António Botto e José Régio

O Diário de Notícias, que teima sem sucesso público em ser o melhor de todos os jornais que sobrevivem em Portugal, traz sempre uma pequena nota efeméride sobre a data da edição, dedicada, precisamente, à História no DN.

No passado dia 19 de Setembro, essa nota lembrava Botto e Régio. Aí se evocava o facto de a José Régio ter chegado a página perdida de um jornal brasileiro que tratava de António Botto. A notícia aí inserida dizia que este poeta estava doente, internado numa casa de saúde. E Régio, em artigo publicado no DN a 19 de Setembro de 1957, evocou o seu amigo distante. Aí escreveria: “Não sei se é ou não, como afirma a gazeta [brasileira], ‘um dos seis maiores poetas portugueses’. O que sei é que é um poeta que a inveja, a mediocridade e a incompreensão -mesmo provisoriamente triunfantes- não podem fazer esquecido.”

Ora convém lembrar que José Régio dedicara a António Botto uma das suas obras de crítica literária, elaborada em Portalegre, precisamente o ensaio António Botto e o Amor, datado de 1938.

Esta obra não figura entre as mais conhecidas ou estudadas do autor da Toada, o que é manifestamente injusto a diversos títulos.

Eugénio Lisboa, o maior regiano actual, considera-a uma obra-prima da crítica compreensiva, onde o autor coloca com finura o problema da moral em arte.

Será oportuno lembrar que António Botto (1897-1959) foi um homossexual assumido e que a sua obra reflecte muito dessa orientação sexual. Acabou por ser demitido do seu emprego como funcionário público, sofrendo perseguições homofóbicas que o levaram a um voluntário exílio no Brasil, onde morreu, atropelado, na mais dolorosa miséria social.

Quando os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, de Lisboa, em 1966, José Régio foi um dos raros amigos e admiradores presentes na cerimónia, conjuntamente com Ferreira de Castro, Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Luís Amaro e Dórdio Guimarães.

Pode compreender-se, portanto, que a atenção dedicada por Régio ao inspirado poeta António Botto significou um permanente acto público nunca isento de algum escândalo por parte de certos meios e de tertúlias intelectuais conservadoras.

Mas José Régio foi sempre um homem coerente, corajosamente comprometido com as suas convicções cívicas e culturais.

Outro motivo de interesse suplementar que podemos colher no seu ensaio sobre António Botto reside na desenvolvida abordagem aí apresentada a propósito do fado, como sina, destino, canção, mito ou símbolo.

Poeta maldito e marginalizado, o autor das polémicas Canções encontrou em José Régio um crítico esclarecido que soube valorizar o seu génio intelectual, psicológico, estético e também narcisista.

Ter lembrado estas circunstâncias foi um útil e oportuno serviço do Diário de Notícias.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1 thought on “António Botto e José Régio

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s