Um dia de luto

PTG lutoNeste triste fim de tarde, fico ainda a pensar na notícia que encheu o dia.

O acidente, só por si, já é dramático. A partir do momento em que se ficou a saber que roubou a Portalegre uma parte daquilo que esta tem de mais precioso, a sua gente, deixou de ser apenas dramático. Passou a ser trágico.

Sinto, à distância, a dor dos que perderam entes queridos. Sinto, à distância, o peso de mais uma sangria, colectiva, na sociedade portalegrense, cada vez mais debilitada.

Ignoro a identidade dos conterrâneos que perderam a vida no brutal acidente. Nem importa quem são, quem foram. Agora, o que conta é o terrível vazio que vão deixar, quer nas suas famílias, quer na comunidade.

Saibamos honrar a sua memória. Tudo o que possa minimizar tal perda, embora irreparável, deve ser feito.

Associo-me, com emoção, ao luto da minha terra, Portalegre. 

NORMAS E NORMAS

papel selado

Normas e Normas

São dois documentos relativos a tempos de entusiasmo, de esperança e, também, de alguma confusão nos espíritos. São dois documentos que tratam dum tema bastante sensível, o da vida interna dum estabelecimento de ensino. São dois documentos fundamentais para se perceberem mentalidades, pontos de vista, direitos e deveres.

São, em suma, o espelho dum país real, ajudando-nos a compreender como chegámos onde estamos, ponto de reflexão para emendar o que deve ser emendado, para aprofundar o que deve ser aprofundado.

Deliberadamente, não faço a mínima consideração pessoal sobre eles. Apetecia-me fazê-lo, mas iria assim condicionar ou orientar a livre apreciação que tem de ser deixada à consciência individual de quem quiser ler estes textos e sobre eles reflectir, confrontando-os.

A nossa Escola é um sector fundamental, um instrumento decisivo para o nosso futuro. Porém, nem sempre parece ser assim considerada por quem de direito. Todos juntos, não deixando a tarefa apenas aos professores e aos alunos, devemos empenhar-nos em criar nas escolas um espaço e um tempo de paz e de progresso, naturalmente compatível com a liberdade.

Trata-se dum dever e de um direito de cidadania. A nossa participação cívica não se esgota nas votações, pontuais,  devendo estar presente em permanência.

Portugal, o país com que sonhamos, depende em boa parte deste empenhamento colectivo, a haver…

O documento n.º 1 é a Acta da 1.ª Reunião Geral de Alunos da Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, Portalegre, realizada a 7 de Maio de 1975, omitindo-se as identidades dos respectivos presidente, secretário e vogal da mesa, por não ser relevante tal informação.

O documento n.º 2 é a Nota Interna n.º 1 (Comportamento dos Alunos da Escola – Princípios Gerais) da Escola Preparatória de Francisco Arruda,  Lisboa, datada de 30 de Setembro de 1976, subscrita pelo Presidente do Conselho Directivo, Manuel Henrique Santana Castilho.

normas

DOCUMENTO N.º 1

Aos sete dias do mês de Maio de 1975, pelas 14.30h, reuniram-se os alunos da Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, em R. G. A., sendo a seguinte a ordem de trabalhos:

1 – Problemas de higiene nas casas de banho.

 2 – Comportamento dos alunos nos últimos dias de aulas.

 3 – Problema da inexistência dum toque de feriado.

 4 – Entrada na Sala de Convívio do Pessoal da Escola.

 5 – Condições de elegibilidade dos alunos para o Conselho Directivo.

 6 – Número de alunos representativo numa R. G. A.

 7 – Proibição de ficar na escola no último tempo lectivo da parte da manhã quando há feriado.

 8 – Marcação das R. G. A.

 9 – Saída dos alunos pela porta principal.

10 – Punição física dos alunos.

11 – Perda do ano por motivo de se darem faltas de castigo.

12 – Proibição dos alunos comerem ou mastigarem nas aulas e licença para os professores fumarem.

Foram então feitas as seguintes propostas que depois de discutidas foram sempre aprovadas por larga maioria:

1 – Propomos que haja uma empregada de serviço auxiliar que fiscalize dia a dia o estado das toalhas das casas de banho, para as retirar e substituir, caso estejam sujas.

2 – Propomos que se apele para a consciência dos alunos para que se compenetrem dos seus actos em geral e em particular para que velem pelas condições de limpeza da escola.

