Calvet de Magalhães – 3

MEMÓRIAS PESSOAIS DO PROF. CALVET DE MAGALHÃES

Numa das minhas passagens pela antiga Escola do Magistério Primário de Portalegre, pelos inícios dos anos 60, as férias do Carnaval foram preenchidas por aquilo a que nesses tempos se designava por um Curso de Aperfeiçoamento. Como docente da disciplina de Desenho, coube-me viver esses dias em Lisboa, com outros colegas, precisamente na Escola Francisco de Arruda, tendo como mestre da nossa actualização o Prof. Calvet de Magalhães.

Vivia ele então, em pleno, o usufruto dum estabelecimento de ensino moldado e orientado à sua maneira. O contacto, inesquecível, com o Homem e a sua Obra marcaram-me de forma decisiva. Os ensinamentos práticos e a profunda filosofia de vida e de profissionalismo que irradiavam de Calvet de Magalhães impunham-se pela natural convicção e lógica de tais princípios.

Ficámos amigos e nunca mais deixámos, embora à distância, de manter um diálogo regular. Dele recebi sucessivas mensagens de qualidade, como publicações, calendários e postais festivos, quase sempre recheados com os desenhos e pinturas infantis, que ele selecionava e promovia com incansável dedicação.

 

Quando, a partir duma iniciativa do meu amigo Francisco Queirós, preenchi alguns volumes da sua colecção didáctico-pedagógica Magistério Primário Complementar (Atlântida Editora, Coimbra), foi Calvet de Magalhães quem, generosamente, considerou o meu primeiro trabalho publicado (O Desenho na 5.ª Classe) como uma das melhores obras do género até então produzidas sobre o tema. Deixou tal testemunho na sua coluna semanal do Diário de Lisboa.

A verdade é que esse trabalho, de âmbito exclusivamente dedicado aos docentes, atingiu a invulgaridade duma terceira edição (1967, 1968 e 1969) …

Vivia eu o rescaldo do exigente e complicadíssimo estágio profissional em Viseu, quando, em Agosto de 1974, fui surpreendido com a brutal notícia do suicídio de Calvet de Magalhães. Pouco tempo antes, outra desagradável surpresa me tinha colhido, a propósito da morte -também de todo inesperada- do Padre João Saraiva Diogo, mestre e companheiro mais velho de saudosos tempos da JEC e da MP em Portalegre.

A memória do Prof. Calvet de Magalhães prolongou-se no tempo, de forma muito grata, ainda que também inesperada.

O primeiro e decisivo pretexto aconteceu logo em 1975, quando colegas amigos me fizeram entrar na alta-roda nacional das questões curriculares inovadoras. Lembro-me bem duma reunião pedagógica, realizada no auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil onde se reuniram as equipas experimentadoras dos novos programas do Ensino Preparatório. Aí conheci o Arq. José Antunes da Silva, que tinha sido uma dos mais fiéis colaboradores de Calvet de Magalhães. A comum admiração por este ligou-nos desde logo e para sempre.

Depois, sucessivamente, tive ocasião de privar com algumas das personalidades a quem a Educação, sobretudo na área da Expressão Visual, muito ficou devendo. Não foi mera coincidência a circunstância de alguns destes professores terem sido discípulos, admiradores ou companheiros de jornada do mestre desaparecido. É o caso, entre outros, de Leonor Oliveira, Isabel Cottinelli Telmo ou Rosinda Vieira.

Devo acrescentar a esta lista Elisabete Oliveira, ainda que esta tenha sempre revelado uma faceta crítica para com certos conceitos defendidos por Calvet de Magalhães, nunca excluindo uma sincera admiração pela sua obra global e pela sua profunda e positiva influência pessoal no prestígio conseguido pelas artes visuais no seio da escola portuguesa.

 

O espírito, memória e obra do Prof. Calvet de Magalhães foram perpetuados no testemunho daqueles que, com legítimo orgulho, se consideraram sempre com mo seus continuadores, adaptando com naturalidade toda a moderna inovação que tal herança apenas confirmava.

