APRENDER A LER E GOSTAR

Já aqui falei de Q – Quociente de Inteligência, um suplemento cultural que olivros ler 3 Diário de Notícias publica aos sábados. Leio-o com crescente interesse e julgo que se trata de um relevante serviço público.

Na edição de 9 de Fevereiro, o tema central foi a magna questão de Como os Manuais de Português fazem nascer ou matam Leitores, ou Como os Manuais de Português podem (de)formar Leitores. Usei os dois títulos principais, os da capa e do interior do caderno. Carina Infante do Carmo é a autora do interessante e oportuno texto, assente sobre uma obra de Maria de Lourdes da Trindade Dionísio (A Construção Escolar de Comunidades de Leitores. Leituras do Manual de Português, Almedina, 2000). E este é precisamente o único reparo que faço, o de centrar o artigo quase exclusivamente na análise desse trabalho, aliás meritório, esquecendo outros contributos significativos para um melhor conhecimento da questão.

A autora começa por definir o contexto, lembrando que “os manuais interagem com as circunstâncias históricas dos conteúdos científicos, das políticas educativas, das tecnologias de produção do livro, das opções pedagógicas e dos valores que a sociedade atribui à escola“.

Depois critica com justeza o “peso” suplementar que cada Setembro traz aos orçamentos familiares com a aquisição dos manuais. Lembra, com ironia, que tal “peso” nunca é considerado quando se publicam os rankings das escolas, nomeadamente nos níveis de iletracia aí denunciados.

No entanto, os manuais de Português têm uma decisiva importância na matéria, sendo referida, com oportunidade, o papel do livro único, nos tempos de Estado Novo. Para muitos, o manual escolar continua a ser, ainda hoje, o meio privilegiado de aculturação com a expressão escrita.

Como pode construir (ou destruir) leitores, que regras de comportamento define, que aglutinador de comunidades pode constituir, qual é o papel potenciador do manual de Português?

A autora discorre com pertinência pelos diversos cenários revelados pela nossa escola, desde o livro único até à escolha do manual por parte dos professores de cada escola. Por outro lado, e paralelamente, o manual sofreu grandes transformações técnicas e de conteúdo. Se o Estado Novo propunha selectas de textos que procuravam a edificação moral e nacionalista em vigor, em contrapartida propõe-se agora o livre desenvolvimento de competências comunicacionais dos alunos, à margem dos modelos literários.

Quanto aos questionários que habitualmente são anexados para orientar a leitura, são colocadas algumas objecções. Por exemplo, favorecem a própria leitura e a gramática em detrimento da escrita e da oralidade; insistem na narração, esquecendo a poesia ou o teatro (texto dramático); disciplinam a função didáctica em desfavor da criatividade.

Uma análise a diversos manuais de Português para o 7.º ano de escolaridade revela, duma maneira geral, as debilidades e contradições enunciadas.

Sobre as antologias de textos normalmente propostas pelos manuais, também o panorama não se revela animador. Recortes literários fragmentados, descontextualizados ou mesmo truncados, acrescentados de ilustrações “apócrifas” e de títulos estranhos ao original constituem material pouco adequado. O recurso a textos paraliterários é útil e não compromete os objectivos essenciais. No entanto, e este é um problema nacional, a escola dispõe dum enorme peso social pelo que o manual acaba por deter uma grande importância na regulação da própria instituição literária. De resto, segundo o fundamentado critério da autora, não exsiste qualquer grave incompatibilidade entre a educação literária visada pela escola e as competências linguísticas adquiridas através da variedade de textos e géneros discursivos do quotidiano dos alunos.

livros ler 2

Não pode esquecer-se a realidade de que a escola continua a ser, para muitos, o local e a oportunidade, únicos, de encontro com o melhor que a língua portuguesa produziu… E este facto terá de orientar, pragmaticamente, os sistemas e as estratégias.

O interessante artigo, de que esta mera alusão é pobre referência, termina com uma proposta do que deveria ser a “coluna vertebral” das aulas de Português. Vale a pena lê-lo, na íntegra, e sobre ele meditar.

O seu parágrafo final, sistematizando o rico conteúdo, é só por si significativo:

A escrita e a leitura foram e são categorias em torno das quais se organiza(ra)m as ideias e as práticas do poder e do saber na sociedade. Na era dos media e do digital assim continua a ser, mesmo se o livro impresso está a perder centralidade civilizacional. Nem por isso são menos relevantes o lugar (a escola) e o instrumento (o manual de Português) que formam leitores, as suas atitudes, experiências e ideias da leitura e de mundo“.

Para além da agradável leitura do artigo, este despertou-me algumas recordações, todas mais ou menos gratas.

