Uma bússola pedagógica

279087_1349299836131_0Há precisamente sessenta e um anos, hoje cumpridos, era divulgado em Évora o primeiro número do jornal O Leme – Rumo à Criança, propriedade da Associação dos Alunos da Escola do Magistério Primário da capital do Alto Alentejo.

Frequentava eu então o 1.º ano desse estabelecimento de ensino profissional e a iniciativa da edição pertenceu a um grupo de alunos finalistas, onde se contavam dois bons amigos, pela vida fora: António Alves Seara e Francisco Alberto Fortunato Queirós. Este, infelizmente, já faleceu; ao Seara vim reencontrá-lo aqui, em Peniche, onde ele vive há mais de meio século.

O exemplar que nasceu em 31 de Janeiro de 1952 era um modesto conjunto, agrafado, de folhas impressas a stencil. As edições seguintes teriam já honras de impressão tipográfica.

O director da Escola, Manuel Alves Martins, reconhece no seu editorial constante da capa a modéstia formal da publicação, afirmando que esta, no entanto, poderá contribuir para colocar os alunos à prova, melhorando-os, ao mesmo tempo que desempenhará o papel de traço de união entre eles e a própria escola. Confia, também, na melhoria do jornal e na sua sobrevivência.

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Falé Júnior, o coordenador do grupo de alunos, faz depois uma longa profissão de fé, bem ao estilo da época. Desde o título -“Deus nos ajude…”- ao conteúdo, o articulista revela claramente que o jornal sabe o que quer e por onde vai. E explica o sentido do subtítulo, resultante da chama que a todos impele para a criança.

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Outra dilatada colaboração tem a assinatura do Prof. Alfredo Reis, conceituado e veterano mestre das Didácticas aplicadas. O seu elaborado texto constitui um entusiástico incentivo, sob o significativo lema “Ala! Arriba!“.

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O Xico Queirós, pragmático e sintético, mais ligado à terra firme, aborda depois o facto concreto dum sonho tornado ali realidade, formulando votos de futuro.

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A seguir, vem a secção cultural, que se inicia com a participação de Maria Flor Campino, no texto “Contrastes“, longa poesia em prosa, carregada de adjectivos, passarinhos e flores.

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Entre as poesias propriamente ditas que integram a edição, algumas subscritas com pseudónimos que as longas décadas decorridas não permitem descodificar, surgem duas, devidamente assinadas: “Ideal“, de A. Seara, e “Prece ou Um Lar Contigo“, de F. A. Queirós. Do que sei, e sei-o claramente sobre um e outro, apenas o primeiro seguiu e aprofundou esta inegável vocação poética; o segundo, depois de se distinguir na sua inclinação pelos meios audiovisuais, acabaria por inflectir para uma carreira nos domínios da História, onde chegaria a Catedrático.

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A secção seguinte, dedicada ao humor, intitula-se “Cortes Inofensivos” e pretende evocar, caricaturando-os, episódios provavelmente reais. Confesso total incapacidade para reconhecer, hoje, qualquer deles…

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Para finalizar a edição, da última página constam uma elaborada proposta de palavras cruzadas alusivas e um breve noticiário, onde se dá conta da doença dum professor e do aniversário dum outro. Alguns provérbios adequados completam os raros espaços livres do jornal.

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O Leme – Rumo à Criança significou uma certa pedrada no charco da indiferença então reinante. Embora sujeito aos inflexíveis ditames duma época que não deixou saudades, representou uma iniciativa curiosa e arrojada, bem reveladora da capacidade intelectual de um grupo de jovens que, na sua maioria, viriam a confirmar posteriormente essa invulgaridade. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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