Antigos alunos da Escola do Magistério Primário

emppAqui, ontem, evoquei a pioneira reunião de antigos alunos do liceu local. Hoje lembro um outro encontro, similar, também acontecido em Portalegre, protagonizado pelos alunos do segundo curso da antiga Escola do Magistério Primário local.

Aconteceu em 2002, portanto há dez anos.

Os alunos do curso de 1960-1962 reuniram-se então, e deixaram um testemunho sob a forma duma pequena mas significativa brochura, onde ficaram registados nomes, contactos, testemunhos, fotos, desejos, sonhos…

A Comissão Organizadora, que realizou o empenhado trabalho traduzido no inegável êxito do evento, foi constituída por Alzira de Fátima Semedo Picado, Eduardo Sousa Lima (Du), Ilídia da Conceição Faria Soares, Joaquim Vicente Alexandre, José Maria Pinheiro Moura e Maria Odete Ventura Gigante Nabais.

O antigo professor de Didáctica Manuel Inácio Pestana resumiu no seu breve testemunho o sentimento dominante naquele encontro dos jovens de há quarenta anos atrás…

ilustr 01É verdade que, nessa altura, ficou desejado, assente e passado a escrito o próximo encontro também em Portalegre, neste ano preciso que agora vai findando, aquele em que se festejou o cinquentenário do curso. Infelizmente, não aconteceu. Porquê?

Provavelmente, porque mudaram as circunstâncias, porque –com certa naturalidade- esfriou algo do entusiasmo inicial, porque se separaram, porque perderam o contacto, sobretudo porque a doença e a morte atingiram alguns dos elementos do grupo.

Também porque, nos tempos que passam, não sobra muita vontade para festejar, mesmo que o sentimento o justifique, mesmo que a vontade permaneça. Talvez por tudo isto, um pouco…

Não são fáceis os dias que se vivem.

Por isso, aqui fica a memória possível de há dez anos, na reprodução de uma pequena parte do material produzido e na foto de família.

curso 2 emppFica também o desejo de que, para o ano que aí vem, ou noutro qualquer mais para diante, ainda sobre o ânimo nessa gente notável de 1960-1962 para festejarem em aniversário conjunto, cinquenta e tal, sessenta e picos, setenta mais uns pozinhos, de amizade, das recordações do sofrimento e da glória, de vida, afinal.

E até à eternidade.

Uma página de memórias da guerra – 5

Vivia eu então na velha casa da Rua da Mouraria e, com a minha mãe, visitava com regularidade outras duas, igualmente apaixonantes: a Pensão Vinte e Um, na Rua dos Canastreiros, e a residência do Engenheiro Maldonado, ao Rossio, nos altos do Café Luso.

Pela mão de dona Rosalina percorria o seu jardim, com belas flores, ou tomava refeições na sua mesa, na bela varanda corrida junto àquele, onde era frequente conviva o dr. Reis Pereira, professor do Liceu. Mas os meus locais predilectos eram a gigantesca cozinha, onde me atraía a complexa tarefa do chefe, cujos alvo barrete e frenética segurança me impressionavam, ou a pequena saleta de estar, o coração daquela máquina hoteleira, onde o telefone, com a manivela da campaínha num grande corpo de madeira, mais o microfone fixo e o auscultador móvel, me fascinavam… Até dispunha da reduzida lista dos assinantes locais inscrita num cartão que baloiçava, pendente duma longa corrente metálica.
Na casa de dona Judite Maldonado residiam outras profundas atracções, sobretudo duas. Uma destas consistia no falso armário, embutido numa parede da cozinha. Na verdade, abertas as suas opacas portas de madeira pintada de branco, ele transformava-se na entrada de um escuro e comprido túnel, cuja escadaria descendente nos conduzia directamente à ruela que liga a praça à Estrada Nova. Porém, era o sótão daquela casa que me disponibilizava o seu maior encanto, uma dispersa e incompleta colecção do Papagaio, a fabulosa revista infantil onde conheci Tintin e os seus companheiros de aventuras. Creio que este repetido e frequente encontro mudou para melhor a minha vida. Foi ali, muito mais do que nos tais livros únicos da escola do meu tempo, que aprendi a juntar as primeiras letras… Foi ali que descobri, muito mais do que nos atlas ou nos manuais da especialidade, como eram e onde ficavam os diversos mundos deste Mundo. Foi ali, em suma, que conheci os segredos e os mistérios de uma linguagem que ainda hoje me apaixona, a da banda desenhada ou das histórias aos quadradinhos, como nesses tempos se dizia. E isto constituiria, quase quarenta anos depois desta infantil descoberta, um adulto instrumento de afirmação profissional e, até mesmo, de sobrevivência pessoal. Mas isso é uma outra história que não cabe, obviamente, nesta evocação dos tempos da guerra…