Antes do mais, lembrei-me de duas obras de distintas épocas, complementares no seu conteúdo, e merecedoras de uma oportuna “recapitulação”. Refiro-me a Ensino Primário e Ideologia, de Maria de Fátima Bivar, Publicações Dom Quixote, 1971, e a Ler ou não Ler, eis a Questão, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Ed. Caminho, 1988.

O primeiro, publicado pelos finais do anterior regime, constitui uma corajosa análise crítica ao conteúdo dos manuais de leitura da época, livros únicos na sua maioria. Embora não visando em particular a questão do acesso à literatura e à aquisição do gosto de ler, merece ser relido. A sua importância cívica mede-se pela dura crítica que recebeu da parte de alguns delfins do regime, como Fernando Jasmins Pereira (Controvérsia – Uma Sondagem cercada de Lacunas, in jornal Época). 

O segundo, já divulgado no período pós-Revolução, tem como particular curiosidade ser co-assinado por uma personalidade de destaque em ambos os lados da “barricada” pedagógica, como autora literária (especializada em públicos juvenis) e como responsável, que foi, da pasta ministerial da Educação. O conteúdo da obra de que é co-autora, embora limitado, é interessante e vem a propósito.

livros ler 1

Outra recordação agora despertada fixa-se em dois colegas e amigos, de diferentes épocas. Um deles, o Joaquim Grave Caldeira, ensaiou nas suas aulas de Português (no antigo Ensino Preparatório, Escola Cristóvão Falcão, de Portalegre) um sistema didáctico que conduzia à auto-confecção do próprio manual literário, numa estreita cumplicidade entre professor e alunos. Não conhecendo em pormenor a experiência, sei que o êxito foi aí conseguido, ainda que implicasse notáveis dedicação e perspicácia da parte do responsável. O acesso prático e personalizado ao(s) prazer(es) de ler e escrever estava em causa e merece ser recordado, nesta oportunidade.

O outro colega, embora da geração dos meus alunos, é o Carlos Ceia, hoje professor catedrático de Estudos Ingleses na Universidade Nova de Lisboa, que ao ensino do Português dedicou e dedica especial atenção, notabilizando-se nos domínios da paraliteratura, com especial destaque para a BD. Juntos, no saudoso Centro de Estudos de Banda Desenhada, em Portalegre, partilhámos algumas válidas e inesquecíveis iniciativas neste campo.

Quando recentemente visitei a sua página pessoal, confirmei que ele considera como experiência decisiva para descobrir a vocação a sua prática docente de ensino do Português no Liceu Nacional da nossa terra comum.  Depois, verifiquei com alguma emoção que junta ao seu valioso currículo uma comunicação e uma fotografia que recordam participações em eventos locais relacionados com a banda desenhada, pelos finais da década de 80, ainda em Portalegre.

Possuo nos meus arquivos pessoais algumas outras produções de Carlos Ceia, ainda muito jovem, já nele prenunciadoras da influência do gosto de ler e da reflexão sobre a leitura.

Serão, oportunamente, objecto de divulgação e comentário neste blog.

Aprender a ler e gostar – aquisições fundamentais na formação e informação de cidadãos responsáveis. O assunto diz-nos respeito, a todos sem excepção.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Solução da charada regional

SOLUÇÃO DO PROBLEMA (CHARADÍSTICO) REGIONAL

Como foi prometido, aqui fica a solução das palavras cruzadas de tema regional aqui propostas, via A Capital de outros tempos.

Se algum dos leitores mais dados a estas coisas resolveu o problema, ou tentou resolvê-lo, poderá agora confirmar a justeza da sua solução.

Largo dos Correios não se responsabiliza por qualquer eventual desajustamento, pois limitou-se à simples transcrição da charada e da respectiva resposta, assinadas por A. B. Caldeira.

Esta oportunidade, quando ainda se mantêm as designações tradicionais das freguesias, seria obsoleta daqui a algum tempo, como é sabido, em virtude das alterações administrativas anunciadas.

solução PALAVRAS 1666

TEMAS REGIANOS

temas regianos c

Temas Regianos será uma secção (ir)regular que enriquecerá -assim o espero- as páginas deste blog. Naturalmente, é fácil a constatação de que tenho procurado aqui trazer com alguma frequência referências a José Régio e à sua obra. Pode portanto parecer redundante ou pretensiosa a presente nota. Mas não é.

Acontece que os artigos, avulsos, até agora aqui inseridos resultam quase sempre de fortuitos pretextos, ou da lembrança duma ou outra efeméride, e não duma intenção prévia e sistemática, devidamente organizada.