O pioneirismo que as práticas e as vivências quotidianas da Escola Francisco de Arruda comportavam antecipara muito daquilo que o Ensino (ou Ciclo) Preparatório instituiu formalmente a partir de 1968. E, dentro da nova estrutura curricular desta fase de estudos, a Educação Visual receberia uma profunda e quase revolucionária influência dos conceitos que Calvet de Magalhães defendia e praticava.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um campeão portalegrense

É campeão e portalegrense, dois atributos simpáticos e louváveis.

Nuno Matos gosta de conduzir em todo-o-terreno e fá-lo como poucos. Ainda jovem, o seu palmarés é já impressionante e vai, certamente, enriquecer com futuras proezas.

Agora, com outros pilotos e navegadores portalegrenses, vai participar na nossa prova por excelência, a Baja Portalegre 500, já neste próximo fim de semana. E todos lhe auguramos mais um êxito.

Até aqui, tudo normal. Aquilo que ultrapassa essa normalidade é a iniciativa em que Nuno Matos se lançou –o Tour TT Solidário– e que tem prosseguido com entusiasmo e persistência. Trata-se da sua activa solidariedade para com três instituições locais, a corporação dos Bombeiros Voluntários de Portalegre, a CERCI Portalegre e a delegação local da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental).

Pode ser-se jovem, campeão e portalegrense e viver à margem dos problemas alheios. Ninguém terá direito à censura apenas por tal comportamento social. Mas, quando se pára, e o Nuno até aprecia mais o movimento e quanto mais veloz melhor, quando se pára e se dirige o pensamento para os outros, sobretudo quando os outros precisam de compreensão e de activa solidariedade, e quando depois daí surgem atitudes práticas e efectivas de fraterna cooperação, então é justo que se destaquem tais iniciativas.

Nuno Matos merece a nossa estima, merece a gratidão de quantos acreditam nos valores humanos cada vez mais esquecidos, justifica que à admiração pelo desportista se acrescente o louvor ao cidadão.

Nuno Matos descobriu a fórmula aparentemente simples de aliar aquilo que gosta de fazer, e faz muito bem, com o desencadear de apoios materiais concretos, e apreciáveis, a meritórias instituições locais.

É campeão, portalegrense e solidário, três atributos de excepção.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Portalegre 1927 – 6

6 – RETRATO ROMÂNTICO DUMA CIDADE (dois)

O final da descrição de Portalegre fornece novos motivos de análise e breve comentário.

Esta segunda metade inicia-se com a descrição do convento de Santo Agostinho, onde ainda está alojada a GNR. A antiga cadeia civil já há muito foi desactivada, mas algunss de nós, os portalegrenses mais velhos, ainda nos lembramos de ver os detidos acenando atrás de janelas gradeadas que davam, a dão, para a Rua da Torre do Pessegueiro.

Vem depois um novo erro “técnico”, muito repetido e ainda hoje, na denominação do mosteiro (e não convento!) de N.ª S.ª da Conceição, entre nós mais conhecido por S. Bernardo. De resto, a sua descrição sumária alude ao majestoso túmulo do bispo D. Jorge de Melo, só por si justificativo duma visita. Ao tempo estava ali alojado o batalhão de Caçadores 1, já referido.

Falta uma referência, a de que o nosso museu municipal ali se encontrava, nas instalações do próprio mosteiro, sendo essencialmente constituído pelo seu espólio.

O hospital local funcionava, e durante mais algumas décadas assim ainda sucederia, no edifício da Misericórdia. É muito interessante a breve súmula da sua anterior deambulação por outras ruas e outros edifícios da cidade. Oportuníssima é a alusão ao gabinete de radiologia, uma vez que este tinha sido acabado de montar e estreado, precisamente, a 12 de Dezembro de 1926. Deve ter coincidido com a impressão da agenda-brinde!

Em contrapartida, está logicamente desactualizada a referência ao Albergue dos Inválidos do Trabalho, que entretanto mudou para outras instalações até à sua integração noutras estruturas de apoio e segurança social.

