Manuel do Carmo Peixeiro – 10

X – O exemplo de Oeiras

Pelo final de Março e princípio de Abril de 1969, A Capital, vespertino nacional já desaparecido, publicou nas suas páginas uma reportagem em três partes intitulada Vinte e Dois Anos da Tapeçaria em Portugal. Subscreveu o trabalho o jornalista Helder Pinho, tendo como base uma interessante perspectiva histórica sobre a tapeçaria em geral e, sobretudo, as declarações de Guy Fino. Daí se transcreve um trecho da primeira parte da reportagem:
Manuel do Carmo Peixeiro – o Pai da Tapeçaria Portuguesa. Mas qual a diferença entre o ponto francês e o português? Qual a notável e original criação introduzida na tapeçaria por Manuel do Carmo Peixeiro, reconhecidamente considerado como Pai da Tapeçaria Portuguesa? É ainda Guy Fino que nos responde: – Tinham passado cinco anos desde o nascimento da primeira tapeçaria tecida em Portalegre sobre cartão do pintor João Tavares e poder-se-ia dizer então que ela tinha acabado de dar os primeiros passos com firmeza. Havia um grande caminho percorrido desde que em 1947 Manuel do Carmo Peixeiro nos entregara um pequeno quadrado de tapeçaria, no qual se condensava toda a sua técnica. Havia que transpor a teoria para a prática, e houve terríveis obstáculos a vencer. Eis como nos é exposta a verdadeira diferença: – Na verdade, se houvéssemos querido seguir a técnica tradicional de tecelagem de tapeçaria – cruzamento simples da teia com a trama decorativa, com cosimento posterior das zonas de cor justapostas no sentido da teia – não teríamos que vencer as dificuldades que encontrámos, pois elas já tinham sido vencidas por outrem. Mas queríamos uma tapeçaria inteiramente portuguesa – envolvimento da teia pela trama decorativa, com a inclusão de uma trama de ligação a evitar o cosimento das zonas de cor justapostas no sentido da teia – e isso custou-nos muito trabalho, muito tempo, mesmo muitas desilusões. Com duas palavras animadoras, um dos mestres de lanifícios em Portalegre finaliza assim o seu depoimento: – A nova técnica existia e com ela conseguia-se obter os mesmos efeitos, a mesma interpretação fiel dos cartões dos artistas, como se da técnica tradicional se tratasse. O aspecto final da superfície decorativa, a face da tapeçaria, era tão semelhante que os próprios conhecedores se enganavam. E na verdade, o trabalho da Manufactura do Alto Alentejo impusera-se definitivamente.”

 

Mais tarde, em 11 de Dezembro de 1972, um executivo autárquico portalegrense deliberou atribuir o nome de Manuel Peixeiro a uma rua da cidade, sita no Bairro do Atalaião. Foi assim prestada alguma justiça pública para com o seu nome, na companhia de outras duas personalidades de relevo no sector industrial portalegrense.
A Acta n.º 49, relativa à reunião ordinária do executivo municipal, refere a presença do presidente, Manuel de Jesus Silva Mendes, do vice-presidente Óscar Gonçalves Boavida Malcata, e dos vereadores Wladimiro Spohr, Manuel Inácio Pestana, Margarida de Jesus Serras Fraga do Amaral, Mariano Firmino Costa Pinto e Francisco Próspero dos Santos.
Na rubrica “Designação dos novos arruamentos da Cidade” pode ler-se: “Pelo vereador senhor professor Manuel Inácio Pestana foi apresentada a seguinte proposta: ‘Tendo em consideração os serviços prestados ao progresso da cidade e parecendo justo lembrar a Portalegre, no presente e no futuro, os seus nomes ilustres, proponho que, na nomenclatura toponímica dos novos bairros da cidade, sejam considerados os nomes dos industriais Francisco Fino, Pai; Manuel Peixeiro e Pedro Vicente.’ A Câmara tomou conhecimento e deliberou, por unanimidade, dar a sua concordância à proposta acima transcrita.”

No dia 14 de Dezembro de 1993, a Escola Secundária Sebastião e Silva, de Oeiras, iniciou as comemorações do 1.º Centenário do Nascimento de Manuel do Carmo Peixeiro. Estas integraram a elaboração dum painel alusivo à data, incluindo fotografias do homenageado, das diversas residências em que habitou, dados biográficos e pequenas amostras das tapeçarias executadas. No texto então elaborado pelo director da escola, J. Santos Pereira, pode encontrar-se a justificação desta jornada de evocação e homenagem:
Porquê esta Comemoração na Vila de Oeiras? Porque Manuel do Carmo Peixeiro viveu aqui os últimos anos da sua vida; porque, embora tenha morrido em Portalegre, os seus restos mortais foram trasladados para o Cemitério de Oeiras, onde mandara construir um jazigo de família. Se Portalegre o acolheu em sua pujança criadora, Oeiras recebeu-o na sua fase derradeira. Assim, porque por aqui passou, deixou amigos, e aqui jaz, recordar a sua memória poderá servir de estímulo a futuros criadores e inventores de que se tornou exemplo. Manuel do Carmo Peixeiro foi quem sonhou e deu todos os passos na criação da nova Tapeçaria de Portalegre, podendo dizer-se que, sem o seu talento técnico e artístico, não teria existido. (…) O desenvolvimento posterior das Tapeçarias de Portalegre continuou, pois, a fazer-se sob a orientação da Família Finos, mas, em particular, graças à iniciativa, tenacidade e gosto de um indutrial nada vulgar que é Guy Fino. Às comemorações deste Centenário convém, ainda, associar todos os cartoonistas, assim como as humildes executoras das Tapeçarias, a quem se exigiram aptidões que não possuiam mas que, com muita paciência e empenho, foram adquirindo: ‘corrigindo, apurando, comunicando umas para as outras a experiência adquirida’ (José Régio – Eva do Natal, 1959). Ora, como no começo ninguém sabia nada de nada, foi Manuel do Carmo Peixeiro que, após uma paciente e longa exercitação, as adestrou nesta delicada tarefa, ensinando-lhes a nova técnica por ele inventada e pacientemente experimentada num pequeno tear manual que se encontra guardado na sua casa de Oeiras.”
Palavras simples, justas e sábias, que “explicam” uma sensibilidade que apenas se torna surpreendente porque aconteceu em Oeiras e não em Portalegre.