Ora esta situação vai alterar-se a partir do momento, recente, em que encontrei uma colecção de recortes elaborada há algumas décadas, constituída por largas dezenas de páginas de publicações soltas, mais de uma centena, contendo peças literárias ligadas a José Régio, na maioria textos da sua autoria.

régiocortadoTrata-se, no essencial, de colaboração propositadamente por ele escrita para o suplemento Das Artes Das Letras, que integrou durante muitos anos a edição das quartas-feiras do diário portuense O Primeiro de Janeiro. Entre as páginas agora encontradas, avultam um conto e uma entrevista, artigos soltos (entre 1944 e 1949) e muitos outros integrados na secção Pequenos Ensaios Livres (entre 1962 e 1963). Para além deste material, de produção regiana, há críticas, apreciações, notas de leitura, registos, depoimentos, reportagens  e diversos pequenos ensaios subscritos por personalidades literárias sobre a obra de José Régio, constantes tanto da mesma página do jornal nortenho como de outros suplementos similares, do Diário de Notícias, por exemplo, e de mais títulos.

Também integram este conjunto alguns trabalhos sobre Saul Dias/Júlio, irmão de José Régio, quase todos mais recentes, datados sobretudo dos anos 90.

Afora o essencial sumariamente descrito, podem ser citadas outras fontes de material regiano também disponíveis, como Vida Mundial e revistas similares, mais distantes do puro género literário. Enfim, e para já, independentemente da redescoberta de outras antigas recolhas, serão cerca de cento e trinta as diferentes peças contabilizadas até ao momento.

Liceu PTG 1943

Não é fácil tratar este material. Torna-se necessário digitalizar, coluna a coluna, artigo a artigo, e transformar cada uma dessas sucessivas imagens em texto, pela tecnologia OCR (Optical Character Recognition), que reconhece letras a partir dos arquivos de imagem.

Depois desta demorada operação, dispõe-se de arquivos de texto editável, porém necessitado de cuidada revisão e correcção, pois o processo não se compadece do precário estado da impressão original e apresenta por isso naturais erros e omissões. E a verdade é que se manipulam originais com muitos anos (nalguns casos 70), mal impressos em papel de deficiente qualidade, amaralecido ou danificado pelo tempo.

Seguro do rigor da transcrição, depois de corrigida a partir do cuidadoso confronto com o original, há que anotá-la sumariamente, antes da divulgação. Acresce a inserção de imagens, gravuras ou ilustrações, recolhidas do original, se este as contiver, depois de devidamente recuperarégiocoresdas.

Pensei divulgar sucessivamente esta preciosa e praticamente inédita produção sob a genérica designação de Dávamos Grandes Textos aos Domingos, óbvio “anagrama” de clara inspiração regiana. Reflectindo, desisti disso porque seria fastidioso anexar os Domingos a uma temática uniforme que, bem o sei, não é de interesse geral. Assim, tenciono divulgar mais aleatoriamente tais textos, apenas tentando respeitar uma sequência cronológica q.b., sem obrigações estritas de uma absoluta   regularidade. Por exemplo, poderei aproveitar o pretexto de certas efemérides. Deste modo, poderei mais à vontade ir procedendo às demoradas operações técnicas atrás resumidas, sem perturbar a quotidiana disponibilidade de outros tipos de posts, variados, no Largo dos Correios/Fonte do Rosário.

Portanto, em suma, de vez em quando, quando isso calhar ou me apetecer, com a mais “rigorosa” irregularidade, aqui surgirão dentro de algum tempo Temas Regianos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Um problema regional

O diário A Capital incluiu uma secção de charadismo temático no seu conteúdo habitual. Depois de idêntica proposta relativa a José Régio, publicada no Diário de Notícias, e aqui revelada, apresenta-se hoje um novo problema de palavras cruzadas, onde o tema dominante é de natureza toponímica, disponível em A Capital, na sua edição de 11 de Maio de 1983, quase há trinta anos.

A curiosidade principal, para os portalegrenses nisso interessados, reside na facto de quatro das entradas se relacionarem com designações relativas a localidades do distrito.

Como disponho da solução, publicada no jornal seguinte, divulgá-la-ei daqui a dois dias, para dar tempo suficiente às eventuais tentativas de preenchimento total do problema de palavras cruzadas hoje aqui reproduzido.

Bom e divertido trabalho!

PALAVRAS 1666

Uma data de datas – XIII – Victor Hugo

26 de Fevereiro de 1802 – Nasce Victor Hugo

VH 1Há semanas evoquei aqui uma obra marcante no património literário da Humanidade: Os Miseráveis. Então, o pretexto foi sobretudo artístico, no domínio comunicacional. Mas para além desses meros pormenores formais, o fundamental da obra reside no objectivo pretendido pelo autor: uma radical mudança na sociedade do seu tempo, sobretudo combatendo todas as intolerâncias.