 

A Fábrica da Moagem e da Luz Eléctrica, sita na Estrada Nova, em zona hoje radicalmente alterada pelos novos conceitos urbanísticos, era vizinha da Fábrica de Lanifícios, hoje desactivada. A Fábrica Real, na Corredoura, é hoje o edifício da Câmara Municipal, depois de ter alojado no seu seio uma infinidade de instituições locais, das quais apenas se destacam a Sociedade Recreativa Robinson, a Sociedade Musical Euterpe, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre e a delegação da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT).

Sobre os aprazíveis passeios que Portalegre oferece, Régio, apenas alguns anos depois, di-lo-ia como poucos. Apaixonado pelos arredores da cidade, o inspirado autor da Toada tornar-se-ia uma espécie de assumido propagandista turístico…

O Bonfim (Norte), a Penha (Poente) e São Cristóvão (Nascente) são três pilares duma espécie de “rede envolvente” da cidade e teria sido oportuno que o redactor lhes tivesse juntado a capela de Santana (Sul), para fechar o quadrado protector…

Quanto aos edifícios destacados, Governo Civil (hoje extinto), Liceu Central (hoje ESEP) e Escola Industrial (hoje IPP), estes constituem uma leve amostragem, apenas, dos restantes solares já existentes na época, que lhes poderiam ter sido adicionados com inteira justeza. Mas compreendo que a agenda-brinde dispusesse de um exíguo espaço, ainda assim muito bem aproveitado.

Mas -que pena!- faltaram o castelo, as muralhas, as portas, Santa Clara, São Lourenço, os jardins, eu sei lá!

Encontrei uma pequena agenda, embora na sua capa ostentasse o título Brinde, relativa à nossa terra no já distante ano de 1927. Por meio dela, fizemos afinal uma viagem por outras eras, em Portalegre cidade…

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

Calvet de Magalhães – 2

Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães

Nasceu em Lisboa, no dia 8 de Março de 1913, no seio duma família de fortes tradições liberais, que contou com artistas plásticos, diplomatas, escritores e jornalistas entre os seus membros. Frequentou o Liceu Passos Manuel, após o qual ingressou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde se licenciou em Pintura. Ao mesmo tempo, concluiu o Curso de Cenografia na Secção de Teatro do Conservatório Nacional de Lisboa.

Ingressando na carreira docente, enquanto praticava as artes plásticas, notabilizou-se em ambos os campos de intervenção social. Como pintor, activo elemento da segunda geração dos modernos, usou o pseudónimo Magalhães Filho e recebeu diversos galardões, como o Prémio Nacional de Arte Luís Lupi e o Prémio Amadeu de Sousa Cardoso. Também exerceu jornalismo e foi publicista.

Mas a educação seria o cenário privilegiado da sua acção pública. Além de professor, foi inspector, orientador de estágios e metodólogo no âmbito da disciplina de Desenho, sobretudo no Ensino Técnico.

Depois do Curso de Ciências Pedagógicas, obtido na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ingressou no estágio para professor do 5.º grupo (Desenho) do Ensino Técnico, na Escola Jácome Raton, em Tomar. Ficou habilitado para a carreira pela aprovação no Exame de Estado, subordinado à tese Metodologia do Bordado, em 1947. Tornou-se professor efectivo na Escola de Artes Decorativas de António Arroio.

Em 1956, quando tinha apenas 43 anos, foi nomeado director da Escola Elementar Francisco de Arruda, em Lisboa, cargo que exerceu até ao seu falecimento.

 

Esta escola fora criada já nessa década, em Alcântara, sendo destinada ao ensino de jovens do sexo masculino que pretendiam prosseguir estudos nas áreas Comercial e Industrial, dependendo da Escola Técnica Industrial Marquês de Pombal. A inauguração do novo edifício na Calçada da Tapada concedeu-lhe autonomia e coincidiu com a nomeação de Calvet de Magalhães.

Este estabelecimento de ensino tornou-se a razão fundamental da sua missão educativa. Profundamente dedicado à causa da administração escolar, ele transformou a sua escola num campo experimental, dotado de permanentes instrumentos colectivos de avaliação e reflexão, onde foi ensaiada com sucesso a maior parte das inovações que o sistema iria acolher e generalizar.

