Uma bússola pedagógica

279087_1349299836131_0Há precisamente sessenta e um anos, hoje cumpridos, era divulgado em Évora o primeiro número do jornal O Leme – Rumo à Criança, propriedade da Associação dos Alunos da Escola do Magistério Primário da capital do Alto Alentejo.

Frequentava eu então o 1.º ano desse estabelecimento de ensino profissional e a iniciativa da edição pertenceu a um grupo de alunos finalistas, onde se contavam dois bons amigos, pela vida fora: António Alves Seara e Francisco Alberto Fortunato Queirós. Este, infelizmente, já faleceu; ao Seara vim reencontrá-lo aqui, em Peniche, onde ele vive há mais de meio século.

O exemplar que nasceu em 31 de Janeiro de 1952 era um modesto conjunto, agrafado, de folhas impressas a stencil. As edições seguintes teriam já honras de impressão tipográfica.

O director da Escola, Manuel Alves Martins, reconhece no seu editorial constante da capa a modéstia formal da publicação, afirmando que esta, no entanto, poderá contribuir para colocar os alunos à prova, melhorando-os, ao mesmo tempo que desempenhará o papel de traço de união entre eles e a própria escola. Confia, também, na melhoria do jornal e na sua sobrevivência.

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Falé Júnior, o coordenador do grupo de alunos, faz depois uma longa profissão de fé, bem ao estilo da época. Desde o título -“Deus nos ajude…”- ao conteúdo, o articulista revela claramente que o jornal sabe o que quer e por onde vai. E explica o sentido do subtítulo, resultante da chama que a todos impele para a criança.

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Outra dilatada colaboração tem a assinatura do Prof. Alfredo Reis, conceituado e veterano mestre das Didácticas aplicadas. O seu elaborado texto constitui um entusiástico incentivo, sob o significativo lema “Ala! Arriba!“.

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O Xico Queirós, pragmático e sintético, mais ligado à terra firme, aborda depois o facto concreto dum sonho tornado ali realidade, formulando votos de futuro.

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A seguir, vem a secção cultural, que se inicia com a participação de Maria Flor Campino, no texto “Contrastes“, longa poesia em prosa, carregada de adjectivos, passarinhos e flores.

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Entre as poesias propriamente ditas que integram a edição, algumas subscritas com pseudónimos que as longas décadas decorridas não permitem descodificar, surgem duas, devidamente assinadas: “Ideal“, de A. Seara, e “Prece ou Um Lar Contigo“, de F. A. Queirós. Do que sei, e sei-o claramente sobre um e outro, apenas o primeiro seguiu e aprofundou esta inegável vocação poética; o segundo, depois de se distinguir na sua inclinação pelos meios audiovisuais, acabaria por inflectir para uma carreira nos domínios da História, onde chegaria a Catedrático.

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A secção seguinte, dedicada ao humor, intitula-se “Cortes Inofensivos” e pretende evocar, caricaturando-os, episódios provavelmente reais. Confesso total incapacidade para reconhecer, hoje, qualquer deles…

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Para finalizar a edição, da última página constam uma elaborada proposta de palavras cruzadas alusivas e um breve noticiário, onde se dá conta da doença dum professor e do aniversário dum outro. Alguns provérbios adequados completam os raros espaços livres do jornal.

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O Leme – Rumo à Criança significou uma certa pedrada no charco da indiferença então reinante. Embora sujeito aos inflexíveis ditames duma época que não deixou saudades, representou uma iniciativa curiosa e arrojada, bem reveladora da capacidade intelectual de um grupo de jovens que, na sua maioria, viriam a confirmar posteriormente essa invulgaridade. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Maravilhas de Portugal

ronda cabeçalhoOutra das cadernetas recenseadas é a intitulada Maravilhas de Portugal, iniciativa da Editorial Ibis, Limitada, que a inseriu na sua Colecção Cultura, com o n.º 7.

São 260 cromos com os quais os editores, numa espécie de editorial, pretendem divertir e educar, simultaneamente. Explicam que não lhes foi fácil completar a colecção, pois consumiram mais de um ano na recolha e selecção dos textos, assim como na compilação das legendas, para além do intenso labor do fotógrafo Tito David, que percorreu quase todo o Portugal.