Victor Hugo (1802-1885) não foi apenas o maior escritor romântico francês; ele foi um incansável lutador pela causa dos Direitos Humanos. Escritor, poeta e dramaturgo, desenvolveu também uma assumida actividade cívica e política paralela à vida literária.

Embora criado e educado no seio e no espírito da monarquia francesa, Victor Hugo acabou por aderir aos ideais de uma democracia liberal e, sobretudo, humanitária.

Tendo apoiado a candidatura do princípe Luís Napoleão, o escritor exilou-se quando aquele se tornou imperador através dum golpe de Estado, em 1851. Corajosa e publicamente, condenou com vigor tal atitude, pelas razões morais violadas, na sua obra Histoire d’un Crime.  Rejeitou a amnistia que lhe permitiria regressar à Pátria, só voltando em 1870 para reatar uma combativa carreira política, ingressando na Assembleia Nacional e mais tarde no Senado.

Quando morreu, o seu último desejo foi o de ser depositado num humilde caixão. Porém, embora sendo satisfeita tal vontade, o seu corpo esteve exposto durante vários dias sob o Arco do Triunfo, em Paris, calculando-se que mais de um milhão de pessoas lhe tenham aí prestado uma derradeira homenagem. Foi sepultado no Panteão Nacional.

VH 3

É conhecido o episódio do seu expresso júbilo para com Portugal, a quando da abolição da pena de morte para os crimes civis, em 1867, no reinado de D. Luís.

Entre as diversas cartas que dedicou ao tema, destaca-se a publicada no Diário de Notícias, em 10 de Julho desse ano. Aí, Victor Hugo, escreveu:

“… Abolir a morte legal deixando à morte divina todo o seu direito e todo o seu mistério é um progresso entre todos augusto. Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos! Felicito a vossa Nação! Portugal dá o exemplo à Europa. A Europa imitará Portugal…”

VH 2

Para além de excepcional literato, Victor Hugo foi um entusiasta e activo militante dos Direitos Humanos. Por isso, em vez de lembrar os títulos, imortais, das suas obras, prefiro-lhe uma curta relação de excertos ou máximas dali retirados, espécie de breve, solta e incompleta antologia do pensamento de um mestre:

  • Ser bom é fácil; difícil é ser justo.
  • A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero.
  • A razão do melhor é sempre a mais forte.
  • Chega sempre a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a acção é indispensável.
  • Tudo quanto aumenta a liberdade aumenta a responsabilidade.
  • Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo.
  • Nada é tão poderoso no mundo como uma ideia cuja oportunidade chegou.
  • A tolerância é a melhor das religiões.
  • Grandes homens, quereis ter razão amanhã? Morrei hoje!
  • As revoluções, como os vulcões, têm os seus dias de chamas e os seus anos de fumaça.
  • O futuro tem muitos nomes. Para os incapazes o inalcançável,
    para os medrosos o desconhecido, para os valentes a oportunidade.
  • Não há nada tão estúpido como vencer; a verdadeira glória reside em convencer.
  • Morte à morte! Guerra à guerra! Ódio ao ódio! Viva a vida! A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos.
  • O medo é mudo; os aterrorizados falam pouco, parece que o horror diz: silêncio!
  • Não existe um país pequeno. Avaliar a grandeza de um povo pelo seu número é o mesmo que determinar a grandeza de um homem pela sua altura.

Victor Hugo nasceu há mais de duzentos anos, mas o seu genial pensamento é perfeitamente actual.

Mais futebol de outros tempos…

DESPORT

PORTALEGRENSE, 0 – SPORTING, 1

Em Outubro do passado ano, recordei neste blog um encontro de futebol, “histórico”, entre o Estrela de Portalegre e o Sporting Clube de Portugal, realizado em 31 de Dezembro de 1983, numa eliminatória da Taça de Portugal.

Hoje, chega a vez de lembrar um outro desafio, também acontecido em Portalegre e a contar para o mesmo troféu, embora noutra época. Agora, o protagonista local foi o Desportivo.

Foi no dia 25 de Fevereiro de 1979, faz precisamente hoje anos, cinco épocas antes do outro jogo, já citado.

A Bola – Jornal de todos os Desportos, então ainda trissemanário, dedicou ao acontecimento uma certa importância e fez deslocar a Portalegre Vítor e Homero Serpa, dois dos seus mais conceituados jornalistas. Nas duas edições que intercalaram o desafio, a de sábado, 24, e a de segunda-feira, 26, as páginas do jornal contiveram diverso material alusivo, em especial o que antecedeu o encontro.