3 – Propomos que tanto os alunos como os professores possam chegar atrasados desde que apresentem uma justificação que possa ser aceite pela turma.

4 – Propomos que os professores não possam entrar na sala dos alunos, já que os alunos não podem entrar na sala dos professores. Propomos portanto que haja uma sala única para todas as pessoas desta escola porque se devem procurar estabelecer laços de amizade e de sinceridade, o que não se consegue com a separação que se está a fazer. Só assim é que podemos construir um Portugal Novo.

5 – Propomos que, em vez de ocuparmos as aulas de Trabalhos Manuais a fazer bonecos inúteis, as ocupemos na construção da Sala de Convívio dos Alunos.

6 – Propomos que os alunos sejam esclarecidos da razão porque deixou de haver música na Sala de Convívio dos Alunos.

7 – Propomos que para o próximo ano lectivo os representantes dos alunos no Conselho Directivo sejam eleitos sem distinção de idades, na medida em que a idade não é sinónimo de competência e até porque os alunos com mais de 14 anos já não são normais no Ensino Preparatório.

8 – Fica assente que o número de alunos que comparecem às R. G. A. é sempre representativo, porque todos os alunos têm obrigação de assistir às reuniões onde se discutem os problemas que lhes dizem respeito.

9 – Propomos que os alunos sejam livres de ficar ou ir para casa sempre que tenham feriado.

10 – Propomos que haja entrada livre por qualquer porta.

11 – Propomos que seja cumprida a lei que proíbe a agressão física aos alunos e que qualquer desvio a ela seja julgado em R. G. A.

12 – Propomos que os privilégios sejam iguais para todos dentro duma sala de aulas; se os alunos nem sequer podem mastigar os professores também não podem fumar, o que ainda faz mais mal.

Por ser verdade e para constar se lavrou a presente acta que vai ser assinada pelo presidente da mesa, pelo secretário e pelo vogal.

O presidente:…………………………………………….
O secretário:…………………………………………….. 
O vogal:…………………………………………………….

DOCUMENTO N.º 2 

A Escola é de todos nós. Todos são responsáveis por ela e todos, professores, alunos e empregados, têm normas a cumprir.

No começo deste ano aqui te recordamos o que de essencial deves ter sempre em atenção.

1 – Dentro do edifício não se pode correr. Para isso existem os espaços livres exteriores. Domina-te por momentos! Anda nos corredores e corre, se quiseres, no recreio.

2 – Não “patines” nos corredores nem escorregues pelos corrimãos. Qualquer destas práticas já originou acidentes muito graves. Evita-os!

3 – Procura, dentro do edifício, nos corredores ou nas escadas, circular sempre pela direita. Grita no recreio, mas jamais dentro do edifício. Aí deves manter o silêncio e, se falares, fá-lo muito baixo.

4 – Quando as aulas terminarem deves dirigir-te imediatamente para as zonas de recreio. Não podes permanecer nas escadas ou nos corredores durante os intervalos. Escadas e corredores são locais de trânsito e passagem. Não podes permanecer neles.

5 – Nenhum tipo de jogo ou brincadeira é permitido dentro do edifício. Joga e brinca sempre, mas só nos períodos e locais reservados para isso.

6 – Não te podes dirigir para as aulas antes do toque de entrada. Mas nessa altura deves fazê-lo imediatamente.

7 – Todas as entradas têm de ser ordenadas. Não podes empurrar os colegas. E sabes bem que não podem entrar todos ao mesmo tempo. Sê lesto mas… não bruto.

8 – Professores e alunos têm de estar prontos para começar as aulas 5 minutos depois do toque da entrada.
Se chegares antes do Professor, aguarda de forma correcta e silenciosa a sua vinda uma vez que, sem ele, não podes entrar na sala. Os atrasos, tanto teus como do Professor, determinam a respectiva falta. Se passados os 5 minutos o teu Professor não estiver presente, deves aguardar ordem do empregado do piso para te retirares pois pode acontecer que esteja programada uma actividade de substituição da aula.

9 – Quando for necessário ires à Secretaria, Bufete, Biblioteca, Papelaria, Sala de Professores ou a qualquer outro sector, não deves aí permanecer mais tempo do que aquele que te for estritamente preciso. E atenta! Deves habituar-te a resolver por ti os teus problemas. Não precisas de “advogado”. O mesmo é dizer que só os interessados devem procurar os serviços. Para comprar um bolo para ti não é preciso deslocar-se toda a Turma ao Bufete. Se um grupo quiser apresentar um problema a um Professor, nomeia um representante e só esse o procurará na Sala dos Professores. E assim sucessivamente. Entendido?

