Firmino Crespo – 2

CABEÇALHO FC

A Capital foi um jornal, primeiro vespertino e depois matutino, que se publicou entre nós, de 21 de Fevereiro de 1968 a 30 de Julho de 2005.
Pelas suas páginas passaram jornalistas de qualidade e ficou conhecido pela atenção prestada a diversos temas como, por exemplo, a banda desenhada e a cultura em geral. O seu suplemento semanal dedicado à cultura na edição das quartas-feiras, Literatura & Arte, atingiu um apreciável nível.

capital

Aí, no dia 11 de Janeiro de 1970, foi publicado um artigo algo intimista de Firmino Crespo sobre o quotidiano do seu amigo e colega Reis Pereira (José Régio).
Intitulado José Régio – O poeta na sua humanidade, o texto revela alguns pormenores sobre a vida, em Portalegre, do autor da Toada. A própria fotografia que, como gravura, ilustra o texto representa um momento do quotidiano pessoal do literato, surpreendido no acto, nele frequente, do acender do seu cigarro antes  laboriosamente manufacturado.
Ao partilhar este precioso documento, pela mão diligente e atenta do João Fevereiro Mendes (obrigado, amigo!), tenho consciência da disponibilidade pública de mais um contributo para um melhor conhecimento da riquíssima personalidade de José Régio, assim como do valor da amizade e da rara vocação literária de Firmino Crespo.

Jornal

 JOSÉ RÉGIO  –  O POETA NA SUA HUMANIDADE

Os acasos da profissão de­ram comigo em Portalegre, ano de 1940. Portalegre era então uma cidade provinciana, branca e estreita, no dizer de um escritor inglês lusófilo, C. D. Ley, tranquila e agradável, meio adormecida nos relevos meridionais da serra do mes­mo nome. José Régio era lá professor do liceu. Aqui nos encontrámos como colegas, mas a camaradagem que desse encontro profissional se estabeleceu viria a reforçar-se em amizade através de con­versações várias e na deambu­lação pelos arredores pitorescos da cidade, passeios que por vezes se alongavam e estendiam a sítios e povoações desta zona do Alto Alentejo. Ele gostava destas deambulações ocasionais, curtas ou prolongadas, e muito do que observava veio a fixar-se na sua obra novelesca.

Dois ou três companheiros mais comparticipavam às vezes  nestas  excursões  em  que sempre aprendíamos alguma coisa de novo. A serenidade doirada de certas tardes de Outono ou os prenúncios serôdios de uma Primavera flo­rida convidavam a estas deambulações por velhas azinhagas, caminhos primitivos ou por sinuosas e imprevisíveis vere­das que rematavam às vezes na cancela de horta rústica, ou no portão de quinta senho­rial donde cães de guarda sal­tavam raivosos. Outras vezes estacávamos num barrocal gra­nítico que se debruçava sobre um vale de terras férteis agri­cultadas, ou era miradouro, pa­ra extensas tapadas de olivei­ras ou sobreiros, às vezes her­dades ponteadas de esgalhadas azinheiras ou montados.

Muitos desses sítios ficaram assinalados na nossa imaginária carta topográfica por designações que eram reminiscências de leituras comuns, mas sempre resultantes da particular atmosfera emocional que desses locais rústicos se evolava. Um era o «Poço-de-Jacob» pela calma sensação que rodeava um poço de bordas de granito e seu tanque adjacente, protegidos pela vizinhança de velhos sobreiros e pelo silêncio envolvente que nos fazia calar a todos e perder a noção do tempo. José Régio amava esta solidão ocasional. Outro era um compac­to conjunto de oliveiras seculares, musgosas e robustas, que pela atmosfera bíblica nos lembrava o «Jardim-das-Oliveiras».

Outras   vezes,   já   fatigados da  longa  caminhada,  parávamos numa próxima ou já conhecida taberna aldeã, à beira da estrada de Alegrete ou da serra de S. Mamede, ou dos Fortios, e petiscávamos qual­quer coisa que estivesse nas posses de tal tipo de estabelecimento rural.

Régio em ambiente rústico

Embora franzino de corpo, a resistência física de Régio igualava a nossa nestas alongadas passeatas e não raro voltava carregado, sobraçando um prato antigo ou um cris­to popular que por acaso ad­quirira em casa ou casebre aldeio. A sua robustez mental contrastava com a baixa estatura e debilidade física. Esta primeira impressão visual que a muitos desconcer­tava, ou afastava, tinha com­pensações posteriores, quando, vencida a sua natural reserva ou timidez, nos considerasse companheiro ou amigo e ad­mitisse na intimidade da sua casa do Largo da Boavista.

