A rua

Ao contrário do que se diz, acredito que a rua pode decidir. Sobretudo se, para além de rua, se constituir estrutura capaz de questionar um sistema e propuser alternativa credível e estruturante. Que a rua não sirva agora para sufragar o governo nas autárquicas é o que muitos desejam: isso seria manter certa linha melódica. Vira o disco…

Se tive alguma percepção do que foi o 15 de Setembro – e aqui, diga-se, ne sutor ultra crepidam (não suba o sapateiro além da chinela) –, foi a de que a rua castigou todo o sistema político e não poupou os agentes partidários que dela quiseram apropriar-se (Catarina Martins teve, aliás, um episódio tão infeliz como caricato, para estreante dirigente).

A rua, diria, descredibiliza o sistema eleitoral que não lhe permite escolhas directas, senão presentes envenenados pelas mediações partidárias. A rua, em síntese, está cansada de partidos e de políticos indigitados pelas cúpulas. E não serve apenas para medir a temperatura do ar, como também terá sido dito. Quer mesmo aquecê-lo.

Nas escolas, fora dos rituais oficiais, as conversas oficiosas não rejeitam a teoria escabrosa da bomba e da pistola e de todo o tipo de argumentum baculinum. Imagino as obscenidades que se digam por aí.

Que os políticos persistam na ilusão de que, mudando modos e cadeiras, mantêm o essencial é uma coisa. Outra é a rua ir nessa cantiga.

Porque se sente – e aí está o perigo de o monstro voltar à vida – que o aparelho político português procura reorganizar-se, nem que proponha a mascarada dos governos de salvação nacional ou de entendimentos com a oposição. No fim de contas, os políticos – é preciso que se incluam aqueles que querem agora ficar de fora, como Mário Soares –, que estão metidos nisto até ao pescoço e não conseguem sobreviver fora deste paradigma institucional sem a sensação de que o chão lhes foge, não conseguem perceber como se tornaram execráveis e dignos de ódio generalizado. E não lhes basta verem-se ao espelho, porque continuam a ver ilusões, como a da sua inevitabilidade. A rua grita-lhes, para que oiçam, que não há imagem mais deplorável do que a sua.

É preciso reconstruir a política nacional. Provavelmente, aceitar-se-á recrutar meia dúzia de políticos de todos os quadrantes (os cinco suspeitos do costume) – porque não? Mas é preciso muito mais. Gente instruída, honesta, capaz e sem pretensão de ter nos cargos um ponto de apoio (aquilo a que se chama o período pós-político). Gente capaz de dizer, como agora me ocorreu: sou comunista, mas o partido é neste momento a última coisa que me interessa.

Porque a rua (“que é isso de rua?”, podemos perguntar), que encontrou vários denominadores comuns, fartou-se da fé sem obras. Essa é a questão.

 António Jacinto Pascoal
Professor

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