10 – É uma falta muito grave sujar a Escola. Por toda a parte existem recipientes para o lixo. Não podes deitar nada para o chão. Como também não podes escrever nas paredes. Sempre que quiseres manifestar publicamente alguma coisa, podes dispor das vitrinas da Escola. Basta para isso que assines, que o que queiras divulgar não desrespeite nada nem ninguém e seja de âmbito escolar ou no seu interesse.

11 – Não podes pisar os canteiros ou danificar, de qualquer forma, árvores e vegetação. Tão pouco te podes dependurar nas árvores ou nas balizas dos campos desportivos. Dentro em pouco terás ferros especiais para o efeito espalhados pelo recreio. Até lá… pede ao teu Professor de E. F. que te dê nas aulas mais exercícios de suspensão e… respeita esta norma.

12 – Nas zonas de recreio coberto, os alpendres, não se pode jogar à bola seja qual for o seu tamanho.

13 – Infelizmente, verificam-se roubos e agressões aos alunos, dentro da própria Escola, por elementos estranhos que nela se infiltram. Faz-se o possível, com os poucos meios de vigilância que temos, para debelar tal situação. Entretanto, aconselhamos-te a evitar as zonas de recreio mais isoladas. O ideal é que prefiras sempre, por ser o que mais segurança oferece, o amplo logradouro que fica frente à entrada dos balneários dos rapazes.

14 – Nenhum jogo de arremesso de pedras pode ser permitido, em nenhum local.

15 – Nenhum jogo de azar é permitido. Do mesmo modo, não podes “negociar” seja a que pretexto for, com os teus colegas. Tens tempo de enveredar pela vida comercial!…

16 – O cartão de identificação, como aluno da Escola, deve ser mantido em perfeito estado, acompanhar-te sempre e deverás exibi-lo sempre que para tal te solicitem.

17 – Deves utilizar sempre a mesma carteira dentro das tuas aulas. A tua carteira deve manter-se limpa e não pode servir para gravar ou escrever seja o que for. Há uma planta geral que possibilita saber quais os alunos que utilizam cada uma das carteiras. Assim, sempre que descobrires algum dano, deves avisar imediatamente o teu Professor. Se te esqueceres prejudicas-te pois podes vir a ser responsabilizado e obrigado a pagar quando outro estragou por ti.

18 – Só os Professores e Delegado de Turma estão autorizados a mexer nos estores das aulas. Toma bem nota! São peças delicadas. O arranjo tem custado muito dinheiro todos os anos e, tal como os automóveis, não devem ser “guiados” por muitas mãos.

19 – Não deves deixar valores nos vestiários quando te equipares para as aulas de E. F. Tudo deve ser entregue ao Delegado de Turma que, por sua vez, entregará o conjunto ao empregado respectivo. Do mesmo modo, nenhum material, seja de que espécie for, inclusivé material de desenho ou equipamento de ginástica, poderá ser guardado na Escola. Tal como o operário terás que cuidar bem da tua “ferramenta” e levá-la sempre para casa.

20 – Qualquer objecto que encontres deve ser entregue ao empregado do piso, imediatamente. Não deves manter esse objecto em teu poder por horas que seja.

21 – A entrada para o Refeitório, bem como a espera que chegue a ocasião de te servires, faz-se por “bicha”. Claro está que não podes fazer ultrapassagens irregulares nem reservar lugares para ninguém. É absolutamente necessário estar-se presente para se ter direito a lugar.

22 – Quando acabares a refeição terás que arrumar a louça no local próprio. Não podes deixar o tabuleiro sobre a mesa. Cada um trata do seu. E atenção! Podes ser impedido de usar o Refeitório se não te comportas com compostura. Atirar com pão aos colegas e sujar a água ou a sopa do parceiro de mesa são façanhas bem tristes!

23 – Esta N. I. 1 tem que ser mantida no teu dossier de aluno e o teu Encarregado de Educação deve lê-la e rubricá-la.

Não usámos a palavra proibído durante todo este tempo porque não gostamos dela. Queremos-te livre, mas se essa liberdade te der para as asneiras que te apontámos terás de ser castigado. E os castigos podem ir até à expulsão definitiva da Escola.

Sê feliz e responsável!