Esta acabou, pelo menos na Europa próxima, e lembro-me claramente do dia em que Portalegre festejou o triunfo dos aliados, quando da capitulação da Alemanha nazi. No largo do Café Vitória -a designação revelou-se apropriadíssima- juntou-se pela tarde uma multidão em delírio, prolongando-se depois em ruidoso cortejo iluminado por archotes a longa marcha nocturna pelas ruas da cidade. Também saberia, anos depois, que a contestação cívica e política ao Governo de Salazar constituíra afinal, um pouco por todo o país, um nítido objectivo dos manifestantes. O pretexto fora portanto aproveitado com rara oportunidade.
Li e reli mais tarde a irónica e inteligente nota divulgada a propósito pel’A Rabeca, um jornal portalegrense de oposiçãoao regime: “Não se publicou na semana passada o nosso jornal. Embriagado pela notícia da Vitória, não foi possível ao pessoal de A Rabeca dedicar-se, com a indispensável calma, à sua habitual tarefa. Seja tudo em desconto dos nossos pesadelos… por amor da Paz!” Num periódico devidamente Visado pela Censura (estávamos em Maio de 1945), como escapou esta implacável intervenção política ao lápis azul do zeloso funcionário censor?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Antigos alunos do Liceu

Estamos na antevéspera do dia que, assim se espera, poderá juntar em convívio alguns (muitos!?) dos antigos alunos do Liceu de Portalegre.

Como os amigos mais próximos sabem, por imperiosas e inadiáveis razões logísticas, não poderei comparecer, repetindo a bela jornada de 2010.

De qualquer forma, antecipo um encontro emotivo entre amigos, alguns dos quais só nestes momentos conseguem rever rostos e evocar memórias, uns e outras muito gratos.

O Florindo (quem havia de ser?) enviou-me há dias alguns documentos daquele que terá sido o primeiro duma série de encontros similares ao do próximo sábado.

Aqui os reproduzo, como uma espécie de “aperitivo” dessa reunião.

Acontecido em Portalegre no dia 8 de Junho de 1963 (quase há cinquenta anos!), o evento foi bem preparado e muito participado. Os números do completo programa e o seu significado revelam o cuidado posto na preparação duma reunião promissora, a que algumas outras se foram seguindo ao longo das décadas seguintes.

O Rossio e o plátano, o velho Liceu, a Sé Catedral, a Quinta da Saúde eram e são locais míticos da cidade.

A ementa, por sua vez, revela um certo compromisso entre o gosto clássico e a gastronomia típica (ou regional), quando esta era ainda incipiente…

O pin e a placa de identificação são primorosos na sua eficaz simplicidade, sobretudo porque utilizaram a cortiça (era a Robinson ainda uma realidade) e a forma dum tarro, assim como as cores (o amarelo torrado e o negro) e o brasão da cidade (o castelo).

Finalmente, a foto de família, bem demonstrativa da adesão concedida à iniciativa.

