Uma página de memórias da guerra – 3

Provocadas pelo racionamento ou pelo vital acesso à escassa água disponibilizada, em reduzido horário, pelos fontanários públicos, tornaram-se habituais -quase quotidianas- longas filas (apetecia-me escrever bichas, à moda dessa época!) de pessoas, talvez sedentas ou esfomeadas, cujo manifesto descontentamento era por vezes resolvido com uma ou outra autoritária bastonada, quase sempre por intervenção de guardas republicanos a cavalo. Tenho de tais cenas algumas incómodas imagens gravadas no meu arquivo mental…

Também isso acontecia, ainda que em menor escala, com a malta mais miúda. Aqui, o pretexto era o pontapé na bola de trapos (as de borracha eram um luxo!), severamente punido quando praticado na via pública. Algumas vezes, com outros companheiros de jogatana, longas tardes passei refugiado (ou sob “asilo político”!?) no interior da loja sita nos baixos da minha casa, na esperança de que o diligente cívico -o senhor “empregado”, assim a vizinhança tratava os polícias- desistisse, no exterior, de esperar por nós…
O mais “bélico” divertimento a que colectivamente nos dedicávamos consistiu, por ironia, no aproveitamento do progresso citadino. Eu conto. Passava então a cidade de Portalegre por uma fase de organização interna, com instalação de algumas infraestruturas subterrâneas, água canalizada e esgotos, seguida do calcetamento das respectivas superfícies, anteriormente em terra batida. Por finais de 1941, esses ventos de modernização chegaram ao quartel-general da nossa malta: o Largo dos Combatentes. Dos buracos cavados fazíamos trincheiras e dos amontoados paralelepípedos munições. Por entre as pirâmides de pedras e as fundas valas praticávamos corajosas surtidas à terra-de-ninguém… ou seria à Terra-do-Nunca? A verdade é que desses episódios ostento ainda “feridas de guerras”, indeléveis vestígios de algumas antigas cicatrizes nas canelas.
A propósito de outras bem mais “pacíficas” brincadeiras colectivas -o pião, a macaca, o botão, o eixo-ribaldeixo, os polícias e ladrões, a carica, os cinco cantinhos, o berlinde, o esconde-esconde ou o agarra-agarra, por exemplo- aconteceu termos saudavelmente sobrevivido sem Playstations e sem Gameboys, sem SMS’s e sem Facebooks, imagine-se! A guerra não passava por ali e o caso mais dramático que desses tempos posso arrolar diz respeito à inesperada morte (“- Ficou esturradinho como um tição” – disse uma testemunha) de um irmão mais velho do vizinho e amigo Manel C., vítima dum dos frequentes incêndios na Robinson, onde era jovem operário.
Mortes na família sofri então duas, que me passaram em tais emergências completamente ao lado: o tio avô Benvindo Ceia, pintor de arte, e o primo João de Azevedo Coutinho, herói das Áfricas, ambos desaparecidos na distante Lisboa. Conhecia o primeiro, visita da casa quando vinha a Portalegre; do segundo, quase nada sabia. Só muito mais tarde me fui apercebendo das suas importâncias.
Bastante estranho para mim, que quase nada sabia da História recente, mesmo essa aqui ao lado, um confuso sinal me era então proposto pela assídua presença de gente desconhecida, quase sempre homens de negra e curta barba, revestidos por calças e casacos de coçado cotim azulado e sujo, magros e mudos, que desapareciam da rua envolvidos no mesmo discreto silêncio em que surgiam. Eram espanhóis, refugiados da sangrenta guerra civil, temerosos do cruel destino que os esperava se regressassem às suas terras. Porém, só muito mais tarde poderia eu decifrar, tanto quanto me foi possível -ou inteligível!- este aparente mistério.
O contrabando, actividade que o findar dessa temível guerra pudera restaurar, está igualmente associado a tais tempos, os princípios da década de quarenta do passado século vinte. Alguns medicamentos, a que hoje chamaríamos “de venda livre”, ou fortificantes -como o Ceregumil-, míticos perfumes –Tabu e Maderas de Oriente, por exemplo!-, determinados tecidos em peça, os incontornáveis caramelos e certas bebidas, alcoólicas ou não, como era o caso da Coca Cola, então expressamente proíbida em Portugal, eis a panóplia típica das “encomendas” que furtivamente nos chegavam pela mão, mais ou menos clandestina, de uns quantos flanqueadores de escusos vales e ignoradas encostas, sempre no iminente risco de cairem sob a pesada mão da Guard(i)a Civil ou Fiscal