Lisboa, 30 de Setembro de 1976
O Presidente do Conselho Directivo
(Manuel Henrique Santana Castilho

Nunca tantos governaram tão pouco

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Quem há meses teve ocasião de ouvir Adriano Moreira em Portalegre, no âmbito das conferências de “senadores” promovidas pelo Instituto Politécnico, teve a felicidade de partilhar as convicções de um dos mais fecundos e lúcidos pensadores políticos do Portugal contemporâneo.

Nascido em 1922, o seu espírito mantém uma notável frescura e revela uma argumentação lógica e profunda, mesmo original.

Jurista, professor e político, desempenhou o cargo de ministro do Ultramar, em fase particularmente delicada. Autor de numerosas obras de referência, tornou-se um respeitado especialista em temas de política nacional e de relações internacionais.

Após o 25 de Abril, foi alvo dum processo de saneamento que o levou a voluntário exílio no Brasil, onde leccionou na Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi então que escreveu uma notável e corajosa Carta Aberta, publicada em 6 de Maio de 1976 no Portuguese Times, o jornal de língua portuguesa de maior tiragem nos Estados Unidos.

Dada a sua extensão, apenas aqui reproduzimos dois dos seus dez pontos (7 e 10), retirados da edição nacional do documento, entre nós divulgado pela Companhia Editora do Minho, Barcelos, em Junho de 1976.

NUNCA TANTOS GOVERNARAM TÃO POUCO – foi o título concedido ao folheto então publicado. As três dezenas e meio de anos decorridos não retiraram actualidade ao documento, quase parecendo -em muitos pontos de contacto- descrever os contornos da crise e da governação que agora sofremos.

O pensamento de Adriano Moreira, quase profético, reduz à sua insignificância os aprendizes de política que presentemente nos sujeitam à sua arbitrária e errática vontade, dentro e fora das fronteiras pátrias.

Como ele então proclamou, ainda que num diverso contexto, “nenhum povo pode ser humilhado e ofendido, não por inimigos externos, mas por nacionais” (…) “o povo português tem o direito de exigir que respeitem a sua gesta mundial; tem direito ao orgulho pelo seu passado; tem direito de impor isso aos seus nacionais. Pertence-lhe o direito de encarar os futuros agora possíveis, sem humilhação“.

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Régio e a morte

joaquim_neves_aJosé Régio deixou-nos uma boa parte da sua colaboração em jornais na página Das Artes Das Letras, no diário portuense O Primeiro de Janeiro.
Ainda em vida e, sobretudo, depois da sua morte alguns interessantes artigos foram sobre ele publicados nessa mesma secção do jornal, tornada clássica em cada quarta-feira, durante muitos anos.
Foi precisamente aí que encontrámos um interessante texto, da autoria de Joaquim Pacheco Neves, relatando os últimos dias de Régio, que aquele seu amigo acompanhou de perto. Foi divulgado no dia 31 de Outubro de 1979, quase dez anos após a morte do poeta da Toada. Porque se trata dum texto praticamente ignorado, achámos oportuno divulgá-lo aqui, assim o partilhando com todos os interessados.
Joaquim Pacheco Neves, conterrâneo de Régio, nasceu em 1910.  Frequentou a Faculdade de Medicina do Porto e foi médico em Vila do Conde, especializando-se em Estomatologia. Apaixonado pela escrita, cedo começou a publicar a sua obra. Foi presidente e vice-presidente de elencos autárquicos na sua terra.
Amigo de Régio e de Júlio, Apolinário e João Maria, seus irmãos, integrou tertúlias na companhia destes e de outras personalidades como João Marques, Orlando Taipa, Alberto Serpa, Flávio Gonçalves, Manoel de Oliveira…
Entre a sua vasta obra, contam-se volumes dedicados a José Régio, como Falar de Régio, Quatro Pequenos Estudos sobre José Régio, Evocação de José Régio – Doença e Morte, Os Desenhos de Régio, José Régio – Primeiras Prosas, Primeiros Versos, Régio – 23 Anos Depois.
Faleceu no Porto em 1998.

página PJ Régio

 RÉGIO E A MORTE

Durante a doença, Régio nunca falou na morte. Sabia que estava muito mal, que ia morrer, mas nada disse que o reve­lasse a não ser quando tomou a resolu­ção de sair do hospital e regressar a casa no momento em que a sua crise cardíaca estava no auge. A tranquilidade que sentiu quando se viu de novo entre tudo quanto lhe era que­rido, depressa foi destruída pela falta de ar e uma angústia que o obrigou a ficar sentado na cama, com oxigénio, sem poder repousar. A doença não lhe dava um momento de descanso e a ideia da morte devia torturá-lo. Os longos silêncios em que se fechava falavam por ele e traduziam um estado a que a sua sensibilidade e compreensão não deixavam de dar o significado exacto.