Os responsáveis, em louvável complemento, indicam a bibliografia consultada, numa lista com cerca de quatro dezenas de títulos.

O envolvimento cultural da colecção propriamente dita inclui excertos de Camões (Os Lusíadas), Fernando Pessoa (Mensagem) e Antero de Figueiredo (Jornadas em Portugal). Um estribilho patriótico em rodapé, ao estilo da época, completa este “prólogo”: Portugal é a tua Pátria: ama-a, respeita-a – luta por ela!

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A primeira edição desta colecção data de Junho de 1963 e seguiram-se outras, idênticas, dado o êxito obtido pelos 15000 exemplares vendidos na estreia. A editora tinha-se inspirado no modelo dum álbum espanhol publicado pela Bruguera, Bellezas de España, em 1959.

A lógica organizativa da caderneta inclui fotografias de monumentos e sítios (até costumes) considerados significativos e começa por Lisboa, cidade e arredores (onde inclui Setúbal, Almada, Cascais, Mafra, Sintra…), a que dedica 16 páginas, num conjunto de 4 cromos mais as respectivas legendas por página. Sobrou um cromo dedicado ao Barreiro, já incluído na página seguinte, onde começa a descrição do Porto, com apenas 3 páginas…

Depois vem Coimbra, de onde se passa a Viana do Castelo, Braga, Guimarães e por aí abaixo, por faixas que englobam do litoral ao interior. Ao chegar ao Oeste, registamos 3 cromos para Leiria, 2 para a Batalha, 1 para Aljubarrota, 5 para a Nazaré, 3 para Alcobaça, 4 para Caldas da Rainha, 2 para Óbidos e 4 para Fátima. Daí passa a Tomar, Torres Novas, Almourol, Abrantes e por aí fora. Portanto, sobre Peniche, nem uma palavra, nem uma imagem…

Creio que é profundamente injusta tal omissão. Peniche ainda não era cidade em 1963, mas tal critério não foi aqui levado em conta, bastando recordar a lista atrás apresentada, para comprovar isso. E a riqueza paisagística, patrimonial e até económica que Peniche então já possuia justificava plenamente a referência.

Passemos à região (distrito) de Portalegre. Começa por Castelo de Vide (com 1 cromo), continua com Nisa (1) e  Marvão (2), terminando com Elvas (3). “Entalada” entre estas duas  últimas povoações, fica Portalegre, a quem é dedicado, apenas, um simples cromo.

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E este, como se em Portalegre nada mais existisse digno de menção icónica, apresenta… a Misericórdia! A fotografia, por acaso, não é a mesma da outra caderneta da mesmíssima época, aqui analisada há semanas. Esta já não mostra o candeeiro, embora revele uma maior porção da fachada do mercado municipal, incluindo a torre do relógio.

Quanto à legenda, aí, o seu texto desmente em absoluto os propósitos enunciados no editorial. O erro crasso nela contido é demasiado grave para passar em claro e faz desconfiar sobre o rigor global da obra. Transcrevo o período em causa: “Foi em 1259 que D. Afonso III lhe deu foral de vila, mais tarde elevada a cidade e feita sede de bispado no reinado de D. Manuel, em 1850“. Trocar D. João III por D. Manuel e acrescentar três séculos à autêntica data histórica do facto aludido é excessivo disparate, que nem Portalegre nem os confiantes leitores merecem.

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A elaboração do texto e a sua revisão foram descuidadas e levianas. Não sei se, na época, terá sido feito algum reparo e se eventualmente, em posteriores edições, terá sido concretizada a devida correcção.

Por mim, mea culpa, tudo isso me passou em claro na época. Agora é demasiado tarde para emendas, pelo que este registo é meramente simbólico.

O que não é simbólico, antes uma má sina, é a maneira quase sempre descuidada como Portalegre é tratada.

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LUTO E A LUTA

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Razões do foro familiar devolveram-me episodicamente a Portalegre. Portanto, por essa fortuita coincidência, pude hoje testemunhar a prova de solidariedade que a população demonstrou para com as família atingidas pelo duro golpe de uma brutal e inesperada perda. O ambiente da cidade sentia-se funesto, tocado pela brutal adversidade, sobretudo na dimensão colectiva que assumiu.