Ao mesmo tempo, a sua acção teve repercussões noutras instituições onde foi membro, conselheiro ou assessor, como a Comissão do Estatuto da Educação Nacional, o Centro de Estudos de Pedagogia Audiovisual, a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto de Alta Cultura, o Conselho Pedagógico do IMAVE ou a Comissão Permanente dos Seguros Escolares.

Era dotado com a rara capacidade de mobilizar pessoas e interesses em torno de projectos integrados e de realizações avulsas, dentro da escola ou fora dela. Entre uma infinidade de realizações, impossíveis de contabilizar na sua globalidade, salientam-se experiências pedagógicas de coeducação e de integração de alunos deficientes, a leccionação de anos experimentais (7.º e 8.º), a utilização sistemática dos meios audiovisuais e de práticas de interdisciplinaridade. Entre as iniciativas de natureza cultural mais abrangentes, destacam-se sessões pioneiras, aos sábados, com projecções fílmicas e palestras, com participação de actores, realizadores, escritores, artistas, pedagogos e outros criativos e, sobretudo, a fundação da Chiquinha, um infantário que ficaria célebre, com as suas áreas infantil e primária, que acolheriam filhos de professores e funcionários da zona.

Em 1957, ele foi um dos principais promotores e militantes da Associação Portuguesa para a Educação através da Arte, de que seria membro.

Desde 1938 até à morte, Calvet de Magalhães foi incansável colaborador de inúmeras revistas e jornais, como Escolas Técnicas, Escola Portuguesa, Revista Portuguesa de Pedagogia, Seiva, Divulgação Pedagógica, Boletim CODEPA, Boletim da Mocidade, Vida Mundial, Flama, A Capital, O Professor ou Diário de Lisboa. Neste vespertino dispunha duma secção semanal, desde 1959, que marcou influente posição pedagógica na época.

Nunca escondendo a sua inclinação pela independência da função docente, apoiou abertamente e deu acolhimento, na sua própria escola e desde 1969/70, ao denominado Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário, de vocação progressista. Daqui sairia o futuro Sindicato dos Professores. Calvet de Magalhães, sobretudo na revista O Professor, defendeu então explicitamente o direito de associação dos docentes.

Toda esta sua corajosa actividade pública valeu-lhe um processo disciplinar, em tempos do ministro José Hermano Saraiva. Mais tarde, já sob a gestão ministerial de Veiga Simão, esse processo seria arquivado.

Foi no âmbito da Reforma do Sistema Educativo por este promovida, que Calvet de Magalhães voltaria a assumir novas e claras posições, lembrando o atraso, os prejuízos e as discriminações sociais que dessa reforma resultavam para a causa da educação nacional, dada a insuficiente e restrita abertura do projecto à discussão pública. Ele levantou e defendeu a questão decisiva da autêntica democratização do ensino, que deveria efectivamente garantir o acesso dos alunos mais desfavorecidos ao prosseguimento dos estudos. Pela sua experiência, bem sabia do que falava…

Em Maio de 1964, decorreu no cinema Roma, em Lisboa, o primeiro Festival Internacional do Filme Didáctico, tendo sido Calvet de Magalhães um influente consultor da iniciativa.

Em 1968, com a instalação do denominado Ensino Preparatório, de que Calvet de Magalhães seria o principal inspirador, o seu estabelecimento de ensino passaria a designar-se Escola Preparatória Francisco de Arruda.

 

Além dos seus inúmeros artigos dispersos pelas publicações atrás citadas, ele redigiu obras de outro fôlego, como Aprenda a Desenhar, recordado no anterior texto desta série dedicada a Calvet de Magalhães. Mas devem ser ainda citados O Que é a Arte Infantil, A Criança e o Teatro (de parceria com Aldónio Gomes), O Desenho do 1.º Ciclo da Escola Técnica, O Desenho do 2.º Ciclo da Escola Técnica, Tecnologia das Matérias-Primas, Bordados e Rendas de Portugal, Missão de Orientação do Ensino Profissional no Estado da Índia, O Desenho e as outras Disciplinas do Ciclo Preparatório, Organização dos Exercícios de Desenho do Ciclo Preparatório, etc.

