Firmino Crespo – 1

CABEÇALHO FC

O Dr. Firmino Crespo é um dos principais responsáveis por eu gostar de ler e de escrever. Naturalmente, antes de o ter como excelente professor de Português durante toda a minha passagem pelo Liceu de Portalegre, já tivera, como mestre das primeiras letras, o professor Jaime Belém, competente profissional na arte de ensinar. E, para ser justo, devo acrescentar os “trabalhos de casa”, protagonizados pela minha mãe e pelo meu avô, que criaram em permanência, pelo exemplo e pela disponibilidade, o ambiente propício ao meu estreito contacto pessoal com os livros.

Firmino de Deus Crespo, natural de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, foi professor de Português (1.º Grupo) no Liceu de Portalegre, entre 1938 e 1953, portanto durante 15 anos lectivos. Tendo aí chegado depois de Régio, e tendo saído antes deste, Firmino Crespo depressa se tornaria, embora discretamente, um dos seus mais íntimos amigos e também companheiro certo na tertúlia do Café Central e em grandes passeios aos Domingos (se bem calhou, até noutros dias da semana!).

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Culto, competente e seguro, criando e inspirando confiança nos alunos pelo estilo calmo e quase paternal, soube o Dr. Firmino Crespo transformar as suas aulas em momentos de autêntica aprendizagem e de saudável convívio pessoal. É muito frequente, quando antigos alunos recordam as suas experiências discentes, citarem o professor Firmino como um dos que mais os marcaram pela positiva. Pessoalmente, se lhe juntar Roberto Matos e Albino Honório de Freitas (este por diverso motivo), constituiria assim o pódio dos meus eleitos.

Casou, já tarde, com uma senhora de nacionalidade inglesa, com quem ainda viveu em Portalegre, no Largo dos Silveiros. Depois, sairam para Setúbal, em cujo Liceu foi professor de Português, Latim e Grego. Esteve ainda o Dr. Firmino Crespo alguns anos em comissão de serviço por esta altura, como Leitor de Português na Universidade de Liverpool (1954-1962). Terminou a carreira docente no Liceu de Gil Vicente, Lisboa, em 1976.

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Aquilo que quando o conhecemos ainda ignorávamos sobre ele foi o facto de ser um apreciado homem de letras, com obra já publicada e, sobretudo, a publicar. Os seus trabalhos de tradução, prefaciação e anotação das célebres e clássicas Centúrias de Curas Médicas, da autoria do médico setecentista luso hebreu João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano), em quatro volumes, constituem uma obra de grande vulto, como tal reconhecido tanto nos meios literários como nos científicos.

novoOutros temas constituiriam preocupação literária de Firmino Crespo, como a poesia trovadoresca e lírica nacional, tendo abordado sobretudo Cristóvão Falcão, Sá de Miranda, André de Resende e também Camões. Curiosamente, entre a sua obra publicada, encontramos um trabalho conjunto com José Régio: Três Momentos na Lírica Portuguesa: Tradição Lírica Trovadoresca, Cristóvão Falcão (Atlântida Editora, Coimbra, 1970). Já o seu camarada de letras e amigo morrera…

A sua terra natal, Idanha-a-Nova, foi pretexto para a elaboração duma cuidada monografia descritiva e histórica, por parte de Firmino Crespo. Também o Cancioneiro da vizinha Senhora do Almortão foi estudado, prefaciado, anotado e publicado por sua iniciativa.

Em 1970, foi divulgado o estudo José Régio: Traços da sua Personalidade Humana, igualmente da sua autoria.

Tem colaboração dispersa por muitos jornais e revistas, entre os quais O Distrito de Portalegre e A Rabeca.

Não pode portanto estranhar-se o facto, por justíssimo, de a autarquia de Idanha-a-Nova ter decidido atribuir o seu nome a uma moderna artéria da vila.

A última e saudosa oportunidade de o ter encontrado, ao vivo, foi no dia 25 de Fevereiro de 1970, quando ele proferiu uma notável conferência sobre José Régio, em iniciativa promovida pela Escola do Magistério Primário de Portalegre. Aí recordámos os bons momentos protagonizados na nossa vida liceal, sobretudo quando ele e o poeta da Toada regularmente me seleccionavam para dizer poesia nos frequentes saraus culturais daquele estabelecimento de ensino.  Acrescente-se que quase sempre os deixava decepcionados com a minha sistemática falta de jeito para a declamação. Mas eles, generosamente, sempre me iam concedendo novas oportunidades. Com raro sucesso, no entanto…

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Foi o meu amigo João Fevereiro Mendes que há dias me recordou, com emoção, o professor comum, que nos marcou. Abordou então um artigo de jornal em que Firmino Crespo falou de José Régio. Como eu o desconhecesse, ele teve a gentileza de me oferecer o precioso exemplar.

Trata-se de mais um contributo para um melhor conhecimento do homem e do literato, vindo de quem com este privava, por dentro. Senti, por isso, a necessidade e urgência da sua partilha. O interesse do documento é óbvio, sobretudo para quem conheceu ambos os amigos, mas não só.

Portanto, em próximos posts, darei a conhecer o artigo José Régio – o poeta na sua humanidade, publicado em Literatura & Arte, suplemento das quartas-feiras do antigo jornal A Capital, de 21 de Janeiro de 1970, seguido do texto da conferência proferida por Firmino Crespo na Escola do Magistério Primário de Portalegre, no dia 25 de Fevereiro do mesmo ano, retirado da revista Mais Além, órgão deste estabelecimento de ensino.

Ao João Fevereiro Mendes, grato pela oportunidade que me concede de mais este serviço cultural -também de homenagem à memória de dois velhos professores do Liceu de Portalegre- deixo aqui o registo da sua nomeação como correspondente do Largo dos Correios/Fonte do Rosário, juntando o seu nome ao do Florindo Madeira.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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