O luto é, também ele, uma prova de sobrevivência, a de que somos capazes de vencer a dor, inenarrável, duma ausência sem remédio. Sei como é. É, ela própria, uma luta íntima, sem fim, que só o tempo vai atenuando até se conseguir suportar o sofrimento, nunca apagando uma pesada lembrança de afectos sem nome, indizíveis… E esta é uma luta sem aliados, travada individualmente no nosso mais profundo interior.

Mas o episódico retorno às origens trouxe-me, próximos, os ecos de outra luta, a de um jornal contra a adversidade. Li as palavras doloridas, corajosas e realistas, do director e fundador do Fonte Nova. Sei bem o que significa, para ele, o jornal que há quase trinta anos conseguiu implantar em Portalegre. Acompanhei-o, contagiado pelo seu entusiasmo, numa boa parte deste percurso.

Aqui, as coisas passam-se de modo diverso. Não existe neste processo o acidente inesperado ou revestido de brutalidade, antes o tempo e a sua lenta circunstância, aquilo a que nos habituámos e denominar de crise. Talvez por isso, porque lhe falta o choque e a estupefacção, não desperta o sentimento colectivo. E, elemento fundamental neste teórico confronto, um jornal não é um ser vivo, não é uma pessoa…

Um jornal é, apenas, objecto inerte, papel manchado de tinta, mas é também o registo de ecos, gritos, dores, risos, alegrias, esperanças, raivas de gente viva. É aquilo que fica a atestar, para todos os futuros, a glória ou o fracasso, o triunfo e a derrota, a vida e a morte de muita gente. É testemunho, juras, mentira, verdade, promessas, conquista, perda. É modesta esperança de humildes e balofo roncar de poderosos, que me perdoe António Vieira o plágio.

A importância dum jornal numa pequena cidade como Portalegre mede-se pela sua função comunitária. Vi como ele era hoje disputado, na ânsia de identificar, pelo texto e pela imagem, o relato e os rostos da tragédia que atingiu a comunidade portalegrense. Provavelmente, quando já à distância redijo estas linhas, longe de Portalegre e das emoções aí vividas, já terá esgotado a edição. Mas não a função.

Luto e luta. São duas palavras, quase homófonas, quase homógrafas, sentimentos, atitudes. Acompanho o luto dos que perderam os seus entes queridos, compreendendo a luta, tremenda, que agora encetam pela imperiosa defesa de memórias e pela conquista duma sobrevivência pessoal, que será no entanto mais pobre, mais solitária, ainda assim possível. Tenho a certeza de que a comunidade portalegrense saberá ajudar as famílias enlutadas neste doloroso processo.

Acompanho também a luta de Aurélio Bentes Bravo, na defesa do seu, do nosso jornal. Mas não disponho, aqui, da inabalável certeza de que a comunidade portalegrense saberá perceber, atempadamente, a importância dum meio de comunicação social, fundamental para o seu próprio equilíbrio, plural porta-voz de muitos, factor de progresso, consensual ou polémico (talvez antes assim!), penhor de afirmação colectiva, memória para o futuro. Espero enganar-me nesta desconfiança…

E formulo os mais ardentes votos de que, neste caso, à luta não se siga o luto.

Peniche, no serão dum dia (duplamente) triste
António Martinó de Azevedo Coutinho

Firmino Crespo – 1

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O Dr. Firmino Crespo é um dos principais responsáveis por eu gostar de ler e de escrever. Naturalmente, antes de o ter como excelente professor de Português durante toda a minha passagem pelo Liceu de Portalegre, já tivera, como mestre das primeiras letras, o professor Jaime Belém, competente profissional na arte de ensinar. E, para ser justo, devo acrescentar os “trabalhos de casa”, protagonizados pela minha mãe e pelo meu avô, que criaram em permanência, pelo exemplo e pela disponibilidade, o ambiente propício ao meu estreito contacto pessoal com os livros.

Firmino de Deus Crespo, natural de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, foi professor de Português (1.º Grupo) no Liceu de Portalegre, entre 1938 e 1953, portanto durante 15 anos lectivos. Tendo aí chegado depois de Régio, e tendo saído antes deste, Firmino Crespo depressa se tornaria, embora discretamente, um dos seus mais íntimos amigos e também companheiro certo na tertúlia do Café Central e em grandes passeios aos Domingos (se bem calhou, até noutros dias da semana!).