São os títulos e conteúdos parciais desta alargada reportagem que aqui se recordam. Comecemos pela véspera do grande encontro, com intervenção de Vítor Serpa.

bola 1

Vila do Conde, Portalegre e Lisboa (na Tapadinha, casa do Atlético) eram os cenários das eliminatórias a disputar, onde poderia aparecer um milagroso “tomba-gigantes”, que não apareceu. Nos outros jogos houve empates, após prolongamento, e em Portalegre o todo-poderoso Sporting ganhou, por uma unha negra, com um só golo e “enrolado” (citei o texto de A Bola)…

O malogrado Joaquim Carvalho, uma dedicação de sempre ao serviço do seu Desportivo, concedeu uma interessante entrevista, onde falou das extremas e crónicas dificuldades de manter, financeiramente, o clube, valorizando aquela oportunidade de fazer uma receita invulgar para o meio. Dissecou também a eterna questão da rivalidade local, manifestando-se abertamente contra uma eventual e hipotética fusão.

bola 2

Catinana e Figueiredo, duas fortes personalidades que marcaram o futebol de Portalegre, desempenhavam então o papel de treinadores do clube, opinando sobre o jogo e também sobre a clássica rivalidade lagóia.

Gilberto representou os poucos desportistas naturais de Portalegre, dissecando as dificuldades sentidas e abordando, também, o jogo.

As escolas de futebol do Desportivo foram tema para um outro artigo, no conjunto de uma página inteira que serviu de “aperitivo” ao encontro do dia seguinte.

As fotografias inseridas tiveram a assinatura, local, de Amauri Carona.

A edição que publicou a reportagem do desafio, assinada por Homero Serpa, dedicou-lhe um figurino mais ou menos clássico: números e nomes das equipas, descrição do golo, estatísticas sobre os cartões distribuídos, descrição mais ou menos alargada do encontro, crítica da arbitragem, jogadores mais em destaque, fotos e título de caixa alta na primeira página: Resistir e assustar – conseguiram os portalegrenses.

bola 3

Milorad Pavic, treinador do Sporting, citou as dificuldades oferecidas pelo pelado do estádio portalegrense, resumindo o encontro numa boa primeira parte da sua equipa e numa má prestação final…

Já Catinana criticaria a arbitragem do algarvio Manuel Poeira, considerando-a desfavorável, talvez para evitar um escândalo…

Duas fotografias de reportagem tiveram como principal motivo local de interesse as respectivas legendas que aludem ao casario e ao arvoredo envolventes do estádio…

bola 4

E assim ficaria registada para a posteridade, no entender do mais conceituado jornal  desportivo da época, a crónica dum desafio de futebol que trouxe a Portalegre uma das principais equipas portuguesas, em virtude dos caprichos do sorteio da Taça de Portugal, na época 1978/79.

Ao Grupo Desportivo Portalegrense aconteceu então mais um episódio da sua valiosa história, desta vez com ecos alargados, ao nível duma competição de âmbito nacional.

Bons e saudosos tempos esses, em que o Sporting ganhava, e até fora de casa…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Amor à camisola…

amor à camisola

Ao compadre e amigo João Vitória

Há uns dias, numa esporádica passagem pelos dispensáveis programas televisivos de autópsia (e não análise) futebolística, ouvi Ribeiro Cristóvão (creio que foi ele, ou então Joaquim Rita) dizer que alguns dos craques esta época contratados a peso de ouro pelo desgraçado Sporting até deviam ter pago, e bem, pela honra de vestir aquela camisola.

Amor à camisola – ora aqui está um conceito em desuso que apenas um veterano podia lembrar…

Com efeito, aquilo que hoje se considera é muito mais o preço do que o valor duma camisola, quando se assiste ao quotidiano futebolístico de “profissionais” mais interessados em despir e trocar a que acabaram de vestir  do que em honradamente a suar, de acordo com o chorudo contrato assinado. Esta frequente inversão numa normal escala de honra (!?) dispõe de tão raras excepções, que estas saltam à vista de todos.

Também me lembro do amor à camisola. Recordo a propósito, por exemplo, o comportamento daquele que foi o maior futebolista que nasceu em Portalegre: Carlos Canário.

