Os rebuçados com cromos da bola – 1

I – Os cromos atacam outra vez…

Pelos finais de 2008, escrevi para o “blog” A Voz Portalegrense, do meu amigo Mário Casa Nova Martins, uma série de cinco textos alusivos aos cromos da bola. Aí evoquei, sucessivamente, algumas memórias de infância a propósito das colecções que fazíamos com as imagens dos jogadores dos principais clubes de futebol da época, estampados nos papéis em que se embrulhavam rebuçados.

O sistema era simples e engenhoso. Uma editora imprimia as fotos dos futebolistas, que serviam depois, sortidos, de embalagem dos rebuçados. Ao mesmo tempo eram disponibilizadas as cadernetas, que comprávamos ou que nos eram oferecidas por meio de senhas que, à sorte, também embrulhavam o doce conteúdo. Como os cromos eram numerados, assim se facilitava a respectiva inserção, por colagem, no lugar certo. Íamos trocando o material repetido, riscando em listas numéricas personalizadas, que cada um de nós organizava, as novas aquisições.

De vez em quando, havia um brinde inesperado, uma carteira de “pele”, um canivete, um pente, um emblema desportivo (um distintivo, como ao tempo se dizia), um apito, um cinto, um pião, um espelho, enfim, uma parafernália de perfeitas inutilidades que nos enchiam de alegria.

Mas o objectivo supremo da tarefa consistia, muito mais do que reunir a colecção das equipas da primeira divisão (em menor número do que hoje!), era a dificílima obtenção do prémio máximo, um apenas por cada lata que continha largas centenas (talvez alguns milhares) de rebuçados. É que havia um determinado jogador, normalmente de uma equipa secundária, que era único, um exemplar apenas -carimbado para evitar falsificações!- no vasto e muito diversificado conteúdo que enchia a tal lata, mágico contentor daquele quase mítico segredo. Consta, sem que nenhum de nós alguma vez tivesse obtido uma segura confirmação do facto, que esse rebuçado estava mesmo colado no fundo da sua lata para que não fosse inadvertidamente vendido. E a nossa táctica consistia em conseguir reunir, colectivamente, a quantia necessária para adquirir esse “fundo da lata”, ou seja, todos os rebuçados ainda existentes, numa jogada de antecipação sobre outros grupos adversários…

O prémio -ainda não o descrevi- era uma bola de futebol, autêntica, de couro. Para os gaiatos que éramos, para quem uma pequena bola de borracha era um alto luxo, constituía um sonho poder dispor duma bola verdadeira, de “cautechumbo”, gíria que usávamos na sua designação, quando ainda nem sabíamos proferir palavras esquisitas, ou estrangeirismos, como cautchu.

Tendo evocado este fenómeno do quotidiano de gerações inteiras de malta nova (e até de muitos adultos), revelei então algumas páginas de cadernetas que religiosamente guardei, completas com a ligeira excepção do respectivo número da bola, o tal…

 

Reproduzi certas páginas com as principais equipas dos campeonatos de 1944/45 e de 1949/50 e outros exemplares soltos, com interesse, como os relativos a alguns futebolistas de algum modo ligados a Portalegre, como Manuel Martelo, guarda-redes do Grupo Desportivo Portalegrense que depois se notabilizaria no Lusitano de Évora, cidade onde com ele convivi; Carlos Canário, também portalegrense, jogador no Estrela de Portalegre, no Sporting e na selecção nacional, que entrevistei para a saudosa revista A Cidade; António Bentes, que ainda me lembro de ter visto jogar aqui, pelo Liceu de Portalegre, depois famoso e internacional pela Académica de Coimbra; e Domingos Demétrio “Patalino”, temível ponta-de-lança que ainda chegou a jogar pelo Laníficios de Portalegre, e que admirei ao serviço do Elvas e do Lusitano.

O pretexto dos cromos da bola serviu-me, há quatro anos, para evocar gratos registos de memória, os mais antigos relativos à minha própria prática enquanto coleccionador, os mais recentes tecidos em torno de futebolistas locais (ou regionais) que conheci ao vivo, para além das respectivas imagens coleccionadas.

Se agora retomo o tema é porque algo de inesperado sucedeu a tal propósito. Há dias, rebuscando em gavetas esquecidas, encontrei novas preciosidades cujo paradeiro em absoluto desconhecia, embora da memória não se tivessem varrido. As três preciosas peças que agora recuperei são outras tantas cadernetas, mais antigas que as anteriores e também todas completas, fora a tal insignificante excepção. Aliás, se alguma vez tivessem atingido a sua integralidade, deixaria de contar com elas, pois tê-las-ia obrigatoriamente entregado em troca da… bola de futebol.

Por hoje, ficam aqui os registos digitais das suas capas e contracapas e a promessa de, sucessivamente, divulgar na íntegra todo o seu conteúdo. Sei, pela experiência adquirida a quando da publicação dos textos e imagens há quatro anos, do apaixonado interesse que muitos cidadãos pelo país fora dedicam a estes testemunhos, quase perdidos e mesmo raros, dos tempos heróicos do futebol indígena e do coleccionismo ainda inocente. Por eles e para eles, aqui serão apresentados, sucessivamente, os integrais conteúdos destas três cadernetas, acompanhados pelos comentários pessoais que achar oportunos.