Para matar saudades e para criar o desejo de reviver emoções daqui a dois dias, aqui fica esta retrospectiva assim como a renovação do apelo à participação.

Um abraço a todos os que vão estar em Cascais, do

António Martinó de Azevedo Coutinho

A Rua Direita – 8

Já percorremos metade da Rua Direita, e chegámos ao Largo dos Correios. Aqui, nesta Ronda do Dia, estamos perto do consultório médico do autor e, portanto, “jogamos em casa”…

Estou no largo do Correio
Deixo de lado o Sogalho
Agora “sim” que é trabalho!
Agora é que empunho a faca
E abro de meio a meio
E de alto abaixo “O Casaca”
Com que então: “Vamos a isto”
“Grita você no jornal
“Berra você no farol!
“Com que então: “Vamos a isto”
“Dê lá você o sinal
“Comece você o rol:
“Mande arranjar; afinal,
“Aquele lindo urinol!
“Tem sempre a casa repleta
“De gente boa e selecta!
“Barulho de ensurdecer!

Nove mesas de Chofer
Mas é tudo rapaziada
Diligente e delicada
Sempre prontos a a’tender
P’ra tudo o que se quiser!
Vejo no meio da sala
Aquilo lindo rapaz!
O traje que sempre traz
Parece um traje de gala:
“La dame aux camelies”
Há banqueiros e doutores
Há dois que são duas flores!
E vejam lá: entre tantos.
Só aqueles dois são Santos!
Há artistas e há pintores
E há até o Rosiel
Que é fotógrafo a pastel!
E quem tiver muita pressa
Recomendo-lhe que peça
Um cafezinho ao Cassola
Vem quentinho, até consola!
Não me posso demorar
– Senão só acabo em Maio – !
E chego à loja do paio!
Que chouriço tão bonito
Que vende o amigo Brito
Tudo feito com tal esmero
Que nem se sente nos dentes
P’ra doentes sem tempero!

Mas que é isto que vejo?
Que diabo este manejo
Aqui à porta do Brito?!…
Vejo o caixeiro aflito
Com um recibo na mão
E o Sancho a dizer que não,
E falam os dois de apito:
……………………………
……………………………
Mas que grande confusão!
Perceberam? Eu cá não!

Na segura companhia de Carlos Bentes de Oliveira, continuamos a digressão pelos rostos e recantos dum passado saudoso.

Já em pleno Largo dos Correios, então cheio de movimento, encontramos a barbearia de Manuel Alexandre Ribeiro Sogalho.

A referência seguinte, ao Casaca, é relativa ao Café Central, propriedade de João Diogo Casaca, que também era director do semanário A Rabeca, de fortes tradições republicanas, oposicionista ao regime do Estado Novo, então em vigor.

As mesas de Chofer são uma alusão aos taxistas (carros de praça) ali radicados, pessoas sempre disponíveis e extremamente populares, de apelidos ou anexins que ficaram na cidade: Bretanha, Durão (João Pequenino), Correia (Ben Barek), Caroça

La Dame aux Camelies era Joaquim Roma Alves de Sousa, bancário, cavalheiro de apresentação e trato primorosos, sempre com uma flor na lapela…

As notas de que nos servimos como base apenas sugerem a identificação de um dos dois Santos, o Dr. Adelino, Secretário do Governo Civil. Atrevo-me a sugerir que o outro fosse, eventualmente, Abel Santos (1888-1963), que chegou a frequentar o Café Central, nesses tempos aí então dominados pela célebre tertúlia de José Régio/Feliciano Falcão.

O fotógrafo Rosiel, Luís de Assunção, fixado em Portalegre em 1934, era um verdadeiro artista no seu trabalho. Aliás, era também um talentoso pintor e foi pai do malogrado D’Assumpção, que aqui viveu alguns anos, antes de atingir a fama no mundo das artes plásticas. O seu estúdio esteve instalado na esquina da Rua 5 de Outubro, frente ao Largo 28 de Janeiro.

