Manuel do Carmo Peixeiro – 7

VII – O cronista Régio

O Distrito de Portalegre do dia 19 de Abril de 1958 revela um interessante e oportuno texto da autoria de João Tavares, onde o artista portalegrense relata a visita de Jean Lurçat, o mestre renovador da tapeçaria francesa, a Portalegre. e, com natural orgulho, cita a opinião do mestre sobre a excepcional qualidade aqui por ele encontrada. E, a certa altura, escreveu:
É portanto de toda a justiça endereçar parabéns a todos que, dentro do bom caminho, têm colaborado em tão bela obra, e muito em especial quer ao Sr. Manuel do Carmo Peixeiro, inventor do ponto usado nas tapeçarias de Portalegre e criador, nesta cidade, desta belíssima indústria artística, quer ao actual dirigente Sr. Guy Roseta Fino.”
João Falcato, borbense radicado em Elvas, professor, jornalista e escritor com projecção nacional, dedicou atenção à nossa tapeçaria em dois excelentes artigos (Um claro Sol se levanta… e Antes tarde do que nunca… ) que fez publicar em O Distrito de Portalegre, em Julho e Agosto de 1959, louvando a oportuna iniciativa do presidente da Câmara Municipal de então, eng. Fraga do Amaral, ao valorizar o edifício municipal com uma bela e adequada tapaçaria alusiva a um episódio histórico local. Em prosa de alta qualidade literária, o autor saúda João Tavares, Guy Fino e Manuel Peixeiro, numa clara consciência da importãncia destes homens na construção duma obra.
Lamenta-se que o abandono e a inerente degradação do histórico edifício filipino tenham roubado significado a esta magnífica tapeçaria, indissoluvelmente ligada ao sítio, à data e ao acontecimento, contexto que a mudança da peça desvirtuou, a diversos níveis de apreciação. A sua actual implantação, no novo edifício municipal (por coincidência o local onde “nasceu”), não permite o suficiente distanciamento do observador que permita uma sua merecida apreciação global.

 

Não se destina este texto a evocar a história fascinante da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre (assim se passou a designar a empresa a partir de 1962), porque essa está feita por quem muito melhor do que eu a poderia escrever. O meu objectivo é apenas o de recuperar, de um certo e injusto esquecimento, o nome e a obra de Manuel do Carmo Peixeiro.
Continuamos, por isso, a seguir Régio, que se tornou o superior cronista da gesta tapeceira local, que aliás conhecia como poucos. Na revista Eva (Natal de 1959), ele escreveu:
Nunca Manuel Peixeiro se desinteressou da sua invenção, que possibilitou à tapeçaria portuguesa uma incontestável originalidade técnica; antes continua a sonhar aperfeiçoá-la em pormenores de modo nenhum desprezíveis.”
E, mais adiante, acrescenta:
Para quem assistiu às primeiras experiências de Manuel Peixeiro, sobre minúsculas tapeçarias, do ponto de sua invenção; para quem acompanhou João Tavares na realização, naturalmente ainda hesitante, dos primeiros cartões; para quem viu Guy Fino ensaiar os primeiros esforços de colocação das primeiras produções duma indústria-e-arte que tanto viria a exigir da sua actividade – a actual tapeçaria de Portalegre quase parece um milagre. Quero dizer: a extraordinária concretização dum daqueles sonhos e, todavia, secretamente sonhamos que um dia se realizem.”
São estes, com efeito, os três pilares fundamentais da Tapeçaria de Portalegre.

 

Ainda no mesmo artigo, Régio explica que não foi apenas a tradição que fez nascer, precisamente aqui, este pequeno “milagre”, mas “três homens: um técnico de espírito criador, um artista capaz de o entender, um industrial de gosto e iniciativa nada vulgares.”
Manuel Peixeiro, João Tavares e Guy Fino são a alma e o corpo da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre. Não poderá nunca fazer-se uma evocação autêntica e integral desta aventura sem par esquecendo ou minimizando qualquer destes vultos.
O Padre José Patrão, no notável artigo que já referimos, deixa um testemunho final incontornável acerca da importância do primeiro:
Hoje, falar das Tapeçarias de Portalegre é falar de Manuel do Carmo Peixeiro, da sua história interior, pessoal, artística… associada a coincidências humanas. Não existe nada isolado.
A série de coincidências, natural caminho das grandes empresas, tem no seu início este Homem, vindo de longe, como outros Homens que o acompanharam na sua aventura, com a ambição de criar e servir em explosões de alegria e arte.
Coincidências realizaram o “milagre” de transformar o pequeno grão numa esplendorosa árvore, cujos frutos estão, hoje, espalhados por todo o mundo.
Não foi intuito meu, repito, escrever sobre a história das Tapeçarias. A Manuel do Carmo Peixeiro, ilustre portalegrense adoptivo, espírito criador e artista, à sua memória, prestígio e valor se deixam estas linhas (fios) tecidas à volta da teia dos seus dias, dados à aventura, beleza e generosidade sacrificada, a quem amou a Vida e o que ela tem de mais belo.”
Manuel Peixeiro, para além da sua casa em Portalegre, manteve uma outra em Oeiras, onde residia por longos períodos. Tinha uma elevada estima pelas suas casas que revelavam o seu espírito criativo.

 

A partir de 1957, as suas estadias em Oeiras intensificaram-se, aqui vivendo quase ininterruptamente durante sete anos, primeiro na vivenda n.º 1 da Vila Carlos Costa, em Santo Amaro de Oeiras, e depois na Rua da Bela Vista, n.º 5, em moradia que mandara edificar a seu gosto. Aqui se encontrava ainda, há alguns anos, o tear manual, que em Portalegre e em Marvão fora seu inseparável companheiro de ensaios, sonhos e projectos.
Maria de Lourdes, a sua dedicada esposa, ali morreu, em 24 de Maio de 1962. Manuel Peixeiro, a quem o coração já vinha atraiçoando, sofreu assim mais um rude golpe.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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