Em finais de 1981 -já lá vão mais de trinta anos!- entrevistei-o, com os amigos António Ventura e Aurélio Bentes, para a revista A Cidade. A sua desconcertante simplicidade, igual à que usava em campo, era eficaz. Simples e directo, não evitou qualquer resposta, mesmo a questões que poderiam envolver algum melindre. Dinheiro, por exemplo. Pormenorizou esse aspecto.

zero

A 7 de Setembro de 1938, Carlos Canário, deixou o seu Estrela de Portalegre e, empurrado por amigos, foi a Lisboa, à experiência, treinar no Sporting. Quanto aos sucessivos vencimentos auferidos, eis o seu relato, ao vivo, sendo os parênteses da minha responsabilidade, para melhor esclarecimento:

Fizemos um contrato de 300$00 (trezentos escudos) por mês. Como pagava 280$00 de pensão, ficava com 20$00 para um capilèzinho. (…) Um operário de fábrica, nessa altura, era capaz de ganhar uns vinte e cinco tostões por dia (2$50)… Pelo menos, eu estive ali no Luís Alves a aprender para mecânico e ganhava vinte e cinco tostões por dia. Recebíamos à semana… (…) Sim, 300$00 já era muito bom mas, passado um mês e meio, arranjei um emprego que me dava 360$00 por mês, num grande armazém de mercearia. (…) Claro que depois fiz um novo contrato e, como internacional, já ganhava 700$00 por mês. (…) Depois fiz um concurso para os escritórios, fiquei, e quando saí de lá em 1946, ganhava um conto e quinhentos (1500$00). Era o que então ganhava também no Sporting…” 

Carlos Canário, e o seu caso foi rigorosamente igual a tantos outros futebolistas desses tempos, recebeu aquelas “fortunas” pelo seu ingresso num dos “grandes” clubes nacionais. Ganhava aí tanto (ou menos!) como num normal emprego fora da esfera futebolística.

Como foi possível atingir as escandalosas verbas hoje auferidas por um vulgar praticante do pontapé-na-bola? Que o expliquem os sociólogos e estudiosos do desporto, os comentadores e outros “sábios” da especialidade… 

Acho estranho que se comentem e critiquem, aliás com inteira justiça e oportunidade, as fortunas recebidas por banqueiros, gestores públicos e outros “profissionais”, mas que passe em claro, ou quase, o obsceno capítulo dos dinheiros gastos no futebol, em especial nos contratos e vencimentos dos jogadores.

Quando a miséria e a fome grassam pelo país -constatar esta realidade infelizmente não é demagogia!-, quando as famílias contam os tostões e inventam prodígios para manter o equilíbrio nos seus magros orçamentos, como é possível conciliar este tremendo esforço quotidiano com o escândalo representado pelas fortunas esbanjadas pelo futebol? Sobretudo quando se sabe que os clubes estão na penosa situação em que cada vez mais vão mergulhando. A glória (!?) dos triunfos a qualquer preço justifica todos os meios? E tão mal organizados ou rentabilizados?

Voltamos, assim, ao amor à camisola, conceito talvez hoje quixotesco, talvez, mas que será um dos raros caminhos para a moralização. Vai fazer descer o nível do nosso futebol? Ainda mais, não será possível. Concedam-se oportunidades aos nossos jovens, à formação séria e competente, e até assim se combaterá o desemprego.

Vai levar uns anos? E depois? Não é verdade que, para recuperar o próprio país, também teremos de esperar? O futebol vale mais que o país?

E os descontentes, ou protestantes, já se lembraram de ir cantar Grândola para a porta dos estádios? De acolher assim os dirigentes, os árbitros, os técnicos, os próprios executantes?

Não brinquemos mais com estas coisas.

Há dias, num dos meus “mergulhos” no passado, dei com uma revista, entre a imensidão destas, que ilustra na perfeição o “estranho” fenómeno do amor à camisola.

Embora eu não seja do Benfica, reconheço neste clube uma dimensão que em muito ultrapassa o nosso rectângulo. Não me atrevo a considerá-lo um símbolo da Pátria (é preciso cuidado e prudência nesta matéria) mas aceito que ele se constitui frequentemente como um nosso digno embaixador no mundo. Por isso, acho lamentável que a sua actual formação mais se assemelhe a um espécie de “legião estrangeira”. E tudo pago a peso de ouro, do nosso, bem entendido. Também sei que, de vez em quando, há por lá um indígena, mas apenas para dar uma certa cor local, meio envergonhada.

Ora a tal revista revela um outro Benfica. Bem sei que foi há quase oitenta e cinco anos… mas vale a pena recordar o caso.

Trata-se de O Notícias Ilustrado, edição dominical do Diário de Notícias, datado de 14 de Abril de 1929. Um dos artigos dele constante intitula-se, precisamente, Como trabalham os homens do Bemfica. Não era erro, escrevia-se mesmo assim, com um m. Ora o interessante texto, que reproduzo na íntegra (com a grafia actualizada), é acompanhado por magníficas fotografias, também reproduzidas depois de restauradas.

revista

Nesta altura de dificuldades, sabe bem reencontrarmo-nos com o passado. Não é saudosismo, nem pieguice, é um certo Portugal (deixemos aqui as politiquices de fora!) no seu melhor.