Com o correr dos dias houve umas ligeiras melhoras, mas as noites continuaram a ser mal dormidas. Ele, que durante o dia se mantinha em silêncio, falava demasiado de noite e pedia ao Viana para lhe ir buscar livros e os ler de forma a manter-se desperto até ouvir os primeiros rumores da madrugada ou ver o lusco-fusco mati­nal espreitar por entre as portadas mal cerradas da janela. Só mais tarde, quando a crise come­çou a ser debelada, é que sossegou. Conversava com os amigos, discutia com o João Maria, escre­via e ditava cartas, opunha-se tenazmente aos conselhos do seu médico assistente, o Dr. Sousa Pereira, não tomando os remédios que ele indi­cava, com o fundamento de que lhe causavam… alergias. As alergias foram sempre o seu cavalo-de-batalha durante a doença. Se um remédio lhe sabia mal, se o obrigava à penitência duns horá­rios que não lhe agradavam, se, por coincidência, lhe provocava soluços, dores abdominais, falta de apetite, o medicamento é que era o grande culpado e não havia outra solução que não fosse o de eliminá-lo, por mais embaraçosa e grave que se tornasse a sua suspensão. Régio precisava de ser medicado activamente para que o edema pulmonar não voltasse nem houvesse novos desfalecimentos cardíacos. Mas isso não o preocupava. O que ele temia era o apareci­mento das suas alergias, essas vagas in­disposições que quase todos os doentes têm vindas da própria doença ou despertadas, por vezes, por uma medicação mais intensa. E ele, demasiado sensível, não deixava de se aperceber da modifi­cação dos seus humores para levantar um embar­go que contrariava o médico assistente e o fazia proferir uma ameaça:

– Se não tomas os remédios, não volto cá. Tens de arranjar quem me substitua.

Estas palavras, pronunciadas num tom de ameaça, não deixavam de produzir efeito no espí­rito de Régio que, embora protestando, se tornava mais receptivo e, durante algum tempo, se tor­nava num doente mais conformado. O sol é que durava pouco. Logo ao primeiro aviso, as queixas voltavam mais quezilentas e os conflitos tornavam-se mais sérios. Régio transformava-se num ouriço, e era necessário possuir muita paciência para que o pouco que fora ganho não se perdesse com as suas birras. As melhoras, sem serem con­vincentes, permitiam transigir com algumas das suas exigências, embora com precauções e sob uma vigilância que o não deixassem pôr pé em ramo verde.

Pior foi quando a doença se agravou. Como a resistência física era diminuta e ele se alimentava mal, o enfraquecimento tornou-se tão evidente que a ideia de sair de casa para ir para um Centro de Cardiologia, como queriam alguns amigos, já não teve eco no seu espírito. A morte começou a definir-se com outra grandeza, dentro de contornos mais reais, tornando-se tão premente que falou a seu irmão Júlio em fazer certas dis­posições testamentárias e realizar algumas von­tades que tinha em mente. Ainda desta vez não se referiu à morte. Ela não estava no seu itine­rário confessional como elemento de temor, de queixa ou de revolta. Era um acontecimento fora de qualquer discussão, que só podia dar ao am­biente da casa um acentuado ar de tragédia, que ele queria banido da sua presença. De que valia discuti-la, se só Deus sabia quando é que ela chegava? A vida deixara de o interessar a partir  do   momento   em  que   reconhecera  que   o seu estado de saúde se degradara tanto que já nada havia a fazer. Adiar o encontro final em circunstâncias físicas e espirituais em con­tínua degradação, não valia a pena. O caminho estava traçado, e nada poderia modificá-lo. O que ele queria, também, é que tudo ficasse como desejava, embora lhe pesasse não ter reali­zado certos projectos que andavam a boiar há muito na sua imaginação, sem nunca os ter po­dido concretizar completamente. A Confissão dum Homem Religioso era um deles. Mais uns meses, e todo o seu pensamento escatológico seria expresso, senão como uma mensagem de fé capaz de fechar a cúpula desse edifício cons­tituído por dúvidas e certezas, crenças e des­crenças, Deus e não Deus, como expressão espi­ritual em plena ascensão para o transcendente. A Velha Casa seria, porventura, outro. Oe cinco volumes por ele publicados foram uma espécie de abertura para essa extraordinária sinfonia em que só a adolescência foi representada. Mas que grande dimensão não teria se porventura, com a sua experiência de homem e de literato, tivesse escrito outros cinco volumes sobre a ma­turidade da personagem central e no-la reve­lasse no pleno empenho de vivências que defi­niram a sua própria personagem de artista, de professor e de homem ? O outro, finalmente, dizia respeito à sua poesia parada no Cântico Suspenso, mas a latejar com força e a romper como água de rocha, límpida e transparente, nos poemas que ia escrevendo e depois foram publicados no livro Música Ligeira. Mas que homem, grande ou pequeno, terá tido a velei­dade de realizar toda a obra imaginada e não criada por um conjunto de circunstâncias liga­das ao tempo, com as suas exigências e as suas solicitações, na dispersividade absorvente doa dias que passam?

