PRIMAVERA – PÁSCOA

PRIMAVERA  E  PÁSCOA

pascoa-2013Primavera é Ressurreição. Pode parecer algo panteísta esta afirmação, mas pretende revelar apenas uma óbvia constatação. A Primavera chegou, pelo menos no calendário, há escassos dias, ainda que a meteorologia persista em  desmenti-la. Quero agora associá-la à Páscoa que hoje mesmo se comemora. Na Primavera tudo se renova, do contexto exterior ao sentimento interior, tal como se deseja com a Páscoa. É a própria Vida que se quer renascida…

Mas não me apetece fazer a evocação da Primavera pelo modelo tradicional das flores que desabrocham e dos passarinhos que piam, tipo redacção da antiga quarta classe, ou da Ritinha, que tem estado de férias. Prefiro ligar à Primavera duas interpretações adultas, pela pintura e pela música.

Escolhi dois mestres e duas obras dignas deles: Sandro Botticelli, pintor renascentista por excelência e Ludwig van Beethoven, pilar da música ocidental.

O quadro Primavera, de Botticelli (1445-1510), aprecia-se na Galeria Uffizi, fabuloso museu florentino. Também é conhecido como Alegoria da Primavera, e talvez seja mais adequada esta designação, tal é a simbólica complexidade da obra. Pintado por voltas de 1482, provavelmente na sequência duma encomenda da família Medici, o quadro proporcionou a Botticelli o recurso à temática mitológica para figurar o crescimento exuberante da Primavera, para além de outras interpretações que têm sido concedidas à pintura, de grandes dimensões (mais de três por dois metros). Aí surgem Vénus, o seu filho Eros, a brisa Zéfiro, as Três Graças e o mensageiro Mercúrio, num cenário onde figura um bosque de laranjeiras num prado e muitas flores. A harmoniosa unidade entre o Homem e a Natureza, carregada de lirismo, ressalta do conjunto das personagens e do seu articulado movimento.

primavera botticelli

A sonata Primavera, de Beethoven (1770-1827), aprecia-se nas boas salas de concerto sinfónico. Em boa verdade, esta designação apenas lhe foi concedida, aliás com toda a propriedade, após a morte do compositor. No tempo deste, foi conhecida como a Sonata para Violino e Piano n.º 5 em Fá Maior, op. 24. Foi composta em 1800 e dedicada ao conde Moritz von Fries, um mecenas e amigo pessoal do músico. Esta sinfonia assinala e confirma a importância concedida ao violino, proporcionando um interessante diálogo deste com o piano, que acabara há pouco de substituir com vantagem o cravo. Para alguns especialistas musicais, a sonata Primavera faz lembrar os acordes de Mozart, datados de alguns anos antes. Confesso que escolhi a peça de Beethoven em vez da conhecidíssima obra homónima de Vivaldi, de As Quatro Estações, por isso mesmo, por esta se ter transformado num obrigatório “chavão”…


Com esta “dupla” Primavera ficam os votos pessoais de uma Feliz Páscoa para todos os Amigos e Leitores deste blog.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Peniche – Pormenores – XI

Peniche Porm

XI – Mar e forte

Há dias, pelo fim da manhã, um familiar desafiou-me a dar uma espreitadela ao Forte. Que entrasse por ali fora até à muralha e que não me esquecesse de levar a câmara fotográfica.

Fui e, depois, agradeci-lhe a oportuna sugestão. Amigo há duas décadas e meia, desde que nos conhecemos, ele sabe da minha incontornável condição como rústico montanhês do interior e, daí, do meu fascínio pelo mar, sobretudo por este fabuloso mar de Peniche.

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O dia estava tranquilo e, por isso, nada em mim faria supor o estado furiosamente belo do mar junto àquelas muralhas. Logo no acesso exterior, no largo espaço onde a água se espraia ao sabor das marés, dava para antecipar um pouco do espectáculo seguinte. A vista do molhe sul, logo a seguir, confirmava-o.

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A força das ondas fazia a água saltar a alta muralha e encher a esplanada com uma cortina de salgada espuma que tudo encharcava. A um ritmo bastante vivo, sucedia-se o choque líquido contra toda aquela sólida e amuralhada protecção do forte. O mais impressionante da cena é, infelizmente, aqui intraduzível. Só o audiovisual, talvez mais o audio que o visual, poderia aproximar-nos indirectamente da experiência. Pelas adivinhadas profundezas do respiradouro ali rasgado soprava um poderoso fluxo de ar e soava um impressionante som, grave e ameaçador. A um compasso acelerado, qual wagneriana sinfonia, sucedia-se aquele duplo e concertado efeito, digno de um filme de suspense

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Um grupo de jovens, mais corajoso (ou insensato?), aproximava-se e logo era repelido do gradeado bloco, assim sentindo mais intensamente -ao vivo e em directo- a experimentação do risco.