O senhor Cassola terá sido um dos empregados do Café Central, mas a verdade é que o paradigma destes diligentes funcionários foi Carlos Matias Duarte, que já ali trabalhava nessa data.

A salsicharia de José João de Brito (carinhosamente conhecido como aperta-paios) era justamente afamada e possuía fabricação própria. Situava-se entre o Largo e a Porta da Devesa, a seguir à sapataria e loja de consertos de calçado de Francisco Sanches.

O referido Sancho deverá ser António Sancho Clemente, com loja de representações (e stand de automóveis Austin) frente à salsicharia. No entanto, poderá haver aqui alguma confusão de nomes, pois acontece que Francisco Sanches (sapateiro) era um reconhecido artista no assobio (apito?), chegando a exibir esses dotes em espectáculos públicos.

Carlos Bentes de Oliveira, nas suas notas, revela-se incapaz de descodificar estes versos. Eu acompanho-o nessa dificuldade…

 Estamos na fase final da descida da Rua Direita…

Greve à greve

Detectam-se indícios de um deslize gradual da radicalidade da greve. As pessoas dizem-se desiludidas. Alguns professores com quem falei interrogavam-se acerca dos efeitos da greve, da longa arrecadação de capital que o Estado alcança, dos resultados que não esperam divisar de imediato, do momento tardio em que a greve é convocada. Verdade é, decerto, que as pessoas têm a tentação calculista de buscar no efeito da greve os seus próprios fins. Para elas, a greve não passa da reivindicação de um direito de protesto a que falta a consequência demandada. Perguntam-se: “Fazemos greve. E depois?”.

Uma greve não é, como se sabe, um acto gratuito: passa por um processo de legitimidade social e colectiva e decorre de uma vontade expressa de protesto, quando os grupos sociais se sentem esmagados por uma sensação de ausência de justiça. Não se trata apenas da reacção a uma sensação desconfortável, mas uma acção com uma finalidade que confere significado à dignidade das pessoas. É claro que certas formas de expressar o direito à greve, desenraizadas da vitalidade dessa experiência, retiram-lhe o tal vislumbre de inquietação transcendente. E se se perder o sentido de poder que as palavras têm de ferir e curar, perde-se igualmente o lugar vital que elas ocupam nas nossas vidas. É por isso que a “guerra dos números”, normalmente acicatada pelas instâncias do poder para desacreditar ou minorar a natureza das greves, excede e esvazia o significado daquilo que está em causa.

Outras pessoas com quem falei asseguraram-me a extraordinária dificuldade financeira por que passam e que lhes condiciona a participação neste gesto reivindicativo – sentem-se reféns de uma espécie de imposto da indignação. Seria uma impertinência criticá-las ou imputar-lhes falta de generosidade. É evidente que a greve, última (?) figura da agenda reivindicativa, exige sacrifícios que servem, se entendermos o significado prospectivo desta unidade de esforços, para evitar sacrifícios maiores. É por isso que, pelo exemplo de alguns, participamos dos privilégios que a todos foram concedidos. Por vezes, como ensina Bede Jarrett “O mundo não corta com o mal, porque não é suficientemente colérico. O mundo precisa de cólera”.