De destacar o espírito verdadeiramente inovador e pioneiro de Calvet de Magalhães que o levou, ainda jovem na casa dos vinte anos, a dirigir, com Pinto de Magalhães, uma revista de quadradinhos –O Pirilau– verdadeiramente popular e com um preço muito acessível. Tal publicação atingiu 63 números, entre 1939 e 1941.

Em 1964 e 1968, foi o principal promotor de gigantescas exposições subordinadas ao tema O Natal visto pelas Crianças, assim popularizando a prática da expressão plástica infantil.

Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, foi promulgada uma determinação oficial que fazia cessar todos os cargos directivos nas escolas, implicando o regresso dos docentes destacados nessas funções aos respectivos locais de origem.

Calvet de Magalhães não suportou a iminente separação da escola a que dedicara a maior e melhor parte da sua vida de educador e de gestor. Deprimido, suicidou-se nas instalações da E. P. Francisco de Arruda.

Foi no dia 29 de Agosto de 1974.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Retratos de Gente em Procissão

RETRATOS DE GENTE EM PROCISSÃO
(E FORA DELA)

                                                         30
Tinha estado na noite anterior, no bar do Chapeli, junto da fonte das três bicas. Aí matei saudades da malta que ia entrando e que não via há anos, a começar pelo Chapeli, excelente guarda redes que chegou à cidade apenas com um defeito, o vir defender a baliza do Desportivo (estou a brincar), embora e de verdade verdadinha, a mim, toda a belíssima actividade extra-escolar promovida pelo Professor Martinó, chefe local da banda desenhada, com os alunos da preparatória, como se chamava nesse tempo, rompendo os muros da escola e invadindo as ruas, praças e avenidas, com cartazes a favor da ética e verdade desportiva, do convívio e da paz no desporto, antecedendo e prevenindo a guerra entre os grandes clubes rivais, em especial o desafio do próximo domingo, onde o Estrela subiria à primeira divisão se ganhasse, e o adversário, o Desportivo, tudo faria para que tal não acontecesse, como não aconteceu, o Desportivo ganhou e o Estrela ficou, não me convenceu, e se contribuiu para o civilizar das minhas atitudes futebolísticas, ou perante o futebol de bairro, nunca mexeu, nem um milímetro, a minha paixão clubística herdada da família e fortemente mantida pelo meu primo João Lagem, barbeiro do Arco de Santo António, que me levava pela mão ao futebol, todos os domingos, lenço atado com quatro nós na cabeça como chapéu, e rádio pequeno ao ombro, ouvindo os relatos dos jogos da capital, que isso do futebol, em todo o País, era no mesmo dia e à mesma hora. (…)