Se aquilo não era amor à camisola então o que é o amor à camisola?

Aquele Benfica, no futebol, ainda nem sequer tinha ganho nada de jeito até aquela altura do campeonato. Sim, do Campeonato de Portugal, assim se chamava o nosso torneio nacional de futebol. Tendo este começado a ser disputado em 1921/22, apenas o Porto e o Belenenses, por duas vezes cada, o Sporting, o Olhanense, o Marítimo e o Carcavelinhos, por uma, tinham sido campeões. O Benfica, que nunca sequer tinha sido finalista, venceria as duas edições seguintes, em 1930 e 1931.

Reproduz-se a seguir o artigo, intercalando-o com as respectivas fotografias, a que se acrescentou o emblema do S. L. B. da época, assim como uma imagem de conjunto da equipa, retirada de outra fonte.

COMO TRABALHAM OS HOMENS DO BENFICA

Como trabalham os homens do Benfica? – Eis uma pergunta que o nosso leitor, aficionado do “shoot”, terá feito algumas vezes ao findar um daqueles desafios em que a “alma vermelha”, sempre moça e sempre impetuosa, o impressionou mais profundamente. Eis uma interrogação que tem ficado sem resposta por a não ter ouvido o vizinho do lado, “benfiquista” dos sete costados, conhecendo a biografia dos “ídolos” nos seus mínimos detalhes, desde a data do nascimento até ao dia histórico em que o então “ás”, ainda com a fralda de fora, a um canto da rua, de parceria com alguns garotos da mesma idade, deu o primeiro pontapé numa bola de trapos… Cabe, por isso, ao “Notícias Ilustrado” o dever de substituir o vizinho “benfiquista” e de te acompanhar, leitor, de um a outro extremo da cidade, nesta devassa à vida profissional dos 11 rapazes que constituem o “team” de honra do Benfica.

Todos trabalham, todos ganham honradamente a vida nos mais diversos mesteres e todos consagram ao seu clube a maior amizade.

Comecemos pelos irmãos Tavares -Jorge e Vítor Hugo. São ambos caixeiros. O primeiro na drogaria de seu pai e o segundo nos ferrageiros J. B. Fernandes & C.ª L.ª. Luís Costa e João d’Oliveira são guarda-fios da Companhia dos Telefones e com a montagem das novas linhas não têm um momento de descanso. Jacinto, o conhecido guarda-redes dos “vermelhos”, é soldado telegrafista. António Pinho, velho “internacional”, é empregado na secretaria da Casa Pia de Lisboa.

um

dois

três

Vítor Silva, o avançado centro da equipa nacional, é estofador de automóveis, enquanto seu irmão, Pedro Silva, é empregado bancário. Artur Travassos é segundo sargento condutor de máquinas, a bordo do “Vasco da Gama”. Mário de Carvalho é ajudante de “chauffeur”. Finalmente, Eugénio Salvador é actor.

quatro

cinco

seis

Foi rápida a viagem, leitor, tão rápida que não tiveste tempo de fixar a tua atenção sobre a atitude daqueles rapazes que só conheces iluminados pelo sol das grandes competições. Vê-os nas fotografias destas duas páginas tal os entreviste, há pouco, na nossa peregrinação.

Já sabes tanto como o vizinho “benfiquista” que, da melhor vontade, te teria informado – como trabalham os homens do Benfica.

                                                                                                                                  F. da C.
                 (Fotos Ferreira da Cunha)

Não espero nem desejo um regresso a estes tempos. Mas sabe bem reencontrarmos aquela forma quase bucólica de sentir e viver o futebol, quando provavelmente aqueles homens, emendo, aqueles Homens até pagariam do seu bolso a honra de sentir o aconchego da camisola encarnada e a responsabilidade de se baterem pela águia…

sete

E PLURIBUS UNUM.

António Martinó de Azevedo Coutinho

A HISTÓRIA DO CORNETEIRO

De amigo que muito prezo e a quem agradeço a generosidade, recebi este documento histórico-cultural que, pela sua flagrante actualidade, de imediato partilho com os estimados leitores.

Nos primeiros tempos da fundação da nacionalidade – tempo do nosso rei D. Afonso Henriques – no fim de uma batalha o exército vencedor tinha direito ao saque* sobre os vencidos.corneteiros

Pois bem, após uma dessas batalhas, ganha pelo 1º Rei de Portugal, o seu corneteiro lá tocou para dar “início ao saque” a que as tropas tinham direito e que só terminaria quando o mesmo corneteiro desse o toque para pôr “fim ao saque”.

Mas, fruto de alguma maleita ou ferimento, o dito corneteiro finou-se, antes de conseguir tocar o “fim ao saque”.

