O LUTO E A LUTA

lutos e lutas

Razões do foro familiar devolveram-me episodicamente a Portalegre. Portanto, por essa fortuita coincidência, pude hoje testemunhar a prova de solidariedade que a população demonstrou para com as família atingidas pelo duro golpe de uma brutal e inesperada perda. O ambiente da cidade sentia-se funesto, tocado pela brutal adversidade, sobretudo na dimensão colectiva que assumiu.

O luto é, também ele, uma prova de sobrevivência, a de que somos capazes de vencer a dor, inenarrável, duma ausência sem remédio. Sei como é. É, ela própria, uma luta íntima, sem fim, que só o tempo vai atenuando até se conseguir suportar o sofrimento, nunca apagando uma pesada lembrança de afectos sem nome, indizíveis… E esta é uma luta sem aliados, travada individualmente no nosso mais profundo interior.

Mas o episódico retorno às origens trouxe-me, próximos, os ecos de outra luta, a de um jornal contra a adversidade. Li as palavras doloridas, corajosas e realistas, do director e fundador do Fonte Nova. Sei bem o que significa, para ele, o jornal que há quase trinta anos conseguiu implantar em Portalegre. Acompanhei-o, contagiado pelo seu entusiasmo, numa boa parte deste percurso.

Aqui, as coisas passam-se de modo diverso. Não existe neste processo o acidente inesperado ou revestido de brutalidade, antes o tempo e a sua lenta circunstância, aquilo a que nos habituámos e denominar de crise. Talvez por isso, porque lhe falta o choque e a estupefacção, não desperta o sentimento colectivo. E, elemento fundamental neste teórico confronto, um jornal não é um ser vivo, não é uma pessoa…

Um jornal é, apenas, objecto inerte, papel manchado de tinta, mas é também o registo de ecos, gritos, dores, risos, alegrias, esperanças, raivas de gente viva. É aquilo que fica a atestar, para todos os futuros, a glória ou o fracasso, o triunfo e a derrota, a vida e a morte de muita gente. É testemunho, juras, mentira, verdade, promessas, conquista, perda. É modesta esperança de humildes e balofo roncar de poderosos, que me perdoe António Vieira o plágio.

A importância dum jornal numa pequena cidade como Portalegre mede-se pela sua função comunitária. Vi como ele era hoje disputado, na ânsia de identificar, pelo texto e pela imagem, o relato e os rostos da tragédia que atingiu a comunidade portalegrense. Provavelmente, quando já à distância redijo estas linhas, longe de Portalegre e das emoções aí vividas, já terá esgotado a edição. Mas não a função.

Luto e luta. São duas palavras, quase homófonas, quase homógrafas, sentimentos, atitudes. Acompanho o luto dos que perderam os seus entes queridos, compreendendo a luta, tremenda, que agora encetam pela imperiosa defesa de memórias e pela conquista duma sobrevivência pessoal, que será no entanto mais pobre, mais solitária, ainda assim possível. Tenho a certeza de que a comunidade portalegrense saberá ajudar as famílias enlutadas neste doloroso processo.

Acompanho também a luta de Aurélio Bentes Bravo, na defesa do seu, do nosso jornal. Mas não disponho, aqui, da inabalável certeza de que a comunidade portalegrense saberá perceber, atempadamente, a importância dum meio de comunicação social, fundamental para o seu próprio equilíbrio, plural porta-voz de muitos, factor de progresso, consensual ou polémico (talvez antes assim!), penhor de afirmação colectiva, memória para o futuro. Espero enganar-me nesta desconfiança…

E formulo os mais ardentes votos de que, neste caso, à luta não se siga o luto.

Peniche, no serão dum dia (duplamente) triste
António Martinó de Azevedo Coutinho

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