Firmino Crespo – 3

CABEÇALHO FC

Como prometido, apresenta-se hoje o texto, integral, da conferência proferida pelo Dr. Firmino Crespo na Escola do Magistério Primário de Portalegre, sobre o seu colega e amigo José Régio. Foi transcrito de Mais Além, revista da Escola, e é ilustrado com gravuras daí retiradas.

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Lembro-me da emoção desencadeada, nesse serão do já distante 25 de Fevereiro de 1970, pelo reencontro do professor com alguns dos seus antigos alunos, como era o meu próprio caso.
Recorde-se o facto de José Régio ter morrido apenas há dois meses atrás (22 de Dezembro de 1969), quando esta oportuníssima iniciativa da Escola portalegrense foi concretizada, num clima ainda dominado por perda tão recente.
A homenagem prestada por Firmino Crespo a Régio, de grande qualidade literária e sentimental, prolongou-se assim na evocação dos tempos da docência e de vivência de ambos, em Portalegre, então justamente associadas ao acto. 

Minhas Senhoras e Senhores:  

Sejam as minhas primeiras palavras uma saudação à cidade que teve o privilégio de produzir ou de ver passar no seu termo três poetas que são honra da língua portu­guesa e glória das nossas letras: José Régio, Cristóvão Falcão e José Duro. Tão distantes no tempo e tão dife­rentes no estilo, deve-se à circunstância de Portalegre os ter albergado, por breve ou longo tempo, a razão de a ela para sempre ficarem associados. Num tratado de medicina greco-romana que se transmitiu à civilização ocidental assinala-se a importância que o ambiente geográfico pode ter no carácter ou na saúde humana, através da tríplice fór­mula – Dos ares, das águas e dos lugares. Ora neste com­plexo geográfico, em que se edificou e foi crescendo a ci­dade de Portalegre, poderíamos apontar alguns elementos explicativos do velho aforismo da medicina de Galeno e Hipócrates – a de que a natureza ambiente foi e é propícia à eclosão ou é estimulante de sensibilidades artísticas, lite­rárias, estéticas. Como exemplo desta interdependência da natureza geográfica e da arte ou expressão literária pode­mos apontar a obra de José Régio, observando-o especial­mente na veemência lírica a que ele chamou Toada de Por­talegre, que é uma homenagem-documento à cidade onde viveu grande parte da sua vida. Nenhum dos outros poe­tas que a Portalegre se ligam por forma mais carnal ex­primiu, em grau e realismo tão intensos de verdade poética como José Régio, o carácter dos ares, da terra, dos lugares desta formosa região do Alto Alentejo. E não só a paisa­gem externa, as manchas do panorama, os longes dos hori­zontes, a variedade de relevo, as mutações climáticas, a luz das horas diversas do tempo meteorológico, mas até o mun­do complexo do homem comum, dos recônditos sentimentos humanos. A originalidade desta paisagem humana e geo­gráfica ele a surpreendeu e anotou em traços rápidos e certeiros, na sua cor justa ou vigorosa realidade.

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Era José Régio uma natureza complexa, uma inteligên­cia profundamente penetrante do que fica além das apa­rências, transmitindo-nos mais que nenhum dos outros a variedade de aspectos do ser humano. Cristóvão Falcão (e eu não duvido que tenha sido ele o autor da écloga Crisfal e brevemente conto ampliar e publicar um meu estudo sobre a singularidade dessa écloga), Cristóvão Fal­cão é fundamentalmente um lírico, sentimental e bucólico, que transpôs o drama amoroso, pessoal?, da fase adoles­cente para a forma da poesia pastoril, género em voga no seu tempo. Mas ao desenvolver o seu caso dramático ele envolve-o e acrescenta-o de considerações de ordem moral e social, quando não é puramente um quadro descritivo. Perecebemos que na écloga se esboça uma movimentação, mas em forma de sonho, quando o personagem central se desloca, voando, da foz do Tejo ao vale de Lorvão. Aqui assistimos à cena mais dramática da écloga, talvez o ponto fulcral desta peça lírico-dramática quando uma agitada ar­gumentação de censuras se desencadeia entre Crisfal e Ma­ria junto à fonte do mosteiro (ests. 51-53). Tudo topogra­ficamente e psicologicamente certo, de uma realidade hu­mana fácil de compreender. O diálogo prolonga-se numa insistência própria de apaixonados orgulhosos, adaptando-se a expressão literária à variedade e gradual modificação dos sentimentos dos dois personagens. Os elementos com­ponentes do cenário são exactos, os necessários e os auten­ticamente reais, como a topografia do local descrito.