Muitas vezes aconteceu, nas escolas, a luta de alguns ter abonado em favor de outros (apanhados na jornada), até no mísero episódio do fecho da escola e da destrinça entre quem aderiu ou não à greve. Tem-se dito que a classe docente nunca teve uma natureza unitária especial. E é verdade. Não nos basta reivindicar uma vaga unidade institucional e corporativa, quando, nos momentos-chave somos incapazes de um instinto de tribo. Para os professores, a questão da violação das regras, talvez por defeito profissional, é sagrada e talvez por isso lhes seja difícil deixar o livro de ponto na estante. Por outro lado, a presença do livro de ponto – sinal da ausência do docente – não espelha necessariamente que alguém tenha agido desinteressadamente pelo bem comum ou em conformidade com a agenda reivindicativa e ideológica. Quando os sindicalistas chegam às escolas e medem os resultados de uma greve pelo número de livros de ponto abandonados na estante, aos primeiros tempos lectivos da manhã e da tarde, podem, certamente, estar a elaborar uma estatística da reclamação, do ócio ou da preguiça. Mas talvez os professores pudessem alijar o peso das regras por que tanto se regem. A esse propósito afirma Timothy Radcliffe: “Se alguém pensa que a moral tem a ver com a submissão às regras, poderá avaliar a qualidade de uma vida moral pelo número de vezes em que se obedeceu ou não a essas regras”.

Mas a moral é mais do que a consideração ou a transgressão das regras. A moral é estar com aqueles que passam pior (trabalhadores e patronato) e isso nem sempre é um dado estatístico – era Graham Green quem dizia que só “descobrimos que temos alma quando o sofrimento do outro nos faz sofrer”. O resto é retórica.

 António Jacinto Pascoal
Professor

Uma página de memórias da guerra – 4

Pelos finais de 1940, o meu avô foi a Lisboa. Demorou-se por lá uns dias e, quando voltou, mostrou-me os postais, as revistas e outras lembranças que trouxera da sua ida à Exposição do Mundo Português (“História Pátria em gesso” – assim a designou uma reportagem ao tempo publicada n’A Voz Portalegrense…). Anos depois, em meados de 1944, “vinguei-me” no deslumbramento causado pela “caseira” Exposição da Vida Corporativa do Distrito de Portalegre, patente no velho edifício da Fábrica Real, na Corredoura. E, posso garanti-lo, pouco lá havia em gesso; era quase tudo de carne e osso.
A propósito, logo ali ao lado, eu continuava a regularmente rasgar alguns calções (e às vezes as próprias pernas) no escorrega do parque infantil (o original, entenda-se!), então ainda bem novinho porque estreado a 10 de Junho de 1940.
Pelos nove/dez anos já me era concedido um maior alargamento dos horizontes recreativos. Ainda nos limites da Corredoura, eu podia ir, acompanhado por outros, até às fronteiras virtuais que a separavam da zona da Fontedeira e do Jardim Público. Eram sobretudo os territórios dominados pela colina do Piolho onde estava, e permanece, a capela do Calvário. Antes era campo aberto de ralo olival e hoje, já muito depois das terraplenagens exigidas pelo Mercado Municipal que o cavaram em falésia, tudo aquilo está encerrado em altas, opacas e tristes muralhas. Havia ali, ao tempo, dois campos de futebol para a malta, um, bem liso, sobre o depósito de água que abastecia a fábrica de lanifícios (onde depois foi instalado um parque infantil jurássico e, mais recentemente, um museu de arqueologia lúdica ao ar livre). Foi denominado “Salésias” (em homenagem ao antigo e mítico estádio do Belenenses!?). O outro ficava entalado entre a parede do lado nascente do estádio da Fontedeira e a alta cerca de São Bernardo, já próximo do casario ainda ali existente. 

