A Voz Humana

A Voz Humana

pascoalEste é o tempo da voz. Simbolicamente, todos os anos a Igreja faz-nos crer que um menino virá pregar a fé que recria a esperança. E que a fé não se rodeia de mantos com brocados, mas de palha ou, numa versão mais actual, de caixas de cartão forrados de jornais e cobertores velhos. Para pregar é necessário, não apenas um código, a língua, e não somente a habilidade de o pôr em prática, a fala. Para pregar é necessário muito mais, desde logo o acesso ao poder da fala e de ela chegar aos outros. Isso é que é a voz: possuir um léxico e ser-se ouvido.

Neste tempo, a capacidade de luta das populações mede-se pela sua eficácia interventiva. As manifestações que congregaram milhares de pessoas em todo o país permitiram chegar à voz, até ela, pouco a pouco, ir perdendo a sua força colectiva e regressar ao grito individual contra a injustiça e contra a intolerância de quem governa e de quem gere, do exterior, as funções do Governo.

No quadro de Munch, O Grito, aquilo que começou por ser a expressão do que existe dentro nós, passou a ser a representação de uma cultura que nos coloca entre a ordem e a desordem. Da fala passou-se à voz. Ao contrário do que acontece em alguns países, em Portugal, depois de se conquistar uma posição de poder, não se sabe muito bem o que fazer com ela. É por isso que as lideranças são indispensáveis. Não basta alimentar a sublevação das populações; há que orientar esse pronunciamento num programa criativo, reformador e participado. Infelizmente, quase nunca é possível obter convergências partidárias: a esquerda portuguesa já não tem pés, de tantos tiros que lhes deu.

Anthony Burgess, referindo-se à personagem principal de Laranja Mecânica, Alex, recorda a escolha do seu nome pelas conotações irónicas (Alexandre Magno), e avisa que aqueles que assaltam o poder pela força bruta acabam vencidos, impotentes, reduzidos ao silêncio (basta passar em revista a história dos grandes ditadores). Burgess diz que Alex “Impunha aos outros a sua lei (lex), acabando convertido numa criatura sem lex ou léxico, um a-lex”. Uma criatura sem voz.

Neste país, a sobrevivência de uma voz popular (não a vox populi) escorada por líderes genuínos e pelo compromisso dos media é uma miragem. A propensão para caricaturar as questões vitais deita sempre tudo a perder. Não conheço, para além dos portugueses, quem melhor se adapte à intolerância governativa e faça disso, através do anedotário, um factor de menor importância. Rimo-nos de quem nos bate, mas pedimos-lhes que não parem de bater (talvez para continuar a rir). Somos incapazes de manter a seriedade das nossas convicções.

Jesus acrescentou uma dimensão humana à religião. E trouxe, de facto, uma voz: aquela que se pode ouvir acima de todo o ruído do mundo. É muito bonita a fictícia dedicatória do livro de Zuwaine, no filme A Intérprete: “O tiroteio ao nosso redor é difícil de ouvir. Mas, a voz humana é diferente de outros sons. Pode ser ouvida acima de qualquer ruído. Mesmo quando não está a gritar. Mesmo que seja apenas um sussurro. Mesmo o menor sussurro pode ser ouvido sobre os exércitos, … quando se diz a verdade!”. Este voz é semelhante à voz do Natal, aquela que veio para dizer que somos todos iguais. E que é necessário libertarmo-nos da voz do dono.

António Jacinto Pascoal

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