 António Martinó de Azevedo Coutinho

outono em portalegre

douradas folhas espalhadas pelo chão
dilaceram frias as brumas da minha alma
atingem bem fundo memória e coração
cavando no meu ser em mansidão a calma

a cidade dorme mas resvala no abismo
o rei inquisidor que um dia a despertou
traçou-lhe destino e sina e neles cismo
se foi a sina má ou se o destino errou

portalegre triste porta de não mais voltar
porque te amamos e não somos amados
como se fosse proibido o dom de te amar

régio duro falcão oh poetas da cidade
voltai a vossos belos versos inspirados
e  ditai-me certo o remédio da saudade

antónio martinó de azevedo coutinho

O rol da roupa branca

Os mais velhos e os mais interessados pelo cinema, incluindo o nacional, lembram-se dum dos muitos êxitos de Beatriz Costa, no filme de Chianca de Garcia A Aldeia da Roupa Branca (ou História Pitoresca duma Lavadeira).

Trata-se duma fita estreada nos inícios de 1939, que tinha sido rodada num tempo record, entre os finais de Agosto e os finais de Outubro do ano anterior, dois curtos meses… O tema, quase banal, retratava a região saloia, onde se cultivava a hortaliça e se lavava a roupa que os alfacinhas comiam ou sujavam.

Beatriz Costa, a menina da franja, teve aqui mais uma (precisamente a última!) das suas marcantes intervenções no cinema português. E uma das suas canções nesse filme ficou a assinalar a invulgar popularidade da actriz, uma das maiores vedetas do nosso teatro ligeiro.

 

Foi dessa singela e insinuante canção que me lembrei, ao juntar, de entre a tal ternurenta tralha familiar onde venho remexendo há semanas, alguns exemplares do rol da roupa, onde se assinalavam as peças que iam a lavar fora de casa, por intermédio de lavadeiras profissionais.

Um rol é uma relação, uma listagem. O rol da roupa consistia precisamente na relação, mais ou menos organizada, onde era registada a qualidade e quantidade de peças que, semanalmente eram entregues à lavadeira. Depois, servia para a conferência da respectiva devolução.

Antes das modernas lavandarias industriais ou das electrodomésticas máquinas de lavar, as lavadeiras constituíam a modalidade mais prática para a lavagem da roupa, particularmente nos lares cujas condições não permitiam tão higiénica operação. A temática de A Aldeia da Roupa Branca era o paradigma da situação vivida um pouco por todo o Portugal rural e atrasado dos inícios do século XX. A região saloia de Caneças e Loures, lavadouro colectivo da Grande Lisboa, repetia-se um pouco pelo restante país, com as lavadeiras que transportavam à cabeça grandes e alvas trouxas, distribuindo pelos lares “assinantes” as peças entretanto lavadas. As marcas específicas que cada família impunha nas suas peças -iniciais, estrelas, ilhós, flores, números- serviam para distinguir e separar eventuais semelhanças. O rol completava o controlo.

As lavadeiras de Caneças usavam a água corrente, então não poluída, dos ribeiros locais, mas era possível encontrar, sobretudo nas zonas rurais mas também nas urbanas, tanques comunitários que supriam a inexistência de cursos de água natural disponíveis.

Em Portalegre existiu durante décadas um tanque comunitário no sítio das Brasileiras, na saída da cidade para o Crato/Alpalhão. Mais tarde, seria transferido para a zona de S. Bartolomeu e está hoje abandonado. Noutros locais também foram instaladas estruturas colectivas similares, que ainda hoje existem em freguesias rurais do concelho, como nos Fortios, por exemplo. Lembro-me perfeitamente das nossas lavadeiras lagóias…

As operações da lavagem tradicional incluem sucessivas fases como a cora, com a roupa ensaboada e estendida no chão (sobre a erva) durante dois dias, depois lavada no tanque, enxaguada em água limpa e secada por pendura, em cordas ou arames. Após a secagem, era palmeada -dobrada e espalmada à mão- ou passada a ferro. Ficava então pronta a vestir… e a novamente sujar.