Régio, depois de ter saído do Hospital, nunca falou na morte durante a doença. Porque a te­mia, porque sentia pudor em falar nela, porque o significado imediato da destruição física o incomodava, tal como acontecia com um outro grande poeta da sua geração que se revoltava quando lhe acudia a ideia de que um dia seria destruído pela Morte e que todo o seu trabalho de valorização e aperfeiçoamento desapareceria numa cova e se transformaria em lama. A atitude de Régio era diferente, talvez porque se alicerçava num sentimento religioso. Se não foi a parábola dos talentos que lhe deu a resposta, foi a certeza de que só depois de vencida esta breve passagem pela vida é que surgiria a verdadeira Vida. 

JOAQUIM  PACHECO  NEVES

Um episódio burocrático

Na fase final da minha vida docente, fui professor na Escola Superior de Educação de Portalegre. Vivi aí momentos que não esqueço, desde a fase quase heróica da afirmação, ainda jovem, até uma grave crise que chegou a ameaçar a sua própria sobrevivência. Guardo de todos esses episódios uma memória, por vezes (quase sempre!) grata e outras algo penosa. Felizmente, passados esses tempos de risco, com uma radical alteração a partir do próprio Instituto Politécnico de então, com activa participação de Francisco Queirós, as Escolas Superiores da nossa região puderam retomar o seu rumo normal de afirmação, embora agora perturbado pelos factores conjunturais de todos conhecidos.

Apetece-me hoje recordar um episódio, quase banal e inédito, que revela bem o espírito de equipa que unia todos os participantes da tal fase inicial de implantação, assim como o clima de fraterna cumplicidade criado naquele colectivo.

Em princípios de Novembro de 1987, o presidente da Comissão Instaladora, Natércio Afonso, fez chegar aos seus colaboradores mais directos um despacho onde comunicava uma alteração burocrática emanada das instâncias superiores, neste caso a Secretaria de Estado do Ensino Superior.

Um dos receptores do despacho, o n.º 70/CI de 2 de Novembro, foi o coordenador do Centro de Recursos e Animação Pedagógica (CRAP), Rui Canário.

Este, logo no dia seguinte, fez chegar ao coordenador do Centro de Produção Audio-Visual (CPAV), o citado despacho acompanhado da nota que igualmente se reproduz, juntamente com o próprio despacho que lhe dera origem.

Ofícios

Era então eu, acumulando tais funções com a componente docente, esse coordenador, o elo mais baixo, portanto, da cadeia comunicativa a quem competia dar seguimento às instruções recebidas.

Fi-lo, cumprindo rigorosamente o solicitado, tanto no espírito como na forma sugerida, através duma banda desenhada que dirigi ao meu superior hierárquico. Este faria depois chegar o icónico “relatório” à mais alta instância da Escola.

Ofício BD

Ignoro se toda esta documentação ficou devidamente arquivada nas respectivas pastas oficiais. Nos meus arquivos pessoais ficou. Por isso, agora a partilho com os leitores do blog.