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Percebi depois o que se passava e como aquilo funcionava. Por um fácil pesquisa encontrei a explicação do fenómeno. O mar entra por uma vasta gruta, ou caverna, e chega por ali fora, abaixo da superfície, até ao espaço logo à entrada do forte. E também percebi que a tal juvenil experiência é, de facto, arriscada. O sopro poderá mesmo projectar a enferrujada protecção metálica superior do respiradouro…

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Penso que daqui a umas décadas, talvez uns séculos, tudo aquilo desaparecerá, pela força de ventos e marés. Mas agora é fascinante e vale bem a pena apreciar o espectáculo.

No regresso do forte, naquela tranquila manhã, voltei a pensar em Álvaro Cunhal, nos seus companheiros de cárcere e em quantas vezes terão eles ouvido aqueles sons da Natureza. Sinfonias da liberdade suspensa.

Mas essas são outras histórias. Voltarei, por elas, ao Forte de Peniche.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Pedro Barroso, o (último?) Trovador – VII

Termino esta série de pequenas crónicas sobre Pedro Barroso e, sobretudo, sobre a sua intervenção sócio-cultural. Por isso, desejo agora revelar, ainda que de forma muito sumária, a sua faceta de escritor.
Dele possuo apenas o volume que me ofereceu –A história maravilhosa do Paíspb bimbo bimbo– e é daí que transcrevo a seguir uma parcela do capítulo introdutório, De preliminaria historica.
A obra desenrola-se de um modo articulado, onde o autor procura abordar todos os aspectos relevantes do País bimbo, tal como ele o vê e sente, em facetas como a história, a incompetência,  a ostentação, a burocracia, a subsidariedade, a política, as artes, o jornalismo, a corrupção, a justiça, o legislativo, a restauração, a arquitectura, a riqueza e a pobreza, o sentido da responsabilidade, a piromania, a solidão, a prosperidade, o mar e a terra, o ensino e a cultura, a tropa, a religião, o desporto e os tempos livres, eu sei lá…
Creio que nada terá escapado ao sentido cáustico, saudavelmente crítico e pedagógico, de Pedro Barroso, aqui tornado um Fernão Mendes Pinto dos tempos modernos, um Alexandre Herculano actualizado, um demolidor Eça de… Riachos.
Do Prefácio, da autoria de António Vitorino, de Almeida, até à Sumaria culminantíssima conclusiva, o denso volume lê-se dum fôlego, embrenhando o leitor numa floresta de imagens, conceitos e observações tão desconcertantes como certeiros.  O drama tornado humor, a descrição virada retrato terno e duro, sempre implacável, sempre compreeensivo, a um tempo definitivo mas também provisório, tudo servido num estilo muito personalizado, quase único e inimitável – eis o que apetece dizer como tradução deste livro intraduzível.
Se vale a pena ouvir Pedro Barroso, também ele deve ser lido. A sua mensagem, sempre coerente, faz-nos bem. Cria esperança mesmo quando parece demolidor. Porque está sempre detrás, e por dentro, de tudo o que cria uma alma de poeta.
E bem portuguesa, das antigas, das eternas.
Eis uma prova, nas linhas iniciais d’A história maravilhosa do País bimbo:

“Era uma vez um inefável País, povoado por gente genuinamente bimba, boçal, simples, complicada, levemente maldosa, um pouco li­mitada. Era, contudo, um povo generoso, inventivo, hábil, sonhador, esforçado, dado a grandes feitos.

Heroicamente chão, alegremente triste.

Na sua tristeza incluía fados, amarguras doces e ingénuas, quase poéticas, logo, belamente tristes. Na sua bimbice, às vezes, uma sur­preendente nobreza popular e espantosos cometimentos individuais e colectivos, logo, menos bimbos.

Na sua maldade sentia-se uma imensa e dedicada sacanice, reple­ta de ternura, observação e piedoso aconselhamento, logo, muito me­nos sacana.

Este estranho povo ateava fogos que depois, denodadamente, apa­gava, com risco da própria vida. Alternava revoluções apaixonadas com longas e sofridas ditaduras. Amava-se e odiava-se a si mesmo. Depois de lixar o próximo, era funda e comoventemente solidário.

