Manuel do Carmo Peixeiro – 8

VIII – Um auto-retrato (quase póstumo)

Tem o valor de uma antologia, pela sua raridade e também pela qualidade, um texto da autoria de Manuel Peixeiro, certamente ainda abalado, que redigiu por insistência da Revista Turismo – Arte, Paisagem e Costumes de Portugal. Reconhecida pela sua qualidade, esta publicação divulgou, no seu n.º 5 (4.ª série), ano XXVII, de 1963, um artigo intitulado “Mestre” Peixeiro fala das Tapeçarias de Portalegre. A revista antecede o texto original dum breve e significativo preâmbulo onde se pode ler: “Ao incluir nas suas páginas uma valiosa ‘crónica’ de Manuel do Carmo Peixeiro, considerado que é o Pai da Tapeçaria Portuguesa, Revista Turismo sente-se verdadeiramente lisongeada e agradecida porquanto ela corresponde a um pedido nosso. A notável e original criação que Manuel do Carmo Peixeiro introduziu em Portugal, da chamada Tapeçaria de Portalegre e que só depois de vários anos de persistente estudo conseguiu concretizar, tornou-se já tão valiosa que injusto seria referir essa já próspera indústria sem a ela ligar o nome do seu criador. Desde que frequentou a Escola Têxtil de Roubaix e lhe nasceu a ideia duma Tapeçaria Portuguesa de características próprias, toda a sua vida a tem dedicado a este grande empreendimento.”

 

Eis o texto, integral, deste autêntico “testamento espiritual” de Manuel do Carmo Peixeiro:
A revista Turismo pede-me algumas palavras sobre as tapeçarias de Portalegre. Tendo sido eu o criador do seu ponto, declinei o amável convite por julgar não dever eu próprio vir aqui falar de tal assunto.
Mas, insistindo comigo, aqui estou a fazer um resumo da sua história. Quando, há muitos anos, frequentei a Escola Têxtil de Roubaix, manifestei sempre predilecção por tecidos de arte. Daí nasceu a ideia de, um dia, tentar criar um tipo original de tapeçaria que, além do grande efeito decorativo das tapeçarias flamengas, da Idade Média, tivesse vantagens de ordem técnica que suprissem os defeitos que, a meu ver, tiravam certo valor àquelas.
Assim, de estudo em estudo, de experiência em experiência, ao fim de dezenas de pequenas amostras de ensaio por mim executadas num rudimentar tear vertical, decidi-me pela que mais vantagens apresentava para o meu ponto de vista. Consegui, assim, uma tapeçaria originalíssima, sem a mais pequena semelhança com qualquer outra.

 

Ponto verdadeiramente másculo, de solidez absoluta e tão grande, que já tem havido quem mande executar tapetes de diversas dimensões, precisamente no ponto das tapeçarias, e que colocados no chão resistem ao uso com autênticos tapetes de Smyrna. Ideia com a qual discordo em absoluto, pois não foi criada com tal fim, mas a sua forte, compacta, resistente contextura permite que se pratiquem tais heresias!
Além das qualidades a que me referi, tem uma outra e esta foi o objectivo primordial quando resolvi proceder aos ensaios de pontos diversos, quero referir-me ao seu efeito decorativo, que, releve-se-me a afirmação, suplanta a das valiosas e decorativas tapeçarias flamengas da Idade Média. E tal efeito torna-se muito mais flagrante se atendermos à importância que tem a incidência da luz sobre a superfície da tapeçaria em direcção oblíqua, não importando que seja da esquerda para a direita, ou em sentido inverso. A iluminação, natural ou artificial de uma tapeçaria, é de grande importância e responsabilidade, pois não se atendendo à mesma não se consegue obter todo o belo e atraente efeito que se pretende. Deve procurar-se que ela renda o máximo efeito decorativo, que faça realçar todos os seus predicados que nos arrebatam e nos encantam e nos prendem, dia a dia, cada vez mais. Uma tapeçaria de arte é, para quem seja dado a coisas do espírito, um objecto de tal maneira atraente que, com tempo, chega mesmo a tornar-se apaixonante. Oh! os que viveram na Idade Média não gozaram os benefícios da bomba atómica, nem os requintes da nossa actual civilização, mas gozaram a vida com deleites espirituais que hoje as velocidades supersónicas e coisas quejandas nos vedam.
Tinham uma vida que não ultrapassava a média de quarenta anos? Não importa. A imutável lei das compensações favorecia-os por outro lado, e largamente.
Assim, voltando a falar da colocação e iluminação, a tapeçaria tem o direito a impor-se à arquitectura da sala que vai construir-se ou ao arranjo a fazer na sala já existente. Outros requisitos de certa importância há ainda que atender. De contrário, a arte sofre grande atropelo.

