Firmino Crespo – 4

CABEÇALHO FC

Ao iniciar aqui a curta série de artigos sobre Firmino Crespo não contava com a surpresa -agradável e oportuna surpresa- de ter entretanto encontrado, entre os meus inúmeros recortes de imprensa, mais um texto do saudoso professor sobre o seu amigo e colega.
Recolhido de Artes e Letras, suplemento cultural do Diário de Notícias, o artigo em questão terá sido redigido na mesma época da conferência transcrita no post anterior, Junho de 1970.
Trata, expressamente, da personalidade íntima de José Régio, incluindo a postura como professor, talvez um dos aspectos mais controversos da sua vida pública, uma vez que não é consensual o sentido de diversas opiniões expressas a tal propósito. Mas este particular não será aqui e agora abordado.
Firmino Crespo, com a inegável autoridade testemunhal, intelectual e moral que possui, dá-nos um outro retrato pessoal do Poeta, complementar daqueles que revelou noutras oportunidades.
Por isso, este contributo é mais uma peça que nos ajuda a compreender o Homem complexo, embora simples, que Régio foi, na intimidade, por vezes bem distinto, na vulgar aparência transmitida, do cidadão que Portalegre albergou nos seus muros durante mais de três décadas, muitas vezes o injustiçando…

Régio visto por Crespo

Curiosa é também a fotografia que acompanha o texto. Utilizei-a, ignorando esta fonte, no cartaz e no convite anunciadores das comemorações levadas a efeito em Portalegre, em Março de 2011, a propósito dos 75 anos da estreia da peça Sonho duma Véspera de Exame.cartaz e convite
O pequeno aluno, da capa e batina, que se encontra no lado esquerdo da fotografia, é o dr. Atanásio, ilustre jurista de Cascais, recentemente falecido, que esteve presente nessa festa de homenagem e evocação dum episódio muito significativo da presença de José Régio, cidadão, literato e professor, na cidade da Toada.
Como última nota sobre o texto a seguir transcrito, achei nele curiosa a lembrança dum regular serviço prestado por Régio à comunidade liceal, incluindo alunos que não leccionava, quando paciente e magistralmente os ensaiava na dicção de poemas para récitas escolares. Aconteceu-me a excepção, a de nunca ter aprendido com o mestre “a recitar bem, com simplicidade inteligente, a lírica camoniana“. Já aqui recordei esses momentos em que, traindo a sistemática confiança de Firmino Crespo e de Reis Pereira, atropelava sistematicamente (por genética falta de jeito!) os versos de Camões ou de qualquer outro poeta que me coubesse em sorte (ou azar?)…
De Artes e Letras n.º 801, ano XV, incluído no Diário de Notícias de 10 de Junho de 1970, aqui fica a integral transcrição do artigo José Régio, Professor, visto por um colega, de Firmino Crespo.

 JOSÉ RÉGIO
PROFESSOR, VISTO POR UM COLEGA

Toda a gente, no convívio diá­rio, costuma comportar-se de forma normal ou comum, em­bora diferenciações tempe­ramentais, mais ou menos acen­tuadas ou visíveis, marquem e distingam a personalidade de cada indivíduo. José Régio, na sua vida quotidiana, era como toda a gente. Ele próprio o diz num dos poemas das Encruzi­lhadas de Deus. Porém, certas atitudes ou impressões primei­ras davam dele uma ideia estra­nha, e errada, aos que preten­diam conhecê-lo pessoalmente ou ser-lhe apresentados. Como não cultivava a popularidade, não lhe agradavam grandes cír­culos à sua volta. Era simultaneamente uma forma de ti­midez ou de defesa da sua vida interior. Por isso tinha uma re­pugnância instintiva pelos exi­bicionistas ou certas formas de exibicionismo e de cabotinismo. Isto lhe valeu ou acarretou a antipatia dos que não encon­travam nele a aceitação ou con­vivência que pretendiam. Esta forma de orgulho ou intuição, como ele dizia, o levava a evitar esses tais (que ele intimamente suspeitava de insinceridade ou interesses), mesmo que tivesse de arrostar com o futuro res­sentimento ou opiniões depreciativas deles. Em geral não se enganava. O tal dom de psicó­logo ou de penetração dos pen­samentos alheios tinha-o em grau elevado e pode-se verifi­car na obra de ficção, como em certos capítulos do Príncipe com Orelhas de Burro ou nas novelas das Histórias de Mulhe­res, v. g. novela de O Vestido Cor de Fogo ou por todos os volumes de A Velha Casa.