Era, em síntese paradoxal, digamos que amigo e inimigo de si mes­mo.

Em suma, uma curiosíssima Nação, digna de aturado e interessan­te estudo.

Tal insólito conjunto intrigou-nos e conduziu a este despretensio­so mas apaixonado trabalho, que ousamos agora apresentar à vossa benevolente atenção.

Trata-se de um País actual apesar de muito antigo, onde, habilmente, o acumular dos mais crassos erros de gestão praticados pelos séculos fora soubera tecer uma sociedade tolerante, e até, a espaços, com momentos de gloriosa riqueza.

Muito central – situado algures entre o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente – de clima agreste mas estatisticamente temperado – isto é,  muito quente e seco no Verão, frio e chuvoso no Inverno – possui mar, campo, praia e montanha, como tantos outros países, mas destaca-se, sobretudo, por uma latente, imperiosa e compulsiva tendência prolixo-complicativa, dos seus habitantes.

De genética complexa e difusa, torna-se hoje difícil saber a origem do mal, pois por tal região passaram, em épocas sucessivas ou coinci­dentes, Bárbaros, Suevos, Alanos, Judeus, Genoveses, Árabes, Celtas, Iberos, Celtiberos, Gregos, Cartagineses, Visigodos, Romanos, Fenícios e até Lusitanos, numa amálgama de culturas e línguas que fomentou a mais confusa das tendências individualistas.

Assim, com o decorrer dos tempos e o acumular dos conflitos, tornara-se natural que cada um se fechasse em si e, compreensivelmente, tentasse prejudicar o vizinho, do qual, pelas suas torpes e nem sempre claras ascendências, urgia, como é evidente, desconfiar. A dois passos da crueldade, com acintoso afecto, tramar o próximo tornou-se, pois, um curioso desporto local, um modus operandi nacional.

Tal arte apoiou-se na instalação generalizada e inteligente da maldade,  da inveja e da satisfação na mediocridade, tudo adequado ao carácter assaz peculiar do seu povo. Sem outra intenção que o mero sucesso pessoal, é justo confessar.

Já Suetónio, o preclaro cronista dos imperadores romanos, relatara que, na opinião de Júlio César, havia na região oeste da Ibéria um povo inculto, velhaco e sacanote que não se governava nem se deixava governar.

Impotentes para detectar a origem do mal, digamos apenas que os extractos de sacanismo, de complicadez e de maldade bebiam no tronco comum da bimbalhice e da obscurância, daí a classificação genérica científica de bimbus vulgaris lineus utilizada para designação dos res­pectivos habitantes.

Com efeito, até os magníficos, meritíssimos e doutorados Sacaníssimos, cultos, sabedores e proeminentes, não deixam de entroncar no grande radical dos sacanensis lusitanus vulgaris lineus em muitas das suas exponenciadas magnificências. A um mais elevado nível, claro, condizente com a suas doutas, calibradas e cheirosas pes­soas a merecerem-nos adiante adequada atenção.

Não sabemos também de onde veio esta torpe designação, subliminarmente indexante de tais negativos predicados aos Lusita­nos, gente honrada e apenas medianamente inculta, esforçados servos da gleba e viajantes, zelosos espoliadores do corso, pacatos piratas nas horas vagas; apenas vagamente culpabilizáveis, quando muito, pelo facto de, impulsionados pela Fé, a Grei e a busca imperiosa da canela, terem tido grande heroísmo e desempenho na piedosa degola dos gentios”…

Pedro Barroso. Eterno.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

VIA SACRA

Sexta-Feira da Paixão ou Sexta-Feira Santa é o dia que hoje a Igreja Católica comemora, na tradição cristã do julgamento, paixão, crucificação, morte e sepultura de Jesus Cristo. Isso é lembrado através de diversos ritos religiosos que tornaram a data, e todo este período pascal, num conjunto muito significativo de cerimónias que culminam na Ressureição.

A morte é uma referência fundamental, decisiva, na existência humana. Quando ela é acompanhada do dramatismo e da violência que historicamente são atribuídos a este episódio da vida de um Deus feito Homem, sobretudo no profundo significado do seu sacrifício pela Humanidade, natural se torna que a sua anual comemoração se traduza em rituais de grande importância comunitária.

