o tempora! o mores!

Infelizmente, todos por aqui sabemos das difíceis condições em que funciona o nosso Instituto Politécnico e, por tabela, todas as Escolas nele integradas. Recentes declarações do seu principal responsável (em Ensino Magazine, Setembro 2012) não deixam dúvidas sobre a discriminação negativa que sofremos, traduzida num corte orçamental muito superior à média nacional.

Impõe-se que a comunidade local e também a regional cerrem fileiras ao lado dum dos raros instrumentos de afirmação que nos restam. Não estamos muito habituados a semelhantes exercícios de cidadania, mas é chegada a altura de os praticarmos. Amanhã será tarde.

Esta crítica situação é, apenas, a confirmação dum certo desprezo que as autoridades nacionais persistem em manter quanto a Portalegre, seja qual for a notação partidária das mesmas.

Trata-se duma espécie de sina que nos persegue e não há maneira de irmos à bruxa, à bruxa certa, acrescente-se…

Acho que isto vem do princípio. Para confirmar esta convicção vou citar-me, isto é, recordar aqui um velho texto que publiquei no Fonte Nova n.º 17, era ainda o jornal bem novinho, em 23 de Fevereiro de 1989. Vão passados mais de vinte e dois anos sobre esses tempos.

O senhor primeiro-ministro de então, professor Cavaco Silva, tinha acabado de vir a Portalegre, em visita oficial. O proveito, para nós, foi o habitual: zero, vírgula zero.

Tinha-lhe escrito previamente uma carta aberta, na anterior edição do jornal, coisa que ele nunca leu, como é óbvio. Sabemos, por declarações do próprio, que o senhor nem sequer  lê jornais. A continuação -sou muito teimoso!- foi o desabafo a seguir transcrito. Lido hoje parece quase uma profecia.

Mas não sou profeta…

 NÃO MUITO GRATO

Que os meus amigos sociais-democratas -tenho-os e dos bons!- me perdoem, mas não consigo apreciar devidamente o nosso primeiro-ministro.

É certo ser minha a responsabilidade, por não entender bem o seu discurso, por não compreender claramente o alcance de algumas das suas medidas.

Escrevi-lhe há dias uma carta aberta que ele, seguramente, nunca leu nem lerá. Mas, afinal, eu cá tinha as minhas razões…

Passo a explicar-me melhor.

No “Diário de Notícias” do passado Domingo, o jornalista que acompanhou a visita primo-ministerial encimava a reportagem do acontecido aqui, na véspera, com o seguinte título: “CAVACO PROMETE SOLUÇÃO ‘NÃO MUITO CARA’ PARA ENSINO SUPERIOR EM PORTALEGRE”.

Logo a abrir o texto, o jornalista transcrevia afirmações do primeiro-ministro: “Fui educado numa escola técnica e cheguei a primeiro-ministro, embora com muito trabalho, é certo”.

Mais abaixo, encontra-se outra citação: “É tempo de o Governo encontrar uma solução que não seja muito cara para satisfazer essa velha aspiração dos Portalegrenses, objecto de muitas promessas nunca cumpridas”.

A propósito, o jornalista esclarece logo a seguir que “a futura Escola Superior de Tecnologia e Gestão ficará instalada em edifícios que estão desaproveitados e terá como suporte o laboratório e oficinas do Centro de Formação Profissional, quase concluído, que o primeiro-ministro acaba de visitar”.

Como disse atrás, trata-se de uma reportagem inserida no “Diário de Notícias”, talvez o nosso jornal de maior aceitação pública, isento e insuspeito, precisamente o mesmo que em duas edições recentíssimas divulgou uma extensa e interessante entrevista com o Prof. Cavaco Silva.

Daí que mereça todo o crédito o relato e as citações que o jornalista faz das declarações do senhor primeiro-ministro.

Perante elas, restam-me algumas sérias perplexidades e não descubro a interpretação exacta que merecem.

Por exemplo, acerca da escola que educou o declarante, que devo concluir?

  • O ensino técnico não era tão mau como o pintaram.
  • Quando os alunos são bons, qualquer escola serve.
  • Em Portugal, quem trabalha muito arrisca-se a ser primeiro-ministro.

Quanto à concretização da futura Escola Superior de Tecnologia e Gestão, qual das suposições é legítima?

  • Vale mais um pássaro na mão do que muitos a voar.
  • A cavalo dado não se olha o dente.
  • Cada um tem o que merece.

Finalmente, sobre a implantação da referida escola, que poderei depreender?

  • Quem não tem cão caça com gato.
  • Em casa de ferreiro, espeto de pau.
  • Do velho se faz novo.

Enquanto somos pequeninos, todos brincamos às escolas. Quando crescemos, estas coisas costumam levar-se mais a sério.

Embora não seja capaz de apreciar devidamente o nosso primeiro-ministro, distingo-o claramente de um outro que, no passado, também evidenciou certas formas de desprezo pela Escola-instituição, talvez porque o seu professor das primeiras letras foi o barbeiro (ou o sapateiro?) lá da terra.

O profundíssimo abismo que os separa tem obrigatoriamente que traduzir-se numa prática diferente. Uma Escola Superior não pode compadecer-se com soluções de emergência, com declarações de circunstância. Ou é mesmo a sério ou parece preferível que continue tudo como uma promessa. Pelo menos não transforma a esperança em decepção.

Ou será que, num golpe de omnisciência, o Prof. Cavaco Silva consegue perscrutar insondáveis desígnios da Providência e saber que é assim, em escolas não muito caras, que se continuarão a formar os futuros primeiros-ministros de Portugal?

Por tudo isto, o meu sentimento é confuso. Ainda não decidi muito bem como devo manifestar-me.

Talvez não muito grato. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

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