Este denso, vivo e fascinante parágrafo inicial do capítulo 30 (já pelos finais do livro) quase me fez desistir de escrever e divulgar o presente texto. Não estou habituado a ser assim tratado, com uma avaliação tão generosamente crítica, pelo que um certo íntimo pudor quase travou o meu impulso. Mas o Rui Aragonez Marques citou duas facetas importantes da minha vida, a permanente paixão pessoal pela BD e a intervenção profissional que sempre procurei colocar ao serviço dos alunos e da comunidade. Aquela Operação Futebol, desencadeada a 8 de Maio de 1977 -tinha ele 20 anos e também foi tocado- significou um dos momentos pedagógicos mais conseguidos no seio daquela fabulosa equipa que era então constituída pelos colegas e alunos da Escola Preparatória Cristóvão Falcão. E esta solidariedade não podia passar em claro. Mas não produziu, de todo, uma troca de piropos.
Lembro-me do Rui. Os anos de quase uma geração que nos separam não anularam a proximidade geográfica que nos ligou, pois a Rua do Pirão e a da Mouraria desaguam no mesmo centro nevrálgico, o Largo dos Combatentes. Só que ele era um gaiato ou um rapaz, quando eu era já homem.
Mas a cidade mais a gente em procissão ou fora dela são as mesmas. A única diferença é que eu teimei em permanecer e ele preferiu o exílio. Creio que foi dele a mais correcta e lúcida decisão. Depois, e isso reflecte-se claramente no seu livro, ganhou a bênção dos desertores, que magistralmente o (também exilado) João Miguel Tavares explanou no prefácio que escreveu para as minhas Crónicas Lagóias. Ou seja, o Rui puxou a pele a memórias engelhadas, retocou velhas tristezas, deu vida a experiências medíocres, amou à distância uma cidade quando o difícil é amá-la nela permanecendo. Resumindo o João Miguel Tavares, direi que o Rui deixou de aturar os defeitos de Portalegre, mas mesmo assim foi capaz de se manter simultaneamente nostálgico e lúcido. Por isso aquelas pessoas de carne e osso estão vivas, na procissão ou fora dela, assim como as suas ruas permanecem habitadas e frenéticas após a passagem do ritual cortejo, mesmo quando pelo autor, deliberadamente ou por mero engano, lhes são trocados os nomes. Mas não as identidades.
Enquanto o historiador rebusca as cinzas já frias, habita as mesas anatómicas dos necrotérios e se preocupa com dados estatísticos, perseguindo o mais absoluto rigor, o cronista, quando se atreve ao bisturi, rasga carne quente e faz sangue, mas logo compensa a ferida com uma carícia ou um beijo, mexe em gente que protesta ou agradece, coloca ficção onde falha a memória, muito mais interessado nos registos ainda palpitantes que nos relatórios científicos. Foi isto que o Rui Aragonez Marques agora exemplarmente cumpriu.
No prefácio dos Retratos, lembra e bem Rui Cardoso Martins Memórias, as do Oco, de Castelo Júnior, por acaso (?) também um professor que viveu exilado de Portalegre e por longos anos. Compondo um terceto de frescos citadinos, bem lagóias, junto-lhes E se eu gostasse muito de morrer, ainda que esta obra aborde mais a morte do que a vida. Mas é também uma legítima crónica desta Portalegre bem pouco bafejada pela sorte de registos personalizados das suas realidades comunitárias.
Li o livro de Rui Aragonez Marques dum fôlego. É certo que alguns dos seus capítulos se me afiguraram algo monótonos, sobretudo quando ele tratava gente e factos de todo arredados da minha própria experiência. Mas logo adiante retomava o apaixonante fio narrativo das vivências comuns, ainda que praticadas em diferido. O conjunto é magnífico, servido por um estilo pessoalíssimo que constitui um dos seus mais originais atractivos.
Depois, há aqui uma enriquecedora coincidência (?) nas obras destes dois Ruis portalegrenses, protagonizada pela cumplicidade doutro incontornável lagóia, Fernando Mão de Ferro e a sua (nossa!) Colibri.
Recordo alguns conceitos que Lobo Antunes usou quando um dia apresentou o primeiro livro de Rui Cardoso Martins, saudando o exemplo de paciência, orgulho e solidão que aquela obra significava. Junto-lhe os outros conceitos que Rui Aragonez Marques agora explicita na contracapa do seu livro, o esforço de memória, a surpresa, a saudade e o humor. Creio que, juntando todos estes ingredientes nas proporções certas e mexendo-os sem os agitar (como recomenda James Bond), se obtém uma deliciosa receita, um atraente produto. A prova está aqui, à nossa disposição. Experimentem-no que vale a pena…
Mas não se deve abusar da dose (é forte!) e serve-se fria.