Era, todavia, naturalmente cortês e de fina sensibilidade, pelo que se lhe tornavam penosas as pessoas fúteis, e ne­nhum apreço tinha por atitu­des subservientes. Um dia o vi irritado porque um antigo alu­no dele pensara em promover-lhe um jantar de homenagem. Discretamente fez constar que lhe desagradava a ideia. Por isso nunca aceitou condecorações, nunca desejou honrarias. Nas discussões, por vezes acaloradas, sobre temas de arte, de filoso­fia, de vida sociaL etc., ou na apreciação de pessoas, sabia manter uma força argumentadora e um sentido de justeza, ou de justiça, que enervava ou surpreendia o oponente ou os fanáticos de toda a espécie. Era contra todas as formas de fana­tismo estreito. Considerava a intolerância como um perigo ou mal nas relações humanas e so­ciais.

Era o seu fundo humano de moralista, de homem sincera­mente religioso, de defensor de um conceito de superior hones­tidade, que se patenteia atra­vés da obra novelística e dra­mática (cfr. o «Aio» de O Prín­cipe com Orelhas de Burro, ou o «Profeta» de A Salvação do Mundo), excluindo desta re­ferência, agora, as polémicas es­critas a que ele alude no posfácio da última edição dos Poemas de Deus e do Diabo (1969). Quero apenas referir-me às conversas ou discussões tra­vadas à volta da mesa do Café Central, em Portalegre, em que um pequeno grupo de amigos, ou tertúlia, se juntava, geral­mente, à noite. Não eram frequentes, mas apresentavam as mais das vezes um carácter de esclarecimento de opiniões ou dúvidas sobre variados assun­tos. Se era intransigente em certos pontos fundamentais, nunca, porém, desgostava que lhe apresentassem argumentos diversos, opiniões sérias, pon­tos de vista opostos.

régio e alunos

Muitos supunham que o la­bor poético ou o tempo e ener­gias gastos a escrever livros prejudicariam o seu mister de pro­fessor e que, portanto, as aulas se haviam de ressentir, sacrificadas em proveito das outras formas de actividade intelectual-literária. Puro equívoco! Na personalidade de Régio um sentido apurado de honestidade e respeito pelas obrigações e va­lores morais e humanos fazia dele um professor modelar, en­riquecido pela cultura e por naturais dons pedagógicos. As suas aulas de Português e Fran­cês eram magistralmente boas. Todos os seus alunos ficaram a ter por ele sincera estima e respeito. Claro, há sempre a excepção de uns tantos a quem o mestre não classificou tão alto, nos exercícios ou chamadas, co­mo a vaidade pessoal ou a ciên­cia pleonástica calculavam. Es­se erro de perspectiva os tornou ressentidos, organizando o exíguo grupo de críticos depreciadores ou propagandistas dos sós defeitos do homem, do mestre e do escritor. Mas quem o conheceu bem, numa convivência de muitos anos, sabe quanta seriedade punha no seu ofício de professor, metódico e exigente. Exigente mas não mes­quinho ou calculista. Eles aí es­tão, os seus antigos alunos, pa­ra o confirmar. Um deles, que é hoje actor afamado do nosso teatro, ao seu mestre de Porta­legre deve a descoberta da sua vocação teatral. E na festa anual académica, em 10 de Ju­nho, era ele quem tomava con­ta dos ensaios de poesias de Camões. E os alunos, rapazes e raparigas, aprendiam a dizer bem, a recitar, com simplicida­de inteligente, a lírica camo­niana, bem mais difícil do que parecia aos iniciados.

Quem assistisse a um exame seu nas provas orais de Portu­guês ou Francês ficava impressionado pela maneira inteligen­te como conduzia o interroga­tório. Era logo notado que lhe interessava conhecer a capaci­dade de raciocínio do candida­to, a sua preparação, o seu real valor. Tudo feito calmamente, com um evidente sentido de equidade. Mas não acedia a in­terferências, estranhas, indo até ao ponto, às vezes, de serenar os escrúpulos dos colegas ou a impaciência dos pais, dizendo-lhes que a percentagem dos que não eram aprovados ficava aquém do que poderia ser na realidade. E tinha razão e ex­periência, porquanto alguns supunham-se com direitos inatos, ou sociais, a livre e garantida passagem didáctica. Régio opunha-se a essa forma de usura de classes privilegiadas. Na pri­meira novela que escreveu e pu­blicou, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), há refe­rências a esse tipo de persona­gem. Releiam-na, e quando en­contrarem o Chico Paleiros ve­rifiquem se ele não é um digno representante desse tipo social!

Nele, era uma forma de intui­ção ver para além das aparên­cias, o que explica a fama de esquivo, orgulhoso, intratá­vel. E, no entanto, era gentilíssimo com as senhoras, natural conversador com gente de to­das as classes, apreciador de to­da a forma de trabalho sério, franco com os amigos, alegre nas horas de convívio (algumas vezes aceitámos convite para almoçaradas em casa ou festas de lavradores amigos) e nos lon­gos passeios ou excursões acadé­micas que se davam com o rei­tor, colegas e alunos do liceu, pela serra, vale da Ribeira de Nisa, região sempre pitoresca nos meses de Outono ou na Pri­mavera, o Poeta não era menos alegre que qualquer dos com­panheiros.

Firmino Crespo

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