Aqui ficam os “invólucros” das três cadernetas:

  • Campeões   de  Futebol –  Fotografias Coloridas (88 cromos), Campeonato Nacional da 1.ª Divisão  1940-1941, da Confeitaria Universo (Rua da Alegria, 22, Tel. 25628, Lisboa);

 

  • Caramelos    Futebolistas –    Campeonato Nacional da 1.ª Divisão 1943-1944 (110 cromos), da Fábrica  Universal (a mesma morada);

 

  • Caramelos Emblemas  Desportivos –   presumivelmente 1945-1946? (180 cromos), da Fábrica Universal (idem).

 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

4 thoughts on “Os rebuçados com cromos da bola – 1

  1. Recordar o passado para mim é muito bom.
    Se fosse possível, agradecia me informasse, se possue cadernetas de EQUIPAS e JOGADORES do Sport Clube União Torreense, pois caso ainda não as possua,
    gostava de as comprar.
    Grato pela atenção que se dignar dispensar a este meu pedido, apresento os meus cumprimentos

    Vítor Melícias

  2. OS “BONECOS” DA BOLA

    Vinha do princípio dos anos quarenta, nos tempos de famosos futebolistas como o Pireza, do Paciéncia, do Peyroteo, Valdemar Mota, Pinga, Azevedo, Espírito Santo, Gaspar Pinto, Gregório, Guilhar, Barrigana, Mariano Amaro, Serafim Baptista e outros, a venda em lojas de comércio, dos “bonecos da bola” ou “rebuçados da bola”, em que os “bonecos” (hoje, cromos), envolvendo rebuçados, para melhor aliciarem os miúdos. Inicialmente não havia os atraentes placards publicitários anunciando os prémios. A atracção principal era uma bola de futebol de “Cautchuc”, que o comerciante colocava em lugar visível, a que a malta chamara simplesmente “bola de catchung”. O cobiçado rebuçado com o número da bola (o mais “custoso). ”, diziam os putos), estava habitualmente, agarrado ao fundo da lata, e era ver os mais velhos a tomarem atenção para o que ainda restava de rebuçados dentro da dita lata, e quantas vezes acabarem por comprar (arrematarem) o que ainda havia, arrecadando desta forma tão apetecida bola. Havia também as “cadernetas”, onde a malta colava os azes da bola, com cola feita em casa (farinha de trigo e água) pois isso da cola de stick, não era desses tempos. Os bonecos repetidos” ou entravam no “negócio” da “troca”, ou simplesmente entravam no “joga da palmadinha” que consistia em que dois interessados, fizessem os respectivos montes de “excedentários” e um de cada vez, tentava tirar do monte do outro, o maior número possível de “bonecos”. Esta operação era feita com a mão em posição de ventosa (concha), num movimento brusco em que alguns eram exímios.
    Houve em tempos a modalidade de a bola só ser entregue contra a devolução ao comerciante da caderneta completa, e neste caso, o número da bola estava igualmente no fundo da lata (processo de lucro garantido). As expressóes – “tens bonecos p’rá troca”, ou “queres jogar à palmadinha?”, eram termos correntes por esses tempos. Desta forma era-nos possível “conviver” durante largos meses, com os grandes futebolistas da época, casos do Azevedo, Peyroteo, Espírito Santo, Amaro, Capela, Barrigana, Valadas, Travassos e outros, que só conheciamos pelos relatos da rádio. Tempos heróicos em que à porta das lojas se juntavam magotes de miúdos ansiosos para conseguirem preencher as suas cadernetas, deixando o chão pejado com os papelinhos com que eram embrulhados os rebuçados.
    Estas épocas dos “bonecos da bola”, ofuscavam por vezes as outras brincadeiras da malta, e enquanto as trocas e retrocas estavam em grande, ninguém pensava em jogar ao pião, ao bilas, ou à macaca. Depois a “febre” ia arrefecendo, especialmente depois de ter saido a bola, e começarmos a ouvir que noutros lados também tinham “rebentado com a lata”, expressão usada para dizer que aqui e ali já tinham acabado os “bonecos da bola”.
    Os próprios comerciantes com o “desaparecimento” dos jovens clientes, viam que o “mercado” estava saturado e daí, não voltavam a encomendar latas de “caramelos da bola”, outra expressão por que eram conhecidos os famosos “bonecos”. Os coleccionadores “resistentes”, aqueles que mesmo fora de “época” ainda apareciam a “manusear” os caramelos, eram sempre os menos endinheirados, os que faziam a colecção a conta-gotas, de acordo com algum tostão que as mães iam deixando “cair” do avental, ou produto de algum recado feito a uma vizinha. Depois … depois era jogar até fartar, ou melhor até a bola rebentar (ou o polícia sorrateiramente aparecer – esta situação somente para lá da “fronteira” com os Olivais), ou sempre que acontecia algum precalço fora do programa, invariavelmente sacrificando o pé descalço, numa inoportuna “topada” numa pedra, que habitualmente estavam no sítio errado, ou porque o futebolista era “tosco” a dominar o “esférico”.
    O dedo grande do pé (com o qual se chutava), era, como se calcula, a grande vítima desses inoportunos precalços, ou ainda vítima das botas cardadas dos “meninos”, que teimavam em jogar com a malta, calçados. É evidente que esta “febre” dos “bonecos” (modernamente chamados de cromos), acabou por “empéstar” as escolas, com muita mágua dos professores, que face à por vezes desusada agitação, eram obrigados a “apreenderem” as cadernetas da bola e os molhos de “bonecos” à mistura nos bolsos com a inseparável fisga e um ou outro berlinde ou pião, e até pequenas “naifas” (canivetes) sempre preciosas quando se tratava de ir à chinxa”. Era, segundo os atentos professores a forma prática de serenarem os ânimos, e “voltarmos à paz do Senhor”. Era no tempo em que a electrónica nem sequer era sonhada.

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