Retratos de Gente em Procissão

RETRATOS DE GENTE EM PROCISSÃO
(E FORA DELA)

                                                         30
Tinha estado na noite anterior, no bar do Chapeli, junto da fonte das três bicas. Aí matei saudades da malta que ia entrando e que não via há anos, a começar pelo Chapeli, excelente guarda redes que chegou à cidade apenas com um defeito, o vir defender a baliza do Desportivo (estou a brincar), embora e de verdade verdadinha, a mim, toda a belíssima actividade extra-escolar promovida pelo Professor Martinó, chefe local da banda desenhada, com os alunos da preparatória, como se chamava nesse tempo, rompendo os muros da escola e invadindo as ruas, praças e avenidas, com cartazes a favor da ética e verdade desportiva, do convívio e da paz no desporto, antecedendo e prevenindo a guerra entre os grandes clubes rivais, em especial o desafio do próximo domingo, onde o Estrela subiria à primeira divisão se ganhasse, e o adversário, o Desportivo, tudo faria para que tal não acontecesse, como não aconteceu, o Desportivo ganhou e o Estrela ficou, não me convenceu, e se contribuiu para o civilizar das minhas atitudes futebolísticas, ou perante o futebol de bairro, nunca mexeu, nem um milímetro, a minha paixão clubística herdada da família e fortemente mantida pelo meu primo João Lagem, barbeiro do Arco de Santo António, que me levava pela mão ao futebol, todos os domingos, lenço atado com quatro nós na cabeça como chapéu, e rádio pequeno ao ombro, ouvindo os relatos dos jogos da capital, que isso do futebol, em todo o País, era no mesmo dia e à mesma hora. (…)

Este denso, vivo e fascinante parágrafo inicial do capítulo 30 (já pelos finais do livro) quase me fez desistir de escrever e divulgar o presente texto. Não estou habituado a ser assim tratado, com uma avaliação tão generosamente crítica, pelo que um certo íntimo pudor quase travou o meu impulso. Mas o Rui Aragonez Marques citou duas facetas importantes da minha vida, a permanente paixão pessoal pela BD e a intervenção profissional que sempre procurei colocar ao serviço dos alunos e da comunidade. Aquela Operação Futebol, desencadeada a 8 de Maio de 1977 -tinha ele 20 anos e também foi tocado- significou um dos momentos pedagógicos mais conseguidos no seio daquela fabulosa equipa que era então constituída pelos colegas e alunos da Escola Preparatória Cristóvão Falcão. E esta solidariedade não podia passar em claro. Mas não produziu, de todo, uma troca de piropos.
Lembro-me do Rui. Os anos de quase uma geração que nos separam não anularam a proximidade geográfica que nos ligou, pois a Rua do Pirão e a da Mouraria desaguam no mesmo centro nevrálgico, o Largo dos Combatentes. Só que ele era um gaiato ou um rapaz, quando eu era já homem.
Mas a cidade mais a gente em procissão ou fora dela são as mesmas. A única diferença é que eu teimei em permanecer e ele preferiu o exílio. Creio que foi dele a mais correcta e lúcida decisão. Depois, e isso reflecte-se claramente no seu livro, ganhou a bênção dos desertores, que magistralmente o (também exilado) João Miguel Tavares explanou no prefácio que escreveu para as minhas Crónicas Lagóias. Ou seja, o Rui puxou a pele a memórias engelhadas, retocou velhas tristezas, deu vida a experiências medíocres, amou à distância uma cidade quando o difícil é amá-la nela permanecendo. Resumindo o João Miguel Tavares, direi que o Rui deixou de aturar os defeitos de Portalegre, mas mesmo assim foi capaz de se manter simultaneamente nostálgico e lúcido. Por isso aquelas pessoas de carne e osso estão vivas, na procissão ou fora dela, assim como as suas ruas permanecem habitadas e frenéticas após a passagem do ritual cortejo, mesmo quando pelo autor, deliberadamente ou por mero engano, lhes são trocados os nomes. Mas não as identidades.
Enquanto o historiador rebusca as cinzas já frias, habita as mesas anatómicas dos necrotérios e se preocupa com dados estatísticos, perseguindo o mais absoluto rigor, o cronista, quando se atreve ao bisturi, rasga carne quente e faz sangue, mas logo compensa a ferida com uma carícia ou um beijo, mexe em gente que protesta ou agradece, coloca ficção onde falha a memória, muito mais interessado nos registos ainda palpitantes que nos relatórios científicos. Foi isto que o Rui Aragonez Marques agora exemplarmente cumpriu.
No prefácio dos Retratos, lembra e bem Rui Cardoso Martins Memórias, as do Oco, de Castelo Júnior, por acaso (?) também um professor que viveu exilado de Portalegre e por longos anos. Compondo um terceto de frescos citadinos, bem lagóias, junto-lhes E se eu gostasse muito de morrer, ainda que esta obra aborde mais a morte do que a vida. Mas é também uma legítima crónica desta Portalegre bem pouco bafejada pela sorte de registos personalizados das suas realidades comunitárias.
Li o livro de Rui Aragonez Marques dum fôlego. É certo que alguns dos seus capítulos se me afiguraram algo monótonos, sobretudo quando ele tratava gente e factos de todo arredados da minha própria experiência. Mas logo adiante retomava o apaixonante fio narrativo das vivências comuns, ainda que praticadas em diferido. O conjunto é magnífico, servido por um estilo pessoalíssimo que constitui um dos seus mais originais atractivos.
Depois, há aqui uma enriquecedora coincidência (?) nas obras destes dois Ruis portalegrenses, protagonizada pela cumplicidade doutro incontornável lagóia, Fernando Mão de Ferro e a sua (nossa!) Colibri.
Recordo alguns conceitos que Lobo Antunes usou quando um dia apresentou o primeiro livro de Rui Cardoso Martins, saudando o exemplo de paciência, orgulho e solidão que aquela obra significava. Junto-lhe os outros conceitos que Rui Aragonez Marques agora explicita na contracapa do seu livro, o esforço de memória, a surpresa, a saudade e o humor. Creio que, juntando todos estes ingredientes nas proporções certas e mexendo-os sem os agitar (como recomenda James Bond), se obtém uma deliciosa receita, um atraente produto. A prova está aqui, à nossa disposição. Experimentem-no que vale a pena…
Mas não se deve abusar da dose (é forte!) e serve-se fria.

Com um abraço grato, amigo e de parabéns ao Rui Aragonez Marques, do

António Martinó 

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