Lembro com saudade o chibo (borrego ou cabrito assado) que todas as famílias da cidade -praticamente sem excepção- iam comer pela encosta da Serra acima, em cada Segunda-Feira após a Páscoa. Também pela infância, já não evoco com tanta saudade, bem pelo contrário, o terror nocturno que me acompanhava no regresso ao lar, aterrorizado com as chamas do inferno prometidas em alta berraria por um frade capuchinho magro, careca e barbudo, que sempre aparecia em Portalegre por alturas das Trevas, na Sé.

Mas aquilo que quero hoje aqui partilhar com os leitores é um conjunto de imagens da Via Sacra, que recolhi dum pequeno opúsculo que acompanhou o meu Avô José Cândido na I Grande Guerra, por terras da Flandres. Trata-se de uma Via Sacra pelos Moribundos, vocacionada para situações que deveriam suceder com frequência no quotidiano do conflito. A introdução do folheto, impresso na Bélgica por iniciativa da Ordem das Religiosas do Coração Agonizante de Jesus (tudo coerente!), sediada num mosteiro próximo de Bruxelas, não deixa dúvidas quanto à sua oportunidade. Recorde-se que, por aquela mesma época, para além da mortandade provocada pelo conflito bélico, veio a denominada gripe espanhola, que por todo o mundo ceifaria entre 20 a 40 milhões de pessoas. Não se atingiu consenso na contagem das vítimas, pois nunca foram contabilizadas as que teriam perecido na China e na Índia.

O texto relativo a cada Estação da Via Sacra pelos Moribundos, para além das suas naturais referências à Paixão, é penoso, quase funesto. Basta verificar que a expressão “pobres moribundos” se encontra por catorze vezes, precisamente uma por Estação… E o discurso em geral, com dezenas de alusões à morte, aos pecados, à agonia e aos castigos eternos, não difere muito do proclamado em gritos ameaçadores pelo tal capuchinho do alto do púlpito, numa igreja mergulhada na obscuridade…

A qualidade das gravuras, reprodução de baixos-relevos em sucessão narrativa que se aproxima da banda desenhada, compensa o dramatismo do texto, e o seu próprio, revelando um apreciável sentido estético. A sua origem –La Statue Religieuse Paris– surge impressa por baixo da cada reprodução. As designações -aliás tradicionais- das sucessivas Estações são reproduzidas textualmente:

I      – JESUS CONDEMNADO A MORTE
II    – JESUS LEVANDO A CRUZ
III   – JESUS CAHE PELA 1ª VEZ
IV   – JESUS ENCONTRA A SUA SANTISSIMA MÃE
V    – SIMÃO O SYRENEO AJUDA JESUS A LEVAR A CRUZ
VI   – VERONICA LIMPA A FACE DE JESUS
VII  – JESUS CAHE PELA 2ª VEZ
VIII – JESUS CONSOLA AS FILHAS DE JERUSALEM
IX   – JESUS CAHE PELA 3ª VEZ
X    – JESUS É DESPOJADO DOS SEUS VESTIDOS
XI   – JESUS É PREGADO NA CRUZ
XII   – JESUS MORRE NA CRUZ
XIII – JESUS DESCIDO DA CRUZ É ENTREGUE A SUA SANTISSIMA MÃE
XIV – JESUS POSTO NO SEPULCHRO

grupo 1    grupo 2

grupo 3

grupo 4

grupo 5

Pareceu-me a evocação desta Via Sacra, e do seu contexto, uma lembrança digna da solenidade da data que hoje passa.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Uma fervente sopa de letras

Continua em boa hora Nuno Pacheco a sua lúcida, oportuna e incansável campanha contra a monstruosidade linguística a que deram o nome de acordo ortográfico (AO).
Nunca lhe doa a pena!
Na sua habitual colaboração em “2“, suplemento dominical do jornalPÚBLICO Público, do passado dia 24 de Março, divulgou o artigo Uma fervente sopa de letras, que a seguir, com a habitual e justa vénia, integralmente se transcreve para uma mais ampla divulgação. Como merece.
Vai pasmando o prolongado e inexplicável silêncio das entidades responsáveis, eleitas e pagas por todos nós, para cumprirem o jurado dever de zelar pela nossa segurança, pelo nosso progresso, pela defesa dos nossos legítimos interesses e direitos. Então por que não o fazem?
Os irrespondíveis argumentos, óbvios e simples, verdadeiros até dizer basta, que Nuno Pacheco aqui relembra terão de pesar nas decisões oficiais, urgentes e já tardias, que se impõem.
Salvemos a Língua Portuguesa, enquanto é tempo!