Com um abraço grato, amigo e de parabéns ao Rui Aragonez Marques, do

António Martinó 

as redacções da ritinha – 17

doutor relvas amigo a ritinha está contigo doutor relvas amigo a ritinha está contigo pronto já chega de mensagens de solidariedade para com um senhor que está a ser injustamente atacado e até querem que ele deixe de ser doutor e isso é uma grande injustiça depois de tanto trabalho que ele teve para arranjar aquele diploma até andou a dançar num grupo folclórico e é pena que ele não queira vir dançar cá para a nossa marcha da reboleira porque também era uma equivalência e ele até foi quase ministro antes de ser doutor e esteve numa câmara municipal antes de ser doutor e foi deputado antes de ser doutor e andou a fazer turismo antes de ser doutor e até parece que andou a estudar para doutor mesmo antes de ser doutor ora isto tudo alguns doutores não conseguem então porque é que ele não pode ser doutor pergunto eu se ele fez sempre figura de doutor mesmo antes de ser mesmo doutor por isso digo eu e repito que aquilo de ele poder ser despromovido não está certo sobretudo depois de ter incomodado tanta gente como aqueles professores todos que ele teve na tal universidade risófona ou lá como é que ela se chama e até lá inventaram cadeiras novas para ele se sentar e agora ia tudo para o lixo não pode ser ora isto tudo é como se a minha setôra agora deixasse de ser setôra era uma bronca das antigas cá na escola essa equivalência de passar de cavalo a burro ora o senhor doutor relvas tem mesmo cara de doutor e fala como um doutor e até está convencido que manda como um doutor pelo menos dizem que ele manda no tal outro doutor passos coelho do governo que é quem para aí dizem que manda em todos menos nos da troika ora por tudo isto o doutor relvas tem de continuar a ser doutor mas pelo sim pelo não é melhor o outro doutor o do crato não acabar tão depressa com as novas oportunidades porque o doutor relvas se deixar de ser doutor pode precisar de voltar a ser doutor pelas novas oportunidades embora por aqui seja mais demorado porque parece que são precisos quinze dias úteis para tirar o curso e ainda juntar três tampas de detergente e duas de puré de batata instantâneo e cinco caricas de cerveja sem álcool e fazer uma redacção sobre os passarinhos e uma conta de somar com três parcelas mas sem vai um e um desenho pintado com um automóvel uma casa o céu azul com um sol amarelo e nuvens brancas ao lado e acho que isto é tudo por causa das equivalências a merceeiro a escritor a contabilista e a pintor mas é melhor do que nada por isso não me canso de gritar doutor relvas amigo a ritinha está contigo doutor relvas amigo a ritinha está contigo e se bem calhar até vou pintar um cartaz para ir fazer uma manifestação para a porta da assembleia da república mas como é que se escreverá risófona não tenho bem a certeza se leva dois ésses ou se é só um doutor relvas amigo um beijinho da

O Hino Nacional

A PORTUGUESA

Foi em Junho de 2010, no Mundial que decorreu na África do Sul. Antes do jogo em que a Espanha nos afastou do sonho, como é useiro e vezeiro, o caso que mais celeuma levantou foi o ostensivo silêncio de Cristiano Ronaldo durante a execução do hino nacional, que até Pepe, brasileiro oriundo, cantou com visível e assumido entusiasmo. Os posteriores comentários variaram entre a suprema concentração do craque até ao seu eventual desconhecimento da letra do nosso cantado símbolo nacional. Em qualquer dos casos, a atitude não ficou bem ao capitão do clube de todos nós

Aliás, esta questão do futebol esteve nos últimos anos bastante ligada a dois dos símbolos nacionais, o hino e a bandeira.

Scolari, com todos os méritos e defeitos que se lhe apontam, foi capaz de mobilizar uma considerável parte do país ligado ao culto do futebol, incentivando-o a hastear bandeiras por tudo quanto era sítio, independentemente de tal legitimidade, pois aconteceram casos discutíveis, mais ligados ao puro exibicionismo que ao apreço pelos valores pátrios. Ainda hoje se encontram restos dessas bandeiras em inconcebíveis locais.

Já a questão do hino colocou outros problemas, pois implicava, ao contrário do primário e quase instintivo acto de desfraldar um pendão, uma aprendizagem, tanto da melodia como, sobretudo, da letra.

O que é o hino nacional português?

 

Tudo começou, ainda em pleno regime monárquico, como reacção de protesto contra o ultimato inglês de 11 de Janeiro de 1890. A exigência de Londres para que abandonássemos uma vasta zona incluída no denominado mapa cor-de-rosa, entre Angola e Moçambique, desencadeou uma onda de revolta no povo português, a qual incitou o compositor Alfredo Keil a compor um hino de exaltação e a solicitar ao poeta Henrique Lopes de Mendonça a criação de uma letra adequada. Este poema continha, como derradeiro verso, a expressão: “Contra os Bretões, marchar, marchar!” Os Bretões eram, naturalmente, os habitantes da Britânia, os ingleses…

A canção heroica serviu de inspiração para a malograda revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891. Mas, em 1911, após a efectiva implantação da República, esse mesmíssimo hino passou a ser designado como A Portuguesa (por semelhança com A Marselhesa), sendo a palavra Bretões substituída por canhões. Em boa verdade, esse novo apelo parece algo suicidário, porque ninguém no seu perfeito juízo decide marchar contra canhões mas, enfim, o patriotismo entusiástico tem destas contradições.