Longa que seja a écloga Crisfal (para cima de mil ver­sos setessilábicos), bela que seja a sua expressão poética, rica de notas humanas – opiniões, dúvidas, sentimentos de revolta, acusações, estados de resignação, solilóquios, lágri­mas, abraços, beijos, súbitos desabafos de inconformismo social e religioso, ela não chega a atingir a largueza e a potência de obra mais trabalhada e de experiência mais longa e profunda. Isso vamos encontrar, esse largo fôlego de expressão, na obra de José Régio, mesmo que tenhamos de nos limitar ao lado ou aspecto da sua produção poética. Assim, desde os «Poemas de Deus e do Diabo», livro que o revelou abruptamente (e escandalosamente) em 1925 à li­teratura portuguesa, até à publicação do «Cântico Suspen­so», em fins de 1968, como é rica e variada a obra do poe­ta! De facto, bastariam os sonetos do seu livro «Biografia» para o acreditar como grande poeta, da estirpe de Camões ou de Antero de Quental. Muitas vezes lhe ouvi dizer que se algum livro seu de versos ele sentia que lhe havia de sobreviver, era o da «Biografia». Editado pela primeira vez em 1929, não é ele uma exposição cronológica da sua vida como poderia depreender-se do título, mas uma série de momentos despegados da sua vida introspectiva e confron­tados com a realidade social. Abre o livro com o soneto Conto, à maneira de prefácio ou prelúdio de um pro­grama em que fica esboçada toda a longa viagem desse me­nino inexperiente que, sendo ele, também se poderá reco­nhecer em cada um de nós (Vai o menino só na estrada grande).

Nem sempre poderemos concordar com a opinião dos artistas-escritores ao julgarem a sua própria obra, mas te­nho de confessar que José Régio possuía um apurado sen­tido crítico ao fazer julgamentos de ordem literária e até de ordem moral. Todavia não aceito que os restantes livros seus sejam menos importantes ou significativos que a «Bio­grafia». Estou a lembrar-me das peças de teatro, da produção novelesca e até dos ensaios de crítica para não salientar o seu interesse de coleccionador de obras de arte popular. Sim, porque a Casa-Museu, que ele foi aumen­tando ao longo de muitos anos, também exigiu um dom superior de apreço pelo trabalho artístico alheio e uma vontade consciente de recolher e concentrar os elementos dispersos, e abandonados, num ambiente adequado para seu deleite e de todas as pessoas cultas.

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Algumas páginas da novela «Davam Grandes Passeios aos Domingos», ou da colectânea de contos «Há Mais Mundos», ou dessa grandiosa construção do romance cíclico «A Velha Casa» podem incluir-se numa antologia de trechos que marcam um escritor como um clássico da literatura portuguesa e como um grande espírito preo­cupado com os problemas da existência humana. Em toda a obra de ficção podemos encontrar tipos ou personagens que são retratos de almas ou uma esmiuçada análise de caracteres psicológicos, complexa teia de pensamentos recônditos e desejos inconfessados que em grau diferente ou variável intensidade se distribuem, tumultuam, agitam, fremem pelo íntimo de cada um de nós, quantas vezes sem termos consciência exacta do que se passa nesses recessos obscuros da nossa vida interior. Ora esta análise intros­pectiva, ou melhor, prospecção que o romancista ou psicó­logo aplicava e conduzia às zonas longínquas e profundas da nossa vida subconsciente, era um impulso e uma inten­ção, isto é, tinha uma finalidade – a de um espírito ansioso por descobrir e revelar os desvãos sombrios de um ser que se convencionou chamar humano. Na alegoria do seu romance «O Príncipe com Orelhas de Burro», que lembra o estilo fantasista das novelas de cavalaria, foi o que ele pretendeu com a misteriosa descrição da floresta onde os reis da Traslândia se perdem logo nos primeiros capítulos, regressando com um mistério que resulta no nascimento do jovem príncipe Leonel.