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Culto, competente e seguro, criando e inspirando confiança nos alunos pelo estilo calmo e quase paternal, soube o Dr. Firmino Crespo transformar as suas aulas em momentos de autêntica aprendizagem e de saudável convívio pessoal. É muito frequente, quando antigos alunos recordam as suas experiências discentes, citarem o professor Firmino como um dos que mais os marcaram pela positiva. Pessoalmente, se lhe juntar Roberto Matos e Albino Honório de Freitas (este por diverso motivo), constituiria assim o pódio dos meus eleitos.

Casou, já tarde, com uma senhora de nacionalidade inglesa, com quem ainda viveu em Portalegre, no Largo dos Silveiros. Depois, sairam para Setúbal, em cujo Liceu foi professor de Português, Latim e Grego. Esteve ainda o Dr. Firmino Crespo alguns anos em comissão de serviço por esta altura, como Leitor de Português na Universidade de Liverpool (1954-1962). Terminou a carreira docente no Liceu de Gil Vicente, Lisboa, em 1976.

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Aquilo que quando o conhecemos ainda ignorávamos sobre ele foi o facto de ser um apreciado homem de letras, com obra já publicada e, sobretudo, a publicar. Os seus trabalhos de tradução, prefaciação e anotação das célebres e clássicas Centúrias de Curas Médicas, da autoria do médico setecentista luso hebreu João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano), em quatro volumes, constituem uma obra de grande vulto, como tal reconhecido tanto nos meios literários como nos científicos.

novoOutros temas constituiriam preocupação literária de Firmino Crespo, como a poesia trovadoresca e lírica nacional, tendo abordado sobretudo Cristóvão Falcão, Sá de Miranda, André de Resende e também Camões. Curiosamente, entre a sua obra publicada, encontramos um trabalho conjunto com José Régio: Três Momentos na Lírica Portuguesa: Tradição Lírica Trovadoresca, Cristóvão Falcão (Atlântida Editora, Coimbra, 1970). Já o seu camarada de letras e amigo morrera…

A sua terra natal, Idanha-a-Nova, foi pretexto para a elaboração duma cuidada monografia descritiva e histórica, por parte de Firmino Crespo. Também o Cancioneiro da vizinha Senhora do Almortão foi estudado, prefaciado, anotado e publicado por sua iniciativa.

Em 1970, foi divulgado o estudo José Régio: Traços da sua Personalidade Humana, igualmente da sua autoria.

Tem colaboração dispersa por muitos jornais e revistas, entre os quais O Distrito de Portalegre e A Rabeca.

Não pode portanto estranhar-se o facto, por justíssimo, de a autarquia de Idanha-a-Nova ter decidido atribuir o seu nome a uma moderna artéria da vila.

A última e saudosa oportunidade de o ter encontrado, ao vivo, foi no dia 25 de Fevereiro de 1970, quando ele proferiu uma notável conferência sobre José Régio, em iniciativa promovida pela Escola do Magistério Primário de Portalegre. Aí recordámos os bons momentos protagonizados na nossa vida liceal, sobretudo quando ele e o poeta da Toada regularmente me seleccionavam para dizer poesia nos frequentes saraus culturais daquele estabelecimento de ensino.  Acrescente-se que quase sempre os deixava decepcionados com a minha sistemática falta de jeito para a declamação. Mas eles, generosamente, sempre me iam concedendo novas oportunidades. Com raro sucesso, no entanto…

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Foi o meu amigo João Fevereiro Mendes que há dias me recordou, com emoção, o professor comum, que nos marcou. Abordou então um artigo de jornal em que Firmino Crespo falou de José Régio. Como eu o desconhecesse, ele teve a gentileza de me oferecer o precioso exemplar.

Trata-se de mais um contributo para um melhor conhecimento do homem e do literato, vindo de quem com este privava, por dentro. Senti, por isso, a necessidade e urgência da sua partilha. O interesse do documento é óbvio, sobretudo para quem conheceu ambos os amigos, mas não só.

Portanto, em próximos posts, darei a conhecer o artigo José Régio – o poeta na sua humanidade, publicado em Literatura & Arte, suplemento das quartas-feiras do antigo jornal A Capital, de 21 de Janeiro de 1970, seguido do texto da conferência proferida por Firmino Crespo na Escola do Magistério Primário de Portalegre, no dia 25 de Fevereiro do mesmo ano, retirado da revista Mais Além, órgão deste estabelecimento de ensino.

