O Hino Nacional

A PORTUGUESA

Foi em Junho de 2010, no Mundial que decorreu na África do Sul. Antes do jogo em que a Espanha nos afastou do sonho, como é useiro e vezeiro, o caso que mais celeuma levantou foi o ostensivo silêncio de Cristiano Ronaldo durante a execução do hino nacional, que até Pepe, brasileiro oriundo, cantou com visível e assumido entusiasmo. Os posteriores comentários variaram entre a suprema concentração do craque até ao seu eventual desconhecimento da letra do nosso cantado símbolo nacional. Em qualquer dos casos, a atitude não ficou bem ao capitão do clube de todos nós

Aliás, esta questão do futebol esteve nos últimos anos bastante ligada a dois dos símbolos nacionais, o hino e a bandeira.

Scolari, com todos os méritos e defeitos que se lhe apontam, foi capaz de mobilizar uma considerável parte do país ligado ao culto do futebol, incentivando-o a hastear bandeiras por tudo quanto era sítio, independentemente de tal legitimidade, pois aconteceram casos discutíveis, mais ligados ao puro exibicionismo que ao apreço pelos valores pátrios. Ainda hoje se encontram restos dessas bandeiras em inconcebíveis locais.

Já a questão do hino colocou outros problemas, pois implicava, ao contrário do primário e quase instintivo acto de desfraldar um pendão, uma aprendizagem, tanto da melodia como, sobretudo, da letra.

O que é o hino nacional português?

 

Tudo começou, ainda em pleno regime monárquico, como reacção de protesto contra o ultimato inglês de 11 de Janeiro de 1890. A exigência de Londres para que abandonássemos uma vasta zona incluída no denominado mapa cor-de-rosa, entre Angola e Moçambique, desencadeou uma onda de revolta no povo português, a qual incitou o compositor Alfredo Keil a compor um hino de exaltação e a solicitar ao poeta Henrique Lopes de Mendonça a criação de uma letra adequada. Este poema continha, como derradeiro verso, a expressão: “Contra os Bretões, marchar, marchar!” Os Bretões eram, naturalmente, os habitantes da Britânia, os ingleses…

A canção heroica serviu de inspiração para a malograda revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891. Mas, em 1911, após a efectiva implantação da República, esse mesmíssimo hino passou a ser designado como A Portuguesa (por semelhança com A Marselhesa), sendo a palavra Bretões substituída por canhões. Em boa verdade, esse novo apelo parece algo suicidário, porque ninguém no seu perfeito juízo decide marchar contra canhões mas, enfim, o patriotismo entusiástico tem destas contradições.

Em conclusão, a Assembleia Nacional Constituinte, na sua sessão inaugural de 19 de Junho de 1911 consagrou A Portuguesa como o Hino Nacional Português, símbolo da Pátria. Assim foi oficialmente revogado o Hino da Carta, monárquico, que vigorava desde 1834. No entanto, foi-se verificando que, ao longo dos anos seguintes, tinham sido criadas várias versões melódicas e instrumentais do novo hino, pelo que em 1957 foi aprovada uma sua versão oficial, unificada e definitiva. 

O mais curioso é o nosso hino nacional ser composto por três partes, cada uma dispondo de duas quadras (diferentes) seguidas do refrão (uma quintilha, sempre igual). No entanto, em cerimónias oficiais, apenas é usada a primeira parte, pelo que as restantes duas permanecem praticamente desconhecidas.

Aliás, em abono da verdade -e independentemente das “razões” de Cristiano Ronaldo-, acontece que mesmo a letra habitualmente cantada não é conhecida da maior parte dos cidadãos nacionais. Além de que uma ou outra passagens do hino dispõem de construção ou de terminologia que muitos portugueses não dominam em absoluto.

Por exemplo, toda a gente conhecerá o significado de esplendor, brumas ou egrégios?

Depois, como factor determinante para uma autêntica assunção do significado e da prática deste símbolo pátrio, que é feito, sistematicamente, para o inculcar nas mentes e nos corações dos portugueses? Pouco ou nada…

Nem sempre foi assim. A Primeira República, muito dada a formalismos, tentou criar e manter a vivência de certos valores, ditos republicanos. O hino e a bandeira foram duas dessas preocupações formais dominantes.

Nesses tempos, procurou divulgar-se e promover-se os símbolos da Pátria, onde se incluía o busto da República, ícone de grande significado em termos do novo regime, com nítida inspiração na Revolução Francesa.

 

As tropas portuguesas enviadas para a I Grande Guerra defrontaram-se, em França, com uma relativa e generalizada ignorância de tais símbolos, acontecendo com alguma frequência, no início do seu acolhimento, serem recebidas em cerimónias oficiais ao som dos acordes do Hino da Carta, portanto ainda monárquico. Isto não é anedota nem ficção, mas parece…

Talvez por isso, houve da parte dos responsáveis políticos uma assumida preocupação de divulgação popular do hino, precisamente a representação pátria com contornos mais personalizáveis, pois implicava -e implica- conhecimento e prática, exigindo algum esforço de fixação e interpretação.

Sem acesso aos grandes meios de comunicação audiovisual de massa -rádio e televisão- nem sequer aos registos sonoros -discos-, era nas escolas ou nos concertos públicos, sobretudo pelas bandas militares, que a população em geral podia colher o modelo e procurar o treino. As festas populares, como a da Árvore, eram igualmente pretextos para entoar, em coros por vezes improvisados, as canções patrióticas, com destaque para A Portuguesa.

Algumas empresas ou estabelecimentos comerciais com certa dimensão associavam-se às sucessivas campanhas de difusão dos valores republicanos, por intermédio de folhetos, cartazes e prospectos alusivos. Não deve por isso estranhar-se que certas deturpações, ou variantes, tenham surgido, devido a alguma falta de rigor patente nessas bem-intencionadas demonstrações de fervor patriótico.

Esta sumaríssima alusão a alguns acidentes de percurso sofridos pelo nosso Hino Nacional revela, no entanto, que se mantém a permanente necessidade de o fazer compreender, no seu significado como seu próprio historial. Depois, há que promover o respeito pelo rigor da sua interpretação, plenamente entendida tanto na forma como no conteúdo. Já agora, ensiná-lo a Cristiano Ronaldo.

Só se pode amar aquilo que se conhece.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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