 UMA FERVENTE SOPA DE LETRAS

Nuno PachecoNa semana passada, falou-se aqui dos Colóquios da Lusofonia na sua vertente lúdica e ostensivamente passeante. Mas, para que não se julgue que os seus promotores não têm objectivos mais profundos, convém ler o documento Manifesto contra a crise: a lín­gua como motor económico (no Brasil escrever-se-ia “econômico”, é bom notar), no tal portal aqui já indicado (http://lusofonia.com.sapo.pt/, “Colóquios da Lusofonia”, “AICL historial”). Ali se diz o seguin­te: “Uma vez que a unificação da ortografia permite a divulgação do mesmo texto em vários países, a disponibilização das obras literárias mais represen­tativas de cada país aos outros países não só facilita o acesso recíproco a todas as literaturas lusófonas, mas permite a publicação de edições únicas que poderão entrar em vários mercados livreiros.” Ora há dias, no Fórum Para ou para onde pára e para onde vai a língua portuguesa?, uma tradutora resu­miu o problema numa frase singela: antes, eram precisas duas traduções, uma para Portugal e outra para o Brasil; hoje, com o acordo ortográfico (AO), são precisas duas traduções, uma para Portugal e outra para o Brasil. Espanto? Nenhum. Se palavras como activo ou directo serão agora escritas de igual modo (“ativo” e “direto”), outras como recepção ou ruptura mantêm-se tal qual no Brasil mas mudam em Portugal para “receção” ou “rutura”. Isto já para não falar das mudanças vocabulares naturais, derivadas do uso corrente nos dois países: aluguer ou aluguel; cancro ou câncer; libertar ou liberar; planear ou planejar; maquilhagem ou maquiagem; dobrar ou dublar; esclavagista ou escravista; dese­nhador ou desenhista; registar ou registrar; camião ou caminhão; comboio ou trem; nave espacial ou espaçonave; aterrar ou aterrisar; casino ou cassino; e um milhão de eteceteras. Sendo assim, a quimera das edições comuns só pode existir como delírio. Não é problema de hoje. Há mais de um século, quando saiu a décima-terceira edição das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano, o editor achou por bem apensar-lhe uma nota para explicar que aquela edição era feita “segundo a quarta, de 1877, a última em vida do seu autor”, porque edições posteriores teriam adulterado a grafia e, nalguns casos, a obra. Estávamos, é bom notar, antes da revolução ortográfica de 1911 (devida a um homem que, por sinal, nem sempre usava a mesma grafia nos seus escritos: Gonçalves Viana) e o que edições sucessivas fizeram à obra de Herculano foi trocar-lhe palavras ao sabor das modas do momento (e Portugal, no capítulo da deriva ortográfica, não tem paralelo no mundo). Houve casos em que se trocaram apenas palavras: cousa por “coisa”; sapato por “çapato” (isso mesmo, não o contrário); paiz por “país”; dous por “dois”; mas a ânsia de mudar le­vou os editores a alterar mesmo “as formas do autor com prejuízo até do sentido”. Os exemplos são curiosos, cómicos ou delirantes. Onde Herculano escreveu orgulho insensato puseram “orgulhoso sensato”; trocaram riso por “sorriso”; escarnida por “escarnecida”, não por “nunca”; bons por “uns bons”; aborrido por “aborrecido”; eminente por “imminente”; essa mariolada por “esse mariola” e possível  por… “impossível”. Foi possível, sim. E, por isso, um editor atento e honesto quis devolver ao autor a graça da sua escrita. Hoje, curiosamente, é o contrário que se passa. Com mil e um malaba­rismos ortográficos, ninguém se incomoda já com o que um autor possa escrever.

uma fervente sopa de letras

Dois exemplos recentes, de sinal contrário. O livro, aliás excelente, de José Pacheco Pereira, As Armas de Papel, foi revertido integralmente para a nova norma – isto embora o autor seja um reco­nhecido adversário do AO, ao passo que a editora, a Temas & Debates é ferrenha adepta do dito. Resul­tado: citações de documentos dos anos 1960 e 70, que deviam ser ortograficamente fiéis ao original, surgem “atualizadas”. Alguém se imagina a escre­ver “refratários” (pág. 278) ou “objetivo” (pág. 366) na década de 70 do século passado? Já o Expresso, que como se sabe defende e propagandeia o AO, editou este ano os três volumes de O Que a Cen­sura Cortou “de acordo com a antiga ortografia” a pretexto de se tratar de uma reedição. O que per­mite que não se leiam textos escritos há quarenta anos como se tivessem saído das mãos da oficina de Malaca & Bechara. E é aqui que estamos: numa fervente sopa de letras, sem tino nem destino.

