Uma página de memórias da guerra – 5

Vivia eu então na velha casa da Rua da Mouraria e, com a minha mãe, visitava com regularidade outras duas, igualmente apaixonantes: a Pensão Vinte e Um, na Rua dos Canastreiros, e a residência do Engenheiro Maldonado, ao Rossio, nos altos do Café Luso.

Pela mão de dona Rosalina percorria o seu jardim, com belas flores, ou tomava refeições na sua mesa, na bela varanda corrida junto àquele, onde era frequente conviva o dr. Reis Pereira, professor do Liceu. Mas os meus locais predilectos eram a gigantesca cozinha, onde me atraía a complexa tarefa do chefe, cujos alvo barrete e frenética segurança me impressionavam, ou a pequena saleta de estar, o coração daquela máquina hoteleira, onde o telefone, com a manivela da campaínha num grande corpo de madeira, mais o microfone fixo e o auscultador móvel, me fascinavam… Até dispunha da reduzida lista dos assinantes locais inscrita num cartão que baloiçava, pendente duma longa corrente metálica.
Na casa de dona Judite Maldonado residiam outras profundas atracções, sobretudo duas. Uma destas consistia no falso armário, embutido numa parede da cozinha. Na verdade, abertas as suas opacas portas de madeira pintada de branco, ele transformava-se na entrada de um escuro e comprido túnel, cuja escadaria descendente nos conduzia directamente à ruela que liga a praça à Estrada Nova. Porém, era o sótão daquela casa que me disponibilizava o seu maior encanto, uma dispersa e incompleta colecção do Papagaio, a fabulosa revista infantil onde conheci Tintin e os seus companheiros de aventuras. Creio que este repetido e frequente encontro mudou para melhor a minha vida. Foi ali, muito mais do que nos tais livros únicos da escola do meu tempo, que aprendi a juntar as primeiras letras… Foi ali que descobri, muito mais do que nos atlas ou nos manuais da especialidade, como eram e onde ficavam os diversos mundos deste Mundo. Foi ali, em suma, que conheci os segredos e os mistérios de uma linguagem que ainda hoje me apaixona, a da banda desenhada ou das histórias aos quadradinhos, como nesses tempos se dizia. E isto constituiria, quase quarenta anos depois desta infantil descoberta, um adulto instrumento de afirmação profissional e, até mesmo, de sobrevivência pessoal. Mas isso é uma outra história que não cabe, obviamente, nesta evocação dos tempos da guerra…

Esta acabou, pelo menos na Europa próxima, e lembro-me claramente do dia em que Portalegre festejou o triunfo dos aliados, quando da capitulação da Alemanha nazi. No largo do Café Vitória -a designação revelou-se apropriadíssima- juntou-se pela tarde uma multidão em delírio, prolongando-se depois em ruidoso cortejo iluminado por archotes a longa marcha nocturna pelas ruas da cidade. Também saberia, anos depois, que a contestação cívica e política ao Governo de Salazar constituíra afinal, um pouco por todo o país, um nítido objectivo dos manifestantes. O pretexto fora portanto aproveitado com rara oportunidade.
Li e reli mais tarde a irónica e inteligente nota divulgada a propósito pel’A Rabeca, um jornal portalegrense de oposiçãoao regime: “Não se publicou na semana passada o nosso jornal. Embriagado pela notícia da Vitória, não foi possível ao pessoal de A Rabeca dedicar-se, com a indispensável calma, à sua habitual tarefa. Seja tudo em desconto dos nossos pesadelos… por amor da Paz!” Num periódico devidamente Visado pela Censura (estávamos em Maio de 1945), como escapou esta implacável intervenção política ao lápis azul do zeloso funcionário censor?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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