Existiam outros processos mais elaborados, como a barrela, que incluía a junção de cinza, louro e água fervente e que exigia uma mais demorada e repetida cora.

Alguns literatos, como Júlio Dinis (As Pupilas do Senhor Reitor) ou João de Deus (Campo de Flores), aludiram à faina das lavadeiras na sua obra e até Fernando Pessoa escreveu em 1933 um pequeno poema intitulado A Lavadeira no Tanque:

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade…
Quem me lava o coração?

Voltemos ao rol que motivou, afinal, esta diversa dissertação sobre a roupa branca e os processos de a higienizar.

Encontrei três exemplares, dois deles sob a forma de pequenos cadernos, mais complexos, dotados de relações, autónomas, das peças de vestuário, em quatro distintas classes: Roupa para homem ou Roupa branca para Senhores; Roupa para senhora ou Roupa branca para mulheres; Roupa para criança ou Roupa para meninos; Roupa de casa ou Roupa de cama e de mesa. Tiras de percalina negra estendendo-se de alto a baixo à direita de cada nomenclatura permitiam a inscrição -a giz ou por meio de qualquer outro instrumento de escrita não definitiva- das respectivas quantidades.

O terceiro rol é bastante mais sumário que os anteriores, compensando em originalidade a nítida redução da eficácia, pois limita-se a uma almofada impressa com os nomes das peças fundamentais seguidas de séries numeradas de 1 a 6, respectivamente assinaláveis por meio de alfinetes de negra cabecinha.

Em vez de 63 e 68 opções disponibilizadas pelas versões impressa em papel, afora algumas linhas suplementares, a almofada apenas oferece 17…

O facto de no verso dispor da impressão Lembrança do Porto assinala, em rigor, a sua função essencialmente decorativa, em confronto com o evidente utilitarismo dos seus congéneres.

Perdido, ou divertido, entre collarinhos, jaquetas brancas, saiotes, meias de cor, chambres, babadouros, toalhas ordinárias para as mãos, guardanapos para o chá, travesseirinhas, ceroulas, jaquetes para gymnastica, calçolas, espartilhos, mantilhas para crianças, fronhas para os criados, transparentes de pano, aventaes e coturnos, regresso a uma realidade bem mais prática, colocando a roupa na máquina, fechando-lhe a redonda portinhola, vertendo o devido detergente na gaveta adequada e premindo os botões que regulam as temperaturas, as rotações, os líquidos fluxos ou as torções.

Nem me lembro das lavadeiras de Caneças, das aldeias da roupa branca ou de cor, dos lavadouros comunitários, das coras ou das barrelas. Se tal quiser, até nem preciso de colocar a roupa à cora, nem sequer à seca…

Quanto ao rol, dispenso-o em absoluto. Retrato fiel de épocas românticas, onde havia vagar para registos manuais, constitui hoje grato pretexto de memórias desses idos e irrepetíveis tempos.

Pensando bem, talvez se tenha perdido alguma coisa, como aquele cheiro reconfortante e inconfundível da roupa lavada à mão, com o vulgar sabão que dispensava os anticalcáreos, os fosfanatos, os policarnoxilatos, os branqueadores, os hipoalérgicos e os tensoactivos não iónicos.

Pois é, nesses tempos, não me lembro de ler instruções sobre riscos e perigos potenciais acumulados na simples operação da lavagem da roupa branca.

Não me recordo de Eça ter falado de lavadeiras, mas sei que ele magistralmente descreveu o preço e os custos da “civilização”…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Meu avô “brasileiro” – III

 

O que se impõe, como corolário aglutinador destes dados, é uma pesquisa complementar na Torre do Tombo, em Lisboa, sobretudo nos Livros de Chancelaria Régia e nomeadamente nos de D. José I (1750-1777). Aí deverão em princípio constar as notas diplomáticas relativas à missão do bacharel em leis Miguel Carlos por terras de Vera Cruz. Ao mesmo tempo, uma investigação nos arquivos judiciais da época, em Olinda e Pernambuco, poderá apoiar o pretendido e definitivo esclarecimento. Tudo isto sem embargo de outras pesquisas adjacentes, que valorizem e aprofundem as múltiplas pistas já abertas.

