Maravilhas de Portugal

ronda cabeçalhoOutra das cadernetas recenseadas é a intitulada Maravilhas de Portugal, iniciativa da Editorial Ibis, Limitada, que a inseriu na sua Colecção Cultura, com o n.º 7.

São 260 cromos com os quais os editores, numa espécie de editorial, pretendem divertir e educar, simultaneamente. Explicam que não lhes foi fácil completar a colecção, pois consumiram mais de um ano na recolha e selecção dos textos, assim como na compilação das legendas, para além do intenso labor do fotógrafo Tito David, que percorreu quase todo o Portugal.

Os responsáveis, em louvável complemento, indicam a bibliografia consultada, numa lista com cerca de quatro dezenas de títulos.

O envolvimento cultural da colecção propriamente dita inclui excertos de Camões (Os Lusíadas), Fernando Pessoa (Mensagem) e Antero de Figueiredo (Jornadas em Portugal). Um estribilho patriótico em rodapé, ao estilo da época, completa este “prólogo”: Portugal é a tua Pátria: ama-a, respeita-a – luta por ela!

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A primeira edição desta colecção data de Junho de 1963 e seguiram-se outras, idênticas, dado o êxito obtido pelos 15000 exemplares vendidos na estreia. A editora tinha-se inspirado no modelo dum álbum espanhol publicado pela Bruguera, Bellezas de España, em 1959.

A lógica organizativa da caderneta inclui fotografias de monumentos e sítios (até costumes) considerados significativos e começa por Lisboa, cidade e arredores (onde inclui Setúbal, Almada, Cascais, Mafra, Sintra…), a que dedica 16 páginas, num conjunto de 4 cromos mais as respectivas legendas por página. Sobrou um cromo dedicado ao Barreiro, já incluído na página seguinte, onde começa a descrição do Porto, com apenas 3 páginas…

Depois vem Coimbra, de onde se passa a Viana do Castelo, Braga, Guimarães e por aí abaixo, por faixas que englobam do litoral ao interior. Ao chegar ao Oeste, registamos 3 cromos para Leiria, 2 para a Batalha, 1 para Aljubarrota, 5 para a Nazaré, 3 para Alcobaça, 4 para Caldas da Rainha, 2 para Óbidos e 4 para Fátima. Daí passa a Tomar, Torres Novas, Almourol, Abrantes e por aí fora. Portanto, sobre Peniche, nem uma palavra, nem uma imagem…

Creio que é profundamente injusta tal omissão. Peniche ainda não era cidade em 1963, mas tal critério não foi aqui levado em conta, bastando recordar a lista atrás apresentada, para comprovar isso. E a riqueza paisagística, patrimonial e até económica que Peniche então já possuia justificava plenamente a referência.

Passemos à região (distrito) de Portalegre. Começa por Castelo de Vide (com 1 cromo), continua com Nisa (1) e  Marvão (2), terminando com Elvas (3). “Entalada” entre estas duas  últimas povoações, fica Portalegre, a quem é dedicado, apenas, um simples cromo.

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E este, como se em Portalegre nada mais existisse digno de menção icónica, apresenta… a Misericórdia! A fotografia, por acaso, não é a mesma da outra caderneta da mesmíssima época, aqui analisada há semanas. Esta já não mostra o candeeiro, embora revele uma maior porção da fachada do mercado municipal, incluindo a torre do relógio.

Quanto à legenda, aí, o seu texto desmente em absoluto os propósitos enunciados no editorial. O erro crasso nela contido é demasiado grave para passar em claro e faz desconfiar sobre o rigor global da obra. Transcrevo o período em causa: “Foi em 1259 que D. Afonso III lhe deu foral de vila, mais tarde elevada a cidade e feita sede de bispado no reinado de D. Manuel, em 1850“. Trocar D. João III por D. Manuel e acrescentar três séculos à autêntica data histórica do facto aludido é excessivo disparate, que nem Portalegre nem os confiantes leitores merecem.

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A elaboração do texto e a sua revisão foram descuidadas e levianas. Não sei se, na época, terá sido feito algum reparo e se eventualmente, em posteriores edições, terá sido concretizada a devida correcção.

Por mim, mea culpa, tudo isso me passou em claro na época. Agora é demasiado tarde para emendas, pelo que este registo é meramente simbólico.

O que não é simbólico, antes uma má sina, é a maneira quase sempre descuidada como Portalegre é tratada.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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