Aliás, foi precisamente nestes tempos da guerra que o parque da Corredoura atingiu o pleno estatuto de privilegiado centro de actividades de lazer (e cultura) da cidade. O enorme “casarão” da Fábrica Real albergava inúmeras oficinas e era sede da Banda Euterpe e da Sociedade Recreativa Robinson, situando-se no seu pátio traseiro a vasta esplanada do Cine-Parque. Ao fundo da longa Corredoura de Cima ficava o quartel e, na Corredoura de Baixo, situava-se uma torrefacção de café e, sobretudo, um colégio religioso para meninas ricas, com farda e tudo. Na primeira metade da década de 40, o lago do parque foi adaptado a piscina municipal, com grande afluência de interessados, que até ali podiam usar (!?) um barco a remos. Porém, esta experiência “desportiva”, tanto quanto me lembro, durou pouco… Em Julho de 1944, numa pequena rotunda implantada no passeio central do parque (a Corredoura do Meio), seria solenemente inaugurado o memorial dedicado ao malogrado poeta José Duro pela Academia portalegrense, décadas depois incrivelmente destruído em nome do progresso. No ano seguinte, no espaço fronteiro a esse monumento, foi disponibilizado um serviço de leitura pública, que atingiu assinalável êxito. Sabendo já ler, fui eu próprio um assíduo frequentador dessa biblioteca, cuja “sede” e os bancos anexos, um conjunto dotado de curiosos azulejos decorativos com temas regionais, seriam igualmente “pulverizados”…
(Um simples e quase absurdo aparte. Nos inícios do século XXI, a cidade foi objecto de programas de requalificação e de modernização. Estas intervenções ditas urbanísticas fariam corar de inveja o bárbaro Átila, pois destruíram, só na Corredoura: o memorial José Duro, o lago, o parque infantil, a “biblioteca” e os bancos, assim como todos os respectivos azulejos. Teriam decidido os seus responsáveis, como principal objectivo traçado para aquela zona, a brutal eliminação de todos os marcos “sobreviventes” dos tempos da guerra? Ou isto foi apenas um efeito colateral do bombardeamento, perdão!, da requalificação?)
As obras de verdadeira modernização de Portalegre pelo início dos anos quarenta (do século XX, obviamente!) centraram-se no alargamento (após prolongadas polémicas e alguns adiamentos!) da Rua de Elvas, ao tempo a mais importante entrada na cidade, logo valorizado pela construção da sede da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência. Mas uma pequena tragédia acontecera entretanto por aqui a 15 de Fevereiro de 1941 -foi um sábado- quando um ciclone atingiu quase todo o continente e a Madeira, produzindo vítimas, inundações sem conta e uma enorme razia nas árvores do Jardim Público e do Cemitério, principalmente. Ficámos sem luz na cidade durante uma semana; porém, já tinham terminado os tais obrigatórios treinos do “black-out”…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

A Rua Direita – 7

O troço da Rua Direita hoje proposto percorre o restante da sua parte inicial, concluindo a Rua do Comércio e entrando pelo Largo e Rua Luís de Camões, até ao Largo dos Correios:

Oiço na outra faceira
Que lhe fica quase a par
O nosso amigo Teixeira
A discutir, a levar
Na “verve” da sua teia
Um freguês que quer comprar;
– Parece-me que é lua cheia
Mesmo sem haver luar! –

E vou descendo a ladeira!
Paro à porta do Ferreira
Que está lá dentro a arrumar
Vinte caixas com certeza
E fez-me assim para entrar:
– “Esteve aqui uma freguesa
– “ (Dizem para aí cliente)
– “O que eu aturo a esta gente
– “Não se pode imaginar!
– “Um dia perco o juízo,
– “Estive quase a rebentar.
– “Tudo isto foi preciso
– “E no fim, não quis comprar!
– “Deixe lá, não se apoquente!
E saí e fui-me embora.
Mas vi a mesma senhora
A chatear o da frente!…

Passo ao Filipe Quezada:
Vai lá uma salgalhada;
Que nem na roda do dia
Ele atende a freguesia:
Um quer pregos; outro lata;
Outro uma telefonia!…
E naquela zaragata
No meio daquele cenário
Há só um que vende lata:
É o nosso amigo Mário;

Nesta minha passeata
– Vejo a montra do Nini
Toda garrida e catita;
Gostei daquilo que vi!
O Lopes e o Barata
Têm a montra bonita,
Com muita coisa barata
Desde a seda até à chita.

Deixar para trás não quero
O nosso amigo Ludgero
Relógios de precisão!
Numa grande profusão
Há safiras e rubis
Espalhados ali à toa!
A maior joia é a proa
Que ele trouxe de Paris!