Uma breve mas oportuna visita à Torre do Tombo, por parte do meu amigo António Ventura, permitiu que este confirmasse, com a reconhecida autoridade que detém, alguns dos dados biográficos do Juiz de Fora, através da existência de diversas certidões negativas aí arquivadas, relativas a certas promoções e honrarias que lhe foram conferidas.

O envio dos dados entretanto descobertos e coligidos quanto à personalidade e obra de Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo-Branco aos interlocutores brasileiros do Fonte Nova, tanto em Natal como em Portalegre RN, causou-lhes algum espanto e alegria, tanto mais naturais quanto nenhum desses pormenores era por eles conhecido, apesar do interesse e contributo de alguns especialistas da matéria, como o insigne estudioso e publicista Luís da Câmara Cascudo.

Continuávamos a exigente tarefa de preparar o melhor possível a ida ao Brasil, não nos deixando muita energia disponível. Até que, no dia 25 de Setembro passado, numa daquelas súbitas inspirações que não sabemos plenamente explicar, ocorreu-me o facto singular de o meu avô paterno (que não cheguei a conhecer por ter morrido subitamente em 1933) se ter chamado Miguel de Albuquerque Caldeira Castel-Branco de Azevedo Coutinho. Caldeira Castel-Branco era um conjunto de apelidos coincidentes que, eventualmente, poderiam ter algo a ver com os de Miguel Carlos. E voltei à página de Genealogia da Internet…

Desta vez foi fácil a pesquisa, quase diria instantânea. Caminhar pelas densas redes genealógicas no sentido ascendente, como aliás já experimentara, é infinitamente mais fácil do que pretender avançar no percurso inverso. E, assim, passei do meu avô Miguel aos seus pais, onde desde logo se evidenciou a mãe, de nome Catarina Micaela de Albuquerque Caldeira Castel-Branco. Segui depois até aos pais desta, meus trisavós. Ele, de nome Miguel de Albuquerque Caldeira Castelo-Branco, remeteu-me para a respectiva mãe, Catarina Micaela de Simas Velez Castelo Branco, precisamente a filha segunda de Miguel Carlos!

Fiquei atónito perante a inesperada e fantástica descoberta destes íntimos e tão directos laços de família de que traço o seguinte sumário esquema genealógico:

 

Disponho da mais rigorosa consciência de que não escolhemos como, quando, onde ou de quem nascemos. Foram as famílias constituídas pelos nossos antepassados, mais próximos ou mais remotos, que nos geraram e não o contrário. Resta-nos aceitar tal evidência e traçar a partir daí o nível de relação que mais nos convier. Esta, sim, é já a nossa escolha e também a nossa responsabilidade individual.

Por mim, cultivo o maior e mais legítimo orgulho pelas famílias que me calharam em sorte. Cabe-me corresponder-lhes na medida do que puder ou souber. É, aliás, o que tenho procurado fazer desde sempre e não apenas a partir deste recente e grato episódio. 

A embaixada portalegrense deixava o sertão brasileiro que durante centenas de quilómetros atravessara e aproximávamo-nos já das serras verdejantes que de longe há muito vínhamos avistando, num horizonte que de distante se tornara próximo, trocando a seca e quase infinita planura pelas rampas cobertas de densa vegetação por onde corriam levadas de água, sobrevoadas por aves de rapina quase familiares.

Vivi esses instantes quase mágicos na partilha da rara emoção que de todos nós se apoderara. Mas em mim -creio-o firmemente- um outro íntimo sentimento dominara os demais. Sentia, como que recriando a gesta do meu distante pentavô Miguel Carlos, a indizível comunhão de tudo aquilo que também o absorvera. Talvez a saudade da terra distante e, ao mesmo tempo, ali presente…

O destino, de facto, persegue-nos.

