Calvet de Magalhães – 2

Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães

Nasceu em Lisboa, no dia 8 de Março de 1913, no seio duma família de fortes tradições liberais, que contou com artistas plásticos, diplomatas, escritores e jornalistas entre os seus membros. Frequentou o Liceu Passos Manuel, após o qual ingressou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde se licenciou em Pintura. Ao mesmo tempo, concluiu o Curso de Cenografia na Secção de Teatro do Conservatório Nacional de Lisboa.

Ingressando na carreira docente, enquanto praticava as artes plásticas, notabilizou-se em ambos os campos de intervenção social. Como pintor, activo elemento da segunda geração dos modernos, usou o pseudónimo Magalhães Filho e recebeu diversos galardões, como o Prémio Nacional de Arte Luís Lupi e o Prémio Amadeu de Sousa Cardoso. Também exerceu jornalismo e foi publicista.

Mas a educação seria o cenário privilegiado da sua acção pública. Além de professor, foi inspector, orientador de estágios e metodólogo no âmbito da disciplina de Desenho, sobretudo no Ensino Técnico.

Depois do Curso de Ciências Pedagógicas, obtido na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, ingressou no estágio para professor do 5.º grupo (Desenho) do Ensino Técnico, na Escola Jácome Raton, em Tomar. Ficou habilitado para a carreira pela aprovação no Exame de Estado, subordinado à tese Metodologia do Bordado, em 1947. Tornou-se professor efectivo na Escola de Artes Decorativas de António Arroio.

Em 1956, quando tinha apenas 43 anos, foi nomeado director da Escola Elementar Francisco de Arruda, em Lisboa, cargo que exerceu até ao seu falecimento.

 

Esta escola fora criada já nessa década, em Alcântara, sendo destinada ao ensino de jovens do sexo masculino que pretendiam prosseguir estudos nas áreas Comercial e Industrial, dependendo da Escola Técnica Industrial Marquês de Pombal. A inauguração do novo edifício na Calçada da Tapada concedeu-lhe autonomia e coincidiu com a nomeação de Calvet de Magalhães.

Este estabelecimento de ensino tornou-se a razão fundamental da sua missão educativa. Profundamente dedicado à causa da administração escolar, ele transformou a sua escola num campo experimental, dotado de permanentes instrumentos colectivos de avaliação e reflexão, onde foi ensaiada com sucesso a maior parte das inovações que o sistema iria acolher e generalizar.

Ao mesmo tempo, a sua acção teve repercussões noutras instituições onde foi membro, conselheiro ou assessor, como a Comissão do Estatuto da Educação Nacional, o Centro de Estudos de Pedagogia Audiovisual, a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto de Alta Cultura, o Conselho Pedagógico do IMAVE ou a Comissão Permanente dos Seguros Escolares.

Era dotado com a rara capacidade de mobilizar pessoas e interesses em torno de projectos integrados e de realizações avulsas, dentro da escola ou fora dela. Entre uma infinidade de realizações, impossíveis de contabilizar na sua globalidade, salientam-se experiências pedagógicas de coeducação e de integração de alunos deficientes, a leccionação de anos experimentais (7.º e 8.º), a utilização sistemática dos meios audiovisuais e de práticas de interdisciplinaridade. Entre as iniciativas de natureza cultural mais abrangentes, destacam-se sessões pioneiras, aos sábados, com projecções fílmicas e palestras, com participação de actores, realizadores, escritores, artistas, pedagogos e outros criativos e, sobretudo, a fundação da Chiquinha, um infantário que ficaria célebre, com as suas áreas infantil e primária, que acolheriam filhos de professores e funcionários da zona.

Em 1957, ele foi um dos principais promotores e militantes da Associação Portuguesa para a Educação através da Arte, de que seria membro.

Desde 1938 até à morte, Calvet de Magalhães foi incansável colaborador de inúmeras revistas e jornais, como Escolas Técnicas, Escola Portuguesa, Revista Portuguesa de Pedagogia, Seiva, Divulgação Pedagógica, Boletim CODEPA, Boletim da Mocidade, Vida Mundial, Flama, A Capital, O Professor ou Diário de Lisboa. Neste vespertino dispunha duma secção semanal, desde 1959, que marcou influente posição pedagógica na época.

Nunca escondendo a sua inclinação pela independência da função docente, apoiou abertamente e deu acolhimento, na sua própria escola e desde 1969/70, ao denominado Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário, de vocação progressista. Daqui sairia o futuro Sindicato dos Professores. Calvet de Magalhães, sobretudo na revista O Professor, defendeu então explicitamente o direito de associação dos docentes.

Toda esta sua corajosa actividade pública valeu-lhe um processo disciplinar, em tempos do ministro José Hermano Saraiva. Mais tarde, já sob a gestão ministerial de Veiga Simão, esse processo seria arquivado.

Foi no âmbito da Reforma do Sistema Educativo por este promovida, que Calvet de Magalhães voltaria a assumir novas e claras posições, lembrando o atraso, os prejuízos e as discriminações sociais que dessa reforma resultavam para a causa da educação nacional, dada a insuficiente e restrita abertura do projecto à discussão pública. Ele levantou e defendeu a questão decisiva da autêntica democratização do ensino, que deveria efectivamente garantir o acesso dos alunos mais desfavorecidos ao prosseguimento dos estudos. Pela sua experiência, bem sabia do que falava…

Em Maio de 1964, decorreu no cinema Roma, em Lisboa, o primeiro Festival Internacional do Filme Didáctico, tendo sido Calvet de Magalhães um influente consultor da iniciativa.

Em 1968, com a instalação do denominado Ensino Preparatório, de que Calvet de Magalhães seria o principal inspirador, o seu estabelecimento de ensino passaria a designar-se Escola Preparatória Francisco de Arruda.

 

Além dos seus inúmeros artigos dispersos pelas publicações atrás citadas, ele redigiu obras de outro fôlego, como Aprenda a Desenhar, recordado no anterior texto desta série dedicada a Calvet de Magalhães. Mas devem ser ainda citados O Que é a Arte Infantil, A Criança e o Teatro (de parceria com Aldónio Gomes), O Desenho do 1.º Ciclo da Escola Técnica, O Desenho do 2.º Ciclo da Escola Técnica, Tecnologia das Matérias-Primas, Bordados e Rendas de Portugal, Missão de Orientação do Ensino Profissional no Estado da Índia, O Desenho e as outras Disciplinas do Ciclo Preparatório, Organização dos Exercícios de Desenho do Ciclo Preparatório, etc.

De destacar o espírito verdadeiramente inovador e pioneiro de Calvet de Magalhães que o levou, ainda jovem na casa dos vinte anos, a dirigir, com Pinto de Magalhães, uma revista de quadradinhos –O Pirilau– verdadeiramente popular e com um preço muito acessível. Tal publicação atingiu 63 números, entre 1939 e 1941.

Em 1964 e 1968, foi o principal promotor de gigantescas exposições subordinadas ao tema O Natal visto pelas Crianças, assim popularizando a prática da expressão plástica infantil.

Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, foi promulgada uma determinação oficial que fazia cessar todos os cargos directivos nas escolas, implicando o regresso dos docentes destacados nessas funções aos respectivos locais de origem.

Calvet de Magalhães não suportou a iminente separação da escola a que dedicara a maior e melhor parte da sua vida de educador e de gestor. Deprimido, suicidou-se nas instalações da E. P. Francisco de Arruda.

Foi no dia 29 de Agosto de 1974.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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