A Rua Direita – 7

O troço da Rua Direita hoje proposto percorre o restante da sua parte inicial, concluindo a Rua do Comércio e entrando pelo Largo e Rua Luís de Camões, até ao Largo dos Correios:

Oiço na outra faceira
Que lhe fica quase a par
O nosso amigo Teixeira
A discutir, a levar
Na “verve” da sua teia
Um freguês que quer comprar;
– Parece-me que é lua cheia
Mesmo sem haver luar! –

E vou descendo a ladeira!
Paro à porta do Ferreira
Que está lá dentro a arrumar
Vinte caixas com certeza
E fez-me assim para entrar:
– “Esteve aqui uma freguesa
– “ (Dizem para aí cliente)
– “O que eu aturo a esta gente
– “Não se pode imaginar!
– “Um dia perco o juízo,
– “Estive quase a rebentar.
– “Tudo isto foi preciso
– “E no fim, não quis comprar!
– “Deixe lá, não se apoquente!
E saí e fui-me embora.
Mas vi a mesma senhora
A chatear o da frente!…

Passo ao Filipe Quezada:
Vai lá uma salgalhada;
Que nem na roda do dia
Ele atende a freguesia:
Um quer pregos; outro lata;
Outro uma telefonia!…
E naquela zaragata
No meio daquele cenário
Há só um que vende lata:
É o nosso amigo Mário;

Nesta minha passeata
– Vejo a montra do Nini
Toda garrida e catita;
Gostei daquilo que vi!
O Lopes e o Barata
Têm a montra bonita,
Com muita coisa barata
Desde a seda até à chita.

Deixar para trás não quero
O nosso amigo Ludgero
Relógios de precisão!
Numa grande profusão
Há safiras e rubis
Espalhados ali à toa!
A maior joia é a proa
Que ele trouxe de Paris!

Chego por fim ao Morgado
Quase no chão enterrado
Atrás de grande balcão!
Sob o relógio de lata
– que não ata nem desata –
Ninguém sabe que horas são!
Nem se lhe conhece a data
De tantas pinturas toscas
Que lhe fizeram as moscas!
Os negócios são em barda.
Mas tanto estuda o assunto.
Que outro vem e se alaparda!

Passamos depois ao Ramos
Mas com este não entramos
Porque é ainda um noviço!
Siga lá a sua rota!..
– “Oh, Ramos, veja lá isso,
– “Não vá meter outra bota!

Logo na outra faceira
Fica o Esteves Moreira
Todo aprumado e janota!
É ele quem dá a nota,
E no trajar é o primeiro!
Ninguém dirá que é padeiro
Que é mestre na rosca torta!
Tome cuidado com o pão…
Tome cuidado… senão
Põem-lhe em cima da porta
Este vistoso letreiro:
“Caverna de ALI-HA-PÃO!”

Recapitulemos, com base nas notas de Carlos Bentes de Oliveira, as personagens e sítios da rua que vamos descendo. Euríalo Ferreira Teixeira, pai do Dr. António Teixeira, era proprietário dum estabelecimento de tecidos e panos, com serviço de prestamista, casa de penhor, a partir da porta das traseiras, na Rua da Paciência. A alusão à lua cheia refere o facto de o senhor Teixeira ser completamente calvo…

O comerciante citado a seguir, Joaquim Ferreira, estava instalado com loja de tecidos e retrosaria em frente à Igreja da Misericórdia, tendo como sócio Fernando da Cruz Correia. O estabelecimento em frente, não citado no poema, era a moderna Pérola Comercial, de António da Silva Matos.

Entretanto, na incompleta relação ficaram sem citação, entre outros estabelecimentos comerciais e industriais, a Filial dos Grandes Armazéns do Chiado, onde fica hoje a Decorpar, dirigida pelo senhor Piçarra até 1970, e a alfaiataria de Albano Durão, apaixonado pelo Desportivo e, sobretudo, pela Académica de Coimbra.

Depois, vem a drogaria, loja de ferragens e materiais de construção, dos irmãos Quezada, Filipe, Mário e Ângelo (este não referido nos versos), que ainda existe.

De seguida, faltaram aqui umas justas referências à papelaria de Júlio Margalho, à Farmácia Portalegrense, de José Tavares & C.ª e à sapataria de Grade Ribeiro, onde esteve depois instalado o Sonho do Bebé.

O apontamento seguinte alude à Casa Niny, dos sócios Domingos Lopes e José Maria Barata, onde se situa uma moderna pizzaria. Em frente, ficava a mais importante loja de electrodomésticos local, então dominada pela marca Philips, onde era técnico o senhor João (?) Cardoso, pai do actual proprietário.

Nos altos ficava a Pensão Castro, com um anexo na Rua da Sé, cujo proprietário mais tarde geraria o Café Castro e o famoso Cedro Bar, no Jardim Público.

Logo em frente, ficava a relojoaria e ourivesaria de Ludgero Árias, nome que legou ao actual estabelecimento, do mesmo ramo.

Do outro lado da rua, situava-se a mercearia (fina) e livraria de Tiago Henriques Morgado, de baixa estatura, cujo filho continuaria a tradição duma casa de qualidade.

A sapataria Ramos, a seguir arrolada, situava-se já em pleno Largo Luís de Camões. Na esquina fronteira, estava a padaria de José Moreira Baptista, irmão de César Moreira Baptista, ao tempo Secretário Nacional da Informação. Os dois irmãos foram vereadores da Câmara Municipal de Portalegre, em diferentes épocas. Esteves Moreira fora pai de ambos e dera à padaria o nome e a fama pelos quaís era conhecida.

 Continuaremos rua abaixo…

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