 Nuno Pacheco
in Público, 2, de 24 de Março de 2013

Portalegre. A Estrada da Serra e a Quinta da Saúde – oito

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Ao de leve… é um texto, assinado por Guida, retirado do tal caderno agrafado, com 28 páginas dactilografadas e uma capa de papel azul de 35 linhas, que encontrei entre as coisas da minha mãe, recordações da sua vida de relação social portalegrense. O texto é uma romântica -ainda assim fiel- descrição da Quinta da Saúde nos anos 40, da qual não está ausente uma intenção publicitário-turística. Não conheço outra, pelo que esta visão personalizada, entre a ficção e a realidade, constitui um documento quase histórico, no retrato que nos deixa de tempos e lugares com profundo significado local, lagóias no sentido pleno do termo.

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Pessoalmente, tenho também memória consistente do tempo e do lugar, pelos sete anos que contava no Verão de 1942. O casino, a capela, a mata, as vivendas, os panoramas, o campo de jogos e o esboço de parque infantil, a fonte, a esplanada, as veredas e os caminhos interiores, os recantos sombreados, enfim, todo o conjunto ecologicamente equilibrado que então compunha a Quinta da Saúde, pormenores tornados imagens de um contexto onde adiciono os convívios da gente mais crescida, sobretudo naqueles tranquilos fins de tarde, sob uma brisa suave que escorria da serra. Este quadro desapareceu, por demolição material, por incúria intelectual, por abandono de projectos comunitários, por ausência de legítima ambição, por incompetências várias…

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Conversei a este propósito com D. Inês Serra, filha do pioneiro João Serra, sempre no encantamento que a sua jovial lucidez disponibiliza. E ela lembrou aqueles tempos e aqueles protagonistas. Falou com emoção da senhora Rita do Cabeço, sazonal contrabandista que se dedicava ao competente serviço doméstico na Quinta e à fabricação de artigos depois por ela despachados em Espanha, pela raia que surrateiramente transpunha nos tempos certos. Enfim, tempos de saudade cuja partilha lhe agradeço.

Partilha também do texto Ao de leve… que, integralmente, aqui fica.

 Ao de leve…

A três quilómetros da cidade de Portalegre está situada na encosta da Serra a pitoresca Quinta da Saúde, que pelos seus encantos e panoramas deslumbrantes atrai a atenção das pessoas de bom gosto.

Quem se dirigir a este local, notará que o ambiente é aprazível e atraente, tão acolhedora e simpática é a atenção dispensada aos visitantes.

A autora destas linhas, em traços leves, irá -se lhe permitem- fazer uma rápida descrição do imponente quadro.

Ambiente acolhedor, afável, de características regionais, de largos horizontes, ares lavados e águas puríssimas -tal é esta estância de silêncio e repouso. A quebrar o claustral silêncio, ouvem-se às vezes estridentes e fortes risadas, música radiodifundida ou reproduzida em grafonola por discos já muito usados.

Ao entrarmos na primeira rua da Quinta da Saúde, bem conhecida pela Rua das Hortenses, e volvendo os olhos para a nossa direita, podemos contemplar a ampla esplanada anexa ao grandioso Casino onde tantas ilusões se constroem e tantos sonhos se desfazem. Em certas horas andam por ali idílios pastoris e traçam-se diálogos ao sabor das setas de Cupido. Há situações cómicas à beira da esplanada, há olhares embevecidos, há sonhos em miniatura…

É ali que a maior parte dos serões são passados, uns dançantes, outros jogando ou falando de assuntos diversos.

Quem se abeirar deste local, pelas 8 horas da manhã, sentirá a impressão de que se encontra à beira-mar. O quadro que se oferece é deslumbrante, soberbo, digno do pincel de um artista. O alvo casario disperso pela encosta oposta e a linda cidade estão submersos; cobre-os um denso nevoeiro rasgado aqui e além, simulando um vasto oceano em que a vista se perde no infinito.