Em conclusão, a Assembleia Nacional Constituinte, na sua sessão inaugural de 19 de Junho de 1911 consagrou A Portuguesa como o Hino Nacional Português, símbolo da Pátria. Assim foi oficialmente revogado o Hino da Carta, monárquico, que vigorava desde 1834. No entanto, foi-se verificando que, ao longo dos anos seguintes, tinham sido criadas várias versões melódicas e instrumentais do novo hino, pelo que em 1957 foi aprovada uma sua versão oficial, unificada e definitiva. 

O mais curioso é o nosso hino nacional ser composto por três partes, cada uma dispondo de duas quadras (diferentes) seguidas do refrão (uma quintilha, sempre igual). No entanto, em cerimónias oficiais, apenas é usada a primeira parte, pelo que as restantes duas permanecem praticamente desconhecidas.

Aliás, em abono da verdade -e independentemente das “razões” de Cristiano Ronaldo-, acontece que mesmo a letra habitualmente cantada não é conhecida da maior parte dos cidadãos nacionais. Além de que uma ou outra passagens do hino dispõem de construção ou de terminologia que muitos portugueses não dominam em absoluto.

Por exemplo, toda a gente conhecerá o significado de esplendor, brumas ou egrégios?

Depois, como factor determinante para uma autêntica assunção do significado e da prática deste símbolo pátrio, que é feito, sistematicamente, para o inculcar nas mentes e nos corações dos portugueses? Pouco ou nada…

Nem sempre foi assim. A Primeira República, muito dada a formalismos, tentou criar e manter a vivência de certos valores, ditos republicanos. O hino e a bandeira foram duas dessas preocupações formais dominantes.

Nesses tempos, procurou divulgar-se e promover-se os símbolos da Pátria, onde se incluía o busto da República, ícone de grande significado em termos do novo regime, com nítida inspiração na Revolução Francesa.

 

As tropas portuguesas enviadas para a I Grande Guerra defrontaram-se, em França, com uma relativa e generalizada ignorância de tais símbolos, acontecendo com alguma frequência, no início do seu acolhimento, serem recebidas em cerimónias oficiais ao som dos acordes do Hino da Carta, portanto ainda monárquico. Isto não é anedota nem ficção, mas parece…

Talvez por isso, houve da parte dos responsáveis políticos uma assumida preocupação de divulgação popular do hino, precisamente a representação pátria com contornos mais personalizáveis, pois implicava -e implica- conhecimento e prática, exigindo algum esforço de fixação e interpretação.

Sem acesso aos grandes meios de comunicação audiovisual de massa -rádio e televisão- nem sequer aos registos sonoros -discos-, era nas escolas ou nos concertos públicos, sobretudo pelas bandas militares, que a população em geral podia colher o modelo e procurar o treino. As festas populares, como a da Árvore, eram igualmente pretextos para entoar, em coros por vezes improvisados, as canções patrióticas, com destaque para A Portuguesa.

Algumas empresas ou estabelecimentos comerciais com certa dimensão associavam-se às sucessivas campanhas de difusão dos valores republicanos, por intermédio de folhetos, cartazes e prospectos alusivos. Não deve por isso estranhar-se que certas deturpações, ou variantes, tenham surgido, devido a alguma falta de rigor patente nessas bem-intencionadas demonstrações de fervor patriótico.

Esta sumaríssima alusão a alguns acidentes de percurso sofridos pelo nosso Hino Nacional revela, no entanto, que se mantém a permanente necessidade de o fazer compreender, no seu significado como seu próprio historial. Depois, há que promover o respeito pelo rigor da sua interpretação, plenamente entendida tanto na forma como no conteúdo. Já agora, ensiná-lo a Cristiano Ronaldo.

Só se pode amar aquilo que se conhece.

 António Martinó de Azevedo Coutinho