O símile do espelho, ou da água do poço onde se con­templava a si mesmo, ele próprio representante da forma humana, aparece várias vezes nos seus versos, quase se tornando uma obsessão, como nesta quadra primeira do soneto Narciso:

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço…
Ah! que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

levou alguns crítico-humoristas a uma síntese depreciativa da temática do lirismo e personalidade de José Régio, mas sem fundamento sério, porque o símile era apenas um ele­mento metafórico dos muitos que o artista utilizava para exprimir a variegada forma do seu pensamento.

Outro soneto da «Biografia» exprime sob outra forma alegórica o mesmo complicado e obsediante pensamento do poeta – Libertação.

Esta luta irreprimível por um conhecimento, o mais completo possível, da natureza humana, uma forma de Absoluto, imanente ou transcendente, e sua expressão artís­tica, desenvolve-se ao longo de toda a obra de Régio. No teatro, porém, é dada com maior agudeza e amplidão espectacular, particularmente na peça «Jacob e o Anjo». Embora o início da representação surja numa atmosfera penumbrosa de pesadelo-sonho, imediatamente somos pos­tos em frente de um conflito, a luta dramática do Rei-humano e do Anjo-bobo, defendendo cada um as suas respectivas posições ou domínios. Através do trabalho artístico da representação nós sentimos o esforço tremendo, físico e mental, exigido ao actor para exprimir toda a verdade sobre-humana do personagem central. Peça difi­cílima de realização, de interpretação exigentíssima, como o devem ter sentido e reconhecido os que em Paris e em Lisboa, corajosamente tentaram no palco apresentá-la a um público de preparação cultural diversa.

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Parece-me, todavia, que o poeta já tinha aflorado essa luta dramática pela depuração mística do humano num poema das «Encruzilhadas de Deus», a quem pôs o signi­ficativo, mas humorístico título de O Papão. Veja­mo-la em toda a sua inteireza e evolução, porque nele há teatralidade, angústia, movimento que reflui para dentro do próprio poeta, como uma espécie de desfecho irónico. Esta duplicidade ontológica, ou antes, este desdobramento intencional de quem pensa e se analisa, sem perder a cons­ciência da sua identidade humana, é um dos elementos predilectos da temática de José Régio. Surge-nos logo no primeiro poema dos Poemas de Deus e do Diabo, podendo nós reconhecê-lo nos estranhos versos do Painel, no simbo­lismo da presença bilateral de personagens que o poeta designa por um Homem e por Alguém, «dois vultos des­medidos / que iam crescendo entre os meus risos e ge­midos, / Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois / Eu ficava esmagado entre eles dois

Com estas imagens de raiz bíblica, o seu drama espiri­tual, ou religioso, vai-se alargando, tomando variadíssimas maneiras de representação poética, sempre   obsessionado pelo problema metafísico ou místico da carne-espírito, do Bem e do Mal, do Vício e das Virtudes, do apelo de Deus e do Seu repentino abandono, um diálogo constante de humilhado e revoltado. Devia ser terrível atingir por vezes o nítido e profundo conhecimento das limitações da capa­cidade intelectiva humana, ao mesmo tempo que sentia as forças torrenciais de um apelo místico à Perfeição, uma sede inextinguível de Absoluto tranquilizador. Este drama metafísico-religioso tomou uma altissonante expressão heróica no poema Sarça Ardente, das Encruzilhadas, de que transcreve a estância 37:

Eh! não me venham, pois, pintar restrito,
Das restrições que são nossa pobreza,
Esse eterno, absoluto, uno, infinito,
Que é Perfeição, Verdade, Bem, Beleza…
Sobe, asa em chamas desgarrada…, grito
Disparado da boca muda e presa…!,
Vai! que para falar do meu Senhor,
O amor não tem mais que o próprio amor.