 

Depois de feitas estas considerações, com o único fim de aclarar certos pontos de vista, ainda bastante confusos, devo dizer que devido à falta de saúde e à minha vida muito ocupada na fábrica de sedas de Portalegre, só alguns anos depois de muitos ensaios feitos, executei as primeiras tapeçarias de Portalegre. Depois os industriais Finos, proprietários da fábrica de lanifícios, fizeram comigo um acordo para a exploração, em maior escala, das tapeçarias. Trata-se de três irmãos desempoeirados e de grande actividade industrial, sendo Guy Fino, o mais velho, o que verdadeiramente tem sido a alma da expansão e prestígio da nova Manufactura de Arte, pondo mesmo da parte proventos materiais em favor da parte espiritual que dimana do lidar com tão artística fabricação.
Os artistas também têm contribuído muito para o seu elevado nível artístico e por consequência para a sua expansão no país e estrangeiro.
O artista que ajudou a tapeçaria nos seus primeiros passos foi o pintor doutor João Tavares, professor do Liceu desta cidade, que me desenhou os primeiros cartões e, depois, tem continuado, podendo calcular-se os seus trabalhos para a Manufactura em algumas dezenas, acompanhando sempre de perto todas as actividades como consultor artístico. A capa desta revista reproduz um pormenor destes seus belos trabalhos. Depois vem uma plêiade de muitos outros como o grande e pessoalíssimo pintor-decorador Guilherme Camarinha, Renato Torres, de grande sensibilidade, Júlio Pomar, actualmente recebendo uma verdadeira consagração com os trabalhos que expõe na galeria de Arte do ‘Diário de Notícias’, Ventura Porfírio, Almada Negreiros, originalíssimo em toda a sua arte, sua esposa D. Sara Afonso, António Lino, Lino António, Jorge Barradas, Manuel Lapa, Tom, arquitectos Calvet da Costa e Pedro Leitão, Marcelo de Morais, Kradofer, Milly Possoz, Jenny, Rogério Ribeiro, Vieira da Silva, François Lauvin, Martins Barata, Lima de Freitas, Maria Keil, Carlos Botelho, Lars Gynning e muitos outros mais que me não ocorrem neste momento.
Aproveito este ensejo para agradecer a todos os críticos de Arte, escritores e jornalistas, as encomiásticas palavras com que se têm referido às tapeçarias de Portalegre, e de um modo muito especial ao poeta doutor José Régio que, sempre que se lhe proporciona a ocasião diz o ‘pior possível’ das tapeçarias. Velho amigo, e aqui vivendo, ele assistiu à execução dos estudos e trabalhos que fiz até chegar ao fim. Igualmente muito me encorajou a doutora D. Maria José Mendonça, então conservadora do Museu das Janelas Verdes e actualmente directora do Museu dos Coches.
Uma referência também a Jean Lurçat, grande pintor e cartonista francês que conseguiu dar novamente vida à quase extinta manufactura francesa de tapeçarias, o qual, interessando-se pelas de Portalegre, veio a Portugal e a esta cidade já várias vezes para resolver problemas de fornecimentos para outros países, expansão até hoje muito prejudicada pelos direitos de importação quase proibitivos, em vigor nesses países. Não fosse tal espécie de proibição, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre seria hoje, mundialmente, das mais importantes manufacturas de Arte, podendo mesmo afirmar-se, sem receio, ser já no nosso país a primeira dentro do campo artístico.
O Estado muito tem contribuído também para o desenvolvimento desta manufactura, adquirindo tapeçarias para muitos palácios de justiça, Cidade Universitária de Lisboa, várias faculdades de Coimbra, ministérios, pousadas, hotéis, ofertas a figuras da alta política internacional, etc., etc.
Enfim, poderia alongar-me em muitas outras considerações se a revista Turismo fosse especialmente de índole técnica.

MANUEL DO CARMO PEIXEIRO

  

Manuel Peixeiro, já debilitado pela doença ao escrever este magnífico depoimento pessoal, não sobreviveria por muito tempo à perda da esposa, pois faleceu na nossa cidade, onde entretanto regressara, no dia 1 de Outubro de 1964.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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