Diário – página III

cabeçalho diário

Peniche, vinte e oito de Janeiro de dois mil e treze

Hoje apetece-me falar do mar e da atmosfera. Se por acaso ainda não deram por isso é assim que se chama o instituto, oficial, que a gente quase sempre se acostumou a chamar meteorológico. Reconheço que a designação é mais acessível; daquilo que tenho umas certas dúvidas é se o tempo, o meteorológico claro, se resume ao mar e à atmosfera. Provavelmente, até será assim, eu é que levo tempo a acostumar-me às novidades.

Aqui, em Peniche, ao contrário de Portalegre, são perfeitamente acessíveis tanto o mar como a atmosfera, como não sentia em Portalegre. Eu explico: Portalegre obviamente não tem mar, e a Póvoa ou a Apartadura, Entre-Ribeiras, a charca de Gáfete, a ribeira de Nisa ou o rio Sever, na Portagem, e estou a citar exemplos, estes cursos ou espelhos de água são uma simples amostragem do oceano que aqui desfruto em pleno, por todos os lados menos por um. E até houve alturas, já cá o aprendi, em que isto era água por todos os lados e o mar estendia-se até Atouguia, donde até baleias se pescavam. Ou é: caçavam? Provavelmente.

Quanto à atmosfera, também aqui é mais vasta. Não aponto isto como um defeito de Portalegre, mas como em volta de Peniche não há uma admirável serra, e logo depois uma bela montanha, e depois a generalidade dos prédios se distribui muito mais em superfícicie do que em altura, a nesga do céu portalegrense transforma-se aqui numa vastidão em pleno redor, sem molduras restritivas.

Portanto tenho agora mar e também tenho mais atmosfera.

Voltemos ao instituto dos mesmos. Graças às disponibilidades dos modernos programas informáticos, tenho acessível em tempo real informação sumária sobre as condições meteorológicas básicas de locais à minha escolha. Seleccionei as duas Portalegre´s, a de Portugal e a do Brasil, assim como Peniche.

Divirto-me na frequente consulta comparada de dados relativos às três cidades. Acontece, na maioria das visitas, a temperatura mínima de Peniche ser idêntica, ou até superior à máxima de Portalegre (de cá, obviamente), já que a de lá é doutro campeonato, agora em pleno Verão dos trópicos. Também no que respeita ao sol, à nebulosidade ou à chuva, as diferenças são nítidas, bem como quanto aos níveis de humidade. Dava-me jeito saber do vento, mas isso não consta dos dados que me são fornecidos. De borla, acrescente-se.

Enfim, acho nestas facilidades uma das consequências da modernidade doméstica, a de nos trazer ao domicílio uma quase infinita variedade informativa, do tempo meteorológico às mais próximas farmácias de serviço, à programação dos cinemas das redondezas, às últimas notícias de todo o mundo, aos resultados das competições desportivas, eu sei lá…

Só não nos chegam certezas quanto ao fim da crise, ao termo do flagelo do desemprego, ao reequilíbrio de tantas famílias destroçadas pelos problemas derivados da sistemática incompetência alheia e, por vezes, dalguma responsabilidade própria.

Tal como na meteorologia, não controlamos os dados, não chove quando e onde nos calha melhor. O mar da indiferença e a atmosfera da desconfiança, quando nascem, não são iguais para todos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s