 

Prolongaram-se com diversas realizações locais estas comemorações que culminaram a 14 de Março de 1994, três meses depois da sua abertura, com uma conferência proferida pelo dr. Manuel Guimarães, no Complexo Social das Forças Armadas (hoje Centro de Apoio Social), em Oeiras, subordinada ao tema As Tapeçarias de Portalegre – Manuel do Carmo Peixeiro: uma Nova Tapeçaria no Mundo. O Correio da Manhã dessa data noticiou o acontecimento, acompanhada duma magnífica fotografia do homenageado, com uma significativa legenda: Manuel do Carmo Peixeiro, são dele as Tapeçarias de Portalegre.
Mas, ainda em Oeiras, o respeito pela memória de Manuel do Carmo Peixeiro não ficou por aqui. Durante a segunda metade do ano de 1995, desenvolve-se no seio da autarquia oeirense um processo destinado a fixar publicamente o seu nome na toponímia local.
Nos documentos preliminares surge uma foto do homenageado sobre a qual é manuscrita uma nota, do seguinte teor: “À Secção de Toponímia, penso que será de considerar a atribuição de um topónimo, atendendo à sua vinculação ao Concelho. Contacto para mais informações: Dr. Santos Pereira.” Pelo Departamento de Planeamento e Gestão Urbanística foi elaborada uma proposta, assentando na sumária biografia de Manuel Peixeiro, onde é destacado como “Criador das Tapeçarias de Portalegre.”

 

A fase imediata sintetiza-se num ofício da Junta de Freguesia de Oeiras e S. Julião da Barra dirigido ao presidente da Câmara Municipal de Oeiras, onde se atesta que numa sua reunião de 23 de Setembro de 1995, “a Junta concedeu por unanimidade parecer favorável à designação toponímica Largo Manuel do Carmo Peixeiro ao espaço compreendido entre as Ruas Manuel Couto Viana e Artur Lobo de Ávila.
O vereador do Pelouro, José David Gomes Justino, apresentou a proposta no dia 25 de Outubro. Precisamente um mês depois, em reunião ordinária do executivo municipal de Oeiras, foi aprovada a atribuição do nome de Manuel do Carmo Peixeiro ao largo atrás descrito.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1 thought on “Manuel do Carmo Peixeiro – 10

  1. Caro António Azevedo Coutinho,

    Acabei de ver os seus posts sobre Manuel do Carmo Peixeiro, meu avô materno, e fiquei não só comovida, mas impressionada por alguém sem qualquer ligação á nossa família ter feito mais pela memória do meu avô nós todos juntos (e somos bastantes), até hoje, conseguiu.

    E acredite que ao longo dos anos temos feito várias tentativas para repor a verdade sobre a história da Tapeçaria de Portalegre (movidos pelo sentido de justiça mais básico que é o respeito pelos Direitos de Autor, e não por dinheiro, como a família Fino parece querer insinuar). A maioria dessas tentativas foi mal sucedida, pelo simples facto de embater no “estranho” poder que a família Fino tem em Portalegre…

    Uma das últimas, uma carta aberta que escrevi em Outubro de 2010, em representação da família Peixeiro, ao anterior presidente da Câmara, Dr. Mata Cáceres, não lhe mereceu sequer o trabalho de acusar a recepção. E valeu-me uma ameaça de tribunal vinda da Dr.Vera Fino…

    Neste momento, porém, em que as Tapeçarias de Portalegre são candidatas a património cultural da Unesco, estamos todos nós, descendentes de Manuel do Carmo Peixeiro, decididos a não deixar que a história seja, uma vez mais, mal contada.

    Queria pederi-lhe, por isso, se me autoriza a utilizar o conteúdo dos seus posts e, mais ainda, se se disporia a falar pessoalmente com alguém da família Peixeiro, pois eu, a minha irmã mais velha, Isabel Peixeiro e Homem, e alguns primos, estamos a pensar elaborar um dossier para fazer chegar ao presidente da Região de Turismo, Dr. Ceia da Silva, com a versão da História da Tapeçaria que conhecemos e que acreditamos ser a verdadeira. Porque se eu, que nasci meses antes do meu avô morrer, às vezes já me questiono se é mesmo verdade ou não, que pensarão as pessoas que só ouviram a versão da família Fino!

    Cumprimentos,

    Ana Paula Lopes Peixeiro e Homem

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s