Ao João Fevereiro Mendes, grato pela oportunidade que me concede de mais este serviço cultural -também de homenagem à memória de dois velhos professores do Liceu de Portalegre- deixo aqui o registo da sua nomeação como correspondente do Largo dos Correios/Fonte do Rosário, juntando o seu nome ao do Florindo Madeira.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Peniche – Pormenores – IV

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IV – NOMENCLATURAS

As nomenclaturas oficiais são muitas vezes, no domínio toponímico, um verdadeiro ADN das respectivas comunidades.

Nas designações das ruas e praças, tanto as actuais como as que as antecederam, estão muitas vezes registados o desenrolar dos tempos, a memória de personalidades locais marcantes aos mais diversos níveis, certos acidentes de percurso ou, mesmo, trivialidades.

As próprias mudanças radicais nas nomenclaturas toponímicas revelam, quase sempre, alterações de natureza política, sobretudo de regime. Tivemos disso flagrantes exemplos na passagem da Monarquia para a República ou com a Revolução de Abril.

Já as nomenclaturas de natureza privada, dependentes da iniciativa individual ou colectiva dos cidadãos, correspondem a gostos mais díspares, a meros caprichos, a jogos de originalidade, a impulsos espontâneos. No entanto, dentro da extrema diversidade que envolve a escolha duma designação comercial e industrial ou duma associação, por exemplo, pode vislumbrar-se uma certa conotação genética, um mesmo ADN comum.

Em Peniche, afigura-se-me nítida esta característica.  É sempre  o  mar, incontornável, que dita esta regra, não escrita, de usos e costumes. Nem precisamos, uma vez mais, de procurar no centro urbano uma linha orientadora de nomenclaturas marítimas, por exemplo nas designações de cafés, bares ou restaurantes: Oceano, A Nau ou A Sardinha, para citar apenas estas.

Nos erráticos percursos pelas periferias podemos encontrar, como acontece com os painéis já abordados, inúmeras designações sujeitas a este dominante sinal dum mar omnipresente. Depois da imagem é pelo texto que ele agora se revela e confirma.

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Um café, salão de chá, restaurante ou pastelaria que se chama O Marinheiro, Pescadores, Canoa, Duna ou Golfinho denuncia o sentido essencial da sua referência; ou então Marimel, Verde Mar ou Quebra-Mar, mais explicitamente buscando uma ligação, quase umbilical, ao contexto envolvente.

Já a designação Tsunami, embora curiosa, lembra alguma originalidade temperada com ressonâncias de distante tragédia… marítima.

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Outros tipos de estruturas comerciais ou industriais revelam, igualmente, opções de idêntico cariz, peixarias (estas com toda a lógica!) ou escolas de condução, empresas de construção civil ou blocos de edifícios, restaurantes, cooperativas, clubes, empresas de formação profissional, eu sei lá, uma quase infinita diversidade de organismos de toda a natureza partilha esta marca de sal, sol, ondas e areia da península de Peniche.

Acho que tal é feito com toda a legitimidade, nisso se envolvendo um certo orgulho de pertença, como uma espécie de estimado apelido de famílias antigas, afinal o ADN, genético, de que falava no início deste breve ensaio sobre nomenclaturas.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Uma data de datas – V – Vasco Santana

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28 de Janeiro de 1898 – Nasce Vasco Santana 

Vasco (António Rodrigues) Santana, que nasceu e morreu em Lisboa (1958), foi um dos maiores actores de teatro e cinema do seu tempo, de todos os tempos.DSC03839

A sua popularidade foi enorme, proporcional à dimensão da sua robusta figura, marcando para sempre a comédia teatral à portuguesa e constituindo-se como intérprete praticamente obrigatório dos filmes nacionais, na sua época.

Tornou-se um autêntico mito e protagonizou com a excelente actriz Laura Alves uma dupla de sucesso.

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Sem título-1Na rádio (Emissora Nacional) também ficaram célebres as séries As Lições do Tonecas (1948) e  Zequinha e Lelé (1952), esta na companhia de Irene Velez.