Na sua estranha originalidade nem sempre a poesia de Régio foi sentida ou entendida como ele a apresentou nos primeiros livros. A esta se podia aplicar o sentido dos ver­sos de outro grande poeta português – «Mudam-se os tem­pos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / To­mando sempre novas qualidades», que Camões escreveu para marcar a inconstância das coisas da vida humana. Régio também o experimentou, mas não se amedrontou ou retraiu perante as inevitáveis alterações de gosto estético, características do fluir temperamental das gerações. Sere­namente tentou explicar-se através, sobretudo, de artigos ou ensaios de crítica literária, alguns dos quais são primo­rosas páginas de clareza e densidade do seu espírito crítico.

O livro «Fado» (1941) surgiu-lhe em parte como uma necessidade de esclarecer que não se pode marcar limites à força criadora do homem, ou melhor, que é livre a expres­são de temas de arte. Há no espírito humano tanto tesoiro desconhecido para descobrir e revelar, e para ser objecto de expressão artística, que seria fútil e estulto, negar essa possibilidade ou capacidade de expressão. Ora dar, em arte, maior relevo ao fenómeno social, às realidades da vida quotidiana, à chateza do viver rotineiro profissional, em ci­dades, vilas ou aldeias, ou focar ambientes sociais inferiores, sórdidos, viciados, primários, é afinal deslocar a incidência do olhar ou do interesse para um ponto ou campo diferentes de temas ou ainda não explorados atentamente, ou super­ficialmente vistos até agora. Régio sabia muito bem que pesa na nossa vida um certo número de fatalidades, de fados, a que mal podemos subtrair-nos: doenças, taras, misé­rias, aleijões morais ou físicos, sentimentos pervertidos, es­tados de loucura, etc. Pois isto também é apanágio do ho­mem de sempre e ele o quis exprimir artisticamente em verso, a que deu o título de Fado, mas que não se afasta da temática constante da sua obra multifacetada. E, de facto, não é uma fatalidade, embora climática ou geográfica, o vento soão que em certos dias do ano sopra nesta zona alentejana e cujas lufadas sentimos passar na longa Toada de Portalegre? Quem não o sentiu ao ler estas passagens doentias do poema?

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimadas,
Lá vem o vento soão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão…

Todavia ele não se detém na série de sensações depres­sivas, no aspecto, horrível e lúgubre, da vida, porque tam­bém há na natureza, física e humana, momentos agradá­veis, alegria, beleza, equilíbrio saudável. Com que amorosa arte de ritmos e imagens ele nos fala da sua Vila do Conde, no romance que lhe dedica, cheio de saudosas lembranças da terra onde nasceu! Agora é outra aragem, mais fresca e saudável, a brisa marinha… Ventinho da beira-mar / Vento de Vila do Conde… / Que em sonhos sente assoprar… É toda uma aguarela de cores e manchas frescas, luminosas com pinheirais névoas, salinas, a espuma do areal, e bran­cas capelinhas a transfigurarem-se em aves ou pombas que por sua vez se transformam em pétalas de rosas:

Da banda de lá do rio.
As gaivotas a voar
Sobre Azurara se esfolham
Como um grande roseiral!

Também Portalegre lhe inspirou um poema, cheio de musicalidade e ternura, a que deu o nome de Canção de Portalegre. Ignoro se está publicada algures, mas como possuo uma cópia manuscrita, eis parte do que foi escrito por José Régio.

