…) Aqui virá, pois, a lume o nome de Manuel do Carmo Peixeiro, – nome que também convém apareça nos jornais e outras publicações, pois é o do criador da Tapeçaria portalegrense; isto é: da Tapeçaria nacional. Foi Manuel do Carmo Peixeiro quem teve a ideia, e longa e persistentemente sonhou o primeiro sonho, de criar uma tapeçaria nacional. Ele quem, neste intuito, empreendeu e levou avante os primeiros estudos que já vêm de longe. Ele quem inventou e registou o ponto em que são executadas as tapeçarias de Portalegre, e que já estrangeiros reconheceram como originalmente português. Ele quem recorreu a João Tavares, artista já conhecido por distinto como aguarelista, para a execução dos primeiros cartões. Ele quem escolheu lãs, estudou tinturas, adestrou as primeiras operárias suas colaboradoras, venceu as primeiras e não pequenas dificuldades dum empreendimento de tal novidade, procedeu, em suma, a todos aqueles trabalhos técnicos sem os quais nenhuma indústria artística existe ou vinga. Ele quem, depois de João Tavares, convidou para lhe executarem cartões Martins Barata, Manuel Lapa, Ventura Porfírio, Jorge Barradas, Almada Negreiros, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Maria Keil, Júlio Santos, Rebocho, – e Guilherme Camarinha.

 

Sem o espírito inventivo e empreendedor de Manuel do Carmo Peixeiro, sem o seu entusiasmo, a sua actividade, a sua persistência, os seus conhecimentos especializados, ainda hoje não haveria Tapeçaria portuguesa. Fui eu próprio testemunha desse calor, dessa persistência, dessa actividade. Cumpre, também, salientar que João Tavares foi não só o executor dos seus primeiros cartões, como um amigo que o animou e acompanhou nesses primeiros e mais difíceis passos. Cumpre, ainda, lembrar que à família Fino – industriais de iniciativa e gosto – deve a tapeçaria portalegrense quer as suas possibilidades financeiras de existência, quer a expansão que parece ir tomando, e que exige uma bem orientada publicidade. Posto o que, só fico pensando que também às anónimas executantes das tapeçarias de Portalegre, humildes operárias trabalhando, por vezes, em penosas condições, e esmerando-se num ramo em que tudo lhes era novo, se deve, ao menos, esta citação colectiva e grata. Como reconhecer tais coisas é da mais elementar justiça, aqui fica esta breve nota para quando um dia se fizer a história da tapeçaria portuguesa.”

 

O mesmo Régio, em artigo publicado no Diário de Notícias de 31 de Janeiro de 1957, regista mais um passo decisivo na implantação internacional das nossas tapeçarias. Em Uma Tapeçaria Portuguesa numa exposição de Paris, escreveu:
 “A ‘tapeçaria de Portalegre’, imaginada por Manuel do Carmo Peixeiro, encontrou nos industriais da família Fino – particularmente em Guy Roseta Fino – os capitalistas, realizadores e propagandistas, sem os quais teria morrido à nascença; ou estaria condenada a esperar longamente. À diplomacia, actividade e persistência de Guy Fino deve a tapeçaria de Portalegre o incremento que vem tomando, assim como o interesse e protecção que lhe têm dispensado as entidades superiores, por intermédio de repetidas encomendas. Vários já dos nossos melhores artistas executaram cartões para tapeçarias saídas, ou a sair, de Portalegre. Entre tais citaremos Guilherme Camarinha, João Tavares, Júlio Pomar, Manuel Lapa, Renato Torres, António Lino, Botelho, etc.”

 

É interessante registar, a propósito, o conteúdo-tipo da divulgação publicitária que a Manufactura costuma exibir nas páginas de jornais e revistas: Manufactura de Tapeçarias de Portalegre – Tapetes e Carpetes de Lã – Tapeçaria Mural Decorativa executada sob Cartões dos Pintores Contemporâneos com Ponto Original Português – Edifício da Fábrica Real, telefone 414, Parque da Corredoura, Portalegre.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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