Ainda hoje se vêem com agrado os muitos filmes, a preto e branco, em que interpretou personagens míticas. Embora dominasse na perfeição as técnicas da representação, dispunha duma notável capacidade de improvisação. As suas duplas com Ribeirinho e os seus diálogos com António Silva constituiram momentos dos mais marcantes no cinema nacional. Quem não se lembra de Pai Tirano, Pátio das Cantigas, A Canção de Lisboa, Camões, Fado ou O Costa de África, por exemplo?

Humanista por excelência, Vasco Santana abandonou outra forte vocação, pictórica, pelo serviço nos palcos e nas telas. Pelo amor à arte de representar, interrompeu o curso de arquitectura e, depois, a paixão pela pintura, tendo mesmo chegado a frequentar a Escola de Belas-Artes.

Foi casado com a actriz Mirita Casimiro e pai do, também actor, Henrique Santana.

Do filme de Cottinelli Telmo  A Canção de Lisboa (o primeiro filme sonoro nacional, de 1933), recorda-se a seguir uma animada discussão entre Vasco Santana e Beatriz Costa.

Diário – página III

cabeçalho diário

Peniche, vinte e oito de Janeiro de dois mil e treze

Hoje apetece-me falar do mar e da atmosfera. Se por acaso ainda não deram por isso é assim que se chama o instituto, oficial, que a gente quase sempre se acostumou a chamar meteorológico. Reconheço que a designação é mais acessível; daquilo que tenho umas certas dúvidas é se o tempo, o meteorológico claro, se resume ao mar e à atmosfera. Provavelmente, até será assim, eu é que levo tempo a acostumar-me às novidades.

Aqui, em Peniche, ao contrário de Portalegre, são perfeitamente acessíveis tanto o mar como a atmosfera, como não sentia em Portalegre. Eu explico: Portalegre obviamente não tem mar, e a Póvoa ou a Apartadura, Entre-Ribeiras, a charca de Gáfete, a ribeira de Nisa ou o rio Sever, na Portagem, e estou a citar exemplos, estes cursos ou espelhos de água são uma simples amostragem do oceano que aqui desfruto em pleno, por todos os lados menos por um. E até houve alturas, já cá o aprendi, em que isto era água por todos os lados e o mar estendia-se até Atouguia, donde até baleias se pescavam. Ou é: caçavam? Provavelmente.

Quanto à atmosfera, também aqui é mais vasta. Não aponto isto como um defeito de Portalegre, mas como em volta de Peniche não há uma admirável serra, e logo depois uma bela montanha, e depois a generalidade dos prédios se distribui muito mais em superfícicie do que em altura, a nesga do céu portalegrense transforma-se aqui numa vastidão em pleno redor, sem molduras restritivas.

Portanto tenho agora mar e também tenho mais atmosfera.

Voltemos ao instituto dos mesmos. Graças às disponibilidades dos modernos programas informáticos, tenho acessível em tempo real informação sumária sobre as condições meteorológicas básicas de locais à minha escolha. Seleccionei as duas Portalegre´s, a de Portugal e a do Brasil, assim como Peniche.

Divirto-me na frequente consulta comparada de dados relativos às três cidades. Acontece, na maioria das visitas, a temperatura mínima de Peniche ser idêntica, ou até superior à máxima de Portalegre (de cá, obviamente), já que a de lá é doutro campeonato, agora em pleno Verão dos trópicos. Também no que respeita ao sol, à nebulosidade ou à chuva, as diferenças são nítidas, bem como quanto aos níveis de humidade. Dava-me jeito saber do vento, mas isso não consta dos dados que me são fornecidos. De borla, acrescente-se.

Enfim, acho nestas facilidades uma das consequências da modernidade doméstica, a de nos trazer ao domicílio uma quase infinita variedade informativa, do tempo meteorológico às mais próximas farmácias de serviço, à programação dos cinemas das redondezas, às últimas notícias de todo o mundo, aos resultados das competições desportivas, eu sei lá…

Só não nos chegam certezas quanto ao fim da crise, ao termo do flagelo do desemprego, ao reequilíbrio de tantas famílias destroçadas pelos problemas derivados da sistemática incompetência alheia e, por vezes, dalguma responsabilidade própria.

Tal como na meteorologia, não controlamos os dados, não chove quando e onde nos calha melhor. O mar da indiferença e a atmosfera da desconfiança, quando nascem, não são iguais para todos.