E, até hoje, ninguém voltou a tocar, anunciando o fim do saque.

Afinal a culpa é mesmo do corneteiro!…

Não haverá por aí alguém que conheça o toque ?

*(Saque – s. m. : acto de saquear. Roubo público legitimado)

 (Lendas Malditas de Portugal, autor anónimo do séc. XXI)

Um mosquito que já não pica…

CABEÇALHO MOSQ

Não fui um leitor fiel d’O Mosquito. Ele surgiu quando eu era demasiadamente novo para prestar qualquer atenção aos escritos e às ilustrações.

A minha relação com as histórias aos quadradinhos iniciou-se e fortaleceu-se a partir do Diabrete, um sério concorrente d’O Mosquito, que começou a ser publicado em 1941, precisamente quando me iniciava na descoberta das primeiras letras. E aprendi e ler nele, muito mais do que no livro único, como lembro frequentemente.

Este pormenor, embora significativo, não me impede de reconhecer n’O Mosquito uma qualidade invulgar, concordando em absoluto com aqueles que o consideram um paradigma de qualidade no seio da BD nacional.

Por isso, os sessenta anos que hoje precisamente se cumprem sobre a sua desaparição física não anulam, bem pelo contrário, o reconhecimento de que, com ele, se perdeu uma referência invulgar.

Com efeito, o jornal foi pioneiro de inúmeras iniciativas editoriais e sócio-culturais que merecem ser evocadas. Ao tempo, conseguiu atingir tiragens, distribuição, implantação e longevidade de relevo. Durou dezassete anos ininterruptos e chegou a imprimir 80 mil exemplares por semana, tendo mudado por diversas vezes de formato físico. Foi, de facto, um caso sério, muito sério, de popularidade.

mosq

A dupla António Cardoso Lopes (componente ilustrativa) e Raul Correia (componente literária) foi capaz de fornecer um equilíbrio e interesse que cativou e fidelizou milhares de crianças e jovens ao seu jornal. E isto em épocas em que a escola, a sociedade, os pedagogos e os intelectuais consideravam este tipo de publicação digno de censura e de rejeição.

Numa fase em que a linguagem da banda desenhada ainda não tinha atingido o rigor e a autonomia que mais tarde se verificariam, a origem das histórias ilustradas era sobretudo inglesa, mais tarde espanhola e depois norte-americana, já em fase adiantada da publicação. Mas, progressivamente, a produção nacional foi ganhando peso e consistência nas páginas do jornal, ao ponto de se poder afirmar que a maioria dos artistas portugueses da especialidade dessas épocas ali se iniciou ou confirmou.

Personalidades como Jayme Cortez, Servais Tiago, Vítor Péon, José Garcês, José Ruy e, sobretudo, Eduardo Teixeira Coelho, tiveram trabalhos expostos n’O Mosquito. Alguns ficariam famosos.

Suplementos temáticos diversos, álbuns autónomos, programas radiofónicos, espectáculos publicitários, construções de armar, um emblema, novelas de continuação, contos, concursos, adaptações ilustradas de grandes obras literárias e, sobretudo, uma conseguida capacidade de permanente diálogo com os leitores através duma secção dedicada ao “correio” – eis o segredo do êxito.

Mas O Mosquito não conseguiu vencer a concorrência e as suas tiragens foram sendo reduzidas até o projecto se tornar comercialmente inviável.

A despedida foi simples, escondendo o dramatismo da solução final, mascarada com a notícia/aviso, dirigida aos “amigos”, de uma próxima e nova “transformação”.

mos0

Conhecem-se quatro tentativas de “ressurreição”, em 1960, 1961, 1975 e 1984, todas frustradas. Entretanto, pelos anos 70, um outro jornal –O Cuto– publicaria diverso material antológico, recolhido das páginas do saudoso O Mosquito.

Quando o prestigiado Clube Português de Banda Desenhada instituiu um troféu para distinguir as personalidades de maior relevo nesta área, deu-lhe o nome e a forma de O Mosquito, o nosso “Óscar da BD“…mosq01

Não pretendi fazer aqui a história do jornal. Existem inúmeras publicações, artigos, livros, teses, ensaios, estudos sérios, muito completos e de grande qualidade sobre o tema. O que quero, precisamente hoje quando passa uma significativa efeméride da vida (e morte) d’O Mosquito, é recordar a última edição daquele que foi um dos títulos mais fascinantes entre a banda desenhada portuguesa de todos os tempos.

Aqui fica a integral reprodução do número 1412, datado de 24 de Fevereiro de 1953, ano XVI (deveria constar XVII), com a inerente saudade…

mos1

mos2

mos3

António Martinó de Azevedo Coutinho