Avançando um pouco mais, surgem-nos diversas moradias de pitoresco e atraente conjunto, e a tão conhecida fonte de água cristalina, que tem o mistério, segundo a tradição, de prender os que dela tomam o precioso líquido. É aqui que os hóspedes da Grande Pensão Serra tomam as suas refeições sempre animadas e servidas por uma das mais antigas servas -a Senhora Rita do Cabeço- que com a característica expressão “basta que sim” no sentido afirmativo, as frequentes mudanças de a em e (falarem, fizerem, etc.) provoca risadinhas e comentários. É esta serviçal, cuja figura se grava na retina, que merece os nossos aplausos quando conduz os pesados tabuleiros à cabeça, com os pequenos almoços e lanches, e por vezes a “iágua quente”.

Passemos agora à Rua das Acácias, tão encantadora, atraente pela sua sombra fechada; é curioso ver nela, deixando desfiar sonolentamente as horas, os que fazem nas apropriadas cadeirinhas o reconfortante repouso. Vai esta rua dar aos bem engraçaditos quartos, sempre habitados por juventude que com as suas peripécias semi-carnavalescas, com a alegria própria da idade, animam o bairro.

Encontramos no mesmo plano a frondosa mata donde divisamos aspectos sublimes da serra. Dentre o casario que salpica a encosta, distingue-se uma pincelada que atrai a nossa atenção: é o bem conhecido consultório médico, sito à entrada da quinta e à beira da estrada.

Aquém da mata existe o campo de jogos, pequeno recinto onde a juventude se entretem por momentos jogando o ring e a bola.

Junto a este recinto existe o pátio das crianças contendo o baloiço inaugurado no tempo de D. Afonso Henriques; é ali que as robustas e encantadoras crianças passam parte do seu tempo.

Finalmente, subindo mais uns degraus, eis-nos no teminus da quinta onde estão sitas várias vivendas e a pequenina capela da Senhora da Saúde.

Contornando a quinta deparar-se-nos-iam vários quadros dignos de uma descrição minuciosa. Agora limito-me a um esboço de tintas leves.

Possam estas expressões pobrezinhas traduzir o que foi minha intenção e dar ao leitor a ideia do que possa ser a pitoresca e afamada por todo o Portugal “Quinta da Saúde”, onde tanta gente de espírito cansado ou de corpo débil procura robustecer-se.

Se ainda não haveis visitado esta Estância de Repouso, não a esqueçais; podeis incluí-la no vosso itinerário, certos de que ficareis com ela no coração.

 Guida

Na morte de Óscar Lopes

paginas_m_oscarlopes_Abordagem_ao_realismo_1966_clip_image001_0000Na recente morte de Óscar Lopes fui reler a sua obra Gramática simbólica do português (um esboço), edição do Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian, datada de 1971.

Para explicar a sua utilização de diagramas e símbolos na exploração global dos textos em Português, o autor diz:

A história das artes plásticas, sobretudo nas suas relações iniciais e recentes com a escrita, mostram bem que a percepção sensorial e o pensamento simbólico nunca existiram em separado” (…) “O mero aprendizado da fala dota uma criança com a mais complexa instrumentalização simbólica até hoje criada. Portanto o uso de diagramas e símbolos matemáticos não vem instaurar o pensamento simbólico; vem despegá-lo do espírito das crianças, na altura em que já é oportuno que elas vejam as palavras, as frases, os textos, como coisas de uma até então despercebida categoria: coisas com que, mentalmente, se agarram a outras coisas mais óbvias” (…) “Os meninos que chegam ao Ciclo Preparatório a ler monocordicamente e que na sua comunicação obedecem a um repertório muito limitado de entonações orais e até de gestos, ora inibidos ora exagerados – são meninos que ainda não colmataram o fosso existente entre a sua pobre, estereotipada, espontaneidade e as estruturas da linguagem lida ou escrita. Sentem o falar e o gesticular na activa, o ler e escrever na passiva, porque não amadureceram harmónica e diversificadamente todas as suas actividades como um todo

gramáticaMais adiante, o autor dá conta do que pensa ser a adequada intervenção do mestre neste contexto:

Pois bem: todo o esquema que o professor invente ou fomente para melhor consciência de um texto oral ou escrito segue os trâmites de uma lógica essencial que hoje se apreende em termos de topologia, cálculo de conjuntos e de relações. Se o professor de Português dominar esses termos que actualmente se apresentam como fundamentos do lógos humano, então desempenhará melhor o seu papel. O papel de um professor consiste fundamentalmente em reduzir toda a experiência humana a uma série ordenada de dificuldades crescentes que exercitem e, quanto antes, conduzam o aluno aos problemas do nosso (e, de preferência, e quanto possível) ao seu tempo

Analisada dialecticamente a situação da criança/aluno, Óscar Lopes considera depois que a formação específica do professor, conhecendo e dominando a moderna terminologia gramatical, pode contribuir para a resolução daquelas dificuldades linguísticas.