Com alguma saudade desses tempos e, sobretudo, desses companheiros de jornada. Para que conste… 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Um “acordo” cada vez mais “corruto”

Nuno PachecoNuno Pacheco é um jornalista que, em 1989, integrou a equipa fundadora do Público, após 8 anos no Expresso. Considera o jornalismo como uma mistura de ética, arte e busca incessante da novidade. Assim, coerentemente, é um implacável e lúcido adversário do Acordo Ortográfico de 1990.
No caderno-suplemento do Público de 13 de Janeiro de 2013, Nuno Pacheco partilhou com os leitores mais uma denúncia dos actuais desmandos linguísticos, com o interesse pessoal de o saber convergente com a posição que já aqui deixei no post Manhas Matinais, logo no dia 3, criticando as imbecilidades e contradições contidas na decisão do Correio da Manhã, com a sua “adesão” ao AO.
Mais uma vez, e com a devida vénia, aqui partilhamos com os leitores do Largo dos Correios/Fonte do Rosário o esclarecido e oportuno artigo Um “acordo” cada vez mais “corruto”.

UM “ACORDO” CADA VEZ MAIS “CORRUTO”

Há boas e más maneiras de começar o ano. Entre as boas, conta-se a reabilitação das tradicionais Janeiras, que José Barros e os Navegante levaram ao Olga Cadaval, em Sintra, na véspera do Dia de Reis. Uma festa com temas tradicionais de Trás-os-Montes, Alentejo, Beira Baixa e Algarve, onde não faltou, no exterior, fogueira e prova de queimada galega, herança medieval de aguardente a arder (sim, com fogo mesmo). Quem assistiu aplaudiu com razão. Porque a memória de Portugal teve, ali, nota alta.

Entre as más, está a renitência em reconhecer o desconchavo do acordo ortográfico (AO). No início do ano, um jornal que até aqui (e bem) não o aplicava, o Correio da Manhã (CM), cedeu. O pior está menos na cedência do que na argumentação. “A nossa prioridade”, escreveram dias antes, “é tornar a comunicação mais fácil”. Mas onde a trapalhada se insinua é quando, para garantir a tal “comunicação fácil”, o CM escreve isto: “Nesse sentido, nas palavras que admitem dupla grafia, optámos por manter tal como na “escrita antiga” [sic].” Ah, e escreverão “pára” e não “para”, no verbo parar.

Querem ver a lista? É uma delícia. Escreverão, de futuro, ceptro e não cetro, amígdala e não amídala, espectador e não espetador; mas escolhem (porque a moderna “ortografia” é mesmo a la cartecarateres em vez de caracteres, receção em vez de recepção, setor em vez de sector, conceção em vez de concepção, cato em vez de cacto. Grafia antiga? Fantástico. Mais fantástico ainda é confundir-se “duplas grafias” (mesmo a la carte) com grafias de uso corrente em Portugal e no Brasil há décadas. Ou seja, o CM orgulha-se (para garantir a tal “comunicação fácil”) de escrever omnipotente, indemnizar, facto, subtil, sumptuoso, súbdito, académico, topónimo e não onipotente, indenizar, fato, sutil, suntuoso, súdito, acadêmico, topônimo, quando tais variantes não têm escolha possível. Por que motivo escreveríamos Antônio ou bebê se em Portugal dizemos António e bebé? Ou sutil, se dizemos e escrevemos subtil? Será isto uma “escolha”? Não, não é. Mas o mais inacreditável é o CM dizer que escreverá aritmética e não arimética, corrupto e não corruto, fêmea e não fémea, dicção e não dição. Vamos por partes: no Brasil, apesar de alguns livrecos “modernos” consignarem tais “variantes”, diz-se e escreve-se aritmética e corrupto. Com t e p. Quanto a “dição”, existe na verdade, mas não tem nada a ver com dicção. Significa “domínio, autoridade”, enquanto dicção é o acto ou maneira de dizer ou de pronunciar. Já “fémea” só pode ser puro delírio de quem não sabe o que escreve.

A confusão entende-se. O acordo é que não se entende. Quem anda por aí a brincar ao “acordês” julga que basta tirar umas consoantes para respeitar o acordo (o dição versus dicção deve provir dessa ideia peregrina). Ora, como prova um interessante documento entregue esta semana ao ministro Nuno Crato (o estudo é de Rui Manuel Ventura Duarte e um grupo de especialistas e a carta é subscrita por quase duzentas pessoas), nem mesmo os defensores do AO se entendem. Uma análise comparativa de várias dezenas de palavras em dicionários, vocabulários e no próprio AO mostra que a confusão é generalizada. O que nuns é imperativo noutros é facultativo, onde nuns há norma única, noutros há grafias duplas, onde uns assinalam PT e BR no uso das variantes (o que é correctíssimo, até porque identifica o uso real das grafias), outros ignoram tal distinção. Erros, falsidades, invenções, há de tudo um pouco para quem queira dar-se ao trabalho de conferir ( http://fr.scribd.com/doc/119430003/Carta-a-Min-Educ-Nova ).

