Uma página de memórias da guerra – 4

Pelos finais de 1940, o meu avô foi a Lisboa. Demorou-se por lá uns dias e, quando voltou, mostrou-me os postais, as revistas e outras lembranças que trouxera da sua ida à Exposição do Mundo Português (“História Pátria em gesso” – assim a designou uma reportagem ao tempo publicada n’A Voz Portalegrense…). Anos depois, em meados de 1944, “vinguei-me” no deslumbramento causado pela “caseira” Exposição da Vida Corporativa do Distrito de Portalegre, patente no velho edifício da Fábrica Real, na Corredoura. E, posso garanti-lo, pouco lá havia em gesso; era quase tudo de carne e osso.
A propósito, logo ali ao lado, eu continuava a regularmente rasgar alguns calções (e às vezes as próprias pernas) no escorrega do parque infantil (o original, entenda-se!), então ainda bem novinho porque estreado a 10 de Junho de 1940.
Pelos nove/dez anos já me era concedido um maior alargamento dos horizontes recreativos. Ainda nos limites da Corredoura, eu podia ir, acompanhado por outros, até às fronteiras virtuais que a separavam da zona da Fontedeira e do Jardim Público. Eram sobretudo os territórios dominados pela colina do Piolho onde estava, e permanece, a capela do Calvário. Antes era campo aberto de ralo olival e hoje, já muito depois das terraplenagens exigidas pelo Mercado Municipal que o cavaram em falésia, tudo aquilo está encerrado em altas, opacas e tristes muralhas. Havia ali, ao tempo, dois campos de futebol para a malta, um, bem liso, sobre o depósito de água que abastecia a fábrica de lanifícios (onde depois foi instalado um parque infantil jurássico e, mais recentemente, um museu de arqueologia lúdica ao ar livre). Foi denominado “Salésias” (em homenagem ao antigo e mítico estádio do Belenenses!?). O outro ficava entalado entre a parede do lado nascente do estádio da Fontedeira e a alta cerca de São Bernardo, já próximo do casario ainda ali existente. 

Aliás, foi precisamente nestes tempos da guerra que o parque da Corredoura atingiu o pleno estatuto de privilegiado centro de actividades de lazer (e cultura) da cidade. O enorme “casarão” da Fábrica Real albergava inúmeras oficinas e era sede da Banda Euterpe e da Sociedade Recreativa Robinson, situando-se no seu pátio traseiro a vasta esplanada do Cine-Parque. Ao fundo da longa Corredoura de Cima ficava o quartel e, na Corredoura de Baixo, situava-se uma torrefacção de café e, sobretudo, um colégio religioso para meninas ricas, com farda e tudo. Na primeira metade da década de 40, o lago do parque foi adaptado a piscina municipal, com grande afluência de interessados, que até ali podiam usar (!?) um barco a remos. Porém, esta experiência “desportiva”, tanto quanto me lembro, durou pouco… Em Julho de 1944, numa pequena rotunda implantada no passeio central do parque (a Corredoura do Meio), seria solenemente inaugurado o memorial dedicado ao malogrado poeta José Duro pela Academia portalegrense, décadas depois incrivelmente destruído em nome do progresso. No ano seguinte, no espaço fronteiro a esse monumento, foi disponibilizado um serviço de leitura pública, que atingiu assinalável êxito. Sabendo já ler, fui eu próprio um assíduo frequentador dessa biblioteca, cuja “sede” e os bancos anexos, um conjunto dotado de curiosos azulejos decorativos com temas regionais, seriam igualmente “pulverizados”…
(Um simples e quase absurdo aparte. Nos inícios do século XXI, a cidade foi objecto de programas de requalificação e de modernização. Estas intervenções ditas urbanísticas fariam corar de inveja o bárbaro Átila, pois destruíram, só na Corredoura: o memorial José Duro, o lago, o parque infantil, a “biblioteca” e os bancos, assim como todos os respectivos azulejos. Teriam decidido os seus responsáveis, como principal objectivo traçado para aquela zona, a brutal eliminação de todos os marcos “sobreviventes” dos tempos da guerra? Ou isto foi apenas um efeito colateral do bombardeamento, perdão!, da requalificação?)
As obras de verdadeira modernização de Portalegre pelo início dos anos quarenta (do século XX, obviamente!) centraram-se no alargamento (após prolongadas polémicas e alguns adiamentos!) da Rua de Elvas, ao tempo a mais importante entrada na cidade, logo valorizado pela construção da sede da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência. Mas uma pequena tragédia acontecera entretanto por aqui a 15 de Fevereiro de 1941 -foi um sábado- quando um ciclone atingiu quase todo o continente e a Madeira, produzindo vítimas, inundações sem conta e uma enorme razia nas árvores do Jardim Público e do Cemitério, principalmente. Ficámos sem luz na cidade durante uma semana; porém, já tinham terminado os tais obrigatórios treinos do “black-out”…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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