E, por isso, atrevo-me mesmo a corrigir a lenda (ou a História?!) até agora contada:

Após a sua deslumbrada subida pelos trilhos daquela serra de Santana ou do Regente, no longínquo ano de 1761, o Juiz de Fora de Olinda, simples e espontâneo, exclamou: – Isto é Portalegre!

António Martinó de Azevedo Coutinho

Uma página de memórias da guerra – 2

Um sinal doméstico da guerra chegava-nos pelo carteiro que frequentemente trazia até nós revistas e outros documentos que as Embaixadas dos países beligerantes produziam e difundiam maciçamente, como valioso material de propaganda. Provinham tais publicações sobretudo da parte dos ingleses e dos alemães, mais tarde também dos americanos. A Victory, a Signal ou a Esfera eram os títulos mais sonantes, mas recordo-me, em particular, de revistas soltas com a vida do presidente americano Franklin D. Roosevelt ou com a fabulosa saga da RAF (Royal Air Force) britânica, sob a forma de quadradinhos muito bem impressos a duas cores, e também, de grandes posters profusamente coloridos com imagens das batalhas do deserto, no Norte de África, entre os generais alemão Rommel e inglês Montgomery. Estava também lá por casa um volumoso calendário, cujas folhas dispunham de impressionantes fotografias de carros de combate alemães com nomes de bichos, como o Tiger ou o Panther, assim como folhas de cartolina com imagens desenhadas de soldados, armas e veículos de guerra para recortar e montar…

Mas havia algumas outras aventuras, menos livrescas, igualmente disponíveis. Por exemplo, uma que particularmente me divertia -nunca levei aquilo a sério!- era a dos ocasionais exercícios de alerta nocturno -“black-out”- contra putativos bombardeamentos aéreos. Nos vidros das janelas da casa, bastantes porque a nossa era enorme, eram previamente colocados em cruz uns papéis gomados (por causa dos estilhaços) e, ao sinal sonoro difundido pela sirene dos bombeiros, todas as luzes deviam ser apagadas. A polícia vigiava os infractores, devidamente punidos pelo seu “luminoso” descuido que poderia revelar aos aviadores “inimigos” (nunca consegui descortinar quais seriam, espanhóis ou alemães, como em Guernica, talvez!?) a posição do alvo a atingir…

Mais uma consequência interna da guerra foi a montagem e manutenção da casa-das-galinhas. Aquele modesto compartimento, quase isolado e de acesso mais difícil por causa dos empinados degraus de madeira, ficou para sempre assim conhecido, mesmo depois da paz ser instalada e da sua forçada vocação se ter, portanto, extinguido. Ali eram criados pintos e coelhos, contando também os ovos frescos. A política governamental de então apoiava este tipo de economia familiar, tal como a das pocilgas ou das pequenas hortas nos quintais, apta a fornecer a cada agregado parte daquilo que as prioridades bélicas desviavam do consumo público. Do nosso livro único da primeira classe constava a imagem daquela espécie de igloo de barro, onde os coelhos procriavam, a par dos galinheiros com paredes de rede metálica que abrigavam as aves. Creio que para sempre aquele cheiro enjoativo, a estábulo e a rações húmidas, ficou a impregnar as paredes e os ladrilhos do chão da nossa casa-das-galinhas.
Fora dos protectores limites do lar, eram também visíveis os efeitos próximos de  uma guerra distante. Hoje posso associá-los, mas nesses tempos constituíam episódios soltos da vida citadina, sem qualquer especial significado.
Era, por exemplo, o caso de alguns dos raros automóveis que circulavam livremente pelas estreitas vias urbanas ainda desprovidas tanto dos redutores sinais de trânsito como das dispensáveis rotundas. Por efeito das crescentes dificuldades no abastecimento do combustível disponibilizado pelas duas ou três bombas locais, alguns condutores fizeram instalar na traseira do seu veículo um inestético equipamento, com um grande cilindro vertical e longos tubos, queimando certos desperdícios sólidos e remetendo gases dessa combustão para alimentar o motor. Barulhento e poluidor por excelência, o gasogéneo era, assim, a resposta possível à bélica crise energética.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