Nem de propósito: esta semana também o PCP viu aprovada na Comissão de Cultura (e por unanimidade!) uma proposta sua no sentido de criar uma comissão para acompanhar a aplicação do AO, porque “o debate não está terminado e a utilização da grafia resultante do Acordo tem gerado inúmeros discensos entre a comunidade“. E a Sociedade Portuguesa de Autores emitiu um comunicado dizendo que “continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e está longe de estar esclarecido“. Acordo, disseram? Se existe, está cada vez mais “corruto”. Com sorte, a “arimética” há-de ajudar…

                                                                             Nuno Pacheco
                                                                             em Público 2, 13 de Janeiro de 2013

Cidades e brasões de Portugal – II

ronda cabeçalho

A arrumação dos cromos da colecção Cidades e Brasões de Portugal corresponde a uma lógica espacial, de Norte para Sul, do litoral para o interior, começando por apresentar as cidades do Minho, depois as de Trás-os-Montes e por aí abaixo até ao Algarve.

Esgotado o território continental, passa-se à Madeira e logo aos Açores. Vem aapr 3 seguir o Ultramar, pela mesma ordem lógica: Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor.

As 36 cidades então existentes no território continental distribuem-se pelas 12 primeiras páginas. Curiosamente, verifica-se -a fazer fé na autenticidade da informação prestada- que um terço dos brasões apresentados se achava em uso corrente, mas não tinha sido ainda oficializado.

As duas terras que, por óbvios motivos pessoais, me interessaria destacar ficam aqui reduzidas à unidade. Com efeito, em 1963, Peniche era ainda uma vila. A sua passagem a cidade apenas se verificaria em 1 de Fevereiro de 1988.

Resta, portanto, Portalegre.

apr 4As cidades alentejanas então existentes eram cinco. Confesso que não sei bem quantas são hoje… Uma imensidão.

A sequência oferecida pela caderneta foi: Elvas, Estremoz, Évora, Portalegre e Beja.

O tema da fotografia, repetitivo, como se fora o mais representativo, foi o da Misericórdia, onde ao tempo funcionava o Hospital. O seu envolvimento urbanístico revela um Monumento aos Mortos da Grande Guerra ainda liberto do arranjo actual, logo após ter sido rotunda com circulação de trânsito automóvel. Curiosamente, por ausência das construções hoje ali existentes, vê-se claramente uma parte da fachada do Mercado Municipal, por trás do edifício da Misericórdia.

A legenda, de estilo bastante “barroco”, quase precisa de “tradução simultânea”…

Provavelmente, a maioria dos próprios portalegrenses não será capaz de identificar as nomenclaturas constantes na relação dos monumentos. Com efeito, em vez de “Palácio dos Abrançalhas” seria mais conveninente escrever Palácio Amarelo e por “Mosteiro da Conceição” seria preferível usar a designação, mais corrente,  de Mosteiro de São Bernardo. Não sendo erros, são requintes…

Depois, na mesma linha, seria mais adequado escrever Arco do Bispo em vez de “esplanada do Paço Episcopal“. Depois, afirmar-se que dali se “aprecia… a planície de uma beleza rara” corresponde a uma tirada de valor meramente literário…

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Quanto ao brasão dir-se-á que, sendo globalmente aceitável, as proporções relativas das torres, do pano de muralha, da porta e até das quinas são desajustadas no confronto com o modelo oficial, notando-se também a ausência das frestas ou janelas nas torres.

Enfim, como de costume, não fomos muito bem tratados.

A contracapa da caderneta foi utilizada para a publicidade dum conhecidopub suplemento alimentar produzido por uma multinacional europeia de nomeada. Tónico fortificante e vitaminado, quente ou frio, gostoso e sadio (citei!|), bem poderia ter fornecido uma outra dinâmica ao conteúdo…

A propósito de publicidade, O Mundo de Aventuras ostentou durante semanas, também na sua contracapa, uma vistosa alusão à caderneta, que terá levado seis anos a elaborar para ser decorada em seis horas!

 António Martinó de Azevedo Coutinho