Greve à greve

Detectam-se indícios de um deslize gradual da radicalidade da greve. As pessoas dizem-se desiludidas. Alguns professores com quem falei interrogavam-se acerca dos efeitos da greve, da longa arrecadação de capital que o Estado alcança, dos resultados que não esperam divisar de imediato, do momento tardio em que a greve é convocada. Verdade é, decerto, que as pessoas têm a tentação calculista de buscar no efeito da greve os seus próprios fins. Para elas, a greve não passa da reivindicação de um direito de protesto a que falta a consequência demandada. Perguntam-se: “Fazemos greve. E depois?”.

Uma greve não é, como se sabe, um acto gratuito: passa por um processo de legitimidade social e colectiva e decorre de uma vontade expressa de protesto, quando os grupos sociais se sentem esmagados por uma sensação de ausência de justiça. Não se trata apenas da reacção a uma sensação desconfortável, mas uma acção com uma finalidade que confere significado à dignidade das pessoas. É claro que certas formas de expressar o direito à greve, desenraizadas da vitalidade dessa experiência, retiram-lhe o tal vislumbre de inquietação transcendente. E se se perder o sentido de poder que as palavras têm de ferir e curar, perde-se igualmente o lugar vital que elas ocupam nas nossas vidas. É por isso que a “guerra dos números”, normalmente acicatada pelas instâncias do poder para desacreditar ou minorar a natureza das greves, excede e esvazia o significado daquilo que está em causa.

Outras pessoas com quem falei asseguraram-me a extraordinária dificuldade financeira por que passam e que lhes condiciona a participação neste gesto reivindicativo – sentem-se reféns de uma espécie de imposto da indignação. Seria uma impertinência criticá-las ou imputar-lhes falta de generosidade. É evidente que a greve, última (?) figura da agenda reivindicativa, exige sacrifícios que servem, se entendermos o significado prospectivo desta unidade de esforços, para evitar sacrifícios maiores. É por isso que, pelo exemplo de alguns, participamos dos privilégios que a todos foram concedidos. Por vezes, como ensina Bede Jarrett “O mundo não corta com o mal, porque não é suficientemente colérico. O mundo precisa de cólera”.

Muitas vezes aconteceu, nas escolas, a luta de alguns ter abonado em favor de outros (apanhados na jornada), até no mísero episódio do fecho da escola e da destrinça entre quem aderiu ou não à greve. Tem-se dito que a classe docente nunca teve uma natureza unitária especial. E é verdade. Não nos basta reivindicar uma vaga unidade institucional e corporativa, quando, nos momentos-chave somos incapazes de um instinto de tribo. Para os professores, a questão da violação das regras, talvez por defeito profissional, é sagrada e talvez por isso lhes seja difícil deixar o livro de ponto na estante. Por outro lado, a presença do livro de ponto – sinal da ausência do docente – não espelha necessariamente que alguém tenha agido desinteressadamente pelo bem comum ou em conformidade com a agenda reivindicativa e ideológica. Quando os sindicalistas chegam às escolas e medem os resultados de uma greve pelo número de livros de ponto abandonados na estante, aos primeiros tempos lectivos da manhã e da tarde, podem, certamente, estar a elaborar uma estatística da reclamação, do ócio ou da preguiça. Mas talvez os professores pudessem alijar o peso das regras por que tanto se regem. A esse propósito afirma Timothy Radcliffe: “Se alguém pensa que a moral tem a ver com a submissão às regras, poderá avaliar a qualidade de uma vida moral pelo número de vezes em que se obedeceu ou não a essas regras”.

Mas a moral é mais do que a consideração ou a transgressão das regras. A moral é estar com aqueles que passam pior (trabalhadores e patronato) e isso nem sempre é um dado estatístico – era Graham Green quem dizia que só “descobrimos que temos alma quando o sofrimento do outro nos faz sofrer”. O resto é retórica.

 António Jacinto Pascoal
Professor

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