Não podia portanto, contentar-se com a suavidade lírica de um género poético menor como o bucolismo, que fez a glória de Cristóvão Falcão, nem lhe era aceitável como nota dominante nos seus temas poéticos a tristeza lúgubre, purulenta do «Fel» de José Duro. Havia sempre um mais além do aparente mundo convencional, havia mais mundos que o perturbavam. Ele o disse noutros livros como no a que deu o título magnânimo de «Mas Deus é Grande». Que sua­vidade rítmica e que simplicidade filial no quadro lírico dos versos inspirados por uma imagem de Nossa Senhora que ele adquirira e conservava ao cimo das escadas da sua re­sidência do Largo da Boavista!

E não menor elogio de todo o trabalho artístico superior nos versos do poema Fraternidade cujo tema é um Cristo, obra de anónimo escultor de recuados tempos que soube fixar no rosto agonizante do crucificado um último mo­mento de vida prestes a extinguir-se.

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Em 1961 publica um dos seus livros que tanto pelo tí­tulo – «Filho do Homem» -como pelo conteúdo parece marcar um rumo diferente em estilo e confidências (trata­das com respeitosa delicadeza) sobre temática erótica, a contrastar com a espiritualidade de telas de uma galeria de santos e santas. É de facto notável a delicadeza com que toca as águas turvas do erotismo ou o amoroso respeito com que contempla e elogia as figuras santificadas do agiológio cristão. Nesse livro, sob o heterónimo de João Bensaúde, quis o poeta assinalar em versos breves, airosos, entre amar­go e risonho, uma outra faceta do seu lirismo livre. Deu o nome de Cancioneiro de João Bensaúde a esta secção do livro a qual vai emparceirando com outras secções. Com­partimentadas, a secção do Cancioneiro alterna com a de O Amor e a Morte, assim como a dos Epitáfios alterna com a de O Polo Sumo. Nesta se incluem os elogios de santos e santas. Observemos do Polo Sumo as cinco quadras setes-silábicas «Em louvor de Santa Isabel, Rainha de Portugal».

O livro fecha com uma bela poesia: A Longa Lápide (à memória de João Bensaúde)  que é simultaneamente um epitáfio e uma visão retrospectiva da alma lírica de Alguém cuja vida decorre paralela à do autor. Veja­mo-la também na sua estranha beleza literária.

Embora, espalhado por toda a sua obra poética, o tema do Amor e da Morte seja uma constante perceptível, nota­mos todavia que se torna demasiado insistente à medida que a idade avança. No seu último livro de versos – Cân­tico Suspenso – ao lado de muita coisa bela, estranha e vária, adivinha-se uma nota de resignada expectativa, pe­rante o fim que ele pressentiu melhor que ninguém com aquela agudeza de sentidos premonitórios a que ele dava o nome de intuição. Nunca me esqueço do sentimento de melancolia que a leitura do poema O Moço Jardineiro produziu em mim. Ele que orgulhosamente enfrentara os ridículos humanos, as pieguices vulgares, expondo-as na sua poesia de teor satírico (leia-se o poema Havia na Cidade ou o Baile), parecia-me ter agora entrado numa estranha tristeza depressiva de quem está prestes a terminar a sua peregrinação terrena, ou ter mergulhado naquela penumbra do dia, ou da vida, que ele descreve no poema do mesmo livro – Penumbra.

Recordo como um dos melhores momentos da minha vida o tê-lo encontrado e com ele ter convivido largamente nesta mesma cidade que ficou agarrada na sua obra em belas páginas descritivas. E também não posso ocultar a afeição dispendida pela sua casa-museu a que nós, os seus amigos e companheiros às vezes nos referíamos com ino­fensivo gracejo, chamando-lhe Museu Régio-nal. Pois tam­bém ele é um poema – religioso e de arte – feito pela sua persistência, com afecto e até sacrifícios monetários. Ser­vindo o seu instinto de homem superior e de fino gosto e inteligência, legou-nos para benefício e prazer espiritual o que o Município em boa hora decidiu adquirir e con­servar.

A todos muito obrigado por me terem escutado e me terem proporcionado a oportunidade de falar, relembrar um dos meus bons colegas e companheiro, a que dedico um afecto muito particular e uma total admiração.

Firmino Crespo

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