A Rua Direita – 6

Aqui segue mais um troço da rua, através do poema Ronda do Dia:

– “Depois disto chega então
– “a gente de “posição”
– “Em ar ordeiro e pacato:
– “O capitão Liberato,
– “O Doutor Dias Loução
– “E o Doutor João Malato
– “É um grupo literato
– “E de grande erudição,
– “Todo ele compenetrado
– “Da sua grande missão!
– “Porque o nosso Capitão
– “A escrever, que competência!
– “E o Doutor Dias Loução
– “É mestre na Conferência!
– “Quanto à crítica de arte
– “O nosso Doutor João
– “Tem bagagem, tem saber
– “Com fama por toda a parte!
– “Amigo, digo-lhe só,
– “Que até o Doutor Chicó
– “Com ele tem de aprender!
– “Bem’Doutor, eu vou-me embora
– “Porque já chegou a hora
– “De me darem de almoçar.
– “Estou para aqui a palrar
– “Sem me lembrar da gamela…
– “E nisto abriu-se a janela
o loiro enfiou por ela
P’la mão de Dona Zézinha
A caminho da cozinha.

Eu decidi abalar
Mas ainda fui espreitar,
Ver quem estava no saguão!
Só reinava a solidão
Naquele imenso deserto!
Encostadas ali perto,
Em duas grandes fileiras
Uma rima de cadeiras;
Uma delas, por sinal
Dum bojo descomunal!
Pus-me a olhar, a pensar,
P’ra quem seria, afinal.
Aquela enorme cadeira!
Dei voltas à mioleira.
Já sentia a alma aflita
Quando o Adelino me grita:
– “Não esteja nessa canseira!
– “A cadeira… é p’ró Levita
– “E ainda hei-de mandar
– “Abrir aqui, neste muro,
– “Um bestialíssimo furo,
– “Para meter uma haste
– “Com roldana e com guindaste
– “Para ele se levantar!…

 Lá deixei o Adelino
E fui até ao Silvino
Que amável, risonho e fino.
Me faz uma reverência:
– “Senhor Doutor, como está,
– “Como está, como está Vocência
– “Vocência, vocência, como está
– “Vocência não deseja nada?!…
– “Então até logo, até logo a Vocência
– “Até logo, até logo, até logo e obrigado;

Mais uma mão cheia de personagens e de locais naquela Rua Direita de Agosto de 1950…

O capitão Liberato, afável, era um oficial de Exército, antigo destacado em Timor e aí prisioneiro dos japoneses, que foi em Portalegre comandante da Polícia e da Legião Portuguesa, também censor (prévio) da imprensa local, enquanto o Dr. Dias Loução teve aqui cartório de advogado.

Quanto ao Dr. João Malato, desempenhou funções no Tribunal de Trabalho, que funcionava onde agora é o Paço Episcopal.

A referência ao Doutor Chicó é algo enigmática, pois existiu um Dr. Mário Chicó, professor catedrático de nomeada, e também um Dr. Chicó, na literatura brasileira de cordel, por exemplo no Auto da Compadecida, muito popular…

Dona Zezinha foi a esposa do comerciante José Augusto Martins, estabelecido frente ao Café Alentejano, como já foi recordado. Adelino Martins era o concessionário da Leitaria Chic, onde pontificava, na esplanada, uma cadeira de grandes dimensões, privativa do senhor Levita, cujo físico descomunal também merecia uma poltrona especial no recinto do Cine Parque. O senhor Levita era funcionário corporativo, em repartição que estava instalada num prédio ao fundo da rua de Elvas, antiga residência do Dr. João Tavares, pintor, onde hoje fica a Região de Turismo.

Silvino Henrique da Silva, já em plena Rua do Comércio, foi um considerado comerciante e industrial local, dispondo de uma boa papelaria e livraria, com brinquedos e depois também óptica médica, enquanto geria a sua tipografia no pequeno largo próximo, junto ao Café Vitória. Baixo e amável, era extremamente cerimonioso, como Roma da Fonseca caricatura com rigor.

 Continuaremos a descer a Rua Direita…