Chego por fim ao Morgado
Quase no chão enterrado
Atrás de grande balcão!
Sob o relógio de lata
– que não ata nem desata –
Ninguém sabe que horas são!
Nem se lhe conhece a data
De tantas pinturas toscas
Que lhe fizeram as moscas!
Os negócios são em barda.
Mas tanto estuda o assunto.
Que outro vem e se alaparda!

Passamos depois ao Ramos
Mas com este não entramos
Porque é ainda um noviço!
Siga lá a sua rota!..
– “Oh, Ramos, veja lá isso,
– “Não vá meter outra bota!

Logo na outra faceira
Fica o Esteves Moreira
Todo aprumado e janota!
É ele quem dá a nota,
E no trajar é o primeiro!
Ninguém dirá que é padeiro
Que é mestre na rosca torta!
Tome cuidado com o pão…
Tome cuidado… senão
Põem-lhe em cima da porta
Este vistoso letreiro:
“Caverna de ALI-HA-PÃO!”

Recapitulemos, com base nas notas de Carlos Bentes de Oliveira, as personagens e sítios da rua que vamos descendo. Euríalo Ferreira Teixeira, pai do Dr. António Teixeira, era proprietário dum estabelecimento de tecidos e panos, com serviço de prestamista, casa de penhor, a partir da porta das traseiras, na Rua da Paciência. A alusão à lua cheia refere o facto de o senhor Teixeira ser completamente calvo…

O comerciante citado a seguir, Joaquim Ferreira, estava instalado com loja de tecidos e retrosaria em frente à Igreja da Misericórdia, tendo como sócio Fernando da Cruz Correia. O estabelecimento em frente, não citado no poema, era a moderna Pérola Comercial, de António da Silva Matos.

Entretanto, na incompleta relação ficaram sem citação, entre outros estabelecimentos comerciais e industriais, a Filial dos Grandes Armazéns do Chiado, onde fica hoje a Decorpar, dirigida pelo senhor Piçarra até 1970, e a alfaiataria de Albano Durão, apaixonado pelo Desportivo e, sobretudo, pela Académica de Coimbra.

Depois, vem a drogaria, loja de ferragens e materiais de construção, dos irmãos Quezada, Filipe, Mário e Ângelo (este não referido nos versos), que ainda existe.

De seguida, faltaram aqui umas justas referências à papelaria de Júlio Margalho, à Farmácia Portalegrense, de José Tavares & C.ª e à sapataria de Grade Ribeiro, onde esteve depois instalado o Sonho do Bebé.

O apontamento seguinte alude à Casa Niny, dos sócios Domingos Lopes e José Maria Barata, onde se situa uma moderna pizzaria. Em frente, ficava a mais importante loja de electrodomésticos local, então dominada pela marca Philips, onde era técnico o senhor João (?) Cardoso, pai do actual proprietário.

Nos altos ficava a Pensão Castro, com um anexo na Rua da Sé, cujo proprietário mais tarde geraria o Café Castro e o famoso Cedro Bar, no Jardim Público.

Logo em frente, ficava a relojoaria e ourivesaria de Ludgero Árias, nome que legou ao actual estabelecimento, do mesmo ramo.

Do outro lado da rua, situava-se a mercearia (fina) e livraria de Tiago Henriques Morgado, de baixa estatura, cujo filho continuaria a tradição duma casa de qualidade.

A sapataria Ramos, a seguir arrolada, situava-se já em pleno Largo Luís de Camões. Na esquina fronteira, estava a padaria de José Moreira Baptista, irmão de César Moreira Baptista, ao tempo Secretário Nacional da Informação. Os dois irmãos foram vereadores da Câmara Municipal de Portalegre, em diferentes épocas. Esteves Moreira fora pai de ambos e dera à padaria o nome e a fama pelos quaís era conhecida.

 Continuaremos rua abaixo…