A abrir o capítulo Nomes e Conjuntos, o autor diz depois:

A linguagem corrente funciona de várias maneiras que interessam à lógica formal e à matemática. Assim, ao falarmos, relacionamos e afirmamos. Mas também designamos e classificamos e isto põe em jogo uma espécie de palavras de que vamos seguidamente ocupar-nos: os nomes

oscar1Eis todo um programa esboçado, nesta desejada interligação da nomenclatura gramatical com a lógica (filosófica) e com a matemática. Acrescente-se que, sendo a obra o resultado dum estudo realizado no então actual (e recentíssimo) Ciclo Preparatório, entre 1968 e 1971, com experiências de coordenação entre as disciplinas de Língua Materna e de Matemática, tinha acabado de ser aqui inserida a novidade denominada de moderna, com a introdução da teoria dos conjuntos

Após duas centenas e meia de páginas, carregadas de esquemas e de notações matemáticas, novas terminologias e silogismos q. b., Óscar Lopes resume o seu trabalho:

Baseado em experiências didácticas, já realizadas, de coordenação entre as disciplinas de Língua Materna e de Matemática ao nível dos 10-12 anos, o trabalho presente destina-se a sugerir mais amplas perspectivas de uma tal coordenação em todo o ensino primário e secundário. Eis o sumário das principais teses:

1 – Um razoável domínio das chamadas matemáticas modernas permitiria ao professor da língua-mãe a utilização oportuna de diagramas, símbolos e outros meios que, logo em fase incipiente, ajudariam a amadurecer a capacidade analítico-sintética infantil de criatividade linguística; (…)

Seguem-se outros cinco pontos onde se aponta uma nova lógica de arrumação (ou classificação) morfológica e sintáctica da gramática portuguesa, denominada simbólica…

Muito significativamente, de forma honrada e até modesta, o autor confessara nas Palavras Liminares, introdutórias:

Faltar-nos-ia coragem de publicar este trabalho se a isso nos não sentíssemos obrigados, para prestar algumas contas acerca das oportunidades de estudo e de experiência proporcionadas duante estes últimos anos. Apesar de um grande esforço, que saltará à vista da simples comparação entre este livro e outras publicações precedentes, que ainda nalguns pontos o completam, e da bibliografia efectivamente utilizada que se menciona, haveria muito mais a fazer

A edição que possuo -agora relida- é a primeira. Sei que outras, naturalmente posteriores, corrigiram e completaram algumas das assumidas falhas originais.

tlebs nãoEm qualquer dos casos, e salvaguardando todo o respeito pelo notável trabalho desse mestre incontestável das Letras que foi Óscar Lopes, acho que ele não merecia a perversa e envenenada “homenagem” que lhe foi prestada ao estreitamente ter sido associado -devido a esta sua obra- à famigerada TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), sobretudo na componente semântica, lexical e frásica, que a “adornou”…

Como se sabe, introduzida esta novidade (como “experiência pedagógica”) no sistema nacional de ensino em 2004/5, foi desde logo alvo de uma generalizada contestação, apoiada numa bem fundamentada crítica, de tal modo justa e oportuna, que levou à sua suspensão em 2007, para “revisão“. Adiada sine die

Óscar Lopes pretendeu conceder à nossa gramática uma organização formal apta a constituir uma ferramenta didáctica mais eficaz em termos de compreensão e apreensão linguística por parte dos alunos e também como mais um instrumento fornecido, em tal contexto, aos professores. Chamou-lhe esboço e apresentou-a como sugestão. Respeitou a Língua e dignificou-a.

Nada comparável, portanto, com os “eruditos” que estropiaram esta mesma Língua, em nome da sua defesa e melhoria, como os modernos paladinos do Acordo Ortográfico.

 

14764604_GqLozÓscar (Luso de Freitas) Lopes  (1917-2013) foi um lutador pelos seus ideais, cívicos e culturais. Sofreu por eles e manteve sempre uma notável coerência. A sua obra e a sua carreira, apesar de prejudicadas pela repressão, conseguiram ultrapassar todas as dificuldades e impor-se com rara qualidade. A bibliografia que nos lega é um sinal da invulgar afirmação cultural e científica de um homem sensível, apaixonado, realista e corajoso.

A morte de Óscar Lopes representa uma perda nacional e a sua memória deve ser respeitada.

 António Martinó de Azevedo Coutinho