Calvet de Magalhães – 3

MEMÓRIAS PESSOAIS DO PROF. CALVET DE MAGALHÃES

Numa das minhas passagens pela antiga Escola do Magistério Primário de Portalegre, pelos inícios dos anos 60, as férias do Carnaval foram preenchidas por aquilo a que nesses tempos se designava por um Curso de Aperfeiçoamento. Como docente da disciplina de Desenho, coube-me viver esses dias em Lisboa, com outros colegas, precisamente na Escola Francisco de Arruda, tendo como mestre da nossa actualização o Prof. Calvet de Magalhães.

Vivia ele então, em pleno, o usufruto dum estabelecimento de ensino moldado e orientado à sua maneira. O contacto, inesquecível, com o Homem e a sua Obra marcaram-me de forma decisiva. Os ensinamentos práticos e a profunda filosofia de vida e de profissionalismo que irradiavam de Calvet de Magalhães impunham-se pela natural convicção e lógica de tais princípios.

Ficámos amigos e nunca mais deixámos, embora à distância, de manter um diálogo regular. Dele recebi sucessivas mensagens de qualidade, como publicações, calendários e postais festivos, quase sempre recheados com os desenhos e pinturas infantis, que ele selecionava e promovia com incansável dedicação.

 

Quando, a partir duma iniciativa do meu amigo Francisco Queirós, preenchi alguns volumes da sua colecção didáctico-pedagógica Magistério Primário Complementar (Atlântida Editora, Coimbra), foi Calvet de Magalhães quem, generosamente, considerou o meu primeiro trabalho publicado (O Desenho na 5.ª Classe) como uma das melhores obras do género até então produzidas sobre o tema. Deixou tal testemunho na sua coluna semanal do Diário de Lisboa.

A verdade é que esse trabalho, de âmbito exclusivamente dedicado aos docentes, atingiu a invulgaridade duma terceira edição (1967, 1968 e 1969) …

Vivia eu o rescaldo do exigente e complicadíssimo estágio profissional em Viseu, quando, em Agosto de 1974, fui surpreendido com a brutal notícia do suicídio de Calvet de Magalhães. Pouco tempo antes, outra desagradável surpresa me tinha colhido, a propósito da morte -também de todo inesperada- do Padre João Saraiva Diogo, mestre e companheiro mais velho de saudosos tempos da JEC e da MP em Portalegre.

A memória do Prof. Calvet de Magalhães prolongou-se no tempo, de forma muito grata, ainda que também inesperada.

O primeiro e decisivo pretexto aconteceu logo em 1975, quando colegas amigos me fizeram entrar na alta-roda nacional das questões curriculares inovadoras. Lembro-me bem duma reunião pedagógica, realizada no auditório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil onde se reuniram as equipas experimentadoras dos novos programas do Ensino Preparatório. Aí conheci o Arq. José Antunes da Silva, que tinha sido uma dos mais fiéis colaboradores de Calvet de Magalhães. A comum admiração por este ligou-nos desde logo e para sempre.

Depois, sucessivamente, tive ocasião de privar com algumas das personalidades a quem a Educação, sobretudo na área da Expressão Visual, muito ficou devendo. Não foi mera coincidência a circunstância de alguns destes professores terem sido discípulos, admiradores ou companheiros de jornada do mestre desaparecido. É o caso, entre outros, de Leonor Oliveira, Isabel Cottinelli Telmo ou Rosinda Vieira.

Devo acrescentar a esta lista Elisabete Oliveira, ainda que esta tenha sempre revelado uma faceta crítica para com certos conceitos defendidos por Calvet de Magalhães, nunca excluindo uma sincera admiração pela sua obra global e pela sua profunda e positiva influência pessoal no prestígio conseguido pelas artes visuais no seio da escola portuguesa.

 

O espírito, memória e obra do Prof. Calvet de Magalhães foram perpetuados no testemunho daqueles que, com legítimo orgulho, se consideraram sempre com mo seus continuadores, adaptando com naturalidade toda a moderna inovação que tal herança apenas confirmava.

O pioneirismo que as práticas e as vivências quotidianas da Escola Francisco de Arruda comportavam antecipara muito daquilo que o Ensino (ou Ciclo) Preparatório instituiu formalmente a partir de 1968. E, dentro da nova estrutura curricular desta fase de estudos, a Educação Visual receberia uma profunda e quase revolucionária influência dos conceitos que Calvet de Magalhães defendia e praticava.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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