Esta, pouco a pouco, foi-se  transformando  num estranho museu para cujas aquisi­ções algumas vezes fui com­parsa. Estou agora a lembrar-me de um episódio singular. Num dia feriado de Dezem­bro, talvez dia 8, Régio apareceu-me ao almoço um tan­to preocupado. Éramos comensais da «Pensão 21», da Dona Rosalina, figura curiosa da vida portalegrense e gran­de admiradora do dr. Reis (era assim que ela o tratava). Respeitei o seu estado apreen­sivo, que ele, após bebermos o rotineiro café, me explicou. Notícias tristes da família: alguém falecera. Sentia-se abatido e propunha-me, para desanuviar a grande mágoa, um passeio para os lados da es­trada de Arronches.

Estava frio, mas um sol res­plandecente aquecia a paisagem e instigava a uma deambulação ao ar livre. Deixadas as velhas ruas da cidade, tomámos pela estrada que leva a Arronches e Elvas. Vários assuntos vieram à conversa, admirámos mais uma vez os imponentes eucaliptos que ele incluiu na novela «Davam Gran­des Passeios aos Domingos», o relevo das lombas de extensas herdades, vales a tingirem-se das primeiras relvas, velhas azinheiras esparsas por encos­tas e alongadas colinas. Autên­tico Alentejo. Numa curva do caminho, após uma hora de caminhada, surgiu-nos um grupo de casitas humildes, pare­des de granito musguento e telha-vã. À soleira de uma por­ta uma velhinha saboreava, só, a quentura do sol. Era um re­canto abrigado. Saudámo-la e Régio, por desfastio, perguntou-lhe se tinha algum prato antigo, velho, que quisesse vender. Era o instinto do colec­cionador de antiguidades que despertava. A velhota tartamu­deou uma explicação evasiva qualquer, mas sempre se er­gueu e penetrou na casinha térrea e limpa e trouxe de lá um prato a que ela dava pouco valor. Muito antigo. Já era da avó dela. Régio tomou o prato, de desenhos no rebordo, cor azul desbotado e laivos cor de vinho, remirou-o lentamente… tornou a remirá-lo. Cena de expectativa para mim e para a dona do velho objec­to. Iniciação para mim no mundo dos antiquários. Após breves instantes perguntou se o queria vender e quanto que­ria pelo prato. Nova pausa. A velhota não sabia avaliar o preço de um velho caco da sua paupérrima cantareira doméstica. Até que Régio se aventurou e propõe-lhe um preço moderado inicial, ten­tando chegar a um acordo. No­va situação embaraçosa. Com um sorriso ingénuo, a boa da velhota acabou por aceitar o preço oferecido, que Régio logo ali pagou com uma moeda de prata. Tomou o prato e prosseguimos o passeio. O ar acabrunhado desvaneceu-se pouco a pouco e Régio foi-me explicando as razões e valor da compra. Tratava-se de um autêntico prato-de-aranhões, muito apreciado por coleccio­nadores e amadores de antigui­dades. Tinha esta peça de ce­râmica antiga uma falha no rebordo. Calculo que deverá figurar ainda na colecção da Casa-Museu de Portalegre,

Estes passeios campestres ti­nham geralmente a intenção de contrabalançar o sedentarismo do escritor, respirar o puro ar dos campos e enriquecer as suas observações de artista e da homem. Conversava naturalmente com toda a gente e não raro revelava um temperamento bem humorado e de­licado nos curiosos diálogos com gente rústica, cuja nobre­za de maneiras respeitadoras ele muito apreciava.

Certa vez, um nosso amigo do café insistiu connosco para irmos ver umas coisas antigas que havia na sua propriedade agrícola, perto de Nisa – covas abertas em rochas graníticas e um velhíssimo pote de barro que o caseiro desenterrara. Oferecia-nos este. Aceite o convite, lá fomos matar a curiosidade. Lá estavam umas tantas aberturas em diferentes rochas, que arqueologicamente deviam ser velhas sepulturas, e lá vimos o pote, grande traste de barro, de alongado bojo assimétrico, bocal estreito e fundo partido. Fracos arqueólogos, decidimos classificá-lo de romano ou pré-romano e após várias peripécias conseguimos acomodá-lo no automóvel-táxi e trazê-lo. Ficou instalado logo à entrada da casa, perante a incredulidade de alguns sobre a velhice de tal peça mutilada, ou para gáudio de outros, o que muito divertia o bom hu­mor do novo dono.

Firmino Crespo

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